- Droga. – Rugi de raiva dando um soco na porta.

- Você não teve culpa. – Disse ela me consolando. Um toc toc ecoou. – Mas foi imprudência da sua parte sair correndo daquele jeito; e... – Continuou ela, sabendo que eu iria interrompê-la. – Você sabe disse! – O maldito toc toc não parava na porta. Susane!

- Ola queridos; vocês estão bem? – Perguntara ela, analisando meu rosto, o sorriso irritante na sua pele encardida, e depois olhou nos olhos de Claudia, tentando desvendar alguma coisa, podia sentir sua curiosidade me alertando. – Há algo de que precisem? Posso ajudar de alguma maneira?

- Não. – Disse rispidamente. Suspirei. – Estamos bem. Só estou um pouco irritado. – Claudia se sentou ao meu lado em cima da cama, pôs o braço em cima do meu ombro e assentiu.

Suspirei entediado enquanto Susane bisbilhotava da porta.

- Mas vocês parecem... – Ela se interrompeu, parou e respirou. Eu até podia sentir sua mescla de medo, curiosidade e impaciência, seu desespero eriçando seus pelos dos braços e pernas, fazendo-a suar, por baixo do coque mal feito.

- Estamos bem. – A assegurei. – Só estamos um pouco cansados. Vamos descansar um pouco.

Ela pôs seu braço nas pernas e eu pus o meu em seu pescoço, puxando-a para mais perto de mim. Ambos olhamos para ela, que ainda estava enraizada na porta e não conseguia entender que a queríamos fora.

Seu rosto congelado estava me irritando. “Mate-a”, Azharar pedia irritado. As células do meu corpo corriam loucas por todo o meu organismo, bêbadas de ódio, queimando cada partícula de bondade ainda existente. Senti-me fraco, vulnerável, louco para arrancar seu coração e suas tripas.

Essa vontade se acendeu dentro do meu estomago como uma chama que nasce através de um galho, aquecido por um isqueiro, feroz e viciado. Correu dos meus dedos dos pés até a ponta dos cabelos. Toda a queimação subia e descia por todo o meu corpo, lava se espalhando pelos meus nervos, queimando minhas articulações.

Senti o gosto de sal e ferrugem inundando minha garganta. O massacre ia começar. “Faça” pedia Azharar malevolente.

- Eu quero matá-la. – Sibilei tão baixo que Angela não poderia escutar com os ouvidos na minha boca.

- Vamos então... – Encorajou-me Claudia. Pensei nisso por um instante; devia ser Sakuya.

Ela ainda estava lá, parada e surpresa, os olhos arregalados e a boca semi-aberta. Eu não entendia o porquê de sua reação. Olhei direta e veemente em seus olhos castanhos; vi o porquê de seu alarme; dois pares de grandes olhos amarelos.

- Opps. – Disse em tom de escárnio. – Acho que me esqueci de controlá-los.

Ela se mexeu hesitante, muito devagar, virando-se para sair. Empurrei a porta numa rajada de vento, trancando-a.

- O que vocês são? – Perguntou ela amedrontada.

- Só um casal. – Podia ver em seu rosto o néctar mais puro do medo, uma cachoeira irrompia de seus olhos, sujando seu suéter de cor caramelo. – Só um casal de demônios. – Completei sua frase.

Seu coração batia como as asas de um beija-flor.

- Demônios? – Ela perguntou assustada.

- Será que você é surda? – Claudia perguntou irritada. Ri baixo.

- Só observe! – Disse claramente a Susane.

Virei-me de costas para ela, e dei um sorriso torto para Claudia. Ela riu do meu entusiasmo. Levantei-me do chão, um metro de distancia, as sombras começavam a sair do meu corpo, se despertando lentamente, como se fossem suor, saiam dos meus poros, dançando em volta de mim; bailarinas sombrias e malignas.

Agora eu via pelos lindos olhos amarelos de Claudia o quanto me divertia e a divertia também. Sentia o coração de Susane atropelar a velocidade da luz. Seus olhos molhados nos meus ombros, seu corpo paralisado de medo, o bigodinho de suor que brotava de seu lábio superior, seu estomago revirando a cada segundo.

Suspirei num fingimento de tédio, antes de provar de novo o gosto do enxofre. Todo o meu corpo se contraiu com espasmos elétricos, fazendo meus pelos se eriçarem. Tudo parecia ter parado, como se alguém tivesse apertado o botão pause.

Esperei ela recobrar sua consciência exata. Ainda podia sentir seus olhos nas minhas costas, na distancia entre o chão e eu e a maneira como minhas sombras dançavam, me cercando, sempre me defendendo e esperando pelo sangue; que certamente não seria o meu.

Comecei a entretê-la. Meu corpo imóvel flutuando já havia chamado a sua atenção, mas os próximos capítulos seriam inesquecíveis. Daria a ela um show de horrores, tão divertido.

Os dois pares de olhos amarelos, os meus e os dela, brilhavam emocionados. Olhei para a esquerda e depois para a direita.

- Não seja tão mau. – Disse Claudia numa risadinha, interrompendo-me. Mostrei meu sorriso malicioso a ela e me foquei novamente na convidada.

Analisando tudo, vi se os ossos estavam encaixados corretamente – no meu corpo – se estivessem provavelmente os músculos cederiam à minha vontade e eu seria capaz de diverti-la. Azharar ria de prazer a cada segundo, ignorando a pobre criatura que ficaria traumatizada – mesmo depois de ir para o inferno.

Virei meu pescoço uns 85° para a esquerda, vendo-a de “rabo de olho” e senti seu corpo se enrijecer mais ainda, quando ela percebeu que meus olhos a observaram. Forcei meu movimento mais um pouco, chegando ao meu objetivo, 180°. Um monstro flutuante, com o rosto virado para as costas, os olhos amarelos, com suas sombras bailarinas. O monstro era eu...

