Vainglory
2 Capítulo 2
casamento
ca.sa.men.to
sm(casar+mento2): 1. União matrimonial entre um homem e uma mulher; 2. Aliança, contrato.
Zola, a chefe de suas novas criadas, xingava baixinho em africâner quando a acordou de manhã e percebeu que havia olheiras em seu rosto. Serviram-lhe bolinhos de creme e cereja gelados de café-da-manhã com leite de cabra fresco, e assim que terminou, despiram-na e deram-lhe o banho mais longo de sua vida. Sentiu falta do cheiro agradável dos óleos de Casa de Coruja e do leite de tulipa que as criadas costumavam esfregar em suas cavidades; Kali, uma criada mais nova, filha de Zola, esfregou uma essência de lavanda em seu corpo e álcool de flores de inverno em suas axilas, pescoço, mamilos e, por fim, uma dedada rápida por entre suas pernas. Teria que acostumar-se, a partir daquele dia, a estar constantemente em cuidado com seus países baixos.
Enfim, colocaram-na no vestido de casamento. Era lindo, mais bonito do que qualquer outra vestimenta que já houvesse visto. Quando percebeu seu entusiasmo, Zola a comunicou de que deveria acostumar-se com roupas belíssimas e tão rapidamente vê-las sendo arrancadas de seu corpo todas as noites por um marido com desejo. Engoliu em seco, mas colocou o vestido com alças grossas em volta do pescoço e saia de plumas bordada em pequenas pérolas do Oeste. Os cachos soltos e dourados foram presos para que pudessem ver seu rosto; na pele, fora espalhada um creme bege e pastoso, que fez os poros brilharem. Os olhos cinza, eternamente cintilantes, adquiriram um brilho azul. Sentou-se ao parapeito de seus aposentos, olhando para as estrelas e rezando para que mais tarde, não doesse tanto.
A cerimônia foi feita no gigantesco jardim, no corredor das enormes oliveiras. Haviam muito mais convidados, talvez quatrocentos deles, todos vestidos extremamente bem. Correndo entre eles, haviam dálmatas brincando. Quando anunciaram que estava pronta para oficializar a aliança, apressaram-se em chamar o septão que faria deles marido e mulher e os convidados sentaram-se nos milhares de bancos enfeitados. Os dálmatas foram acalmados pelos criados enquanto Zola arrumava o véu de renda sobre sua face. Quando todos se acalmaram, Kali deu petelecos ardidos nas bochechas de Annabeth para que ficassem ainda mais rosadas. Sentindo o peso dos brincos de pérola em seus lóbulos, ela andou descalça pela grama verdíssima do local, observando as azeitonas gordas caindo das oliveiras ao seu lado. Os olhos de todos estavam colados nela, e ela via alguma das pretendentes antes recusadas julgando-a e cochichando no ouvido das amigas.
Por fim, viu o septão no altar junto a Perseu, que se vestia também de branco como diziam os velhos costumes. Parecia menos abatido desde a última vez que o vira, e por um estranho e desconhecido motivo, ele sorriu quando a viu. Pensou ser algum tipo de teatro, por isso, sorriu de volta, pensando se o véu seria ralo o suficiente para que ele visse. Quando enfim subiu junto à dele, segurou as mãos grandes nas suas, como havia sido ensinada desde que era uma garotinha. Durante as palavras sábias do septão sobre compromisso, fidelidade e amor, ela fechou os olhos, sabendo que nada daquilo era verdade, pelo menos, não ainda. Antes que percebesse, Perseu já havia puxando a renda de seu rosto. A aliança forjada nas terras distantes foi colocada em seu dedo anelar. Ouviu fungos vindos da audiência, mas concentrou-se em colocar o anel de ouro no dedo de agora seu marido. Qualquer erro seria considerado desonra negligência ou bruxaria de sua parte, e escutou ela mesma dando um suspiro de alívio quando conseguiu realizar o culto sem problema algum.
