V2 - Vinculo Demoníaco
3 Rumores
O silêncio era perturbador a não ser pelo barulho das empregadas fofocando na recepção...
... Você tinha que vê-los! A menina era tão selvagem... – Suzane fez aquela maldita pausa dramática, prolongando a trama. – E mesmo assim, ela era doce. Você tinha é que ver o garoto. – Ela suspirou, percebi pela sua respiração que ela estava tentando se recompor. – Ele é lindo, os cabelos e os olhos negros. Só que ele é meio nervosinho. Por que ela tinha que sussurrar a ultima palavra? — A outra mulher só dizia os “arrãs” e “ahhs”, todos nos momentos certos. – Os dois devem ter uns dezessete ou dezoito anos. Acho que eles são recém casados. – Ri. Isso era algo que eu queria, mas... Deixei as palavras desaparecerem, me desligando do mundo em volta de mim.
Já se passara cinco horas desde que Claudia saíra para fazer alguma coisa na cidade e eu não havia me mexido um centímetro, só uma estatua de cimento deitada na cama. Imobilidade e desânimo eram minhas especialidades. Eu ficava assim quando estava deprimido.
O sol forte do meio dia deixava o tempo úmido, quente demais e se transformava numa pele postiça que cobria meu corpo e me deixava queimado. A paz era algo bom, mas eu não gostava dela quando combinada com o branco do dia. Eu só gostava da escuridão.
Resolvi descer e conhecer a cidade, ver lugares e pessoas, – embora eu fosse meio estranho, não havia motivos para que me odiassem – eu precisava disso, talvez nem precisasse, mas eu queria diversão.
A recepção do hotel estava vazia como sempre, a não ser pelas duas senhoras fofocando sobre mim. Elas pararam no mesmo momento e me encararam, por muito tempo. Isso me deixou envergonhado.
- Você vai passear? – Perguntou Suzane, curiosa.
- Não é da sua conta. – Falei rispidamente.
- Cruzes em credo. – Reclamou enquanto eu estava saindo, às pressas. – viu? Eu disse. Ele é lindo, mas é muito nervosinho. – Falou Suzane orgulhosa por enfim provar que estava certa.
- Eu adoro homens nervosinhos. – Disse a outra empregada. Eu só ri...
A cidade à tarde era um caos, carros e pessoas passavam para lá e para cá nas ruas asfaltadas e cheias de lojas. O ar continuava poluído demais e eu respirava o menos possível – embora eu nem precisasse respirar – para não me poluir por dentro.
O barulho das buzinas e de gente xingando era insuportável – para mim, uma vez que minha audição era muito maior do que a dos humanos. Andava tranquilo pela cidade, sempre procurando por ela.
Um mundo chato era esse para mim. Mas eu não me importava, afinal isso deveria ser férias, eu deixaria me divertir. O meu senso de diversão estava muito longe da minha realidade, da minha existência, desde que nasci.
A noite estava chegando, as luzes dos postes começaram a iluminar a rua que agora estava quase pura. O tempo passou rápido e isso me encabulou. Não era para ser assim.
Eu ainda estava sentado no banco que ficava perto de um beco escuro e vazio. A noite estava fria e silenciosa, eu gostei. Espreguicei-me no banco de cimento e quase perdi um movimento rápido de uma sombra, rápida demais para ser uma pessoa normal.
Automaticamente meu corpo se enrijeceu, os olhos ficando amarelos e eu senti as células de Azharar correram soltas por minhas veias. Esperei, mas a sombra não voltou. Levantei-me e corri até a ponta do beco. Um segundo foi o tempo que levei para alcançar a ponta.
O lugar estava vazio, escuro e silencioso. Não havia nada a não ser escuridão. Um lugar perfeito para mim, mas algo me deixara alerta, eu sentia o perigo perto de mim.
“Tem alguma coisa errada aqui!” Disse Azharar urgente.
“Eu sei.” Respondi alertado.
“Você está sentindo esse cheiro de enxofre?” Perguntou ele estranho.
“Sim.” Falei irritado.
“É melhor irmos.”
- Miau... – Gritou um gato preto no alto de um prédio, o prédio à esquerda.
Ele me encarou por um bom tempo e depois se afastou, me deixando sem visão. Eu podia jurar que aquele não era um “gato” de verdade. Fiquei imóvel, decidindo se devia ou não pular para descobrir isso.
“Então?” — Perguntei.
“Vamos.”
Olhei em volta para ver se alguém estava vendo e pressionei meus pés firmes no chão frio e sujo. Joguei-me para o alto, levemente, como se uma pena estivesse caindo para cima. O telhado tinha uma caixa d’água azul e velha e um filtrador de ar que rodava e rodava...
- Miau. – Disse o gato que eu procurava.
Encarei seu rosto fofo e cheio de bigodes brancos e ele rebateu meu olhar. Os olhos tão amarelos quanto os meus. Esperei. O gato se mexeu, um pequeno movimento com a cabeça, e miou furioso para mim.
“Azharar?!” Convoquei. “Ele é um de nós?”
“Sim, mas não consigo identificá-lo.”