Ela sufocou com o choque e senti que ela puxava o ar com toda a força que conseguiu juntar antes de...

- SOCORRROOOOOOOO... – Gritou ela, afastando-se da porta na esperança de que viesse socorrê-la.

Ela piscou e eu havia úmido. “Mate-a agora” Ordenou Azharar.

- SOCO... – Começou ela de novo, antes da minha mão tapar seu rosto.

- Ahh. – Sibilei pesaroso. – Não grite assim. Não sabe o quanto machuca o meu coração com a sua rejeição. E eu que, preparei um grande espetáculo para você. – Soltei minha mão enquanto dizia a ela como todo o drama que pude juntar, tentando imitá-la.

Estava pronto para ver seu rosto amedrontado, joguei-me na parede, como se fosse uma aranha, me pus como uma em cima dela, a cabeça na parte mais baixa, na altura de seu rosto os pés quase tocando o teto. Suspirei.

- Olhe para mim, Susane Bones. – Implorei irritado. – Deixe-me te dizer uma coisa; Como sou um bom demônio, devo contá-la que Claudia é muito pior do que eu... – Seus olhos correram dos meus para os da menina sentada sobre a cama, vendo o meu teatrinho. Susane tremeu esquisita e involuntariamente, fazendo-me sorrir com satisfação. Claudia me olhou fria e divertidamente; só assenti. – Porém... – Interrompi a conexão que Claudia fazia com as pessoas, quando queria algo. – E embora você já tenha percebido eu sou mais divertido.

- Cla... Cla... Claro que sim. – Ela assentiu no meio de seu jorro de lagrimas. Mal conseguia se segurar e ainda sim lutava pela vida. “Coitadinha” Azharar disse. – Você é realmente mui... Mui... Muito engraçado. – Argumentava ela enquanto seus soluços a atrapalhavam.

- Olhe para mim. – Pedi.

Observei-a girar lentamente, os olhos forçadamente fechados, as rugas em volta das olheiras por baixo dos óculos redondos.

- Ahh... Por favor, não aja assim. – Disse eu apelativo, testando minha aptidão para enganar as pessoas, iludi-las e persuadi-las ao que eu queria. Assim como Claudia fazia. – Só quero que seja feliz. – “Depois o monstro sou eu!” Azharar explodiu alegre. Ele estava orgulhoso de seu hospedeiro.

- Feliz? – Perguntou Susane num ultimo ato de suas forças, jorrando varias emoções numa palavra só. Sua única palavra gerou uma quantidade estranha de saliva que molhou todo o meu rosto. Sua face estava contorcida de um nojo divertido.

- Ahh. Eu sinto muito. – Apelei sem hesitar, eu precisava disso. Ver seu rosto; as pálpebras fechadas à força, as bochechas molhadas de tantas lagrimas; o coração que de tão rápido e louco chegava às 180 batidas por minuto – mais rápido do que Claudia podia dar em passadas. – Mas isso já vai acabar não vai?

- Sim! Por favor, acabe com isso. – Ela pediu.

- Então olhe para mim! – Disse irritado.

Ela falhou ao tentar, respirou fundo e hesitou um pouco.

- Por que eu deveria abri-los? – Ela perguntou chorando e com seus olhos fechados.

- Porque eu estou mandando! – Rugi de raiva.

Seus olhos abriram-se devagar, amedrontados. Senti meu cérebro queimar, um dragão de fogo correndo por todo o universo que era meu – tão escuro e sombrio que luz alguma poderia iluminá-lo — passou queimando cada célula do meu corpo. Um sonzinho irritante ecoava dessa escuridão, uma mosca gigante zunindo perdida. Não entendi o que era aquilo.

- O que você esta fazendo? – Ela perguntou apavorada, aos gritos. Claudia levantou a cabeça, num gesto pensativo, como se estivesse concluindo algo.

- Seus olhos estão vermelhos, Zac! – Ela sibilou baixo.

- O que? – Perguntei confuso.

- Acho que eu sei o que isso significa. – Disse ela num tom ríspido e excitado. – Mas falaremos sobre isso mais tarde, quando você terminar de brincar. – Ela sorriu para mim.

- Tudo bem. – Assenti sorrindo. Azharar tinha que parar de me afetar.

Fixei-a novamente, ajoelhado no chão enquanto eu me pendurava na parede, agarrado à porta como uma lagartixa. Ela nem pareceu notar. Seu rosto estava contorcido de dor, mas só quando eu a encarava com esses estranhos olhos vermelhos.

Olhei-a confuso e ao mesmo tempo, feliz; Esso devia ser algo novo, alguma habilidade salvadora. Mas tudo parecia bem, a cada lagrima que ela perdia me fortalecia. Deixava-me contente, vê-la sofrer.

- Pare com isso. – Ela implorou.

- Eu não estou fazendo nada. – Respondi irritado. O dragão de fogo afetava tanto a mim quanto à pessoa na qual eu queria afetar. – Estranho. – Ela assentiu, olhando com mais interesse do que eu.

- Esta sim. – Rebateu Susane, cuja presença já estava me irritando. – Minha cabeça esta doendo, como se tivesse queimando.

- Então espero que queime muito mais. – Eu estava queimando, em chamas de ódio. Essa pequena, irritante e desprezível humana estava me deixando louco.

“Mate-a agora” ordenou Azharar sem humor nenhum.

“Sim. Já não a suporto mais”

Forcei meus grandes olhos vermelhos em sua direção, e seus gritos ficaram mais audíveis. Liguei a TV no volume máximo, um jogo de futebol estava em seu auge, dois times disputavam a taça, embora eu não os conhecesse já torcia pelos carinhas de preto.

Ela ficou frenética – até me surpreendeu – se remexia como um celular vibrando falhadamente. Seu pequeno e frágil corpo caído no chão, deixando marcas no assoalho, com suas garras de um animal selvagem. O sangue saia de suas unhas enquanto ela tentava se agarrar ao chão – embora ninguém a estivesse puxando.

