Vainglory

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Oie! Adoro esse capítulo, então aproveitem! :-)

plebeu
ple.beu
adj (lat plebeiu)1. Pertencente ou relativo à plebe; 2. Que não faz parte da nobreza; 3. Destituído de distinção; ordinário, vulgar.sm Indivíduo da plebe.Feminino: plebeia. Antônimo: nobre.

O som de um choro baixo, porém persistente, surgiu do lado da cama da moça, que se levantou, grogue. Ao seu lado esquerdo, dormia sua velha mãe, os cabelos grisalhos bagunçados contra o travesseiro, grogue; por alguns segundos, Silena temeu que as reclamações de Peter fossem acordar a senhora, mas ela continuou roncando. A morena suspirou em alívio, levantando-se e indo em direção ao pequeno e precário berço de madeira clara. Pegou o bebê, rapidamente se dirigindo com o filho até a sala aonde acendeu os lampiões para iluminá-lo.

Segurou sua respiração com o que viu.

O pus nos olhos do menino já estava tão amarelado e espesso que Silena sabia que chamar o médico seria apenas uma formalidade. Posicionou o bebê sobre o colo enquanto sentou-se no chão de barro, usando a barra de sua camisola de dormir velha – que usava desde que tinha catorze anos – limpou a sujeira dos olhos de Peter, muito gentilmente, mas o bebê urrou em dor e incômodo. Silena, desesperada, cobriu a boca do menino com a mão; no vilarejo onde moravam, barulhos como latidos de cachorro e sons de bebês tinham como punição o assassinato do respectivo cão ou criança, e ela preferia ver o próprio couro cabeludo do que enxergar homens vis e pecadores assassinando seu pobre filho, que agora, além de tudo, estava cego.

Desde que havia fugido e deixado Annabeth e Casa do Tridente para trás, Silena sabia que Luke um dia procuraria por ela, apesar de que, segundo suas fontes, ele estava mais preocupado em engravidar a prostituta que tinha como prisioneira; de uma forma ou outra, a moça sabia que nunca teria dinheiro ou os remédios que Peter precisava para voltar a enxergar. Se um dia fosse provado que ele fora mesmo filho de Charles, ela sabia que os servos e médicos reais arrumariam facilmente o medicamento, mas até então, ele cresceria sem ver a beleza e a dor do mundo em sua volta. Por outro lado, Silena sofria ao pensar que era praticamente impossível provar que Peter era filho do falecido rei; primeiramente, porque o tal falecido rei estava morto, e também, ninguém acreditaria numa fajuta moça pobre, afinal, aos olhos dos nobres, Charles nunca se rebaixaria a ponto de amar e ter um breve caso com uma de suas criadas, não importava o quão idêntico ao pai Peter fosse, ela não conseguia se lembrar de uma pessoa que pudesse ajuda-la a provar o impossível.

Depois de alguns minutos, Peter parou de chorar. Silena não sabia dizer se seus olhos estavam fechados ou não devido ao pus, mas de qualquer forma, foi rápida em colocar o pequeno de volta ao berço, dando-lhe um longo beijo na testa e agarrando o melhor vestido que tinha, um marrom feito por sua mãe também há anos atrás, depois enfiando o braço debaixo da cama e puxando de lá a caixa de música vermelha de rubis e pedras preciosas que Luke havia entregado a ela, enfiando-a dentro do vestido apertado para proteger-se de furtos. Despediu-se da mãe com um beijo na bochecha, correndo para que ela não acordasse. Subiu no cavalo que havia roubado de Casa do Tridente (agora pintado de manchas de branco, para não atrair muita atenção, já que procuravam pelo corcel), e trotou.

Ia atrás de sua última esperança, ela, e a caixa de música debaixo do braço.

~~~

Incomum era o fato de que Thalia havia se levantado tarde; geralmente, seu relógio biológico pontual a fazia levantar ao redor das cinco da manhã quase todos os dias, portanto, quando a moça se levantou às nove da manhã num dia normal de trabalho, recebeu um olhar sujo do dono do bar aonde trabalhava desde que havia fugido das mãos sujas de Luke Castellan em Casa do Tridente. Não vivia sobre as melhores condições, mas ela agradecia por ter conseguido um teto sobre o qual dormir, ainda que qualquer canto cheirasse a vomito e sexo, ela não podia reclamar: Rob, o dono do boteco, era simpático e a única coisa que pedia a ela era trabalhar de garçonete. Há semanas atrás, quando fugiu de Casa do Tridente, Thalia havia encontrado Silena na floresta, e as duas trocaram uma conversa simpatizante; aliás, fora Silena quem havia a ajudado a encontrar o emprego no boteco, e desde então, as duas de vez em quando se visitavam, apesar de que Thalia evitava ir até a pequena casa aonde Silena vivia, já que sempre que via Peter, o bebê, com os olhos lotados de doença, ela se nauseava e seu coração se enchia de pena por Silena, que agora havia virado uma amiga, coisa que Thalia nunca havia tido, pelo menos não incondicionalmente.

Levantou-se, esfregando os olhos nas mãos e rapidamente escondendo-se atrás do sofá empoeirado onde dormia desde que havia chegado e trocando de roupa para o seu uniforme. Confiava em Rob, mas não o suficiente para deixa-lo ver seu corpo seminu. Depois de pronta, como costume, enrolou o longuíssimo cabelo – que agora chegava até a parte de trás de suas cochas e saiu em direção até a parte de dentro do bar, servindo o bacon e ovos com café para os poucos trabalhadores que tomavam café da manhã ali, porém, sabia muito bem que qualquer dinheiro era bem vindo. Quando ela levava as moedas de pagamento para Rob, ele mordia duas com os dentes sujos e lhe entregava uma de gorjeta.

O resto do dia fluiu normalmente, e quando finalmente estava se esticando por trás do balcão do bar, preparando-se para dirigir-se aos aposentos de trás do local aonde dormia ao lado de Rob no sofá, sentiu um cutucão no seu ombro e virando-se para trás.

- Tem gente te procurando lá fora. – Rob murmurou e apontou para a saída. — Quando voltar, lave os pratos.

Thalia revirou os olhos, mas fez que sim, imaginando quem poderia ser na porta do boteco, fungou e apertou o casaco de lã contra seus ombros, franzindo o cenho para enxergar pela luz dos lampiões. Pulou um pouco quando Silena surgiu das sombras, segurando uma caixa de música vermelha enfeitada de rubis nas mãos.

- Não temos muito tempo – Silena sussurrou, puxando Thalia para perto. – Preciso de sua ajuda.

