A enorme quantidade de cadeiras espalhadas pelo gigante quarto eram assustadoras e ao mesmo tempo excitantes. Varias filas surgiam horizontal e verticalmente. Havia uma parede tapada por uma coisa gigante — um pano talvez – branco e sedoso.

Seguimos para o fundo da sala, as ultimas cadeiras da ultima fila do lado esquerdo e esperamos em silêncio. O projetor ligou-se e começou a mostrar imagens na grande tela. Eu já me sentia entediado quando os trailers começaram a aparecer.

Ela suspirou, sentindo o mesmo tédio que eu, enquanto eu caia lentamente na cadeira estofada e confortável. O maldito filme ainda não havia começado e eu odiava visualizar pequenos pedaços distintos do que deveria ser uma historia. Seu rosto ainda estava inexpressivo, olhando o grande painel, encontrando sentido naquele drama estranho e mal resolvido que ainda estava passando. O 1° trailer.

- Ahhh. – Suspirei. – Que saco. – Disse irritado.

- Que filme chato. – Ela reclamou. Olhou-me com estresse nos olhos e depois bufou, suavemente.

- O que foi? – Perguntei rindo baixo.

- É que... – Ela hesitou, olhou para baixo e depois pulou fraquinho, depois de levar um susto com a explosão na grande tela. A poeira subiu, o clarão vermelho encheu a tela gigante e tudo ficou escuro de repente. – A gente só tem três dias e... – Ela hesitou novamente, olhando a tela preta, esperando que o escuro repentino acabasse. – E parece que estamos desperdiçando tempo. – Eu só ri.

- Nós teremos a eternidade. – Disse, olhando carinhosamente para ela.

- Você sabe que não temos. – Disse ela reprovando-me. – Ele vai nos matar.

Um rosto curioso virou para trás, procurando pela dona das palavras bonitas. Um grito ensurdecedor encheu a sala escura e o dono do rosto curioso virou-se automaticamente para ver a tela encher-se de um rosto estranhamente branco, cheio de dentes pontudos e afiados, cabelos loiros e olhos profundamente amarelos.

- Parece com a gente. – Disse tentando fazer graça. Não funcionou. Ela olhou-me com ódio queimando nos olhos, cada flash de irritabilidade compondo seu rosto lindo. Cada traço dele retorcendo-se euforicamente.

Afundei-me novamente na cadeira acolchoada e esperei o segundo trailer terminar. O silêncio dela estava começando a me deixar irritado.

“Vocês não vão morrer amanhã.” Azharar confirmou. “É melhor acalmá-la antes que ela tenha um ataque de loucura.”

“Vou tentar.” Disse vencido.

- Olha! – Disse puxando seu rosto angustiado para cima, encontro meus olhos aos seus. – Nós não vamos morrer. Já te disse isso umas três ou quatro vezes hoje.

- Eu sei mas... – Ela hesitou novamente, enquanto o zumbi se arrastava numa floresta coberta de musgos e neve, andando esguiamente por entre estas, os braços largados, tapados pela blusa azul com mangas e cheias de sangue. Os olhos sem vida e aquela expressão de “não sei de nada“ no rosto. Ele ainda estava lá enquanto ela se matinha em silêncio.

- Vem aqui. – Eu disse, puxando-a para perto de mim, pondo meu braço em seu ombro. Sua cabeça deitou em meu ombro, derrotada e cansada. Ficamos ali por uns 15 minutos, observando com tédio as criaturas que ao longo do filme apareciam e completavam o álbum de “figuras”. Súcubos e Íncubos enfeitiçavam os ainda humanos, vampiros sugavam o sangue de qualquer criatura viva e lobisomens ecoavam nas noites mais sombrias, onde a lua cheia predominava vitoriosa sobre todos. Lâmias e harpias brigavam furiosamente, dando inicio à trama enrolada em personagens complexos e tão alienados que confundiriam a cabeça de um humano desinformado em menos de dois minutos.

A maioria das pessoas não entenderia isso a não ser que estudasse a literatura grega e um pouco mais adiante. O pandemônio havia se formado. Até dybbuks e demônios já se alinhavam, compondo a linha de frente, preparando-se para a luta com anjos e arcanjos.

- Que filme grotesco. – Disse fazendo uma relação interdependente com o filme. “Ele até que é divertido” Disse Azharar. Pus-me a confirmar logo de inicio.

- Ele até que está divertido. – Ela disse sem emoção.

- É. – disse no mesmo tom.

– Eu não quero morrer. – Disse ela depois de um grande momento de silêncio. Quase todos os demônios do filme já haviam caído. Os vampiros mataram todos os lobisomens e os dybbuks continuavam invictos, atrapalhando os súcubos e os íncubos.