O gato miou novamente e desapareceu na escuridão, literalmente se esvaneceu, desapareceu com o vento.
“Ele parece ser bem forte.” Pensei com raiva, uma inveja súbita nascera.
“Sim. Ele é mais forte que Baudy.” Mais raiva cresceu queimando pelo meu esôfago. “E você sabe...” começou ele, “Até Sakuya é mais forte que nós, ela tem mais tempo e experiência que nós dois.”
“É.” Foi tudo o que consegui dizer.
Fiquei ali olhando a lua cheia, a noite fria. Era uma linda noite. Tudo fazia sentido quando eu ficava ali, parado, vendo o mundo passar, o vento e tudo o que ele trazia, seu cheiro e cada partícula que vaga durante o dia.
- Você gosta mesmo da escuridão não? – Uma voz perguntou, uma voz que fazia Azharar queimar.
- Sim. Azharar respondeu. – A escuridão é a minha única paz. – Falei. Não havia 1% disso que não fosse verdade.
- Essa sempre foi a minha resposta. – Disse outra voz, tímida; que sempre fazia meu coração acelerar.
- Pelo menos nisso nós dois combinamos em alguma coisa. – Falei rindo. Ela veio andando e parou atrás de mim.
- Eu gosto de você. – Ela parou.
Meu coração parou de bater. Senti Azharar dar uma porrada nele, ele voltou a funcionar. Saiu desesperado do km zero e foi aos 310, 310 batidas por minuto que me faziam ofegar. Virei-me para ver seus olhos, mas ela abaixou a cabeça, como sempre fazia, para se livrar dos meus olhos.
- Eu também gosto de você. – Disse puxando seu rosto para cima.
Ela me olhou nos olhos, “milagre” pensei. Azharar riu debochando. Vi-me chegando mais perto, as mãos indo para suas costas; os corpos chegando mais perto. Era estranho, ela ainda continuava olhando nos meus olhos, não fugia de mim, como sempre fazia.
Meus lábios pararam a dois centímetros dos dela e esperaram os seus. Eu estava esperando que ela viesse me receber. Seu hálito frio entrou na minha boca e eu fechei os olhos, esperando que ela me beijasse.
Ela se afastou, se desvencilhando dos meus braços, facilmente; dera um passo para trás e seus olhos fugiram de novo. Esperei, o arrependimento tomou conta do meu corpo, a dor queimava dentro de cada célula normal e demoníaca dentro do meu corpo.
- Desculpe. – Disse ela timidamente.
- Não tem problema. – Falei, mas com certeza ela percebeu a raiva e a dor que me possuíra.
- É só que... – Disse ela tentando encontrar as palavras certas, era como se ela estivesse lutando com o dicionário. – É muito difícil para mim... – Percebi que ela nem conseguia e nem iria terminar.
- Entendo. – Disse eu finalizando esse assunto. Eu suportaria a dor da rejeição uma outra hora. – Você não tem que me dar explicações. – Falei rispidamente.
- Tudo bem. – Falou ela tímida.
- Então? – Falei tentando chamar sua atenção. – Vamos voltar para o hotel?
- Vamos.
O quarto estava como deixei, mas era obvio que, pelo cheiro, Suzane esteve aqui. O cheiro do seu perfume vagabundo fazia o meu nariz arder. Só havia uma cama de casal e alguém se divertiria se Azharar e Sakuya resolvessem brincar.
- Er. Você pode deitar aí. – Falei sem graça.
Não. – falou ela numa estranha mistura de surpresa e exaltação. – Você pode dormir. Eu fico acordada. – Falou ela mais envergonhada do que eu.
- Então vamos os dois. – Meus olhos se arregalaram e ela ficou tão vermelha que eu pensei que ela estava enfartando. Ela desviou seus olhos e fingiu por um momento que eu não existia. Respirou fundo e me olhou. – A cama é bem grande.
Ela se deitou, tensa e estranha, e eu a acompanhei tomando o lado direito da cama. Fixei os olhos no teto e ela fez o mesmo. A noite quente e abafada era insuportável, mesmo com o ventilador de teto que eu não tinha reparado antes.
Senti-me muito incomodado, e o pior era que ela estava ali, do meu lado. Eu queria tocá-la e fazer seu corpo se arrepiar com meu toque, queria fazê-la corar de vergonha. Eu a queria para mim.
Virei para ficar de costas para ela. Ela virou-se para mim, notei pela sua respiração que ela estava indecisa – se deveria ou não fazer algo –, e eu só esperei seus comandos. Me virei para ela e seus grandes olhos negros estavam me encarando, indecisos.
O silêncio era constrangedor. Respirei fundo e minha mão foi ao encontro dela; que estava perto do meu joelho. Segurei seus dedos com garras e mármore. Ela me permitiu esse contato por alguns segundos antes de soltar sua mão da minha.
Seu rosto corou, um sorriso malicioso nasceu nos meu rosto e seus olhos brilharam. Azharar estava conscientemente quieto, pensei até que ele estava dormindo. Provavelmente pensando na Sakuya. Eles tinham uma ótima relação e sempre acordávamos pelados, eu e Cláudia, vermelhos de vergonha.
