V2 - Vinculo Demoníaco
4 Nezar
Suas mãos começaram a girar o meu pescoço. Uma pessoa normal agüentaria uma rotação de no máximo de 90° antes de morrer e o pescoço quebrar. Eu não sabia quanto meu pescoço agüentaria rodar antes de girar de volta para o lugar de origem.
Eles passaram dos 90°, depois 180°, 270°, e 360°. Girou rápido demais para que eu percebesse. Só o que pude perceber é que ele havia voltado para o lugar.
- Está surpreso? – Perguntei; a raiva queimando em minhas veias.
Os olhos amarelando-se. Os dentes se afiando. O maldito gosto de sal e de ferrugem ainda me fazia tremer.
- Impossível. – Sibilou ele em meio ao vento gelado.
Claudia>
Eu estava desesperada, com muito medo para pensar e com mais medo de deixá-lo sozinho, lutando com Nezar. Eu já o matara antes. Como ele poderia estar vivo? Como ele poderia existir depois de eu ter exorcizado-o.
A porta estava escancarada e a curiosidade me deixava preocupada. “Ele está bem” grunhia Sakuya. “Azharar está com ele.”
- Eu sei. – Gritei para ela e todos arregalaram os olhos.
- O que foi? – Perguntou Susane, louca para saber dos detalhes.
- Nada. – Disse rispidamente e a escutei resmungar.
Olhei os dois lados novamente e dessa vez não havia nada em lugar algum.
- Fiquem aqui. – Disse a eles baixinho e dei um tapinha na porta.
Ela se fechou violentamente.
Deixei meu corpo se estremecer, fazendo o meu sangue ferver, “ebulindo” dentro de mim. O enxofre queimando minhas artérias. O gosto de sal na minha boca. Os olhos mudando para o amarelo liquido que eu adorava.
Pulei para cima do hotel. Queria ter uma visão melhor. Eu dominava a noite do jeito que eu queria. Havia transformado a lua nova numa lua cheia. Assim eu poderia ver melhor. Mas ninguém sabia isso.
Concentrei-me no cheiro. Era claro que eles estiveram aqui. Nezar tinha um cheiro doce e enjoativo. Culpa do sangue que ele gostava tanto. O outro cheiro era de Zac. Agressivo e selvagem, um guepardo.
Estava ficando enlouquecida. Não os via em lugar algum. Será que Zac estava morto? Será que além de me manter morta por dentro eu tinha que morrer por fora também?
Comecei a correr sempre para o leste, onde o cheiro deles ficava mais forte.
Esperava enfim poder matá-lo com minhas próprias mãos. Rasgar seu corpo em pedacinhos e levar cada caco dele para o inferno.
Zac>
Ele corria alucinadamente. Parecia um gato fugindo de um pitbull. Eu o perseguia furiosamente. Pulava nos prédios sincronizadamente. Era muita mente para se lembrar de algo a não ser agir por instinto.
Percebi que estava sendo guiado. Permiti-me a isso. Ela já estava chegando e eu não iria deixá-lo escapar. Não agora. Essa era uma nova oportunidade, eu iria tê-la. Precisava por um fim a isso.
Eu sentia o quão perigoso aquilo podia ser. Sabia que não seria fácil. Eu ainda não sabia do que ele era capaz, só sabia de seu apego por corações.
- Você nunca vai me pegar. – Gritara ele lá da frente.
- Veremos se não. – Gritei num tom desafiante.
O instinto de brigar sempre me pegava e me tirava do controle.
Um repuxado nasceu do meu rosto enquanto Azharar xingava alucinado. Eu estava borbulhando de raiva enquanto meus pés mal batiam nos telhados dos grandes hotéis e apartamentos.
Ele estava me lembrando dos extras que eu tinha. Água, gelo, fogo, vento, terra, raio. Eu não podia esquecer da força ou velocidade; os sentidos melhorados e mais fortes. Ainda havia alguns que eu ainda não havia descoberto.
- Você não vai fugir de mim! – Rugiu Azharar por minha boca. O gosto de ferrugem era mais forte quando ele falava.
- Já estou fugindo. – Ele ria da situação. Devia estar se divertindo.
Claudia>
Por que eu não encontrava alguém? Por que eu continuava correndo e não os achava? O que estaria acontecendo? Eu tinha que impedi-lo. Eu não suportaria perder outro.
A noite fria não estava me ajudando. O desespero só crescia dentro do meu peito vazio. O que mais me preocupava era que Sakuya estava calma, sempre calma e isso me assustava.
Comecei a me mover mais rápido. Os telhados pelos quais eu passava estavam se despedaçando nos cantos. A intensidade em volta do meu corpo estava fazendo as coisas se quebrarem.
Parei. O cheiro estava mudando de direção. Agora me dizia que estava indo à direita. Estavam indo para o leste. Será que estavam indo para as montanhas? Isso não parecia bom.
A noite estava deserta, não havia ninguém.
- Sakuya? – Perguntei.
- O que foi? – Perguntou ela, sempre concentrada.
- Acha que é melhor se voarmos?
- De fato.
Senti as costas queimarem e rasgarem; duas longas asas saíram das costas. Longas asas pontudas e negras como carvão.
- Vamos. – Disse-me ela.
Batia as asas uniformemente, aumentando a velocidade e me jogando para cima.
Zac>
Eu já estava ficando irritado. Ele não ia parar nunca? Por que ele não me enfrentava de frente? Ele devia ser poderoso. Tem muito tempo como demônio.
