Vainglory

3 Capítulo 3


liberdade
li.ber.da.de
sf. (lat libertate)1. Estado de pessoa livre e isenta de restrição externa ou coação física ou moral;2. Poder de exercer livremente a sua vontade;3. Condição do ser que não vive em cativeiro.


Quando o sol irradiou pelas cortinas azul marinho, ele levantou-se, esticando os braços e as pernas, estalando os ossos e tendões em harmonia. Sentiu seu corpo pesando a cada segundo, puxando-o de volta para a confortável cama, especialmente quando seus olhos encontraram o corpo esguio de costas para ele. Mesmo de longe, ele sentia o perfume acentuado e já familiar de seus cachos loiros, e escutava o som de sua respiração suave. Ela estava encolhida em posição fetal, e apesar de não ser muito baixa, parecia extremamente frágil a ele, como desde que a vira pela primeira vez. Frágil, era o que ela era, num bom sentido. Tão frágil, tão bela, tão inocente, que o doía ter de tomá-la como mulher quando ela deveria estar correndo em campos de margaridas, casada com um homem simples, e feliz.


Sua esposa era inteligente, diabos, muito inteligente, mas não suspeitava que ele conseguisse ler suas expressões faciais acentuadas. Cheio de culpa, ele tentava ignorar os sons dos choros baixos de Annabeth no meio da madrugada. Não sabia por que chorava; se era por dor, por falta de afeto, falta de família. Não sabia, não ia negar. E o doía, sempre doía, doía possuí-la quase todas as noites, doía ver o tédio em seus olhos cinza ao passar as tardes nos arredores de Casa do Tridente, ah, e como doía. Ele já havia chamado teatros, comediantes e damas de companhia, mas nada tirava a constante curva inferior em seus lábios rosados e doces. Ele a amava, diabos, como amava, e sabia que não deveria, pois a cada segundo do dia, ele a perdia, perdia para o sol, perdia para as flores do jardim, perdia para as criadas, perdia-a para todos. Annabeth parecia amar tudo e todos, exceto ele.


Desde que a senhora vidente do Rei viera sem avisos, os moradores de Casa do Tridente ficaram tensos; sabiam que, enquanto ela abusasse de sua hospitalidade e não fosse embora, as previsões continuariam chegando. Até agora, só havia comunicado Annabeth de o nascimento de uma criatura, mas os curandeiros de todo o reino já haviam examinado o corpo da jovem esposa dos pés à cabeça, e ela não estava esperando um bebê. Por segurança, Annabeth passava os dias bordando a janela de seu quarto, e sua égua fora sacrificada para que não houvesse risco de qualquer tipo de doenças. Sua cadela de estimação fora afastada. Agora eram apenas os dois, ela e ele, quando a noite caía. Em seu íntimo, Perseu rezava para que ela ficasse prenha logo. Sabia que a situação mudaria assim que isso acontecesse, e esperava por esse momento religiosamente. Um filho ou uma filha representaria para Annabeth um pedaço de seu amor por ela, pelo menos ele pensava que assim fosse.


– É tão cedo... – Perseu foi puxado de seus pensamentos ao ouvir a voz suave de Annabeth vinda da cama enquanto ela espreguiçava-se confortavelmente, enterrando sua cabeça em um dos muitos travesseiros.


Ele sorriu, observando sua beleza serena.


– Sim, é cedo – respondeu, arrumando o colarinho de suas vestes azuis. – Volte a dormir. – pediu, esperando que sua voz tivesse soado ao menos gentil. Nos lábios rosados e bem moldados de Annabeth, plantou-se um sorriso.


Ao longo do dia, os criados ocuparam-se em vigiar Annabeth e observar os passos cuidadosos da vidente, portanto, ele passou as horas sozinho; teve companhia apenas nas reuniões, já que fora decidido que o desjejum e jantar de Annabeth deveria ser servido na cama, por precaução. Sabia que estava chateando-a ainda mais basicamente trancafiando-a, mas ele queria que ela entendesse que nos deptos de sua consciência, ele fazia aquilo doido, mental, de uma mistura de afeição inesperada e amor, mas na maioria das vezes, ele estava certo de que ela nunca perceberia nada disso. Nunca entenderia, ainda que parecesse absurdo, porque ele a havia escolhido entre as outras garotas. À princípio, quando entrara no salão e a vira de longe, usando o vestido azul marinho com rubis enfeitando o pescoço, os cabelos dourados perfeitamente amarrados e um sorriso nos lábios rosa, além do brilho natural de seus olhos cinza, sentiu imensa atração por ela e pretendia escolhê-la apenas pelos desejos da carne – sabia que isso era errado aos olhos dos deuses, mas diabos, ele não era perfeito. Obviamente, a aparência não fora o único motivo. Quando trocou apenas algumas breves palavras com ela, sabia que ela seria a mulher ideal, orgulhosa, e forte que ele precisaria ao seu lado até que sua vida cessasse.