Ela suspirou; tirou-me dos meus pensamentos e de novo me foquei em seus olhos, furiosos e doces ao mesmo tempo. Ela mordeu o lábio inferior. Isso me deixou nervoso. Todas as células do meu corpo dispararam; o coração a 310 batidas.
Inclinei-me para chegar mais perto, os lábios quase unidos e os olhos correndo em chamas de desejo. Sua respiração ficou quente e queimou meu pescoço e seu hálito doce me completou, me fez chegar ao inferno no mesmo instante. Seu hálito me fez pensar em coisas obscenas e sexuais.
Respirei fundo, tentando criar coragem para continuar; embora eu quisesse beijá-la, sua vergonha sempre me intimidava. Cheguei mais perto e quando enfim criei a coragem para beijá-la seu rosto se virou, deixando-me frustrado.
A dor me engolira. A rejeição esta noite foi praticamente a maior dor que eu já sofrera. Um buraco negro se alojou no lugar vazio onde meu coração deveria estar. As lágrimas e a tristeza possuíram meu corpo. Uma imagem estranha de Azharar cobrindo um buraco negro com uma massa roxa me veio à cabeça.
“Pare com isso” Ele ordenou.
“Parar com o que?” perguntei.
“Pare de pensar na dor! Não estou conseguindo fechar esse buraco dentro de você.”
“Ahh... tudo bem.”
O silêncio parecia arranhar meus ouvidos. Ela não se mexera um segundo sequer desde a ultima rejeição.
- Está quente não? – Falou ela, destruindo meus pensamentos.
- Um pouco. – Disse.
- Estou suando.
- Tudo bem. – Disse me levantando da cama.
- Aonde você vai? – Perguntou ela de repente alarmada.
- A lugar nenhum. – Disse parando no meio do quarto.
Ela me olhou interrogativamente, e antes que ela pudesse perguntar algo eu a silenciei. Olhei todo o quarto e levantei as mãos na altura do meu peito, sentindo a atmosfera.
Apontei meu polegar para o canto do quarto esquerdo do quarto. Uma fina linha de gelo começou a sair do meu dedo, indo para o canto, transformando-se numa escultura de um pingüim, um pingüim de gelo. Os dois que criei tinham a boca aberta e de lá saia uma infinita corrente de ar gelado, deixando o quarto mais equilibrado e menos abafado.
- Obrigado. – Ela me respondeu. Voltei para a cama, deitando do lado dela.
Ela não falou mais durante toda a noite. Eu também fiquei quieto, parado enquanto o buraco negro me engolia.
O dia amanheceu frio e nublado, como meu corpo estava. Ela se levantou e saiu em direção ao banheiro, e eu continuei morto na cama, ignorando tudo o que eu tinha. Os espasmos dos meus músculos, a voz de Azharar me importunando e as pernas dormentes.
-... Menina você não sabe! – Dizia Suzane da recepção. – Eu estava lendo o jornal hoje e vi uma reportagem sobre três crianças que morreram. – Ela sempre dava aquela pausa dramática para aumentar o suspense. – Dizia a reportagem que o assassino arrancou o coração das crianças, mas sem cortá-las. — Levantei-me rápido demais e vi Claudia aparecer do banheiro, escutando. – Os policiais disseram que o coração só poderia ser tirado pela boca e que isso era praticamente impossível. – fofocava ela sem parar, enquanto eu me arrumava para sair.
- Você acha que pode ser um demônio? – Perguntou Claudia com os olhos amarelos.
- Eu não sei; mas parece que uma pessoa normal não consegue fazer isso.
- É; eu sei. — Disse ela olhando pela janela.
- Bom! – Disse eu tirando sua atenção do nada. – Por que não investigamos? – um sorriso malicioso foi a minha resposta.
- Claro. Não temos nada para fazer mesmo.
Era sempre a mesma coisa, Suzane sempre se calava todas as vezes que passávamos, só para depois começar o seu discurso sobre como éramos estranhos e diferentes. Ela nunca se cansava de falar do mesmo assunto, e a camareira já estava ficando cansado do mesmo tema.
A rua estava cheia de gente, lotada de pessoas com fantasias, mas ambas carregavam um pequeno coração de brinquedo, que ficava pendurado na cabeça de cada fantasiado. Os prédios em volta estavam pintados de vermelho, e em cada parede havia um desenho abstrato colado, pessoas olhando pela janela.
A diversidade das fantasias era incrível, desde a mulher encapuzada com uma grande foice na mão até as coelhinhas rosas, encostadas na parede da entrada do hotel onde estávamos. No lado direito da entrada estavam os vampiros e os lobisomens, a direita deles estavam os súcubos e íncubos.
Esperei. Claudia parou atrás de mim, pondo as mãos nos meus ombros, assustada.
- O que é isso? – Perguntou enquanto estávamos sendo empurrados pela multidão enlouquecida. Ela segurou minha mão.
- Eu não sei. – Gritei para que minha voz se sobressaísse na multidão.
- Que merda. – Ela disse e eu fiquei impressionado. A doce e tímida Claudia havia falado um palavrão.