~~~

Logo depois que Annabeth saíra da cama, uma semana após que a notícia sobre o rei fora lhe informada, ela, Grover e os outros corajosos sátiros e ninfas botaram-se em ação: os mais fortes construíram ferramentas que pudessem precisar, e ela e os mais intelectuais, por sua vez, traçaram um mapa com a localização aproximada e suspeita do rei Charles para que fosse mais fácil chegar até lá. Era diferente, e estranho, conversar e compartilhar interesses com os sátiros e comer sopa rala de legumes todas as noites, quando chorava, sentindo falta do marido e do filho, abraçando-se ao travesseiro do vilarejo dos sátiros, tão, mais tão longe de casa que doía. Sabia, que, no entanto, estava fazendo tudo aquilo pelos dois, e que, se dessem sorte, em uma questão de meses, estariam reunidos novamente. Rezava para os deuses que protegessem Zachary, que sempre fora abençoado por Eles, e que Percy tivesse força naqueles tempos difíceis, já que pouco sabia que ela ainda estava viva, e esperando por ele.

Numa das noites, contudo, o sentimento de dor e amor por Percy e Zachary foi forte demais. Levantou-se da cama silenciosamente, acendeu três lampiões para iluminar o quarto aonde dormia sozinha e debruçou-se sobre a janela aberta, aonde o vento da noite bateu em suas bochechas, espantando as lágrimas. Com o braço trêmulo, ela agarrou uma das folhas do galho da árvore alta que crescia até a janela, arrancando-a; o tamanho era perfeito, tão grande quanto um papel. Por fim, ainda chorosa, sentou-se à pequena mesinha de mesa de madeira de cerejeira e abriu a única gaveta, tirando de lá uma pequena faca que Grover havia dado à ela para proteção, caso precisasse ou mesmo quisesse se garantir, apesar de que o sátiro havia garantido que a comunidade deles era honesta.

Annabeth segurou a pequena faca cuidadosamente, fechando os olhos e tentando-se não se lembrar de quando Silena usou o punhal para quase mata-la. Fez um corte pequeno em seu pulso, fazendo uma pequena poça de sangue acumular-se. Por fim, agarrou a pena de escrever velha de dentro da mesma gaveta e molhou sua ponta no sangue, usando-o como tinta para escrever na folha de árvore grande e pálida com certa dificuldade para que ela não se rasgasse e para que as palavras de sangue ficassem nítidas. Só havia tomado medidas tão extremas para enviar uma carta a Percy, pois sabia que Grover nunca iria permitir que ela usasse papel e tinta, por motivos que Annabeth sabia que eram plausíveis, mas entendia as consequências de enviar uma carta ao marido. Não se importava. Sabia que ele deveria estar sofrendo, e não conseguiria nem dormir durante a noite com o espaço vazio da cama ao seu lado. Por outro lado, ela e os sátiros partiriam em regate ao rei perdido no dia seguinte e ela sabia que era sua única chance.

PERCY,

ANTES QUE DESCONFIE, SOU EU, ANNABETH. NÃO TENHO TEMPO PARA EXPLICAR OU REDIGIR MUITO, MAS QUERO QUE SAIBA QUE ESTOU A SALVO, E ESTOU BEM. NÃO PROCURE MAIS POR MIM. VOLTAREI QUANDO FOR TEMPO.

CUIDE DE ZACHARY

EU AMO VOCÊ

Com um soluço alto, enrolou a folha cuidadosamente e debruçou-se novamente contra o parapeito da janela, imitando o barulho do gavião marrom que entregava as cartas dos sátiros. O bicho logo pousou ao seu lado, e com as mãos trêmulas, Annabeth posicionou a carta no bico do pássaro, que o agarrou.

- Casa do Tridente. – Ela sussurrou para a ave, que levantou voo.

Notas finais
Olá meninas!
Sei que não foi muito longo, mas eu adoro mesmo esse capítulo. Espero que vocês tenham gostado.
Só peço que por favor deixem um review!!!!
PS. Semana que vem estarei postando uma one-shot. Gostaria muito que ficassem de olho e lessem. É Percabeth, claro, e tenho certeza que vocês vão gostar.