Quando retornou aos aposentos ao cair da alvorada, Perseu encontrou Annabeth sentada ao parapeito da enorme janela, observando os campos para lá do horizonte. Ela suspirava, quase como uma adolescente apaixonada e angustiada, e apoiava o rosto em formato de coração em suas mãos pequenas. Virou a cabeça rapidamente quando ele entrou, bisoiando-o e voltando para a paisagem. Ele percebeu, então, que os olhos dela estavam cheios de lágrimas, tornando-os mais claros, mais cinzentos. Aproximou-se, colocando suas mãos nos ombros trêmulos dela, tocando-a pela seda fina da camisola de dormir. Ela não se mexeu, limitando-se a fungar.


– O que houve, querida? – ele perguntou, e aquela teria sido a primeira vez que ele a havia chamado assim. Suas bochechas ficaram quentes, mas ela não pareceu notar. Perseu, por sua vez, não se surpreendeu. Ela nunca perceberia, notaria? Notaria o quanto ele queria que ela o amasse de volta...


– N-Não é nada – Annabeth gaguejou, tentando retomar sua posição de coluna reta. – desculpe.


No entanto, ele sabia, ah sabia muito bem o motivo. Ela sofria pelo excesso de privilégios, sofria pelo excesso de proteção e cuidado. Sofria pela égua sacrificada, sofria pelos cães de companhia afastados e a quantidade de aias servindo-a, fingindo uma amizade. Queria dizer as palavras e confrontá-la, mas não tinha tamanha coragem, mesmo sendo um homem feito. Sentou-se ao lado da bela donzela, admirando-a quando o sol da tarde iluminou seus cabelos dourados e o rosto cansado, feições delicadas.


– Sei que sente falta de casa – disse, por fim. – Por isso, lhe prometerei uma coisa.


Finalmente, ela levantou o rosto das mãos, encarando-o com esperança e ternura. Mais duas lágrimas caíram de seus olhos, uma para cada bochecha, enquanto ela piscava, incrédula, os cílios matinados de água salgada. Parecia tão surreal que de repente ele estivesse realmente falando com ela. Fazia três meses desde o casamento, e ela nunca se incomodou em dizer mais do que o cordial.


– Depois que a velha vidente for-se, o que não tardará, esperaremos até que você fique prenha. Então, a mandarei de volta para Casa da Coruja e ficará lá até que tenha o bebê. Então, retornará com o nosso filho para cá, está bem? – ele sorriu, segurando sua mão de pensar na possibilidade.


Surpreendentemente, ela sorriu, um sorriso aberto, mostrando seus dentes redondos e retos; seus cachos dourados moveram-se lentamente quando ela inclinou-se para envolvê-lo com seus braços hospitaleiros, apertando-o tão forte contra seus seios duros e barriga que ele quase pediu por ar, mas não atrevia-se a falar, considerando que tudo parecia tão frágil, suave, e surreal, que poderia ser um sonho a destruir-se ao toque de um dedo. Os dedos curtos de Annabeth viajaram pelo cabelo negro dele, acariciando-o até que todos os nós fossem desfeitos. Por fim, beijou o topo de sua cabeça por bons segundos.


– Obrigada, senhor – ela disse com um suspiro. – eu... O senhor... Não vai se arrepender...


Annabeth soava tanto como uma criança inocente agora que Perseu despreocupou-se ao soltar um riso. Para que se calasse, ele deu a um beijo nos lábios doces, e pela primeira vez desde o que parecia sempre, ela sorriu, e retribuiu, não uma vez, mas dezenas delas. E talvez, apenas talvez, pela primeira vez, ela o amasse também.


Os dias que seguiram foram cheios de calmaria; Annabeth já saía do quarto para mais interação, e fora comprada outra égua de presente, um filhote malhado com crina loira. Deu-lhe o nome de Luna. As noites entre ela e Percy eram mais calmas, e ainda cheias de paixão. Tomada pela sensação de liberdade, ela parecia estar mais disposta em tentar ficar mais próxima dele, mesmo que ainda não houvesse sinal de uma gravidez.


Era uma tarde quente de verão quando Percy remexia em alguns arquivos na sala de mapas quando a velha vidente entrou no aposento, empurrando a porta de madeira e arrastando-se com dificuldade em sua direção; o jovem nada disse. Sabia que, quando andava sozinha, fazia previsões. Encarou-o com os olhos completamente negros como os de um demônio, tomou uma rufada de ar e anunciou, por fim:


– O rei está morto. És o próximo. A luta pelo poder começou.


Notas finais
Tenso, tenso, tenso...

O capítulo 4 tá pronto. Quem quer???

HEHEHHEHE.

Perguntinha para minhas queridas antigas leitoras, que me acompanham desde ano passado!! Quem quer continuação para a Total Eclipse of the Heart? ;)

Beijos, Ju