Claudia se levantou da cama, desconfiada. Encarou-me com seus grandes olhos amarelos. O silencio encheu a sala, mesmo com ela gritando loucamente. Naquele momento só existíamos eu e Claudia, um único universo paralelo. Mas ela não parecia estar com o mesmo sentimento que eu; não havia desejo em seus olhos. Só um pouco de curiosidade e uma raiva que eu não consegui decifrar.

- O que foi? – Perguntei hesitante.

Ela não disse nada e pôs suas mãos no meu rosto, segurando-o. Olhou fria e analisadoramente no fundo dos meus olhos por um breve momento, e depois virou seu rosto como se ela tivesse visto um de seus pesadelos pessoais. Voltou para a cama e não disse nada, absorta demais em seus próprios assuntos, supus.

- Por favor... – Implorou Susane, acabando com o silêncio.

- Tudo bem! – Disse rispidamente. – Diga adeus a sua vida.

Levantei a mão direita, uma coisa que eu já conhecera; a foice surgiu vagarosamente, se materializando em minha mão, tão afiada que eu podia senti-la cortar o ar e as bactérias. Girei-a varias vezes, sem convocar meu ceifeiro pessoal. Azharar parecia confuso com minha reação.

“Quero fazê-lo eu mesmo” Pensei decidido.

“Tudo bem então.” Disse ele. Agora sua risada era só um eco distante.

Disparei a foice na direção de seu pescoço, a ponta afiada virada para ela; então estava acabado quando sua cabeça rolou para perto da porta enquanto o sangue escorria e sujava todo o assoalho. Ela ficava tão bem sem sua cabeça.

Sorri. Não conseguia mais aguentar a excitação que corria pelo meu corpo através de espasmos elétricos.

Ela só me espiava tranquilamente. Agora eu teria muita coisa para limpar. As sombras poderiam reunir o sangue para mim, e foi o que eu ordenei. Elas dançavam em volta do liquido espesso, juntando-os. As minhas sombras adoravam sangue, pediam por isso desde o começo.

“E agora?” Perguntei por pensamento.

“E agora o que?” Ele perguntou satisfeito.

“O que eu faço com o corpo?”

“Ahh! Deixe isso comigo.” Disse ele entediado de repente.

Suspirei enquanto trocava de lugar com ele, prendendo-me naquela salinha VIP onde pela primeira vez vi as indecências dos dois. A nossa troca não me feria mais, como antigamente; não me causava repulsa ou dor, e sim rotina.

Observei quieto enquanto ele juntava a cabeça de Susane a seu corpo – uma coisa que eu não sabia que ele podia fazer – e colocando duas marcas em seu pescoço, como mordida de um vampiro. Vi meus dedos abrirem os botões da camisa xadrez dela e isso me apavorou.

“O que voe esta fazendo?” Perguntei envergonhado.

“Acalme-se” Ele ordenou.

Vi Sakuya se enrijecer com a “traição” – sabia de imediato que era Sakuya por sua falta de etiqueta. Ela sentava-se como um animal, em cima da cama – e eu pensei que disso iria se formar uma guerra.

Ele a silenciou. Cravou nossas unhas no peito morto e flácido de Susane, cortando a extremidade ao redor do coração. Arrancou-o para fora e depois costurou o buraco, no qual se restaurou como se nunca fora aberto. Deixou-a jogada no chão por final. Percebi que esses dados levariam a outro culpado. Nezar.

- Azharar?! – Rugiu uma voz irritadíssima.

- O que foi meu amor? – Disse ele debochado.

“Azharar! Pegue leve. Você já a conhece muito bem para saber que ela surta á toa.”

“Não se preocupe” Disse-me ele, tranquilo.

- O que foi aquilo? – Ela perguntou sem teatrinho ou emoção. Sua frieza me incomodou. Ela era um demônio sem coração, literalmente.

- Aquilo o que? – Disse ele tentando desviar do assunto.

- Você sabe o que eu quero... – Ela se interrompeu, mostrando as garras que cresciam pouco a pouco, até parar em seus 25 centímetros.

- Ora, ora! – Ele disse numa falsa surpresa. – Esta me ameaçando Sakuya? – Ele ia acabar matando as nós dois.

- Eu vou te cortar em mil pedaçinhos se você não...

- Não se preocupe. – Disse ele seriamente. Não havia como ela duvidar de suas palavras. Até eu quase acreditei. – Vamos embora!

- Sim. – Respondera uma voz tímida. Ela havia voltado.

“Azharar! Troque comigo” Ordenei impaciente.

“Não quero sair agora.” Ele disse, sabendo que me irritava a sua presença perto dela.

“Saia agora!” Ordenei furioso. Meu corpo entrou em colapso, 44° C irromperam de dentro do meu cérebro e isso afetava Azharar. Ele começara reclamar insistentemente. “Saia logo!” Ordenei explodindo novamente.

“Tá bom.” Ele disse e entrou em nossa sala VIP, trocando de lugar comigo.

- Já terminou sua discussãozinha com Az? – Como assim Az? Eles já eram amigos então? Pensei com raiva. Pude escutar Azharar rindo rudemente, rindo de mim enquanto o ciúme me dominava.

- Já. – Disse de cara feia. Ela chegou mais perto e roçou seu nariz na minha bochecha. Seu súbito apelo de carinho me congelou. Não estava preparado para ela, estando tão perto de mim.

- Vamos então. – Disse pegando minha mão e me carregando pelo caminho. – Você se divertiu muito hoje né? – Me perguntou piscando; mostrou-me a língua por um momento e riu baixinho. Por que ela estava de tão bom humor?

- Vamos então... – Assenti sorrindo.