Sabia que deveria beijá-lo, mas não tinha certeza se queria. Fazia tanto tempo desde que ela e Luke haviam tido seu romance passageiro, já mais de ano não trocara salivas com um homem. Tomando as rédeas do que era chamado agora o casamento, Perseu usou as mãos para segurar seu rosto gentilmente; sentiu a pele branca adquirir a tonalidade de um tomate quando ele trouxe seus lábios juntos na trilha sonora dos aplausos. Assim que ela permitiu, ele enfiou sua língua para que batalhasse com a sua própria.
Depois que foi devidamente apresentada a Sally Jackson, a viúva do pai de Perseu, uma mulher magérrima, magoada, porém muito simpática, foi anunciado que os noivos deveriam ser levados imediatamente para os seus novos aposentos na torre mais alta do enorme castelo para que o casamento fosse enfim consumado. A festa continuaria com as bebidas e comidas exóticas que ela não teria tempo nem apetite para experimentar; o desjejum só aconteceria no dia seguinte, quando seu marido já estivesse acordado e ela tomaria o café sozinha na cama enorme, banhada pela luz do sol.
Assim que a porta do gigantesco quarto que agora seria onde ela passaria suas noites – e seus dias, quando estivesse prenha – Perseu mandou os criados ajudá-la a se trocar no aposento ao lado antes de ficarem sozinhos. Vestiram-na em uma camisola de dormir bege com um laço fino de malha para segurar seus seios duros. Os cachos compridos caíram soltos pelas suas costas. Quando entrou de volta ao quarto, estavam sozinhos. A gigante cama tinha lençóis de seda azul escuro e enormes travesseiros. Annabeth sentiu-se tentada a deitar-se nela e dormir por todas as noites que passara acordada em Casa da Coruja, mas estava ali por um motivo e um motivo apenas: deveria ser uma boa esposa e cumprir com seus deveres, e no contrato aceitável da sociedade, isso incluía a primeira noite de prazer após o casamento.
Ele aproximou-se primeiro, também vestido em suas roupas de dormir claras. Limitou-se por olhar em seus olhos cinza por alguns instantes. Seu próximo passo foi afastar os cachos de seu peito para que suas mãos desatassem o laço de malha que prendia seus seios junto ao corpo rijo. Depois de distribuir beijos ardentes sobre seu pescoço e ela sentiu seu desejo por entre as sedas, ele deitou o seu corpo gentilmente na horizontal da cama, abaixando o tecido da camisola lentamente até que estivesse completamente despida. Tampou os seios com as mãos, envergonhada, afinal, nenhum homem a havia visto naquela situação. Perseu, por sua vez, trouxe suas mãos fortes contra as delas, segurando-as no topo de sua cabeça para que ela não pudesse se tocar. A luz das velas era forte suficiente para que eles enxergassem seus rostos.
- S-Senhor – ela gaguejou um nó em sua garganta. – Temo, senhor.
- Não há nada para temer – ele respondeu de volta, mais uma vez deixando que sua boca viajasse por entre o seu pescoço, lábios, e de volta a linha do queixo e ao pescoço novamente.
E enfim, depois que as vestimentas dele se encontraram ao chão, doeu. Doeu, doeu, e continuaria doendo. Ela enxergou o rosto dele se tornar em uma face de puro prazer no topo dela, enquanto ela tentava ignorar as facadas de incômodo e concentrar-se em parecer ao menos satisfeita. Agradeceu aos deuses por ele estar de olhos fechados quando ela soltou um grito de agonia que mais pareceu de satisfação. Logo, ele chegou ao seu ápice, beijando-a docemente, e ela adormeceu virada para o luar, com um de seus braços musculosos a envolver o seu corpo ainda frágil e mutilado. Sentia suas carnes queimando-se em dor, mas não havia vitória sem sacrifício. Sentindo a semente quente dele dentro de si, rezou para que ela germinasse, enfim, a respeitariam mais rápido quanto mais cedo sua barriga inchasse. Pensou que podia ter sido um bilhão de vezes pior; afinal, ela já ouvira relatos sobre homens bruscos e grosseiros, que violavam suas mulheres. Ela tinha sorte.