- Quantas vezes eu já te disse: Você não vai morrer. Eu não vou deixar que nada aconteça a você. – Eu dizia as palavras, jorrando-as com uma rapidez tremenda, irritado e inundado de uma compaixão exaustiva, e algo que me machucava e me fazia tremer – embora eu não soubesse o que era. Respirei fundo e me mantive são enquanto zumbis devoravam lâmias, harpias arranhavam estas e a confusão continuava distinta e incompleta no meio da grande tela. As pessoas bufavam de frustração, tentando entender tudo o que se passava ali, e de fato aquela historia não tinha coerência, sentido ou qualquer outra palavra que pudesse ser usada. – Se algo te acontecer eu não sei o que irei fazer. Então relaxe e aproveite este filme sem sentido. – Ela riu. Finalmente todo o meu esforço para que ela não se sentisse mal tivera um efeito. E embora eu estivesse feliz que ela tenha se acalmado eu tinha de lidar com a dor, que eu negava com veemência enquanto esta subia como um dragão de gelo pelo meu corpo, desafiando meu esôfago, encontrando a saída, congelando minha língua e me fazendo arrotar. Claudia olhou para mim e riu ruidosamente enquanto eu corava de vergonha.

- Desculpa. – Eu disse envergonhado. – Foi a bondade. Eu precisei tirá-la. – Disse me desculpando.

- Tudo bem. – Disse por entre seus risinhos baixos. – Eu também já passei por isso.

Continuamos em silêncio enquanto os vampiros e os dybbuks ficavam lado a lado, batalhando contra os anjos e os arcanjos. A luta final se contrastava com todo o sangue jorrado no chão, de varias cores. Cada personagem me parecia familiar demais, como se esses saíssem do meu próprio pesadelo, mas eu não conseguia ter medo, medo o suficiente para correr ou para gritar pedindo ajuda. Eu só achava engraçado.

O meu próprio desespero caído em uma tela gigante, escondido numa capa de boas vindas, me esperando para me engolir. Senti as ondas de calor que passavam por entre nós e ali se desfaziam pelo frio que nossos corpos possuíam. De vez em quando o mesmo carinha olhava para trás curiosamente – eu podia apostar que ele a queria – analisando e procurando uma falha minha, e eu relaxadamente me apertava mais a ela, num ato desesperado e involuntário. Ciúme era um sentimento muito poderoso – ainda mais quando um demônio reside dentro de você.

- Eu te amo. – Eu disse envergonhado. Prendi meus olhos na tela. A dor dentro do meu corpo já me era perturbadora, mas nada iria se comparar se ela risse de mim, então decidi manter meus olhos firmes na grande tela.

- Eu te amo. — Ela me respondeu. Podia senti-la corando, o calor enchendo as bochechas, os olhos se dilatando enquanto eu respirava auditivamente, tentando me concentrar numa maneira de não ter um colapso, ou ataque de incoerência retardada. Olhei para todos os lados; as pessoas iam saindo silenciosa e distintamente; cada um saia fingindo ir ao banheiro ou comprar pipoca, mas a tensão deixada na sala me dizia outra coisa. O curioso homem se levantou, sempre nos encarando com sua face redonda e aqueles olhos gordinhos, o nariz pontudo e as orelhas pequenas, quase escondidas pelo cabelo crespo. Seguiu subindo as fileiras, vindo em nossa direção, animado e certo de que conseguiria alguma coisa, eu supus.

Veio andando lentamente, observando seu contorno, enquanto eu passava a mão por seu ombro novamente e ela encostava sua cabeça no meu corpo, alinhando-se em meus braços.

- Ola. – Disse ele para a senhorita, ignorando-me.

- Oi. – Ela disse timidamente.

- Qual é o seu nome? – Ele perguntou num tom ordenador. Eu podia sentir a força extra que ela estava fazendo para ser educada. Eu ri. Ele me ignorou.

- Claudia. – Ela disse, virando o rosto para mim, numa careta estranha e engraçada. Prendi um riso sufocante.

- Está rindo do que? – Ele perguntou irritado, sua face gordinha ficara ainda mais engraçada.

- Do filme. – Disse automaticamente.

- E aí gatinha, vamos passear? – Ele perguntou sorrindo.

“Você não vai fazer nada?” Azharar perguntou resignado.

“Estou me divertindo tanto.” Pensei cauteloso. “Quero ver até onde ele quer chegar.”

- Não obrigada. – Ela disse por “entre dos dentes.”

- É melhor você vir comigo. – Ele disse alterado, sacando do bolso traseiro uma coisa de metal, com cápsulas cheias de pólvora. Uma arma.

- É melhor você tomar cuidado com esse brinquedinho. – Disse risonho, debochado na verdade. O filme continuava a se desenrolar, só os dybbuks corriam livres por todos os lados enquanto os únicos anjos vivos atiravam com seus arcos e flechas para todos os lados, disparando nos espelhos invisíveis, os quais os dybbuks usavam para se locomover.

- Se você não quiser morrer agora é melhor ficar de bico fechado. – Ele disse duramente. Meu queixo se levantou, num tom de superioridade nata. Esperei em silêncio, rindo do perigoso homem por dentro.

- Você vem comigo. – Ele gritou com ela e agarrou seu braço, me deixando imensamente enraivecido. Tentou arrastá-la pelo braço e eu agarrei seu punho, apertando-a fracamente, mas o suficiente para fazê-lo gemer e soltar o braço dela.

– Eu vou te matar. – Ele disse apontando a arma na direção do meu rosto, mirando no meio da minha testa. Ri e Claudia também riu.

- É impressionante o numero de ameaças que recebemos essa semana né? – Eu perguntei olhando em seus olhos.

- É sim. – Ela disse gargalhando enquanto ignorávamos o gorducho parado com uma arma apontada na minha cabeça.