Andamos em silencio, as mochilas nas costas, silenciosamente enquanto as pessoas encaravam-nos, dois humanos lindos e estranhos andando despreocupados pela grande cidade. O hotel estava perto e eu desta vez escolheria um de estrelas.

Fiz nosso check-in e nem me dei ao trabalho de ser educado e político com a mulher que ficara na recepção. Subimos ainda em silencio, sozinhos no elevador. O nosso quarto era uma das suítes, um pouca mais cara, mas eu não me importava com o dinheiro. O quarto 13 esperava por nós.

- Esse hotel é bom. – Disse sorrindo timidamente.

- É sim. Tão bonito e luxuoso. – Ela disse emocionada. – Sabe que não precisa gastar dinheiro comigo! – Seus olhos estavam sérios e cautelosos.

- Você merece o melhor. – Disse com os olhos no chão, enquanto abria a porta, passando o cartão de metal no codificador. Um bip ecoou baixinho e a porta se abriu. – Afinal... Er... Eu tenho dinheiro sobrando.

- Uau. – Disse ela surpresa, na verdade tão surpresa quanto eu.

As paredes eram marfim e os moveis eram todos da cor tabaco; quase tudo ali era digital. A cama de casal era grande e gloriosa, os travesseiros de pluma; e o cobertor era de pêlo. O tapete vestia um formato de castelo em sua imagem central.

- Bem. Vamos descansar. – Eu estava realmente cansado. Deitei-me na enorme cama de casal esperando que ela se deitasse ao meu lado, que tirasse de mim este espaço indesejável. Fechei os olhos.

- Eu também estou cansada. – Ela disse de tão perto que quase tive certeza de que ela estava ali, deitada do meu lado. Abri os olhos e tive a certeza.

Seus olhos se prenderam aos meus, isso me deixava nervoso. O coração acelerava e se desequilibrava enquanto eu sentia o cheiro de seu cabelo, a corrente de sangue passando por seu pescoço, o seu sorriso que nascia e se desfazia quando eu olhava para a sua boca, o jeito como seus olhos piscavam rápidos demais para olhos humanos; mas eu podia vê-los, podia senti-los me encarando, com amor e desejo, os mesmos sentimentos que eu sentia.

- Ahh me desculpe. – Disse um homem vestido num traje vermelho. Ele caíra no chão quando nos vira tão juntos. Seu rosto corou. Senti calor e vergonha por ele. – A porta estava aberta. – Ele disse recompondo-se. Somente encarou o chão, ainda envergonhado.

- Tudo bem. – Disse eu sem dar atenção a ele. Olhando enfeitiçado praqueles olhos lindos. – O que você quer? – Eu perguntei ainda sem tirar meus olhos dos dela. Um segundo poderia ser tarde demais e talvez eu nunca mais pudesse ver esses olhos novamente.

- Eu vim saber se vocês precisam de algo? – Disse ele ainda olhando o chão. Um empregado impecável. O erro foi meu por ter deixado a porta aberta.

- Eu quero sorvete. – Ela disse sem cerimônia.

- E você senhor, deseja algo? – Ele perguntou. Pensei só por um instante.

- Eu também quero sorvete.

- De qual sabor vocês querem? – Ele perguntou.

- Todos. – Disse num riso debochado e sufocado.

- Tudo bem. – Ele disse dando um passo atrás, com a cara retorcida de duvida. Podia apostar que ele estava se perguntando que tudo ia derreter antes de comermos todo o sorvete.

- Só traga o sorvete. – Disse respondendo a sua pergunta não feita.

- Tudo bem. Com licença. – E estávamos sozinhos novamente.

Seus olhos estavam ainda nos meus, presos numa intensidade louca, não queriam se largar. Éramos o ânion e o cátion, duas proporções diferentes que juntas se completavam numa harmonia perfeita. Ela sorriu timidamente para mim e eu peguei fogo. Não literalmente, é claro.

Minha mão direita voou para as costas dela, meu toque frio e demoníaco a fez tremer. Estava mais seguro, seguro o suficiente para fazer a “coisa” que eu queria desde antes da viajem, muito antes disso. Alisei-a com meus dedos, subindo e descendo por sua coluna, sua pele macia e suave...

Cheguei mais perto ainda, retirando o pequeno espaço que ainda havia entre nós. Seus olhos ainda esperavam ansiosos; os meus. Ela mordeu a boca, eu suei frio, quase congelei. “Como eu quero fazer isso” pensei excitado. “Então faça” Disse Azharar malicioso. “Não se intrometa” Disse rispidamente. O mundo havia parado de novo, como se eu tivesse usado meu Rhazhart, mas na verdade era ela que me deixava sem fôlego e me fazia esquecer o tempo, esquecer até de que nunca estávamos sozinhos.

Ela pôs sua mão no meu cabelo, puxando os de traz com pouca força. Apertei-a mais contra mim. Ela não estava tentando se afastar. Cheguei meu nariz perto de sua boca, seu hálito frio estava me virando de cabeça para baixo. Levantei os lábios e encarei seus olhos queimando; intensidade, excitação e desejo foram o que pude ver. Meus lábios estavam a centímetros dos dela, fechei os olhos e...

A porta fez um toc toc maldito, fez com que meu corpo queimasse de dentro para fora e Claudia me olhou desconcertada.

- Zac, você esta queimando. – Ela me disse assustada.

- Você nem imagina o quanto! – Exclamei enfurecido.

- Não é isso. Você está... – Ela pausou. – literalmente... – Ele fez um gesto com a mão mostrando-me que meu corpo estava em chamas. – Queimando.

Respirei fundo, tão fundo que podia ver todos os vírus e bactérias se alojando dentro de mim. Elas; de qualquer jeito morreriam queimadas. A queimação diminuiu de repente.

- Posso entrar?

- Pode. – Eu disse em pé ao lado da cama.

- Desculpe-me por interromper. – Disse o garoto que deveria ter uns 19 anos, olhando para baixo. Seu corpo era esguio e jovem. Seu cabelo sem brilho combinava com seus óculos.

