Vainglory
11 Capítulo 11
Notas iniciais
socorro
so.cor.ro
(ô)sm (derregressiva desocorrer)1. Ação ou efeito de socorrer; ajuda, auxílio; apoio, valimento; assistência com o fim de favorecer; proteção, recurso, remédio;2. O que se dá para auxiliar ou socorrer alguém;3.Esmola.
O caos havia se estabelecido em Casa do Tridente; os servos e escravos choravam, rezavam e lamentavam pela bela dama que já havia sido considerada morta, os nobres e convidados de honra do local oravam antigas cantigas de proteção à alma da moça cujo paradeiro ainda estava misterioso... Mas é claro, ninguém sofria como o próprio chefe da Casa, Perseu. O homem conhecido em todo reino por ser forte, poderoso, gentil, amoroso e belo havia se inundado numa mágoa tão grande que as escravas mal conseguiam fazê-lo jantar ou almoçar. Só comparecia às reuniões políticas, pois sabia que tinha uma obrigação para com sua Casa e o povo de todo o reino, já que as eleições estavam próximas; em seu pequeno tempo livre, ocupava-se por mandar exércitos e mais exércitos vasculharem todo o reino em busca de sua esposa, porém, parte dele já começava a sucumbir-se ao pior: Annabeth havia mesmo morrido, como diziam os especialistas em perícia, apesar de que uma pequena parte de si mesmo se recusava acreditar em tamanha tragédia. Era como se o forte laço de amor que ele compartilhava com a esposa ainda estivesse forte e pulsante, e ele sabia que poderia muito bem estar em estado de negação, mas a sensação de calmaria dentro de si algumas poucas vezes era inevitável.
Sabia que, estando viva ou morta, Annabeth gostaria que ele passasse tempo e cuidasse do pequeno Zachary; desde que o menino nascera Annabeth nunca quis que ele fosse alimentado ou distraído por servos; a moça fazia questão de amamentá-lo, niná-lo para que dormisse e leva-lo em seu colo por longos passeios ao redor do jardim para que ele pegasse um pouco de sol, e, portanto, Perseu fazia exatamente o mesmo. Quando ouvia os choros vindos do quarto do filho, ele ia até lá ele mesmo, alimentá-lo com a mamadeira ou trocá-lo; em seus momentos livres e de paz de espírito, ele botava o filho no colo e andava pacientemente pelos jardins belos de Casa do Tridente. Mesmo quando Zachary estava quieto, Perseu o colocava no berço e botava-se a observá-lo. Aliás, era uma das únicas vezes que sorria: quando o pequeno esticava os bracinhos, como sempre tentando agarrar os planetas de seu móbile que pairava em cima do berço. Já fazia três meses que Annabeth havia desaparecido, portanto, Zachary havia completado quatro meses de idade. A cada dia, Perseu botava a encarar o filho, desesperadamente procurando por algum sinal que o lembrasse de Annabeth. Malditos fossem os genes, e que Zachary nascera uma cópia idêntica dele. Ele esperava que, pelo menos, o seu gênio e compaixão fossem semelhantes ao da mãe. Quem sabe, se ela estivesse mesmo morta, seria mais fácil suportar sua perda dessa forma.
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A ferida de Annabeth só sarou três meses após ter sido resgatada pelos sátiros.
Ela passava os dias chorando, pedindo pelo marido e pelo filho, debatendo-se na cama simples feita de palha enquanto os sátiros enfiavam colheres de prata em sua boca, dando-lhe remédios para desmaia-la mais uma vez. Só quando começara a ganhar a consciência de uma mulher forte novamente ganhou o respeito das criaturas mágicas. Até fizera amizade com uma, Lynn, o nome dela. Parecia-se muito com Grover, seu salvador: pele mulata, cabelos escuros, olhos cor de mel e pernas e cascos de bode. Em seu tempo livre, Lynn lia para ela os contos do Ocidente enquanto os outros sátiros aplicavam os medicamentos necessários para remendar o osso quebrado no meio de seus seios, e, quando Annabeth pedia, Lynn até lavava seus longos cachos dourados. Pelo que percebera em seus três meses de estadia, Annabeth se encontrava numa enfermaria. Os doentes ao seu lado eram sempre sátiros, e eles chegavam e saíam antes dela, sempre. Aparentemente, segundo Lynn, sátiros e criaturas mágicas se curavam mais rápido, e Annabeth sabia disso. Afinal, ela era a mulher mais sábia de sua idade, apenas dezoito anos, e mesmo assim, tinha a impressão de que nunca conseguiria sair dali.
O milagre veio alguns dias após a cura permanente do corte.
Grover aproximou-se do leito de Annabeth e ela surpreendeu-se o quanto alto ele era, já havia algum tempo que ela não o via.
- Senhorita Annabeth. – Ele cumprimentou, sentando-se na cadeira geralmente ocupada por Lynn ao seu lado.
Por alguns segundos, o local foi tomado por silêncio; o único barulho era do farfalhar das árvores do lado de fora do estabelecimento, que era, certamente, uma enfermaria da vila que aqueles sátiros povoavam.