A multidão nos empurrava freneticamente pela rua enfeitada de vermelho. As pessoas gritavam e jogavam confetes das janelas enquanto a marcha era tocada por homens de ternos brancos e chapéus vermelhos.
De repente tudo parou, e tudo o que eu pude ouvir depois disso além das respirações foi o barulho da lata suada de refrigerante de um garotinho gordo que estava encostado na parede.
Todos se abaixaram, fazendo reverência quando um homem apareceu de costas num palanque montado no fim da rua. Um palanque do tipo cerimonial, Grandes cortinas vermelhas entreabertas num arco de 180°. Uma cadeira de ouro estava no centro e o homem vestia aquelas vestes antigas – luxuosas e mofentas – um rei clamando seu trono.
Ele possuía em sua mão um coração negro que parecia ser de mármore. O apontou para cima. Olhei para ela e nós dois nos abaixamos. Ele se virou, observando seu publico ingênuo com seus grandes olhos azuis, a maneira como todos estavam o reverenciando.
Ele olhou satisfeito e acenou brevemente antes de abrir a boca. Claudia enrijeceu seu corpo e seus olhos começarem a se transformar num amarelo-sol. Sibilei um “controle-se” e ela respirou, parecendo relaxar um pouco.
Ele sorriu tão maliciosamente quanto eu antes de voltar a se concentrar.
- Olá amigos de Razencity. — Disse ele alto e claro. – É um prazer tê-los aqui no dia do coração negro. – Olhei para todos os lados e todas as pessoas pareciam estar adorando o show ou qualquer que fosse essa cena. — Como vocês sabem; este é um dia muito especial na minha genealogia desde os princípios. E vocês são parte disso. – Essa conversa estava me irritando. – Bem. – Gritara ele me deixando irado. – Já chega de conversa boba. Vamos começar essa festa.
Os gritos de urra e urruh eram altos demais no meu ouvido. A mão de Claudia apertou a minha e começou a me arrastar entre a multidão. Eu nem precisei me mexer, ela era forte o suficiente para me carregar sem esforço.
Levou-me para um lugar mais espaçoso e me fez olhar para ela enquanto as batidas e os gritos recomeçavam. A folia não parecia ter fim e ficamos ali parados até o fim da tarde. O crepúsculo estava lindo, contrastando-se com as luzes da cidade enfeitada de vermelho.
- Vamos voltar. — Disse ela quebrando o silêncio que durou mais de cinco horas.
Apenas assenti...
Voltamos em silêncio para o hotel onde Suzane continuava. Parecia que ela nunca saía de lá. Dei um olhar significativo para Claudia e ela parou abruptamente. Me virei para Suzane dando o maior sorriso possível. Ela se assustou, mas seu coração acelerou e foi quando percebi que ela havia gostado.
- Suzane. Você está ótima. – Comecei elogiando-a. Claudia olhou para mim, questionando.
- Por favor. Não diga isso – Perguntara ela, mexendo em seus cachos estranhos. – Sua esposa pode não gostar! – Disse sem graça. – Você acha mesmo?
- Claro que sim. – Concordei rapidamente. – Eu sinto muito pelo meu comportamento inadequado das ultimas vezes. Será que você pode me perdoar? – Fiz meus olhos arderem de culpa, algo que Azharar me ensinara a fazer para forçar as pessoas a concordarem comigo e a me ajudarem. Ela suspirou, ofegando um pouco.
- É claro que sim. Todos nós temos dias ruins. – Respondeu ela com um sorriso gigante, algo que fez seus pés de galinha aparecerem.
- Essa cidade é fantástica! Essa festa de hoje é muito interessante. Quisera eu conhecer as histórias daqui. – Disse pensativo, encarando o teto de madeira, um dedo no queixo, atuando.
- Você quer que eu te conte a historia do coração negro? – Disse ela excitada, doida para contar sua historia. Claudia sentou-se numa cadeira três passos atrás de mim. Mostrei um sorriso malicioso e Claudia se sentou um pouco enrijecida. Deve ter percebido uma nova história.
- Você poderia nos contar? – Perguntei suplicante, e aliviado. Pude sentir meus olhos queimando de ternura. Azharar estava me ajudando.
- Claro que sim. – Ela sorriu. – Há muito tempo atrás essa cidade era governada por três anciãos... – Minha mente correu para Caius, Robert e Dara. – Eles eram Vivaldi, Bach e Jadi. – A similaridade era algo que estava me deixando maluco! Senti o gosto de veneno e de sal na minha boca. Azharar estava nervoso, e de vez em quando dizia coisas ininteligíveis – Eles mantinham a cidade a salvo, mas faziam todos de escravos. Não tinham hora para parar, só paravam de trabalhar quando os três ordenavam. Havia guardas por todos os lados. A cidade era fechada por muros gigantescos de pedra. Ninguém conseguia fugir e quando tentavam eram pegos e uma festa na cidade se iniciava. – Fiquei curioso. “Quando pegavam alguém eles serviam cachorro quente e cerveja?”
- Como assim festa? – Perguntei incrédulo.