Na manhã seguinte, quando acordou, Perseu não estava mais ao seu lado. Não estava surpresa: ele provavelmente já estaria cuidando de assuntos políticos das casas do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste novamente. As criadas entraram, deram-lhe seu banho matinal e vestiram-na em uma saia e um espartilho marrom simples, trançaram seu cabelo e colocaram sapatilhas de couro em seus pés. Comeu empadão de queijo direto do forno e bebeu polpa de maracujá, além de devorar ovos cozidos com toucinho duro, afinal, não se alimentava desde a manhã anterior, quando ainda não era uma mulher casada, ainda não era uma mulher.
Já eram quase onze horas quando ela pediu ao chefe dos estábulos para escovar a égua Myr e prepará-la para um trote. Até a hora do desjejum, Annabeth cavalgou pelas terras da Casa do Tridente, ignorando a sensação dolorida entre as pernas e acariciando a crina de sua amada Myr. Mandaram um gari para chamá-la quando estava na hora do almoço, já que o senhor seu marido gostaria e prezava sua companhia; agradeceu por não haverem convidados, assim, o silêncio constrangedor entre ela e Perseu não seria tão notado. Tomou outro banho rápido, com a ajuda das criadas, que não a abandonavam por um segundo, e colocaram-na num vestido cor de rosa, deixando seus cabelos soltos.
A sala de jantar da Casa do Tridente era magnífica; nas paredes, havia tapeçarias vermelhas e amarelas de importantes fatos da história. Bem ao meio do aposento, uma mesa enorme para comportar ao menos oitenta convidados. Hoje, estava vazia. Gesticularam para que ela se sentasse ao lado de Perseu, que se vestia em azul escuro e parecia tenro; Annabeth corrigiu-se. Ele era tenro, não era mesmo? Parecia ser a palavra ideal para defini-lo. Sentindo o coração se acelerando, ela deu-lhe um sorriso, tentando apagar os acontecimentos da noite passada. Não seria fraca, não na frente dele. Lembrou-se do que as criadas haviam lhe contado em Casa da Coruja, que sua própria mãe, ao casar-se com o senhor seu pai, não o amava. Um dia, ela amaria Perseu, pensou.
- Boa tarde, senhor meu marido – ela cumprimentou enquanto um criado das cozinhas puxava a cadeira para que ela se sentasse.
- Boa tarde – ele respondeu, virando a cabeça para sorrir-lhe. Mais uma vez, tenro. – Como se sente?
- Pois estou muito bem – ela engoliu em seco enquanto o criado trazia a sopa de legumes, que seria a entrada do almoço. – e o senhor? Notei que abandonou a cama hoje ao raiar do sol.
Em qualquer outra situação, a pergunta de Annabeth teria sido inapropriada. Ela mesma não sabia o que a havia feito ser tão atrevida. Graças aos bons deuses, ele apenas riu, tomando a colher de sopa em seus lábios finos.
- Estou muito bem, também. – ele concordou, enfim. – Hoje tenho de resolver alguns assuntos importantes. Coisas sérias, mas nada que me tome muito tempo. Encontraremos-nos ao anoitecer, se a senhora me der a honra de sua companhia.
Annabeth sabia que deveria rir, mas no fundo, tudo aquilo era um teste. Ela sentia os olhos dos criados e intendentes importantes da Casa do Tridente em si mesma.
- Então acredito que nos veremos lá. – ela sorriu enquanto tomava um gole do cálice de ouro repleto de água cristalina. Era boa, mas não se comparava a dos riachos de Casa da Coruja.