- Até parece coisa de filme! – Eu supus debochando da situação. Já era demais a gente ter três dias de vida e ainda encontro um humano idiota que quer diminuir meu tempo de vida. Isso era hilário.

- Eu ainda estou aqui! – Ele rugiu por baixo do bigodinho de suor que crescia em seu rosto, abaixo do nariz. Suas mãos estavam suadas, nervosismo.

- Desculpe-me. – Disse num fingimento pesaroso. – Não tenho intenção de morrer agora. – Eu disse sério.

- Isso sou eu quem decide. – Ele gritou exasperado.

- Por que você não tenta a sorte? – Eu disse desafiandoo-.

- Foi você quem pediu. – Ele disse. Respirou fundo e com a mão tremula apertou o gatilho do revolver calibre 14. Um barulho ensurdecedor encheu a sala vazia, a pólvora explodiu e caiu no chão em pequenas quantidades. Um segundo e estava acabado. Seus olhos estavam fechados, os cantos da boca erguidos para baixo, o suor caía em gotas. Meu braço estava levantado, e eu prendia algo entre o dedo indicador e o dedo polegar.

- Já? – Perguntei ceticamente.

Ele não disse nada e seus olhos continuaram fechados. Ela riu demasiadamente maliciosa.

- Abra os olhos! – Disse cada palavra distinta e rudemente.

Respirei fundo e esperei por seu ato de coragem. Seus olhos hesitavam em abrir, seu corpo gorducho tremia involuntariamente, amedrontado com a situação.

- O que você é? – Ele perguntou abrindo os olhos castanhos.

- Um demônio. – Disse mostrando a eles meus olhos amarelos, uma brasa maligna que ansiava pelo seu sangue contaminado, gordura e outras enfermidades. Seu rosto se transformou numa mascara de descrença. Ele riu sem humor, as lagrimas pareciam estar prontas para irromper de seus olhos a qualquer momento.

- Aham?! – Ele questionou hesitante.

- Como você quer morrer? – Eu perguntei num tom divertido.

- De maneira nenhuma. – Ele rebateu na mesma hora. – Eu devo ter errado o tiro. – Disse, procurando uma resposta coerente para o acontecimento.

- Está precisando de outra bala? – Perguntei entregando o conteúdo pressionado entre meus dedos. Seu corpo pareceu bambear, enquanto eu olhava para seu rosto humano.

- Não é possível! – Ele murmurou para si mesmo.

- Então? – Chamei sua atenção. – Como você quer morrer?

- Eu não quero morrer. – Disse apavorado.

- Eu sinto muito. – Eu pedi desculpas. – Mas seu desejo não poderá ser atendido.

Dei um passo à frente, me pondo de cara com ele. Ele levantou o braço que continha a arma e disparou outra vez. Meu rosto se virou involuntariamente pela força da bala, e mais uma vez a pólvora caiu no chão. O tiro – pude ver nos olhos surpresos dele – fez um grande buraco no lado direito da minha testa, o sangue escorrendo provava isso. Eu caí. Senti meu cérebro entrar em curto circuito, enviando ondas elétricas por todo o meu corpo. Era desconfortante. A mesma sensação de quando você tem um computador e ele começa a te enviar dados de informações das quais você não entende. Os enormes dígitos, as formulações empregadas; todo aquele conteúdo indesejado em um desktop, os erros e notificações que ele te envia antes de falecer tecnologicamente.

Eu me senti assim; como se estivesse formatando a minha unidade principal, vários flashes das minhas memórias iam se mudando para um disco reserva, todo o conteúdo anexado ao meu cérebro parecia estar correndo numa fila única, se acoplando a outro lugar que eu desconhecia.

Milhares de números apareciam na parede de dentro dos meus olhos, como se uma cortina os tapasse, como se o trabalho delas fosse me obrigar a ver aquele maldito filmezinho de contas, números e formulas que eu tanto odiava.

Todo o meu corpo estava eletrificado, paralisado pela formatação e enrijecido pelo tiro, mas eu não sentia a dor que aquilo deveria ter me provocado. “O que está acontecendo?” perguntei em pensamento, ele devia saber alguma coisa. “Acalme-se” Ele disse entediado, “Já vai acabar.”

- O que está acontecendo com ele? – O gorducho perguntou, e eu finalmente me lembrei da existência dele. “Eu quero arrancar a cabeça dele. ”Azharar riu, deliciado com as minhas emoções mais malignas do que antes. “Você vai ter a sua chance” Ele disse ainda rindo.

Tudo ficou preto, a grande tela se desligou, as cortinas dentro dos meus olhos se retiraram. O filme devia estar acabando. Os números em minha cabeça deslizavam devagar, de cima para baixo – como se eu estivesse lendo um pergaminho – e lentamente sumiam da minha mente. Um redemoinho nasceu no meio de um lugar estranho, este ao qual eu me vi no meio, com uma luz mirada em mim, como se um holofote estivesse me encarando, me analisando enquanto o vento circulava em volta do meu corpo paralisado.

O preto foi desaparecendo, as cores começavam a voltar enquanto o redemoinho era desfeito, cada vez mais devagar, mais devagar até parar e sumir no meio de tantos objetos. Eu estava de volta à realidade. Os olhos castanhos do homenzinho insignificante me encaravam, assustados, surpresos e agora apavorados. Pude ver neles que o buraco na minha testa ia desaparecendo devagar, se fechando, formando a camada de pele que Havaí sumido.