- Não esta interrompendo. — Algo em minha voz não demonstrou isso, nem eu consegui acreditar em minhas palavras. Claudia riu baixinho e eu sorri de volta para ela.

- Esta tudo aqui. — Disse ele entrando algo como um carrinho de compras nas mãos, dirigindo-o para perto da cama.

Peguei uma nota de cem e entreguei a ele, um sorriso forçado estampado na minha cara. Ele se retirou murmurando um obrigado.

Voltei para a cama e me sentei ao lado dela. Ela estava sentada, vendo a variedade de sorvete que tínhamos disponível. Olhei hesitante para ela, querendo na verdade retornar ao que eu tinha planejado. Decidi que seu humor havia se voltado para o sorvete.

- Qual você quer? – Disse ela colocando uma bola de sorvete de chocolate numa cestinha de chocolate.

- Eu quero uma de menta, três de flocos, uma de maracujá e uma de bombom, com cobertura de menta, chocolate e morango, pedaços crocantes de amendoim e muitos granulados. – Disse com um sorriso torto, justificando a brincadeira que fiz. Rindo baixinho, esperando que ela se esquecesse do sorvete.

Ela se virou, com uma cesta de chocolate nas mãos, três bolas de flocos, uma de menta, maracujá e morango, empilhadas uma em cima da outra, com todas as coberturas e tudo o que eu havia pedido. Encarei-a boquiaberto. Ela riu demasiadamente feliz. Ela me entregou a cesta e eu comi tudo o mais rápido possível. Conseguia sentir muito bem todo o gelo descendo pelo meu esôfago, congelando meu pescoço a ponto de eu parar de respirar por causa da ardência que este me fazia sentir. Pude sentir meu estomago fazer o sorvete virar água assim que ele chegou ao meu estomago.

- Está bom? – Ela me perguntou, a colher na boca, os cabelos caídos cobrindo os ombros, tão brilhantes que qualquer modelo ficaria com inveja. Só conseguia olhar para ela, analisar seu corpo e pensar que ele poderia ser meu – se eu não fosse tão idiota – e isso me deprimia.

“Se você não fosse tão lento isso já teria acontecido!”

“Não se intrometa!” Disse de novo.

- E então? – Ela reperguntou.

- Está ótimo. – Disse com sinceridade.

Sentei-me na cama e a observei comendo todos os tipos de sorvetes. Ela viu minha expressão e riu.

- Eu sou viciada em sorvete. – Me disse, com um bigodinho de creme em cima dos lábios. Eu ri. – O que? – Ela perguntou envergonhada.

- Chega de sorvete. – Disse eu nervoso mais animado.

- Esta bem. – Ela disse e voltou para seu lado na cama, onde estava no começo.

Encaramo-nos novamente, seu bigodinho ainda estava lá, e nossos olhos se encontravam intensamente, flamejando amor e desejo. E eu estava novamente pegando fogo. Minha mão voou novamente para suas costas, alisando-a suavemente, respirando gelado em seu pescoço. Podia escutá-la gemendo baixinho.

Lambi seus lábios carnudos e rosados, sentindo o gosto do sorvete, e ela congelou. Ri. Felicidade era uma coisa estranha. Meu mundo cinza parecia estar criando as outras cores, azul, verde, vermelho... Todas elas misturando-se ao cinza inicial.

Enquanto eu pensava em tudo isso ela ficou parada, ainda congelada. Apertei-a contra mim. Ela se recuperou e seu rosto ficou corado, vergonha expressa. Olhou-me por um breve segundo e seus lábios estavam a seis centímetros dos meus. Fechei meus olhos e segui em frente, desta vez eu não iria hesitar. Era só um beijo – e eu não tinha experiência nenhuma – e não deveria ser tão difícil.

Aproximei-me mais, três centímetros contados e esperei, só para conferir se haveria problema; talvez ela não me quisesse — como Sakuya queria Azharar. Senti-a aproximar uns dois centímetros, e finalmente iríamos começar...

- Como é bonito esse amor demoníaco! – Exclamou uma voz de escárnio. Enfureci-me instantaneamente e de novo estava em chamas.

– Alguém traga o extintor de incêndio. – Ele disse balançando suas mãos brancas, opacas e ossudas.

- Eu vou te matar. – Rugi estridentemente.

- Ui! Que medo! – Ele debochava na janela do 13° andar, encarando-nos com seus grandes olhos amarelos e seu cheiro fétido – na noite fria – era muito mais forte.

- Você bem que devia tomar um banho de vez em quando sabe? – Não consegui aguentar, a boca falou sozinha. Esse era um dos pecados terríveis, mas eu já estava na trilha do inferno mesmo?!

- Não tenho tido muito tempo sabe? – Disse ele desculpando-se, a face retorcida.

- O que você quer? – Perguntei serio.

- Eu não farei nada contra vocês dois. – Disse ele envergonhado. – Hoje! – Acrescentou maliciosamente. – Porem daqui a três dias encontrem-me no mesmo lugar. Irei matá-los desta vez. – Ele disse presunçoso; embora soubéssemos quer era verdade. – Ahh! Se vocês fugirem eu os matarei sem piedade. A minha sombra pode ir a qualquer lugar. Ela sempre os perseguirá. Então...

- Então nos veremos lá. – Disse decidido.

- Tudo bem. – Ele disse com um sorriso que mostrava que ele havia interrompido algo que não deveria.

- Agora vá embora. – Ordenei furioso.

Um segundo. Pisquei os olhos e ele não estava mais lá. Eu podia ver nos olhos dela o medo, o terror mal escondido e a vontade de matar, que Sakuya mostrava às vezes. Fiquei em silêncio. Olhei todo o gigante quarto, memorizando a listagem da coberta de pêlo; marrom, amarelo, marrom, vermelho e depois marrom.

