Vainglory
10 Capítulo 10
Notas iniciais
intrínseco
in.trín.se.co
adj (lat intrinsecu)1. Que está no interior de uma coisa e lhe é próprio ou essencial; 2. Diz-se do valor que os objetos possuem independente de qualquer convenção;3. Íntimo, inerente.
Silena tremia enquanto segurava o vidro e lágrimas caíam de seus olhos; ela e Annabeth tinham exatamente a mesma reação, as duas apavoradas, porém decididas em proteger suas determinadas causas. O corpo esguio da moça loira ainda colocava-se na frente do berço dourado de Zachary, e suas mãos brancas tremiam enquanto a cor fora drenada completamente de seu rosto belo; a serva, por sua vez, lutava para que o vidro do veneno da Flor Púrpura não escorregasse de suas mãos trêmulas, pois qualquer barulho àquela hora da madrugada chamaria muita atenção, e uma vez que os guardas ou até mesmo o próprio Perseu descobrisse suas intenções, ela seria torturada e queimada como uma verdadeira bruxa.
- O quê você quer? – Annabeth perguntou já desesperada e sem recurso algum. – Eu te dou qualquer coisa. Sabe que meu marido tem dinheiro, ah sabe sim, então peça. Eu te dou qualquer coisa. – repetiu. – Só não mate meu filho... Ele não tem culpa de nada... É apenas um bebê...
A visão de Annabeth chorando com soluços baixos e o som de suas palavras agoniadas fez com que Silena agisse de forma impensada. Era verdade, Perseu Jackson era rico, riquíssimo, só não era mais rico do que o próprio rei fora, mas sabia que uma vez que Luke percebesse que o plano dos dois fora sabotado, ele a mataria antes que Annabeth tivesse tempo de comprar os remédios para Peter. Sabia que o próprio Luke havia demorado quase um ano para conseguir as substâncias, portanto, para que o plano continuasse e terminasse naquela madrugada, Silena teria que mudar o curso dos acontecimentos: Levaria Annabeth até a floresta agora mesmo, a mataria, arrancaria seu coração, e então finalmente quando não houvesse mais a moça linda em sua frente protegendo o pequeno herdeiro, ela o silenciaria com o veneno.
- Não quero nada, nada que o dinheiro possa comprar. – Silena disse fria, finalmente, balançando a cabeça. – Se quer que o pequeno viva, ande até aqui e venha comigo.
Annabeth estava muito assustada e temia muito pela vida do filho para questionar; antes de obedecer as ordens de Silena, virou-se para o berço, encarando o filho com amor e tentando engolir as lágrimas para que não o molhasse com a mágoa de mãe. Beijou mais uma vez a bochecha fofa do filho, admirando a sua criação com Perseu pelo que pareceram anos, levando uma das mãos trêmulas e pálidas para acariciar o cabelo preto, fino e macio da criança. Sabia que era provável que sua morte estivesse próxima, mas sabia que Zachary seria bem cuidado quando ela morresse, porém, de qualquer forma, sabia como era crescer sem mãe e temia pelo ser que mais amava no mundo inteiro, que ela própria havia carregado e só havia tido o prazer de conviver com o anjinho por apenas um mês.
- Tchau, Zach. – ela sussurrou, beijando sua bochecha macia novamente. – Mamãe te ama, mamãe te ama muito... Seja forte pra mim, promete? – Enfiou gentilmente seu dedo indicador dentro da mãozinha fechada do bebê e sentiu o familiar aperto nela, chorando ainda mais quando percebeu que seria a última vez que o sentiria. – Papai vai cuidar de você, eu sei que ele vai. – Fungou, agora pensando em como Percy ficaria deprimido e engolfado de tristeza, mas no fundo, sabia mesmo que o homem amava Zachary tanto quanto ela e que nunca o negligenciaria mesmo depois de ter a perdido. – Fique bem, meu pequeno... Não chore, está bem? N—Não chore, fique bem quietinho... – ela sussurrou, sabendo que se o bebê chorasse e chamasse a atenção, Silena poderia fazer um movimento em brusco e matá-lo para que se silenciasse; relutante, a jovem mãe afastou-se do berço, ciente de que nunca mais veria o filho em vida, e se os deuses fossem bondosos, quem sabe ela poderia vê-lo crescer dos Campos Elíseos.*
Assim que se aproximou de Silena, a moça que um dia fora sua melhor criada usou uma de suas mãos secas do serviço para tampar-lhe a boca, arrastando-a com ela pela saída dos funcionários aonde não se encontrava nenhum guarda. Enfim, Annabeth, com as pernas trêmulas, encontrou-se sobre a luz do luar nos fundos da Casa do Tridente, respirando o ar puro da madrugada e sendo arrastada violenta, mas silenciosamente até o estábulo. Assim como era de costume, Noah, o garoto que cuidava dos cavalos, dormia preguiçosamente no topo de um monte de feno, e Silena era tão silenciosa que poderia ser facilmente comparada a uma ágil raposa, portanto, o menino não acordou, para o pânico e desgosto de Annabeth, mas para o sucesso de Silena. A jovem Annabeth ainda tentava processar o que acontecia, e porque Silena queria matá-la, e ao seu pobre Zachary também; se sentia tão fraca, frágil, e principalmente, inútil e magoada porque nunca teria uma chance de beijar os lábios macios de Percy uma última vez. Desejava que ele surgisse de repente, salvando-a como o verdadeiro cavalheiro que era, mas sabia que isso não aconteceria. Mandou-lhe uma prece mental e silenciosa, acordada de seus pensamentos pelo barulho das correias do cavalo que Silena escolhera usar, um mustangue marrom-terra de crina e rabo pretos que Annabeth sabia que um dia pertencera ao pai de Percy. Não sabia de onde Silena achara que tinha a dignidade de usar o cavalo do homem que fizera Casa do Tridente crescer para levar a esposa de seu atual governante para só os deuses sabiam aonde, mas não estava em posição de discussão. Silenciosamente, subiu na carona do cavalo e segurou-se na cela para não cair, recusando-se a botar um dedo em Silena, ainda mais já que suas mãos estavam amarradas por um pedaço de corda grossa.