- Meu Deus. – Ele implorou.

- Deus não tem nada a ver com isso. – Eu disse irritado, jogando a força dos meus olhos amarelos sobre ele. Era até divertido fazê-lo sofrer, já que Azharar me fazia adorar cada momento disso.

- Por favor! – Ele implorou.

- Adeus! – Disse com um sorriso demoníaco.

Suspirei e quando olhei para ela, meu coração se aqueceu um pouco, o frio constante diminuíra e eu estava raciocinando.

- Claudia. – Eu disse baixinho. – O filme está acabando?

- Sim, está. – Ela disse.

- Vamos vê-lo então. – Disse olhando em seus olhos. Já quase tinha me esquecido do gordinho amedrontado. – Hey você. – Disse irritado novamente. – Não me esqueci de você. – Falei enquanto me virava para ela, sentada na cadeira.

Pus minhas mãos em seu rosto.

- Olhe para mim. – Ordenei. Ele fez! Forcei minha entrada através dos meus olhos. Sabia que eles estavam ficando vermelhos, porque queimavam...

- Você vai pegar a sua arma e vai atirar em si mesmo. – Disse calmamente. Soltei seu rosto. Ele estava sem vida, me encarando; compreendendo a ordem que eu havia dado. Apontou a arma em direção ao seu queixo, deixando-a vertical e apertou o gatilho. Sangue jorrou para todos os lados, enquanto o barulho ensurdecedor ainda me deixava meio tonto.

- Você precisava fazer tanta bagunça. – Ela disse me reprovando.

- Foi sem querer. – Falei mordendo os lábios enquanto ela habilidosamente limpava tudo. Fazia movimentos com as mãos.

- O que esta fazendo? – Limpando nossos passos, nosso DNA, nossa existência aqui. Você o fez cometer suicídio. Então não precisamos que pensem que somos testemunhas. – Ela respondeu de cara feia. Ela!!!!

- Você é maligna. – Eu comentei.

- Você nem imagina o quanto. – Disse a voz rudemente, agressivamente. Sakuya.

- Não seja tão agressiva. – A repreendi. Ela bufou irritada. Decidi que era melhor não irritá-la. Ele era um demônio difícil de conviver.

- Azharar! – Sakuya chamou sensualmente. Comecei a tremer feito um louco, quase pensei por um momento que estava tendo um ataque cardíaco, mas eu sabia muito bem o que ia acontecer. Azharar estava tentando trocar de lugar comigo. “Vamos, saia daí” Ele pediu exasperado. “Tudo bem.” Eu falei irritado. “Divirta-se.”

- O que foi? – Ele perguntou avidamente, dei risadas dentro da minha sala VIP, não sabia por que, mas de repente me lembrei de um pavão cortejando sua pretendente.

- Eles não sabem se divertir. – Ela disse, reprovando-nos. – O que você acha de ensinarmos isso a eles? – Ela perguntou mordendo o lábio inferior.

- Será um prazer minha querida. – Ele disse empolgado.

Os dois andaram até a porta de saída, deixando a obesa criatura morta – porque se suicidou – deitada no chão. Estavam quietos na falta de luz, mas quando as cores apareceram eu pude sentir a excitação crescer dentro do meu corpo, o dragão de fogo roncar no meu estomago e os espasmos involuntários.

Odiava essa sensação de estar deixando-os fazer algo errado – como uma criança querendo subir no armário e pegar o biscoito de chocolate. Só observei enquanto eles se desvencilhavam da multidão de pessoas no shopping, e fiquei lisonjeado em ver como as pessoas me encaravam mais quando eu era o demônio. Será que ele estava usando os olhos amarelos? A porta automática abriu-se diante de nós e por ela eu pude ver – através dos meus olhos – que eu estava mais pálido, os olhos mais claros, dilatados – eu não sabia por que – e a face transformada em angustia conformada. Os olhos estavam mortos.

Suspirei de tédio enquanto eles andavam de mãos dadas pela rua, pela praça, pelo shopping, por todos os lugares que um visitante imbecil iria querer passar antes de voltar para seu país.

- Vamos jantar? – Ele disse, com um tom malicioso que só eu pude perceber.

- Vamos. – Ela disse, com os olhos queimando desejo, vontade e outra coisa que eu não consegui identificar.

“Zac?” – Ele chamou; tirando-me do estado de letargia.

“O que foi?” Perguntei apaticamente.

“Posso usar seu dinheiro?” Ele perguntou como um filho adolescente pedindo dinheiro ao pai para levar a namoradinha do colégio num restaurante bonito.

“O dinheiro é nosso!” Disse apaticamente. “Mas não vá gastar tudo.” Disse reprovando-o, já que ele as vezes não sabia se controlar.

“Tá bom.” Ele resmungou.

- Estava conversando com O Zaquinho? – Ela perguntou, debochando da minha cara.

- Sim, estava. Agora vamos. – Ele disse, sabendo da minha irritação súbita e gradativa.

Suspirei novamente, só que dessa vez de irritação.

De todos os lugares no mundo onde eu achei que não estaria este se encontrava no 1° lugar da lista. Um restaurante clássico, chique – por assim dizer. Um lugar espaçoso com garçons com suas vestimentas brancas, originais e um pouco antiquadas ao mundo atual. Cadeiras e mesas de madeira imperial estavam ocupando algum espaço ordenadamente no salão, uma toalha branca de mesa bordada à mão em todas elas, quatro cadeiras ao redor de cada; e uma ânsia cresceu dentro do meu peito ao ver isso.