- Não me interrompa. – Pediu Suzane, o rosto corado de frustração. – Não era uma “festa” – Disse enfatizando a festa. – Era mais como um show de demonstração. – Claudia segurou a minha mão e a apertou forte e insistentemente. A dor veio pelo choque elétrico que recebi, ela percebeu e então relaxou. – Quando alguém era pego fazendo algo errado os três anciãos chamavam todos e colocavam essa pessoa num palanque de madeira com o chão removível e tapavam sua cabeça com um grande saco preto. Os três iam até essa pessoa e cortavam-na, numa linha abaixo do pescoço e acima do umbigo, uma linha vertical; enquanto a pessoa gritava. – Eu podia imaginar perfeitamente a cena; o quanto o homem gritaria enquanto seu sangue estivesse escorrendo, o quanto ele sofreria por sentir seu corpo frágil aberto e exposto. Eu conseguia sentir o êxtase e a fome passando pelo meu pescoço fazendo minha boca se encher do gosto de enxofre. Azharar estava se sentindo muito bem, como eu já suspeitava. – Eles a deixavam viva, sabe? Só faziam um corte superficial. Então os três abriam o corte e arrancavam o coração. Depois eles levantavam o coração para o alto. Eles sempre usavam as mesmas palavras.
- Quais são? – Disse empolgado.
- Calma! – Gritou ela. A fúria começou a subir no meu peito.
“Controle-se Zac.” Ordenou Azharar também furioso.
“Eu juro que se ela vier ao meu quarto eu arranco o coração dela.
“Promete?” Pediu ele.
“Claro que sim.” Pude ver seus olhos amarelos brilhando no fundo do meu subconsciente.
- Então? – Perguntei irritado.
- Tudo bem. – Ela disse derrotada; por meus olhos pedintes.
– Aqueles que fogem de suas vidas perdem seu coração. Era uma cerimônia macabra, as pessoas ficavam horrorizadas. Porém... – “Ela tinha que fazer uma pausa dramática!” Gritou Azharar enraivecido.
- Porém o que? – Perguntei, parecia que eu estava me alimentando da história.
- Um dos três anciões – Recomeçava ela. – Era um demônio. – Seus olhos se arregalaram, um sorriso malicioso apareceu, a expressão de “sou idiota” no rosto.
- Um demônio? – Arfei, mostrei a ela um tom de incredibilidade que qualquer ator de cinema morreria para ter – mas não era o que eu sentia. – Apertei a Mao de Claudia e ela foi quem sentiu o choque elétrico se dissipar.
- Que história interessante. – Disse Claudia por fim simpaticamente. – Ela me assustou.
- Sim. É por isso que esse dia é chamado de Dia do Coração Negro. – Seu rosto se ruborizou, estava em chamas pelo sucesso de sua historia.
- E qual era o nome desse demônio? – Perguntei sentindo veneno correr nas minhas veias, o gosto de sal e ferrugem nadando na minha garganta. Senti vontade de me agachar, ficar como um guepardo.
— Seu nome era Nezar.
- Nezar? – Perguntou Claudia sufocando. Tive aquela sensação de que havia algo errado. Pareceu-me que ela já o conhecia.
- Sim. Ele foi um demônio muito poderoso.
- O que ele fazia exatamente? – Deixei no ar um tom muito humano; sede de fofoca. “Ela vai pensar que vocês podem ser amiguinhos íntimos” uivou Azharar no meu ouvido, rindo da minha cara.
- Ele bebia o sangue e depois roubava o coração. Cada coração que ele tocava ficava negro. Ele se parecia com um vampiro, sabe? – Ela estremeceu com a palavra.
- Como você sabe que não era? – Perguntei ríspido.
- Ele estremeceu quando uma mulher com jeito de gato – ela torceu o nariz ao se lembrar da cena – falou umas palavras em latim para ele. Dizem alguns senhores daqui que ela estava falando um exorcismo.
- Ah. – Foi tudo o que eu precisava ouvir.
- Sabe? – Interrompeu Suzane. – Ela se parecia muito com você. – Disse ela envergonhada. Mas não poderia ser você! Afinal você só deve ter quinze anos. – Disse dando de ombros.
- Dezessete. – Confirmei.
- Hum. – Disse ela pensativa, olhando praqueles olhos felinos e mentirosos. Azharar estava me queimando. A frustração máxima havia chegado ao meu corpo com um tablete gigante de êxtase. – Ela não é muito nova para estar casada?
- Isso não... – Parei; não podia tratá-la mal. Talvez fosse precisar dela no futuro. – Eu pedi aos pais dela quando ela tinha dezesseis. – Ela olhou para Claudia, imóvel e pálida. Teríamos uma longa conversa depois.
Eu não havia entendido o porquê dela ficar tão nervosa quando o assunto começara; até aquele momento. Não havia entendido o motivo pelo qual ela não queria vir para cá. Tudo estava tão claro quanto um raio de sol, e eu simplesmente odiava a claridade.
- obrigado. – Disse à Angela. – Bem, é melhor subirmos.