Não demorou muito para que enfim chegassem até a densa floresta nos arredores de Casa do Tridente. Lá os criados da casa costumavam caçar por porcos selvagens ou bodes das montanhas para que os luxuosos almoços e jantares do castelo fossem preparados. Todos, portanto, sabiam que era uma tarefa e tanto aventurar-se para lá das árvores: muitas vezes os caçadores desapareciam e nunca mais voltavam devido à grande quantidade de lobos que habitavam as cavernas e tocas florestais. Os brutais cachorros estraçalhavam quaisquer humanos que estivesse no lugar errado e na hora errada, e por isso Silena sabia que tinha de se apressar em sua tarefa. Cavalgou pelos bosques; o sol já aparecia de fininho no horizonte, então sabia que não tinha muito tempo. Parou quando atingiu o meio da floresta de pinheiros, tirando Annabeth da carona com suas mãos ainda trêmulas e jogando-a ao chão perto de uma árvore. Surpreendentemente, a moça de cachos loiros já havia parado de chorar havia um tempo; seus olhos cinza e belos estavam apenas cansados. Silena sentia-se culpada, mais uma vez, por tirar do mundo a dama mais bela e sábia que o reino já havia visto, e também, a mais gentil e amorosa esposa, e a mais dedicada mãe para um bebê que nem havia completado quatro semanas de vida.
Apressando-se, Silena pegou a caixa de música de dentro de um dos compartimentos internos do casaco pesado de pele que usava, colocando-a do lado do corpo magro de Annabeth. A loira arregalou os olhos, surpresa quando reconheceu a caixa e a melodia que saía dela uma vez que Silena tirou o pequeno e afiado punhal de dentro dela.
- Luke? – Annabeth perguntou em um mero sussurro.
Silena apenas fez que sim. Achava que ao menos Annabeth merecia saber quem estava por trás de tudo aquilo, não que o fato de que Luke era o senhor dos fantoches da história mudasse o fato de que Silena apodreceria no Mundo Inferior.
Com mãos hábeis, a serva retirou o robe de seda de Annabeth e desabotoou o espartilho branco simples que usava para dormir, revelando os seios antes pequenos agora um pouco inchados de leite e o osso protuberante no meio deles: o externo. Silena arrancou o pedaço de pano de dentro do casaco, umedecendo o vale entre os seios de Annabeth, aonde o coração da moça batia, com uma substância verde e de cheiro azedo, que era conhecida por seus poderes de anestésico, apesar de que as duas moças sabiam que, uma vez que a lâmina perfurasse os nervos da pele de Annabeth, tudo voltaria a doer de forma excruciante. Quando terminou, Silena torceu o pano em uma grande bola de tecido, enfiando-o dentro da boca de Annabeth para abafar seus gritos. A loira chorou novamente, silenciosa e amarga ao sentir o terrível gosto do anestésico na língua. Perguntava-se o que seria de Percy, o que seria de Zachary, e de até mesmo seu velho pai Frederick em Casa da Coruja. Todos ficariam arrasados, sabia, e se sentia ainda mais culpada. Talvez se houvesse observado os sinais mais cedo... Quem sabe todos que amasse não estariam submetidos a uma dor no coração repleta de saudade todas as vezes que pensassem nela. O anestésico do pano grotescamente colocado em sua boca fez efeito, e logo ela parou de chorar, sentindo a língua e o céu da boca dormentes. Ela não temia a dor insuportável que estava prestes a sentir, contudo, gostaria de poder encontrar uma maneira de relaxar. Fechou os olhos então, como se preparasse de bom grado ao sono eterno quando a lâmina fez contato com o seu osso externo, quebrando-o em dois.
Só então foi que ouviu a corneta de som ofuscado, porém vasto, sendo assoprada das terras dos selvagens do ocidente.
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- Mas quanto tempo vai demorar?! – Luke urrou com o médico, o mesmo que havia deduzido que Annabeth estava grávida em torno de meses atrás. O homem que era encarregado de cuidar dos nobres e dos servos de Casa do Tridente tremeu com a voz firme do homem, encarando de rabo do olho a pobre e nua Rachel, deitada na horizontal da cama.