- Quando é que eu vou poder ir embora? – Annabeth questionou, não esperando uma resposta. Eles sempre a ignoravam quando ela fazia tamanha pergunta. Desta vez, porém, Grover sorriu, um sorriso bonito, aberto, jovial, e acariciou uma das mãos de Annabeth.
- Não agora, Senhorita Annabeth. – Grover respondeu. – Muito perigoso. Não era só a moça que queria matá-la, senhorita. Existem outros, dentro de Casa do Tridente, mais perigosos que ela...
- Luke. – O nome deslizou facilmente da boca de Annabeth facilmente. Depois dos três meses decorrentes, não mais sentia raiva ou tristeza ao pensar em seu nome; sentia-se dormente, desprotegida, mas apenas dormente.
- Sim, senhorita. – Grover fez que sim, contudo, Annabeth não fazia ideia de onde as criaturas mágicas conheciam o chefe de Casa do Elmo. Sempre pensara que todos os seres místicos estavam acima de questões políticas e até mesmo sociais dos humanos, mas resolveu ficar calada. Havia coisas mais importantes a se discutir do que sua própria sanidade agora.
- Mas... – Annabeth conseguiu protestar, sentindo um nó se formando em sua garganta. – Meu marido... Percy... O que será dele sem mim? Eu preciso retornar, por favor... – Ela implorou com os olhos, não podia fazer força ou o remendo do osso ia quebrar-se. — E meu filho! – ela soltou um suspiro de mágoa, o nó em sua garganta enfim se manifestando em lágrimas desesperadas que caíam de suas bochechas. Já fazia tanto tempo que ela não chorava por Percy ou por Zachary, e segurar toda a dor apenas piorou. – P-Por favor... – Ela gaguejou, vendo rastros de piedade nos olhos escuros de Grover.
Por um momento, Grover pareceu ponderar em sua mente se deveria sucumbir-se aos choros da belíssima Annabeth, frágil e obviamente desesperada em sua frente. Engoliu em seco, suspirando e fechando os olhos.
- Senhorita Annabeth, eu... – Grover murmurou. – Não é só a senhorita quem corre perigo. Ambos seu marido e seu filho correm o mesmo risco de vida que você vivendo em Casa do Tridente. – ele suspirou, perguntando-se como ele conseguiria contar todos os fatos que giravam em volta do assunto que envolvia ela, e consequentemente, o reino todo. Porém, ao ver mais uma vez o olhar triste e desesperado da moça, desistiu, cuspindo as palavras para fora sem mais delongas. – Seu marido, como a senhorita sabe, corre pela disputa ao poder e ao direito de ser rei, já que, como foi dito ao povo e às autoridades, o Rei Charles Primeiro morreu.
Annabeth franziu o cenho, mas fez que sim, pedindo para que ele prosseguisse sem dizer nenhuma palavra. Algo por trás do discurso de Grover parecia a ela muito bem ensaiado e um tanto suspeito, mas um de seus muitos talentos era ser um detector de mentiras ambulante, portanto, sabia que o sátiro falava a verdade, pelo menos até então.
- A verdade, por mais perturbadora que seja, Senhorita Annabeth, é que o Rei Charles está vivo. Não faleceu de uma doença inesperada como disseram que ele o fez. O moço permanece em carne e osso, escondido, mas permanece saudável e enraivado ao saber que um ministro mesquinho das terras do oriente humano pensa que tem o direito de tirar sua coroa dele. – Grover explicou, e vendo a surpresa e confusão nos olhos de Annabeth, logo se justificou. – Não sabemos onde ele está, Senhorita Annabeth, quero dizer, não sabemos sua exata posição. Alguns unicórnios das terras do norte nos comunicaram que ele está provavelmente ao sul, mas de uma coisa temos certeza, o jovem está aprisionado, o que nos leva a uma simples conclusão: um dos concorrentes ao trono mandou que assim fosse feito. Não é fácil compreender porque não mandaram mata-lo, mas presumo que seja lá quem for, teve seus motivos. Agora, Senhorita Annabeth, pense bem... Isso parece obra de Luke Castellan para você?
A moça tentou processar muito bem as informações, seu coração batendo forte debaixo do osso remendado sobre a pele do meio de seus seios. Seja lá quem fosse que teria sequestrado e aprisionado o Rei teria de ter recursos e muito dinheiro, ou se não todo o reino já saberia que o seu amado rei havia sido cruelmente raptado, portanto, Annabeth sabia muito bem quem não havia realizado o assalto.
- Luke não sequestrou o rei. – ela falou calmamente. – Ele tem sede de sangue, sempre teve, desde menino... Entre aprisionar pequenos animais e mata-los, ele sempre recorria diretamente à faca. Conheço Luke... – Disse amargamente, com lágrimas se acumulando em seus olhos. – Ele não sequestrou Charles Beckendorf, se você tem tanta certeza de que ele está vivo.
Grover fez que sim, mordendo seu lábio inferior e servindo-se de um pouco de água do copo e da jarra que havia na pequena mesa ao lado do leito de Annabeth. Depois de tomar longos goles, falou.