Ela estava paralisada, uma estatua viva, nem fingia respirar – embora não precisasse, pois só nós dois estávamos no quarto — nem fingia estar viva. A carreguei até o quarto. Azharar estava silencioso na minha cabeça. Ele sempre resmungava por tempo integral então estranhei esse fato.
Esperei que ela se recompusesse, saísse desse transe em que ela estava afundada. Ela não falou nada por muito tempo, mas não consegui perguntar nada para ela.
Já eram duas da manhã e a rua estava deserta, a não ser pelos quinhentos quilos de sujeira espalhados por todo o calçadão. Vi pela janela que poderia sair sem que me notassem,.
Eu estava no sexto andar e não seria problema pular dali. Olhei fixamente para o chão e num movimento rápido estava com os pés na calçada, flexionados, amortecendo meu corpo. A porta do hotel se abriu. Fiquei paralisado.
- Ohh querido. O que está fazendo aqui? – Perguntou a voz dramática e chata.
- Eu vim ver as estrelas. – Disse limpando a garganta. Podia sentir sua mão se movendo lentamente à minha cabeça e me virei rápido demais. Ela pulou. – Desculpe-me por isso.
- Tudo bem. – Respondeu ela pálida. Me virei para olhar em seus olhos, assim ela se esqueceria de tudo depois que sua respiração aumentasse o ritmo e suas mãos começassem a suar. – Tudo bem! Mas como você saiu?
- A porta estava aberta. – Disse como se fosse por acaso. – Vou dar uma volta por aí.
- É perigoso. – Disse ela preocupada.
- Eu sei me cuidar.
- E a sua esposa?
- Ela ficará bem. Seu hotel é um lugar muito seguro. – Ela apenas assentiu e então sorriu.
- Só tome cuidado. – Assenti com um sorriso de agradecimento.
- Pode deixar.
A rua deserta se parecia com um cenário de filmes de terror, o vento frio e forte estava circulando por todos os lados. As luzes e os outdoors vinham como flashes na minha cabeça. Tudo o que eu queria era uma floresta.
Já estava cansado de vagar entre as esquinas. O cheiro de folha molhada veio com o vento frio. “Achamos” gritou Azharar. “Isso é bom.” Garanti. “Vamos logo.” Gritou ele frustrado.
Fui colocando os pés, sempre um na frente do outro. Eu estava a mais de cento e cinqüenta quilômetros por hora, mas via meus pés correndo como se eu fosse um humano lento e fraco.
Sempre da mesma forma. As casas e apartamentos passavam como as bactérias que voavam no ar, tão minúsculas e terrivelmente grandes, e eu podia me desviar de todos com facilidade. Lá estava minha floresta chuvosa.
A floresta era tão verde que mesmo na escuridão a cor se sobressaía. As arvores finas e cheias de muco molhadas pela chuva noturna. O chão com plantas que chegavam a minha cintura. Já estava tão longe da cidade que qualquer bola
Negra de fogo atirada ao céu não seria vista por um olho humano.
“Zac! Quero te ensinar uma coisa nova, então é melhor aprender rápido.
“Tudo bem.” Pensei decidido. “Fale logo.”
“Você pode manipular as coisas. Fogo, água, terra e mais. Agora eu vou te ensinar a manipular a mente e a fazer com que ela seja seu passaporte para a diversão. – Pensou ele, se prolongando na palavra “diversão”.
“Vamos começar”.
“Quero que concentre sua fúria no meio da testa, como se fosse soltar um raio de lá e depois que com as mãos faça duas bolas negras de fogo e as jogue para cima com toda a sua força.
Comecei a tentar, mas era difícil me concentrar na testa e criar bolas de fogo com as mãos. As mãos queimando com as labaredas que surgiam do globo flamejante. Os dedos curvados formando um circulo.
Tudo estava ficando quente; quente demais para continuar com as brincadeiras.
“Jogue-as para cima.” – Ordenou ele.
Habilidosamente as joguei para cima e apontei um dedo na direção da bola negra que ia para a esquerda.
“Agora diga Rhazhart e poderá manipular tudo.”
“Até parece.” — Disse eu sem acreditar.
“É só tentar.” Pensou ele me encorajando. “Diga”.
As duas bolas negras já estavam bem distantes. Apontei novamente para a bola esquerda que queimava na atmosfera e as palavras saíram assobiadas da minha boca.
- Rhazhart.
Tudo parou, ficou cinza. Como se o tempo tivesse parado, uma câmera lenta de uma câmera lenta. A bola de fogo continuava queimando, como se soubesse o que tinha que fazer e a quem obedecer. As células andavam lentamente por todo o espaço vago, tudo em volta do meu corpo estava estranho, cheio de pequenos pontos pretos.
“Entendeu?” perguntou ele.
“Mais ou menos.” Disse sinceramente.
“Cada ponto preto significa seu nível de poder de acordo a aceitação do ambiente. Entendeu?”
“Bom...” Ele havia me pegado. Não entendi nada. Ele riu.
“Esses pontinhos pretos são o seu poder. Quanto mais tiver mais forte você será. Mas você deve saber que o ambiente interfere nisso.”