Ela suspirou, se afundou no grande travesseiro de pluma e o clima morreu congelado, caiu num desespero profundo. Deslizei até me afundar também, deixando toda a melancolia me atingir numa grande bola de poder, que fez todo o meu corpo se contrair e queimar de dor.

O dia estava acabando e nós já nos sentíamos mortos. O medo estava engolindo todo o meu ser demoníaco e retirando tudo o que podia e conseguia.

- Vai ficar tudo bem. – Nem eu podia acreditar em minhas palavras.

- Com certeza vai. – Ela me disse azedamente. – Depois que formos para o inferno.

- Nós não vamos para o inferno. – Eu disse irritado.

- Não podemos contra ele. – Ela respondeu derrotada.

- Agora podemos. – Disse demais, não queria envolvê-la, não queria que ela soubesse do Rhazhart.

- O que você quis dizer com isso? – Ela perguntou desconfiada.

- Não é nada demais. – Eu disse arrependendo-me de imediato.

- Sei! – Ela revirou os olhos.

- Estou falando sério. – Disse prendendo uma risada.

- Tudo bem. – Ela resmungou e depois se virou de costas para mim, ignorando minha tentativa de fazê-la um pouco menos infeliz.

Me virei para ela, encaixando-me ao seu lado; coloquei minha boca em seu ouvido e meu braço voou para sua barriga, prendendo-a a mim. Ela arrepiava-se enquanto eu dizia coisas em seu ouvido, soprando gelado em seu pescoço.

Ela riu baixinho enquanto eu roçava minha barba jovem sobre seu rosto, seu pescoço... Apertei-a mais contra mim, queria que ela se fundisse a mim, então saberia como eu me sentia sobre ela, como eu morreria mil vezes por ela, se fosse preciso, e ainda mais, ficaria ao seu lado até a passagem, a passagem que me levaria ao inferno.

Mordi sua orelha, seu corpo se contorcia de prazer — que ela provavelmente já conhecia e eu não – e eu sentia esse mesmo sentimento, algo tão forte que dominava todo o meu interior, me enchia de uma energia nova, e me conduzia a um pecado, um desejo, uma vontade louca de tê-la só para mim.

Senti-me congelado novamente pelo que estava fazendo, mas ela me encorajou virando-se para mim. Olhou-me nos olhos por um instante interminável. Estava começando a suar, estava nervoso e preocupado. A minha experiência era menor do que a de uma criança recém nascida. Nunca fizera algo parecido, mas o extinto me levava a fazer coisas desconhecidas – mas muito boas.

Seus lábios estavam muito perto dos meus, tudo isso estava me deixando maluco. Seus olhos se fecharam e eu avencei, retirando todo o pequenino espaço entre nós. Podia sentir seu corpo pedindo o meu, sua boca pedindo a minha. Não sabia o que fazer mas já nem conseguia me controlar.

Também fechei meus olhos e esperei que ela viesse até mim. Assustei-me um pouco quando ela mordeu meu lábio inferior. Juntei meus lábios aos dela, um sobre o outro e beijei-os suavemente, pressionando os meus sobre os dela. Ela queimou rapidamente – assim como eu havia queimado antes, mas por motivos diferentes – e depois se tranquilizou, a face corada e a parte de trás do pescoço um pouco suada, embora estivesse tapado por suas mechas brilhantes e lisas. Seus lábios eram doces e eu me vi drogado na maldita droga que era seu beijo.

Estava morrendo de calor, parecia que eu estava deitado sobre uma chapa macia, parecia uma carne de hambúrguer. Levantei-me da cama, me desvencilhando dela, enquanto ela me olhava confusa.

- O que foi? – Ela perguntou, sentando-se na cama.

- Esta muito quente aqui. – Eu disse, olhando para todo o lado, procurando um ventilador, ou qualquer coisa que diminuísse a temperatura. Havia uma nota na parede perto do Home Theater. Numa letra formal estava escrito: “Se precisar de algo bata palmas...” Não entendi direito mas bati as tais palmas, duas vezes.

- O que deseja? – Perguntou uma voz mecânica, automática. Assustei-me e vaguei com os olhos em todo o lugar, procurando.

- Está muito quente aqui. – Eu disse, explicando o porquê de ter batido palmas.

- Tudo bem. – A voz disse educada. – Diminuindo a temperatura para 18° C. Qualquer coisa que precise... – Ela parou, e então percebi que era um sistema de computador, só isso. – Contate-me por palmas.

- Tudo bem. – Eu disse voltando para a cama.

Ela me olhou enquanto eu voltava para ela.

- Pensei que tinha feito algo errado. – Ela confessou, envergonhada.

- Você nunca faz nada errado. – Disse com um sorriso torto.

- Só temos três dias né? – Ela disse pondo suas mãos em minha cintura.

- Sim. – Respondi enquanto ela tirava minha camisa...

O dia começou frio e nublado, a janela abriu-se sozinha e eu bati palmas irritado. Eu odiava a luz do amanhecer.

- Do que precisa senhor? – Disse a voz formalmente.

- Preciso que você feche essas malditas cortinas. – Gritei enraivecido. Isso a acordou.

- Sim senhor. – Disse a voz e as cortinas cobriram toda a janela, fazendo a escuridão reinar solene. Ela acordou, olhou ao redor de seu pescoço e me deu um beijo no canto da boca.

- Bom dia. – Eu disse num sorriso torto.

- Bom dia. – Ela me respondeu sonolenta.

- Então... – Ela começou, um sorriso triste brotando no canto dos seus lábios rosados. – Só temos dois dias e algumas horas né? – Ela disse. Compreendi então seu sorriso triste.

- Sim. – Disse complacente.

- O que temos para fazer hoje? – Ela perguntou, tentando fazer a tristeza e a morte evidente desaparecerem.

- Bem. Podemos ir ao museu, ao aquário. Ir ao shopping ver um filme... – Ia dando minhas opções para ela numa torrente de palavras.