O resto do dia foi entediante, mas calmo. Conheceu mais alguns moradores de Casa do Tridente, e todos foram hospitaleiros e até lhe ofereceram companhia – ela esperava ter amigos logo – até que tomou seu banho e recusou o jantar. Sabia que estaria em dívida com os criados, já que não comer podia ser um sinal de doença ou até mesmo irritabilidade de sua parte, e isso não seria aceitável. Se o comportamento voltasse a se repetir, ela estava certa de que alguém enviaria uma carta ao senhor seu pai com as devidas reclamações.
Quando Zola perguntou o que havia de errado e qual era o motivo para tamanha frustração enquanto ela deslizava para dentro de sua camisola de dormir, Annabeth apenas balançou a cabeça, dizendo estar sem fome. A negra franziu o cenho, desconfiada, mas apagou todas as velas enquanto Annabeth mexia-se nos travesseiros, tentando encontrar uma posição que não ardesse. Adormeceu.
Os dias não tardaram a se tornarem meses. Quase todas as noites, os ritos entre marido e mulher se repetiam, e ela não mais sentia dor. Não poderia dizer sentir prazer, ou estaria mentindo; ela e Perseu não trocavam mais de dez palavras por dia, afinal, ele tinha sempre problemas para resolver, e ela rezava para que lhe desse um filho logo – coisa que parecia não ir acontecer tão cedo – e tomava chá da tarde, sempre sozinha. Quando acordava de manhã, ele já tinha ido embora. Perguntou-se se havia demorado a que sua mãe amasse o senhor seu pai, e se ela chorava durante as madrugadas sonhando com seu antigo lar, prezando pela saúde de seus familiares e desejando que tudo fosse um sonho.
A paz virou preocupação quando a vidente real, vinda diretamente do palácio do Rei Charles Beckendorf, chegou na quinzena seguinte ao segundo mês do casamento de Annabeth. Foi feita uma grande festa em comemoração, afinal, a senhora de poucos cabelos brancos e pele enrugada havia feito mais que mil e uma previsões em toda sua vida, e segundo as lendas, nunca errara nenhuma. Quando Annabeth movia-se gentilmente entre os convidados da comemoração, sentindo-se a verdadeira princesa em seu vestido vermelho sangue, ela procurava o rosto do marido de segundo em segundo, encontrando-o sempre cheio de tensão. Quando a velha vidente chegava sem previsão ou aviso, significava o sussurro do futuro que trazia calafrios a todos. Annabeth se lembrava, ah sim, quando a velha visitou Casa da Coruja alguns meses antes da morte da mãe. O beijo da morte chegará, ela havia escutado, escondida do outro lado da porta, quando o senhor seu pai pediu que a vidente os deixasse. Por meses, Frederick protegeu Maura, sua irmã, ela mesma e a mãe como se fossem tesouros, mas enfim, a morte chegou, como prometeu, levando Gemma Chase tão rápido que nem o melhor curandeiro havia descoberto a causa.
Apesar do medo e das pequenas fugas, Annabeth sabia que a velha vidente a encontraria na comemoração. Ela bebia o líquido quente do vinho de verão quando ela agarrou seu pulso.
- Boa noite, senhora – ela cumprimentou, rezando para que não houvesse comentário feito sobre sua mãe.
A velha não respondeu de imediato. Encarou-a com seus enormes olhos negros, lambeu os lábios murchos e feios, tossindo duas ou três vezes e apoiando-se nela com dificuldade. Agradeceu por estarem próximas ao campo de oliveiras, e não havia ninguém por perto. Naquele momento, ela sabia. Sabia que, pelo menos umas das previsões feitas pela vidente seriam relacionadas a ela. Sabia que, agora, não havia volta.
Por fim, falou, pousando uma das mãos secas na barriga magra de Annabeth, coberta pela seda vermelha e bordada.
- E a criatura virá, ah virá, logo. – ela anunciou, apertando a pele sobre a seda. – e será vermelha como os tecidos que te embelezam, senhora.
Notas finais
AMEI os reviews! Por favor, deixem mais se acham que eu devo continuar e não tardarei a postar!
Beijos
Ju
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