“De que tipo de interferência você está falando?” Perguntei curioso.
“Uma interferência angelical.” Meu corpo começou a tremer.
A maldita palavra começou a me corroer. Cada músculo do meu corpo começou a queimar. Uma dor infernal. O sangue corria feito louco por todas as ruas dentro da minha pele. Eu parecia estar num terremoto.
Os olhos vermelhos ensanguentados e frios, as presas soltando veneno e o maldito gosto de veneno e enxofre. Tudo parecia tentar me tirar desse corpo, como se eu fosse o parasita, como se eu fosse o errado ali.
- Não fala isso. – Gritei para ele enquanto me contorcia de dor.
A dor parou.
“Desculpe-me por isso.” Disse ele debochado. “Essa é a dor mínima que uma presença celestial pode te causar; então é melhor correr se pressentir um por perto.”
“Vamos continuar!” Pensei dando um fim àquela conversa.
As duas bolas de fogo continuavam vivas, queimando negramente, esperando pelo meu comando.
“Comande!” Disse Azharar pensativo.
Meu dedo apontou para a chama negra, mas sem que eu percebesse isso. O extinto era tão grande que às vezes eu achava que fazia as coisas sem perceber. Fui mexendo a mão para os lados, um movimento sincronizado com uma das únicas coisas vivas ali.
- Acho que entendi.
“Rhazhart off.” Disse ele.
As cores começaram a parecer lentamente. O azul clarinho do dia nascendo misturado ao laranja do sol. Eu odiava o sol. Os troncos votando ao marrom e as folhas ao verde escuro. O canto alegre dos pássaros estava começando a me enjoar, como se fosse uma orquestra daquelas antigas.
“Entendi. Vamos voltar.”
“Sim!”
A cidade já anunciava seus primeiros visitantes, pessoas com mochilas grandes e coloridas, passeando sem rumo por todas as ruas. Eu não poderia passar correndo por ali, já que estava meio sujinho.
“Ahh. Ainda não te ensinei a se transformar no seu tipo animal certo?” Eu nunca havia escutado sobre o tipo animal. “Tudo o que você tem que fazer é falar opitlamina e seu animal aparecerá.”
“Fácil.” Pensei.
Um beco quase escuro foi o mais seguro que pude encontrar. Olhei em volta para ver se alguém estaria vindo. Pelo cheiro e o som decidi que ninguém estava por perto.
- Opitlamina.
Senti o grito ensurdecedor de um guepardo.
Mal consegui reparar. Quando percebi já estava com as quatro patas no chão. Um monte de pelos por todo o corpo e um olhar periférico muito diferente e especifico despertaram. Os olhos se transformaram. A íris antes redonda se transformou, como se um corte tivesse aparecido nos meus novos olhos.
“Não posso sair assim” Rosnei para ele.
“Claro que pode.” Disse ele rindo.
“Idiota” Xinguei ele.
- Opitlamina off. – Disse com exatidão. Saí correndo para casa, mesmo sujo...
- Ohh querido Zac? – Disse Susane me interrompendo enquanto eu subia as escadas. – Você está horrível! Tão sujo e desarrumado.
- Eu estava passeando na praça principal. Ela é enorme e há muitas arvores nela. Bem, você as conhece. Havia um bêbado deitado na grama e quando eu passei não o vi. Eu caí de cara no chão. Por isso estou meio desarrumado.
- Não está com sono querido? – Perguntou ela preocupada.
- Não. Eu não durmo muito sabe? – Perguntei casualmente, só por perguntar. – Acho que sou como você né? — Perguntei sorrindo.
- É! Acho que sim. – Disse ela como se eu tivesse descoberto um segredo.
- E você? – Me olhou com aquela cara de interrogação. – Não está com sono?
- Não! – Ela se apressou a responder. – Eu durmo pouco também.
- Tudo bem! Eu vou subir e me trocar. Tenha um bom dia.
- Você também querido.
A porta estava fechada e não havia barulho algum dentro do nosso quarto. Quase fiquei com medo. Abri a porta silenciosamente e esperei algum comentário, mas nada aconteceu. Ela ainda estava deitada na cama, a coberta marrom de pelos tapando-a até a cintura.
Corri até o banheiro e tomei um banho rápido. Peguei minha camisa cinza e meu casaco preto, uma calça jeans e um All-Star. Deitei-me lentamente na cama, virado em sua direção e encostei minha boca em seu ouvido.
- Acorde! – Falei para que ela acordasse, mas ela nem reagiu as minhas palavras. – Acorde.
- O que foi? – Perguntou ela inconsciente.
- Você já o exorcizou antes não é? – Disse a ela e então sua pele se eriçou com minha respiração e a minha voz sedosa tão perto dela. Ela se afastou, não tinha muito a aonde ir a não ser que ela saísse da cama.
- Não sei do que você está falando? – Disse ela meio consciente, um grande salto feito por uma lince em direção a janela.
- Ah. Não vai não! – Rugi e pulei para a janela também. Queria impedi-la. Claudia cedeu e consegui chegar até ela. Seus olhos se transformaram num amarelo liquido enquanto ela mostrava seus dentes em protesto numa mistura de frustração, ódio e raiva.