- Então vamos começar com o shopping. – Ela disse decidida. Correu até o banheiro enquanto eu trocava de roupa.

Saímos do nosso quarto e fomos em direção ao elevador, onde uma senhora baixinha e gorda estava, apática e carrancuda, era como sua face estava quando chegamos. Ela nos olhou de cima a baixo, nos analisando, tirando suas proporções, verificando o quão podíamos ser confiáveis, afinal, ela estava sozinha com dois monstros.

- Bom dia. – Ela disse.

- Bom dia. – Respondi educadamente.

- Qual o seu nome? – Ela estava me interrogando. Claudia me olhou de lado e sibilou baixinho: cuidado!

- Qual é o seu? – Perguntei enquanto apertava o botão para o 1° andar.

- Você não respondeu a minha pergunta. – Ela disse rispidamente.

- Você não respondeu a minha também. – Disse educado mas brincalhão.

- Eu perguntei primeiro. — Ela estava me irritando. Parecia uma criançinha mimada.

- Tudo bem. – Disse derrotado. Minha testa vincou-se de irritação e eu queria matá-la. – Meu nome é Caz.

- Que nome estranho! – Ela refletiu por um momento.

Ficamos em silêncio enquanto o indicador de andar movia-se, descendo, 13°, 12°, 11°, até cair ao 5°, onde ela saiu apressada, talvez apavorada demais para continuar; talvez ela descesse as escadas, “se bem que ela esta precisando” pensou Azharar, respondendo meu pensamento.

- Que mulher estranha. – Claudia disse, e eu apenas assenti.

A porta se abriu. Estávamos no 1° andar. O apinhado de turistas que esperava pelo elevador nos imprensou no canto — embora tivéssemos que sair – e tivemos que empurrá-los para fora enquanto os palavrões ecoavam perfeitamente sobre o ambiente.

- Jack. – Eu disse sem olhar para ele.

- Sim senhor; o que deseja? – Disse o empregado esguio que viera ao nosso quarto ontem à noite.

- Estamos de saída. – Disse autoritário.

- Tudo bem. – Disse-me ele.

- Aqui esta a chave. – Disse entregando-lhe o cartão magnético e uma nota de cem. – E aqui esta sua gorjeta. – Ele sorriu em resposta.

- Obrigado. – Disse-me e voltou para seu lugar, perto da gigante recepção.

Saímos do hotel luxuoso às pressas, não tínhamos tempo a perder. Levantei as mãos e chamei um taxi.

- Para o shopping mais próximo. – Disse sem olhar para ele.

- Sim senhor. – Ele disse olhando do retrovisor.

Ele olhava a cidade, circulando-a como uma cobra, atravessando os obstáculos, enquanto eu vigiava seus olhos imprudentes, se dividir entre a estrada e a minha garota.

- Mantenha os olhos na estrada, por favor. – Disse rispidamente.

- Sim senhor. – Ele disse, envergonhado.

Claudia entrelaçou sua mão na minha, se encostando a mim enquanto passávamos pelos grandes hotéis, os restaurantes e as lojas de artigos, acessórios e roupas.

- Chegamos. – Disse o motorista timidamente. O suor em sua testa me comprovava que ele estava um pouco amedrontado.

- Obrigado. – Disse colocando em suas mãos uma nota de 50.

- Espere... – Disse-me ele, com um bolo de notas na mão. – É que tem troco.

- Pode ficar com ele. – Disse educadamente.

O shopping era enorme. Devia ter mais de cinco andares, e com seu tamanho a porcentagem de crianças perdidas neste deveria ser bem alta. As janelas de vidro escuro, gigantes telas presas à parede, os elevadores também eram de vidro. Sua estrutura de um castelo glorioso intimidava a algumas pessoas.

- Vamos entrar? – Perguntei animado.

- Sim. – Ela me disse puxando-me pelas mãos.

A porta automática abriu-se sinuosa e provocante – um convite irrecusável – a nossa frente, quando colocamos nossos pés no tapete de entrada. Por dentro era incrível. Varias lojas espalhadas ao redor de um ponto, uma coisa parecida com uma praça – só que sem as arvores – com bancos espalhados por todos os lados, uma escada rolante que subia à direita, e uma que descia à esquerda. A maioria das lojas tinha uma placa com uma letra bonita: Promoção, tudo com 50% de desconto!!!

Havia uma loja em particular que estava me irritando um pouco. Nezarius Shop.

- Vamos para o 2° andar?! – Pedi cauteloso, mas nervoso.

- Eu já percebi. – Ela me disse sem interesse. – Vamos conhecê-la. – Falou e já estava me arrastando antes que eu pudesse responder.

Ainda estávamos parados na porta da loja, decidindo se entravamos ou não. Varias pessoas passavam e olhavam confusas. Alguns jovens passaram rindo – duvido muito que não seja de nós – e de vez em quando davam umas espiadelas antes de cochichar algo com o outro do lado. Eu poderia escutá-los se quisesse mas não iria me dar ao trabalho de mandar mais alguns para o inferno.

- E então? – Perguntei sem jeito.

- Vamos. – Ela disse puxando-me para dentro.

A loja era grande e espaçosa, com uma mulher simpática no comando, uma na recepção, uma no caixa e outras três espalhadas pelo grande quarto. Havia bonequinhos de cera com a cabeça de Nezar, pôsteres dele nas paredes e camisas pretas com um coração negro no meio. Chaveiros e adesivos estavam na mesinha com várias outras coisas sobre ele.

Eu parecia ter entrado no campo minado do inimigo, queria queimar tudo e sair de lá rindo enquanto as pobres senhoritas iriam para o inferno gozar do puro calor; mas um instinto louco e um braço que me apertava não me deixavam avançar.