- Só nos resta os outros dois. – falou amargamente. – Nico e Tyson.
Annabeth engoliu em seco, pois em seu íntimo acreditava que nem Nico nem Tyson conseguiriam promover tamanho ato para prender o pobre rei seja lá aonde fosse. Obviamente os dois desejavam o poder tanto quanto Percy, mas sua intuição apenas falava mais alto: Nico, apesar de ser dono dos exércitos, era um homem humilde e honesto, conhecido por sempre pagar seus servos em dia e nunca receber nenhuma crítica com relação a excessos de violência. Tyson, por sua vez, então?! Era um doce em pessoa, Annabeth e todos em Casa do Tridente e ao redor do reino sabiam. O homem enorme de um olho só, nascido em terras distantes, se importava muito com o povo e com o conhecimento, e mais uma vez a intuição de Annabeth lhe dizia que não era ele quem havia cometido tamanha fraude contra o reinado longo e próspero dos Beckendorf.
- P-Porque me contou isso? – Annabeth gaguejou para Grover, com medo da resposta que poderia ganhar.
- Porque a menos que resgatemos o Rei Charles, Perseu Jackson Terceiro, o seu marido, será rei em dentro de alguns meses. – Grover respondeu calmamente. – E sabe o que isso significaria para você, para seu marido, para o seu filho e os outros herdeiros que você gerasse, senhorita? Vocês correriam ainda mais perigo. Seja lá quem sequestrou o Rei Charles, vai continuar desejando o trono depois que seu marido o assumisse. Cedo ou tarde, você, seu filho, e Perseu seriam brutalmente assassinados, mutilados, ou vendidos por escravos. Perdoe-me se estou sendo rude, senhorita, mas tento expô-la a mais crua verdade.
A moça engoliu em seco, mas fez que sim. O sátiro estava certo, ela sentia em seu íntimo, mas ainda não sabia por que ela teria que viver ali entre criaturas mágicas quando seu marido e filho corriam perigo.
- Chegamos então ao nosso objetivo final, senhorita. – Grover falou. – Com suas habilidades planas e extremas em estratégia, montaremos um pequeno time de resgate no ocidente e procuraremos pelo Rei Charles, já que sua localização é parcialmente conhecida. Só então, e somente então, quando o protegido estiver são e salvo em seu castelo e o reino estiver em festa, a senhorita poderá retornar para Casa do Tridente, e para os braços de seu marido e o amor de seu filho.
- E se eu não quiser ajuda-lo?! – Annabeth protestou, franzindo o cenho, indignada. Se uma trupe de sátiros pensava que teriam o direito de obriga-la a montar um plano para resgatar o suposto rei vivo, mantendo-a longe de casa, de seu marido, seus servos, seu súditos e seu filho, estavam muitíssimo enganados.
- Se não quiser nos ajudar, senhorita Annabeth, é simples. – Grover falou numa voz baixa, olhando-a com aqueles olhos escuros de jabuticaba. – Estará entregando a cabeça de Perseu e de seu filho numa bandeja para a concorrência, e em dentro de alguns meses, você estará chorando, sozinha de luto no mundo e implorando por clemência.
A jovem ponderou por alguns minutos, a imagem de Perseu e Zachary sendo brutalmente assassinados enchendo seu corpo de calafrios de medo; por mais que detestasse confessar, ela sabia que Grover estava certo: por mais que Luke não estivesse por trás do sequestro de Charles, uma vez que ela voltasse para Casa do Tridente e que seu Percy assumisse o trono, vários outros assassinos sedentos de poder não demorariam a tirar mais uma vez toda sua felicidade, assim, num piscar de olhos.
- Posso ao menos mandar uma carta ao meu marido? – ela perguntou inocentemente. Se pelo menos avisasse Percy de que ela estava viva – e ela tinha certeza de que ele reconheceria sua caligrafia – ele ficaria menos preocupado e sairia da tristeza profunda que ela sabia que ele passava naquele momento.
- Não. – Grover disse, firme, e imediatamente. – Se mandasse uma carta ao seu marido, ele ficaria louco de paixão, cego pela felicidade, e imediatamente distrair-se-ia em usar todas as suas forças para encontra-la não importa o que a carta dissesse. Então assim estaria mais vulnerável aos seus inimigos. Acabaria morto ou preso da mesma maneira. Sinto muito, senhorita. Prometo que, quanto mais rápido trabalharmos, mais cedo retornará.
Annabeth detestava concordar, mas sabia que mais uma vez, o sátiro estava certo. Ela própria ainda estava cega de amor, e sabia que, para concluir a missão perfeitamente, teria que voltar a ser a adolescente mimada e sábia que um dia fora, completamente presa ao intelecto, e não ao sentimento, e só assim, voltaria para Casa do Tridente, aonde era seu lugar.
- Muito bem. – Ela fez que sim, rodando a aliança dourada de casamento no dedo anelar, hábito que adquirira quando estava prestes a tomar uma importante decisão. – Quando começamos?
Notas finais
E aí, mereço reviews? Comida de hamster? Sorvete?
Beijos!
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