“Este restaurante guarda tudo da velharia dos anos 70” eu pensei irritado. “Não fale assim das coisas antigas” Ele respondeu brincando. “Afinal, não se fazem restaurantes como os de antigamente” Ele pensou.

O lugar era silencioso e algumas velas davam alguma luz a ele. “Será que essas pessoas não conhecem uma coisa chamada eletricidade?” Disse enervado por uma raiva que crescia conscientemente dentro de mim. “Cala a boca” Azharar gritou em pensamento. Ele já estava irritado.

Parou na entrada do grande salão e esperou pela hostess, que os encaminharia para uma mesa. Seus olhos brilhavam de excitação, e eu não conseguia entender o porquê disso. Ela parecia realizada, como se de alguma maneira eles tivessem marcado um encontro há décadas atrás. A hostess chegou, encarou-nos de cima a baixo – aposto que estava julgando a nossa condição financeira – e suspirou, fazendo uma cara apática.

- Eu sinto muito, mas não temos mesas vagas. – Ela disse apaticamente, rudemente.

- Eu aposto que você pode conseguir uma para a gente. – Ele disse com um sorriso sedutor, passando uma nota de cem para ela.

- Eu vou ver o que consigo. – Ela disse, o rosto corando, por ter aceitado o suborno com tanta facilidade, e saiu restaurante adentro.

- Você é terrível. – Disse Sakuya com um sorriso no rosto.

- Acho que devemos nos trocar. – Ele disse olhando para meu corpo, uma bermuda jeans e uma camisa preta com o rosto de Nezar.

- É. – Ela concordou. – Acho melhor.

Os dois correram numa velocidade inumana, voltando ao mesmo shopping que estávamos antes de trocar, e lá encontraram uma loja de roupas casuais, vestidos, blazers e ternos. Azharar agarrou um terno fino e preto, com listras brancas verticais – muito bonito, eu tinha que admitir – e se trocou em questão de segundos, enquanto Claudia entrava em seu vestiário para colocar um vestido vermelho.

A mulher da loja olhou para mim de boca aberta, assustada pela velocidade dos movimentos de Azharar.

- Mulheres! – Ele disse. – Sempre demoram a se vestir. – Ele falou brincando com os olhos e eu pude sentir – mesmo da minha sala – a mulher corar e sua respiração aumentar consideravelmente.

- Como estou? – Claudia disse, um tom de voz mixado entre duvida, vergonha e excitação.

- Linda. – Ele falou, vendo como o vestido caia em seu corpo como uma pluma, deslizando suavemente por suas curvas notáveis, encaixando-se perfeitamente sobre elas. – Vamos? – Ele disse. “Porque você está suando?” Eu perguntei confuso. “Este é meu primeiro encontro” Ele pensou demasiado envergonhado.

Eu queria me matar, não precisava de um demônio frangote e com medo de um encontro. Onde estava aquele demônio que me pedia sangue? Que me fazia fazer coisas horríveis?

- Sim. Vamos. – Ela disse sorridente.

Ele juntou suas mãos, entrelaçando todos os dedos e foi em direção ao balcão.

- Quanto custa? – Ele disse educado, mas por baixo daquela casca eu sentia sua pressa e sua excitação.

- R$ 3.500 reais; — Ela disse mordendo o lábio.

- Aqui está. – Ele disse, oferecendo-a um cartão de credito cheio de listras douradas.

- Obrigado. – Ela disse devolvendo o cartão, depois de fazer o pagamento rapidamente. – Tenham uma boa noite.

Já não havia ninguém ali, mas eu podia escutá-la pedindo a Deus um homem como aquele. Todo mundo queria um demônio.

A hostess olhava encabulada para todos os lados, procurando algo. Azharar e Claudia andaram em silencio, mantendo uma certa distancia entre eles, o que inicialmente achei estranho.

- Onde vocês foram? – Ela perguntou irritada e confusa.

- Fomos nos vestir adequadamente. – Azharar disse educadamente.

- Ahh. – Foi tudo o que ela conseguiu dizer. – Sua mesa está pronta. – Por aqui. – Ela disse mostrando caminho com as mãos.

Era incrível como eu me sentia desconfortável num lugar tão elegante – mesmo estando do lado de dentro – enquanto Azharar estava calmo, relaxado, como se vivesse na Nobreza desde os tempos antigos. Congelava-me por dentro enquanto via por meus olhos as pessoas, uma mulher elegante com um longo vestido vermelho, homens com ternos caros, os garçons falando em francês e a musica suave, colocada em plano de fundo, como uma cena de filme.

A hostess guiou-nos do grande salão — infestado de pessoas ricas — até uma saleta mais reservada, uma grande mesa de madeira imperial, um pano grande e bordado sobre esta, — nada muito diferente do resto, — a não ser pela grande vista da praia, o sol se pondo glorioso enquanto eu já podia ver a lua revogando seu reinado. As ondas do mar vinham furiosas e batiam na areia, levando com elas qualquer cosia que estivesse ali.