Respirei fundo e tentei me acalmar, capturando cada partícula suja de oxigênio, sujeira e carbono, dispersados em faixas invisíveis ao olho nu. A recepcionista sorriu para mim, cordialmente antes de vir cumprimentar-me. Sorri educadamente e vi o esforço que Claudia fez para mostrar os dentes. Escondi um riso.

- Sejam bem vindos a Nezarius Shop. – Ela disse-me mostrando a loja com as mãos.

- Muito obrigado. – Disse sorrindo. Sua mão apertou a minha, as unha afiadas perfurando minha palma como uma broca, e eu quase guinchei de dor. O seu risinho baixo de resposta mostrava seu sucesso, enquanto meu guincho sufocado era reprimido automaticamente.

- Desejam algo ou só estão de passagem? – Seu sorriso cordial ainda estava lá, mas eu podia ver o esforço por baixo da mascara.

- Estamos só vendo. – Eu disse sem sermão. – Embora esta loja seja muito bem organizada, não há nada de interessante aqui. Esse tal de Nezar me parece um velho que não tinha nada a fazer; contador de historias, só isso. – Eu dizia sarcasticamente as palavras enquanto ela se contorcia inquietamente diante das minhas palavras.

- Tudo bem. – Ela disse com esforço. – Se precisar de alguma coisa peça a mim ou a qualquer outra pessoa.

Sorri – não conseguia esconder meu sorriso diante ao meu grande feito – e Claudia sorriu maliciosamente para mim, empurrando-me loja adentro. Ela me carregava enquanto passávamos pelas camisas dele, sua face esculpida na estampa preta de cada peça ali. Paramos perto dos provadores – dois espaços escondidos por um pano longo e vermelho, que caiam ao chão e o cobriam como um vestido.

Ela me empurrou para dentro de um provador e pegou uma camisa preta...

- Ele vai experimentar isso. – Disse ela enquanto as três moças da loja olhavam curiosamente, explicando a elas.

Ela me empurrou para o canto, colocando sua mão em meu pescoço. Sorriu para mim e mordeu o lábio inferior, seus olhos prontos para me devorar, intensos e flamejantes. Sorri também.

- A gente vai se meter em encrenca. – Disse nervoso.

- A gente da conta do que vier. – Disse ela explodindo de excitação.

Encarou-me por três segundos antes de juntar seus lábios nos meus, intensa e urgentemente. Sua mão puxando meu cabelo, enquanto as minhas voavam para sua cintura. Os passos do lado de fora do provador estavam chegando perto e pelas respirações alteradas e curiosas eu percebi que elas estavam perto demais.

Troquei as camisas numa velocidade inumana, a minha camisa vermelha ela pegou e colocou sobre o pescoço. Uma mão apareceu sobre a cortina vermelha.

- Esta tudo bem aí? – Uma mulher perguntou.

- Sim. Então? – Perguntei enquanto saia do provador e dava um giro, mostrando a camisa preta sobre meu peito. O retrato do demônio que me mataria. – Como estou?

- Er... – As mulheres paralisaram, a boca aberta por um instante. Depois um sorriso brotou no rosto de cada uma. Escutei uma sinfonia de respirações alteradas, suspiros abafados e uma eletricidade invisível que vinha para o meu corpo enquanto eu assistia aos efeitos que eu provocava nas mulheres. – Você esta lindo com essa roupa. – Ela disse sem fôlego; uma delas; loira dos olhos azuis, o cabelo até nos ombros e bochechas grandes e rosadas.

- Obrigado. – Disse num sorriso.

Fui andando até o caixa, onde uma mulher carrancuda estava sentada, jogando paciência no computador. Olhou-me de cima a baixo, antes de dar um sorriso apático e fazer seus olhos escondidos atrás dos óculos se cerrarem.

- Vou levar esta camisa. – Disse divertido.

- Eu preciso saber o preço. – Ela disse sugestivamente.

Tirei a camisa, e entreguei a ela. As mulheres olharam rapidamente e disfarçaram quando me virei para procurar por Claudia!!!

- São 14 reais. – Ela me disse sem fôlego, entregando a camisa para mim. Vesti-a novamente e senti passos fortes vindo em minha direção.

- Aqui esta. – Disse retirando da carteira uma nota de cem. A mulher pareceu se desculpar e olhou dentro da registradora.

- Desculpe-me. Não tenho troco. – Ela disse envergonhada.

- Caz! – Claudia gritou de um dos provadores.

- O que foi? – Perguntei curioso!

- Como estou? – Ela disse saindo do provador. Uma camisa preta parecida com a minha estava em seu corpo. Havia também uma jaqueta cinza por cima,

- Você esta linda! – Disse! – Você poderia adicionar o que ela comprou também?

- Claro que sim. – Ela respondeu irritada.

- Ok. – Exclamei. E pode ficar com o troco. – Disse superior, saindo da loja enquanto a sinfonia de suspiros invadia o espaço.

Ela segurou firme no meu braço, machucando-me. Andamos por todo shopping, ignorando as lojas ao redor, procurando o cinema; o primeiro e o ultimo filme que veríamos.

Andamos em silêncio até o cinema, um lugar cheio de cartazes; o primeiro sobre um filme de zumbi, o segundo era sobre uma menina que adorava fazer compras – o que eu exclui de imediato – e o outro era sobre o fim do mundo, uma luta entre vampiros, demônios e outras criaturas.

- Então? – perguntei distraído. – Qual nós veremos?

- Vamos ver o de demônios. – Ela disse num tom divertido.

Fui ao caixa e ali estava um rapaz sardento de aparelho nos dentes, que me encarava entediado.

- Quero duas entradas para o filme de demônios. – Disse feliz. Ele se arrepiou por minha falta de consideração a palavra demônio – foi o que deduzi pelo seu rosto.

- Aqui esta. – Disse-me ele entregando o troco e as entradas.

Esperamos até as portas se abrirem, indicando que a sessão estava prestes a começar.