- Não há como dizer quando uma mulher vá engravidar, sinto muitíssimo, Senhor Castellan. – O humilde homem disse e encarou a frágil Rachel mais uma vez. – Mas julgando que ela veio das Terras da Fertilidade... O senhor há de ter paciência, com todo o respeito. Faz apenas cinco dias desde que ela chegou. Se tiver engravidado a moça nesse meio tempo, ainda é muito cedo para saber se ela está carregando uma criança. Posso voltar dentro de três semanas para checar novamente.
Luke soltou um suspiro irritado, encarando a prostituta ruiva em sua cama como se fosse a culpada. Sabia então, que até que ela ficasse prenha, o mínimo que poderia fazer seria casar-se com ela e esconder seu passado cheio de pecados, apesar de que sabia que era inútil: Annabeth era muito mais bela, inteligente e honesta do que Rachel, e mesmo que a ruiva fosse apresentada como nobre, nunca faria um terço da rainha que a esposa de Jackson faria. Mas havia de tentar... Ah, havia. Ele teria uma esposa, e um herdeiro.
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Silena assustou-se, olhando ao redor e procurando pela fonte, Annabeth gritava contra o pano pela dor do osso entre os seios quebrado, o sangue saindo do corte manchando sua camisola de dormir branca. Quando o barulho de trotes surgiu do mesmo lugar que o som da corneta, ou tuba, Annabeth esperou por um cavaleiro que a socorresse... E ao contrário, uma sombra surgiu das árvores. Um homem ereto, pele morena, peito forte; cruzando os músculos de sua barriga, a alça de uma sacola marrom de couro. Cabelos encaracolados e negros, entre eles, dois pequenos chifres, uma pequena barbicha crescendo no queixo, a tuba em formato de concha em uma das mãos. Da cintura para baixo, não era homem, e sim, bode. Agora Annabeth entendia o barulho dos trotes. Sabia que sátiros existiam, porém, nem Percy nem seu pai haviam deixado ela se aventurar pelo ocidente de aonde eles viviam. Além de sátiros, lá viviam muitas criaturas perigosas.
- Solte a senhora. – A voz do sátiro foi clara, masculina e grossa.
Silena engoliu em seco, e a sua mão trêmula soltou o pequeno punhal.
- Se afaste dela. – O sátiro exigiu, e como um fantoche assustado, Silena o fez.
Annabeth encarou o homem, ainda chorando pela dor que há tempos já havia se tornado tão insuportável que ela mal a sentia. Seus olhos cinza agradeciam o misterioso sátiro, mais parte dela tinha a impressão de que, se ele a levasse, ela viraria jantar de criaturas místicas horas depois.
- Pegue a caixa de música e o punhal e siga para o nordeste. Se vermos você perto de Casa do Tridente novamente, a mataremos. – ele disse, e assim Silena vez. Reuniu seus pertences rapidamente, subindo no cavalo e rezando para que, com o dinheiro da venda da caixa de música que ela comerciaria mais tarde, ela pudesse prolongar a vida do filho doente.
Depois que Silena já havia desaparecido entre os pinheiros do nordeste, o sátiro ajoelhou-se ao lado de Annabeth, removendo o pano com o anestésico de sua boca lentamente e deixando que ela se acostumasse ao ar frio que entrava por sua garganta. Assim que o fez, a criatura misteriosa abriu sua sacola de couro, tirando de lá as pétalas de uma flor tão azul quanto o céu.
- Senhorita, isso vai doer um pouco. Vamos precisar de extrato de osso de elefante pra concertar o estrago de dentro, mas isso vai aliviar tua dor um pouco. – ele fez que sim, habilmente estufando a ferida com as pétalas azul piscina como se o corte fosse uma almofada. Annabeth não sentiu dor alguma. Mal conseguia vê-lo, de tão dormente que estava ali, apoiada contra a raiz das árvores.
- Seu nome... – Annabeth implorou, segurando a mão suja de pétalas do sátiro uma vez que ele havia terminado de rechear o corte. – Diga-me seu nome...
Após pensar um pouco, o alto e atraente moço respondeu.
- Tenho muitos nomes, minha bela senhora. – ele respondeu hesitante. – mas ultimamente, eles me chamam de Grover.
- Grover... – Annabeth repetiu o nome com um pequeno sorriso. – Aonde vai me levar? Leva-me pra casa... Por favor... Eu lhe imploro... – ela soluçou levemente, a visão cada vez mais borrada numa esperança de voltar para seu marido e seu filho.
- Temo que não possa fazer isso, senhorita. Muito perigoso. Iam vir atrás de você novamente... Não haveria bala perdida que te errasse. — Grover murmurou com um sorriso culpado. – Mas prometo que vou te ajudar. Quieta, agora. – ele disse, tampando os olhos de Annabeth com um pano que tirara da bolsa.
Segundos mais tarde, ela já havia dormido.
Notas finais
O capitulo foi pras meninas que pediram o Grover! :) Sempre quis colocar ele na história e só havia uma maneira de encaixar ele, e foi essa.
Então, mereço reviews?
Beijos!
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