Ela fez reverencia para que nós nos sentássemos e saiu apressada. Azharar levantou uma mão, impedindo Sakuya de sentar.

- Eu faço isso. – Ele disse, pondo-se ao lado dela, enquanto ela elegantemente sentava-se e ele empurrava a cadeira em sua direção.

- Obrigada. – Ela disse.

Soltei uma risada demoníaca, alta o suficiente para Sakuya ouvir.

- É melhor você silenciar ele! – Ela disse irritada de repente.

“Calado!” Ele gritou. “Você sabe que se eu apanhar a dor vai para você e seu corpo.” Calei-me. Um pigarreio apareceu, fazendo-me olhar para a pequena e desajustada garçonete. Seus cabelo metade castanho e metade vermelho me deixou curioso, seu aparelho dental a deixava com feições engraçadas – senti uma vontade louca de rir – seu rosto em forma de coração e cheio de espinhas.

- Bonjour. – Ela disse, numa tentativa decadente de falar francês. – Eu serei sua garçonete hoje. – Ela disse num sorriso que me fez explodir de tanto riso acumulado. Azharar estremeceu levemente, Claudia levantou uma sobrancelha, analisando, se perguntando se isso tinha sido culpa minha; pronta para vir arrancar meu pescoço. – Então... – Ela disse, chamando nossa atenção. – O que vocês vão querer esta noite?

Azharar estava suando novamente, tremendo novamente, medroso, covarde. Forcei minha alma e se fundir à dele, colocando meu rosto-espirito colado ao meu rosto.

- Um vinho da safra de 70. – Disse sorrindo levemente. Era tão engraçado ver como um demônio em particular era tão desengonçado no amor, bem eles não foram criados para esse propósito, mas mesmo assim era ridículo ele estar nessa ocasião. — Só isso por enquanto. – Disse quando seu rosto se curvou num acento de interrogação.

- Tudo bem. – Ela disse e saiu lentamente.

- Uau. – Sakuya disse. – Não sabia que você conhecia vinho Zac. – Nesse momento eu pude sentir os olhos amarelos de Azharar me corroendo, me maltratando, implorando para que eu não me intrometesse mais. Puxei minha alma de volta para saleta VIP, e me deixei levar pela noite chegando, as estrelas aparecendo e enchendo o céu de cores.

“Seja homem.” Disse irritado. “Seja um demônio.” Continuei ainda mais irritado.

“Não se intrometa” Ele gritou em pensamento, fazendo as paredes da minha saleta tremerem. Ri nervosamente. Ela era demoníaca de um jeito ruim. Esperei enquanto ele criava coragem para começar. Era só um jantar. Não deveria ser algo tão drástico.

- Então? – Ele disse por minha boca, a voz tremula e fraca, a respiração rápida. – O que vamos comer?

Ela suspirou e levantou uma sobrancelha. Olhou apaticamente e deixou seus ombros caírem.

- Acho que isso não esta dando certa. – Disse olhando para dentro dos meus olhos, tentando alcançar minha sala.

- É. – Eu concordei. Azharar estava me dando nos nervos. Falta de confiança no amor não era algo para ele, eu era o humano idiota e tímido, eu era o fracassado e ele era quem podia ter tudo o que quisesse.

O silêncio se arrastou até a hostess voltar, pigarreando baixo. Os cabelos tapando o pescoço longo.

- Vão pedir? – Ela disse, entediada enquanto olhava para Claudia e seus olhos de repente se acenderam ao ver meu rosto, meus olhos calorosos e acolhedores.

- Sim­. – Azharar disse alegremente. – Então? Vamos pedir o que? – Disse olhando carinhosamente nos olhos dela, sua amada entediada e infeliz — como sempre.

- Posso ver o cardápio? – Ela perguntou com os olhos vazios.

- É claro que sim! – A garçonete disse envergonhada e fez uma reverencia, pedindo desculpas. Entregou um para Claudia e um para mim.

Azharar abriu a pastinha preta e dentro havia os nomes e os preços – não que o preço realmente importasse – e sobremesas, tudo organizado por subtítulos e listas de A a Z.

Fiquei esperando ele se decidir; e pelo vinco que se criou em minha testa eu podia dizer que alguma coisa estava errada, e consequentemente eu ficava mais envergonhado por um demônio imbecil e retardado.

“O que foi agora?” Perguntei derrotado.

“Não conheço nenhum destes pratos.” Ele disse finalmente – a surpresa bateu em meu estomago com tanta força que eu ri – e pareceu mais irritado. “Do que você esta rindo?”

“Nada” Eu disse rapidamente. “Vou te ajudar.” Disse vencido pelo cansaço mental que ele estava me proporcionando.

- Eu vou querer uma sopa de cogumelos. – Claudia disse apaticamente. Eu podia ver claramente que por baixo da mascara de profissional havia uma menina chorando de medo – medo do bicho papão.

“Você pode pedir um bife mal passado” A única coisa que eu conhecia que deveria ser servida em um restaurante chique.

- E eu quero um bife mal passado. – Ele disse, tentando ser educado e receptivo, mesmo tremendo e fazendo minhas mãos suarem.

A adolescente com aparelho e espinhas se retirou e então ela me olhou novamente, devastada de ódio, um verdadeiro demônio furioso. A noite escura porém linda me chamou atenção novamente – era melhor evitar seus olhos amarelos olhando para mim – a lua cheia brilhava imponente no céu azul-escuro, as estrelas dançando suavemente ao seu redor, e a garota que nos dois amamos, bem na nossa frente. Comecei a achar que eu era sortudo.