- Nem adiante pensar nisso. – Falei malicioso, nervoso e ríspido.
- Eu não quero falar sobre isso. – Disse pirracenta. Parecia uma menina irritada.
- Eu acho que a gente tem que falar disso. – Insisti um pouco amedrontado.
- Mas não quero. – Gritou ela enraivecida.
- Você não tem que querer.
- Ahh. Eu tenho sim. – Seus olhos faiscaram.
- Você precisa me contar. – Implorei.
- Por quê? – Perguntou ela ofegante.
- Porque se alguma coisa acontecer a você eu... – Só de pensar em sua morte me fazia tremer, me matava também.
- Vai? – Ela queria que eu continuasse. Não era mais a Sakuya falando.
- Er. Ahh. A gente tem que destruí-lo. – Falei mudando de assunto.
- Eu achei que já tinha o destruído. Ele, ele... – As lágrimas estavam saindo de seus olhos. Eu nunca a vi tão humana. Devia ser Claudia. Seu desespero era sufocante. – Eu o exorcizei na segunda festa do coração negro, a ultima em que alguém havia morrido! – Disse a mulher dos olhos amarelos.
- Vai ficar tudo bem!
Ela saiu de perto da janela e foi ao centro do quarto, a cabeça baixa, escondendo as lágrimas. Corri atrás dela, abraçando-a, minhas mãos afagando suas costas gentilmente enquanto ela molhava minha camisa preta.
- Eu prometo que dessa vez vamos acabar com ele.
- Ele nunca vai morrer. Ele é imortal. – Murmurou baixo e suas mãos voaram para o meu pescoço.
- Vai sim. – prometi.
- Estou com medo. – Disse ela envergonhada.
- Não fique. – Falei piedoso. – Você tem a mim. Você tem a Sakuya.
- Eu sei, mas...
Meus dedos voaram para sua boca.
- Shh... – Sibilei baixinho. – Tudo vai ficar bem.
Ela me abraçou mais forte, suas mãos voaram para minha cintura. Dei um beijo em sua testa. Ela parecia estar mais calma e relaxada. O pior já havia passado.
Ela olhou-me nos olhos e depois se afastou. Seu rosto ficou pensativo e ela começou a andar para lá e para cá.
- Tem que haver um jeito! – Ela falava pra si mesma. – Eu devo ter perdido alguma coisa.
- Bem. – Disse, me intrometendo em seu assunto. Ela pareceu seguir a minha linha de pensamento. — Nezar... Monstro... Demônio vampirizado... Bebedor de sangue... Faltou alguma coisa?
Ela deitou na cama e afundou o rosto no travesseiro.
- Você esqueceu o coração negro. – Disse ela tranquila, como se tivesse falando de filmes que certamente veríamos num sábado tedioso.
- Por que exatamente o coração fica negro? – A pergunta pareceu chocá-la, seus lábios se paralisaram.
- É. É, eu não sei. – Gaguejou ela.
- Vamos perguntar a Susane.
A recepção estava cheia de gente, estavam amedrontados, sempre olhando a porta. Devia ter umas 15 pessoas ali, agachadas pelo medo. Eu podia sentir a tensão voando sobre as partículas de poeira misturadas as de bactérias.
Analisei cada rosto, todos continham a mesma mascara. Comecei a pensar que eles estavam vendo algum filme de terror, mas não aguentaram ver a criatura. Fui em direção a porta, queria abri-la e sair dali.
- Não abra essa porta. – Implorou uma mulher perto de Susane.
- O que esta acontecendo? – Perguntei desconfiado.
- tem um monstro lá fora. – Sussurrou ela.
- Arrã. – Disse eu quase rindo.
- É sério. – Sussurrou ela.
As luzes estavam apagadas e o silencio em todo o lugar era desnorteante. Minha mão segurava a dela enquanto a outra estava na maçaneta, forçando-a devagar. Esperando sentir algum perigo insano que me fizesse pular, algo que me alegrasse por um instante. A rua estava vazia. Olhei para os dois lados e não havia nada.
Foi um momento silencioso e apelativo. Não havia nada ou ninguém. Eu não entendia o porquê dessas pessoas estarem alarmadas. Fechei os olhos para me concentrar no cheiro e tudo que havia ao redor.
Duas mãos agarraram minha cabeça, apertando minhas bochechas. Um sorriso brotou no meu rosto involuntariamente. Seu toque frio me causava sensações estranhas; viciosas e instintivas. Um fogo crescia quando ela fazia isso.
Era o toque de um demônio. Nenhum outro toque tinha tanta ansiedade.
Abri os olhos e então vi a face demoníaca. Os dentes cinza segurados pela gengiva apodrecida. Os olhos amarelos e compridos. O corpo pálido e sem vida. O cabelo vermelho tapando um dos olhos.
Suas mãos me puxaram para cima. A noite fria e a lua cheia. Toda a parte de cima da cidade; o telhado dos prédios. Ele caiu de pé e eu ajoelhado. Soltou uma gargalhada sinistra enquanto eu esperava.
Isso seria o fim?
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