Sorte é uma palavras estranha e alienada, principalmente quando seus pais morrem e você não tem nenhum parente próximo, tornando-se órfão e tendo que ficar num orfanato; e o pior era fugir e dar de cara com uma casa mal assombrada, cheia de espíritos perturbados e gananciosos, prontos para se vingar contra aqueles que um dia os fizeram mal.

A noite clareou rapidamente, enquanto eu olhava pela janela, mas eu sabia que alguma coisa estava errada, já que ainda eram 08h30min da noite. As pessoas levantaram e foram correndo a grande janela, olhando maravilhadas ao show de fogos de artifício, enquanto continuamos sentados. O vento veio forte e de repente eu estava em pé, desviando de alguma coisa transparente e cortante. Alguns triângulos de vidro.

Azharar virou meu corpo para ver o homem esbranquiçado encarando-nos com um sorriso não amigável, o cabelo loiro de gordura e palidez eminente de seu rosto. Nezar. Encarávamos furiosamente, um ao outro, esperando o primeiro ataque, prontos para a devastação que se iniciaria. Mas dessa vez não iríamos perder. Não quando havia em risco nossas vidas, iríamos mostrar a eles todo o nosso poder, e maldade se fosse preciso.

Mas então enquanto nos olhávamos ferozmente eu escutei suspiros tristes e pesarosos e Azharar virou-se rapidamente e viu as pessoas retornando a seus lugares, o clarão do céu se dissipando na camada de oxigênio, liberando-se e carregando todo o nitrogênio para a camada de ozônio.

As pessoas pararam na entrada da nossa mesa e olhavam para mim, enquanto Nezar sorria satisfeito e piscava um olho. Pedi parar Azharar se acalmar, esse tipo de comportamento não seria bem aceito por aqui, principalmente quando todos adoravam e idolatravam Nezar, o fabuloso e tudo mais.

Voltamos a nos sentar, e Sakuya olhou para dentro dos meus olhos, agradecendo. O pequeno e majestoso gesto de Sakuya me bateu num soco frio, congelou minha garganta e queimou meu estomago, o próprio abismo caiu em minha frente, esperando que eu me atirasse, sedento pela escuridão, sedento pelo medo. Engoli em seco seu gesto e esperei que Azharar normalizasse seus pensamentos, acalmasse meu corpo.

Esperávamos em silêncio, enquanto Nezar cochichava palavras débeis e eloqüentes no ouvido de uma senhorita loira. Esperei entediado enquanto a garçonete colocava dois pratos na mesa: uma sopa de cogumelos e um e um bife mal passado com arroz e cebola no outro.

Azharar continuava a atropelar meus sentidos, suando frio e gritando por dentro. Eu já estava cansado de reclamar então eu fiquei quieto. Sakuya pegou seu garfo e espetou delicadamente um cogumelo e depois colocou em sua boca, mastigando lentamente, enquanto Azharar lentamente se preparava para pegar seus talheres. Era inútil tentar confortá-lo agora.

- Então? –­ Ele perguntouestressado. – Esta gostando?

- Sabe... – Ela começou com a face travada, raiva contida num único vaso receptor. – Nós não servimos para isso.

- Foi o que pensei. – Azharar disse, a maligna força retornando ao meu corpo, a sombra negra se encaixando perfeitamente nos contornos da minha pele, dando a ela resistência e proteção. Eu nem havia reparado que ela havia sumido.

Alguma coisa aconteceu, o tempo que passava lentamente voltara a passar rapidamente, como sempre fazia, e eu me vi perdido num monte de imagens que passavam borradas em minha cabeça, deixando-me cego, enquanto eu rodava ao redor de um mundo desconhecido, que mudava de cor frequentemente. Fechei os olhos esperando tudo ir embora; sentindo o enxofre correr solto pelo ambiente, poluindo o oxigênio. O cheiro ficou muito forte, e eu já não conseguia respirar. Me sentia estranho, eu não precisava respirar; por quê estava sufocando?

Meus olhos ardiam e minha garganta estava seca. Eu realmente não precisava de um pesadelo, e só podia ser isso. Um baque alto ecoou no quarto cheio de cores estranhas e indiferentes

- que continuavam trocando de lugar – e eu não vi mais nada.

Dor de cabeça?! Por que minha cabeça estava doendo? Por que meu cérebro queimava feito um incêndio enlouquecido. Abri meus olhos e o brilho era forte demais, guinchei de dor enquanto meus olhos se acostumavam à escuridão. Esperei em silêncio. Tudo estava silencioso. Agora eu podia entender, sentir, e experimentar tudo ao meu redor. Eu devia estar acordando. Tentei abrir meus olhos, a luz branca os machucava, mas os mantive abertos.

Eu estava agachado no chão, no restaurante, com Sakuya à minha frente olhando-me reprovadora. Levantei-me zonzo, segurando numa cadeira, sob os olhares das pessoas, que me fitavam curiosos.

- O que aconteceu? – Perguntei cansado.

- Nezar prendeu vocês dois numa ilusão. – Ela disse, rancorosa por um instante. – Você caiu tão facilmente.

Sentei-me e fiz sinal para que ela fizesse o mesmo.

- Eu nunca vi isso. – Disse num tom de desculpa. – A culpa foi minha?

- É claro. Você e Azharar precisam ser um só. – Ela disse um pouco mais alto do que deveria. Os olhares se voltaram para nós outra vez. Ela se arrumou, pigarreando baixo e esperou.

- Me desculpe. – Disse num sorriso falso e pesaroso.

- Vamos pagar e ir embora. – Ela disse rispidamente.

Assenti em silêncio. Chamei a garçonete, levantando uma mão, acenando para que ela viesse receber. Olhei nos olhos furiosos de Sakuya e pude ver os olhos calorosos que sempre amei. A garçonete me “obrigou” a olhar em seu rosto cheio de espinhos, que mostrava um sorriso tímido.

- Aqui esta sua conta. – Ela entregou um papel sobre uma pequena pasta preta. Peguei minha carteira e entreguei a ela um cartão, tão brilhante quanto um diamante e o entreguei para ela. – Volto num instante. – Ela disse já se retirando.

– O que foi? – Perguntei a Sakuya, que me olhava com desdém.

Não importava por quantas vezes eu olhasse, ela sempre me encarava como se eu não fosse bom o suficiente para ela, como se eu fosse um escravo e ela a filha do rei do castelo.

“Azharar?” Perguntei.

“O que foi?” Ele perguntou numa voz cansada.

“O que eu fiz foi muito grave?”

“Você nunca passou por isso.” Ele dizia rapidamente. “Aquela foi uma magia muito antiga. Foi criada em meados do século XIV, quando as bruxas ainda eram mal julgadas.” Ele contava a historia que passava em slides em minha cabeça, as bruxas sendo queimadas nas fogueiras, uma estrela dentro de um circulo, uma lince deitada, um campo verde... “Havia um demônio muito sábio, ela somente usava feitiços, fora uma bruxa antes de ir para o inferno então ela sabia como fazer isso. Ela criou um encantamento muito poderoso, e o mesmo criara uma ilusão, e esta se jogada sobre um recipiente, no caso um ser com raciocínio, o torna preso em uma grande ilusão, é como se você vivesse aquilo, tão intensamente que se você morresse sentiria a dor de deixar a vida.”

Cada palavra dita em pensamento por ele me fazia tremer e suar frio, mesmo eu já tendo passado por isso eu não tinha pensado nas consequências, só podia esperar que meu fim chegasse. A cada segundo eu o via mais próximo, arrastando-se friamente para perto de mim, deixando-me à beira de um abismo infinito, e eu sempre cairia, não importa o quanto eu tentasse escapar.

“E não tem como se defender disto?” perguntei atordoado.

“Não sei dizer.” Ele pensou tão baixo que sua voz mental quase não foi captada por mim. “Mas acredito que haja.”

- Vamos embora. – Disse por fim.

Levantamos e asperamente Claudia me dera um sorriso, e eu não pude agüentar a dor que o mesmo me causava. Não sabia por que mas Sakuya nunca gostara de mim, como se eu fosse o animal que ela mais odiava, como uma aranha ou uma cobra; mas estes não fariam a ela algum dano, ou ameaça.

- Aqui está seu cartão. – A garçonete me entregou o mesmo e eu andei para fora do grande restaurante, com os olhos de uma caçadora atrás de mim.

A noite estava fria e a cada animal noturno nos encarava enquanto passávamos a pé, andando silenciosamente para o hotel. As ruas estavam quase vazias, e tudo no que eu podia pensar era em como seu ódio por mim deveria ser imenso.

Esperava que um dia, talvez, ela pudesse me contar, me dizer os seus motivos; mas sendo ela um demônio a resposta mais adequada seria que os motivos não existiam e que isso era apenas sua maneira de existir no mundo. Eu podia sentir todo o seu vigor imposto num corpo lindo, sua aura demoníaca brilhava visivelmente, cada mancha preta, quase transparente, um tecido puro e caro.

O hotel estava silencioso, a recepcionista entediada, o mundo em torno de nós parecia se aquietar, mas o piro de tudo era o silencio de sua voz.

Subimos em silencio. O elevador abriu suas portas, esperando, nos convidando a entrar, e suspirei explicitamente, deixando minha angustia e meu desapontamento serem liberados de uma forma não assassina.

O quarto parecia o mesmo, a não ser pelo cheiro estranho e diferente que se infestava em cada canto, poluindo o oxigênio, destruindo as bactérias, um cheiro tão doce que me deixou enjoado.

- Alguém esteve aqui! – Disse alerta.

- Isso eu já sei. – Sakuya disse colérica. – Será que você já percebeu quem é?

- Deve ser Nezar. – Eu disse categoricamente.

- Ahh. – Foi tudo o que ela falou.

O cheiro estava insuportável e eu não conseguia ficar mais ali, então abri as janelas, empurrando o vento com as minhas mãos, fazendo ondas com o oxigênio, nitrogênio e carbono, juntando toda a química neste meio e empurrado-a para fora do quarto.

Deitei-me na cama, ao lado dela, e me deixei apagar por instantes muito curtos, onde me perdia numa escuridão medonha, cercada de uma coisa que eu não conhecia...

Notas finais
Ainda estou escrevendo o capitulo 7, Então pode demorar um pouco!