Continuávamos correndo. Já estávamos quase fora da cidade, perto da floresta de arvores grandes e cheias de musgos. Eu poderia tentar acertá-lo com uma bola de fogo, mas se eu errasse — ele poderia tirar vantagem e acabar muito longe de mim. Eu não iria perdê-lo de vista.
Freneticamente ele continuava correndo, sempre rápido demais para que eu o pegasse. Sakuya estava demorando e não era culpa dela. Esse maníaco iria pagar quando parasse.
- Hey! Nunca vai parar? – Gritou Azharar; isso atraiu a atenção de Nezar.
- O que é? Já está cansado gatinho? – Debochava ele.
Um rugido ecoou na floresta em que havíamos acabado de chegar.
“É melhor se acalmar” pensei para ele. “Você sabe que eu não consigo.” A voz esganiçada de raiva.
Ele parou. Fiz o mesmo. Ele me encarava com seus olhos amarelos e cumpridos escondidos por seu cabelo gorduroso. Estava de pé no meio de um circulo gigante. Uma estrela foi desenhada dentro deste e isso eu já tinha visto, só não me lembrava de onde.
- Por que parou aqui? – Perguntei.
Ele olhou por toda a floresta, sentindo cada cheiro, cada fragrância de cada flor, cada animal, cada arvore naquela incrível floresta. Isso me irritou. Queria respostas e não uma aula de meio-ambiente.
- Eu gosto desse lugar. – Ele me respondera finalmente. Fiquei ainda mais desconfiado. – É um lugar familiar sabe?
- Não eu não sei. – Respondi enraivecido.
- Logicamente. – Disse ele como se fosse uma pergunta retórica.
- Arrghh. – Rugi de ódio enquanto ele ria do meu comportamento.
- Ai! Tô morrendo de medo.
Senti meu corpo queimar alucinadamente. Sabia que a batalha havia começado. Sabia que seria o fim de alguém, e seria o dele.
“Azharar?” – Convoquei.
“O que é?” – Ele me perguntou.
“Vamos acabar com ele!” – Pensei com ódio.
“Pensei que não ia pedir.” – Ele só me rebateu excitado.
“Quero que ele sofra e que queime, que sinta seu corpo se derreter como uma vela. Quero separar cada ligação de seu corpo, que cada pedaço seja meu e que eu possa fazer uma fogueira com ele. Quero usar seu cabelo gorduroso como palha. Quero fritar seu cérebro e sua língua. Arrancar seu sangue e depois o darei para Cerberus. Aposto que ele gosta de uma bebida revigorante.” – Os pensamentos malignos saiam da minha mente num jato impossível de se conter. Cada músculo enrijecido do meu corpo pedia pelo massacre.
“É tão bom te ver assim tão excitado. Sempre quis que fosse assim, toda via você ainda é bem mole.”
“Apenas guardo meu excitamento para os caracteres corretos. Esse vírus merece total exterminação e você sabe disso. Já não agüento mais olhar para esses cabelo gorduroso.“
“Ahh! Entendo. Mesmo assim vamos matá-lo logo. Ainda quero ver Sakuya. Estou com saudade.”
“Ahh! Por favor, não me lembre de seus momentos íntimos com ela.”
“Ahh! Cale-se e vamos logo.”
Nezar começou a flutuar e eu também. Os dois pares de olhos amarelos se encaravam furiosos, embora os olhos dele ainda parecessem estar brincando. As asas negras e venenosas saiam das minhas costas e o manto negro começava a cobrir meu corpo. Nezar ainda parecia muito humano, quebrável demais. Ao mesmo tempo em que tinha medo de tocá-lo eu queria destruí-lo.
Minhas mãos deslizaram no ar, levando uma brisa leve com ela. Eu já sabia o efeito disso. Sabia o que ia acontecer. Eu só precisava prever seus movimentos, sua velocidade ou contra-ataque; sua defesa ou “esquiva.”
Com o vento calmo mover meu cabelo, bagunçando-o. um vento frio e urgente passou por todo o meu corpo, queimando minha pele. Saiu feito um louco correndo em sua direção, cortando as arvores em pequenos tocos que iam caindo pesados no chão, fazendo a poeira subir e intoxicar o ar.
Todo o vento cortante começou a se juntar, indo furioso para Nezar, transformando-se numa lâmina muito afiada. Nezar continuara imóvel, como se não tivesse visto a imensa agulha se formando.
A agulha parecia muito lenta para mim. Parecia estar se movendo quatro vezes mais devagar que o tempo normal. Ela cortava a fina camada de vento que vinha do lado contrário e estava em sua frente.
Eu estava estático, era novo. Nunca havia conseguido formar algo com meus “poderes psíquicos.” A lâmina estava em sua frente. Eu me perdi em meus pensamentos e havia me esquecido dele. Ele me encarou com seus olhos amarelos esbugalhados antes de levantar as mãos, acariciando o ar disponível entre ele e a lâmina.
Tudo parecia estar se movendo em câmera lenta. Lento demais.
A cena então aumentou seu ritmo. A lâmina disparou e uma lenta transparente e grossa apareceu em sua frente. Cobriu todo o seu corpo pálido e quebrável. Seu sorriso pré-vitorioso e presunçoso iluminou seu rosto.
Fiquei furioso. Uma agulha daquela deveria atravessar qualquer coisa. A raiva queimava em minhas veias e uma corrente de frustração começou a correr eletrizando minhas artérias.
Ele soltou uma gargalhada alta e insuportável para os meus ouvidos aguçados. Aquilo foi o veneno que me faltava. Senti-me pronto para atacá-lo. Algo se quebrou, tirando meu foco.
A grande lente retangular se rachou formando uma teia, sem a aranha, é claro. As rachaduras iniciais ficaram no meio e 0começaram a se alastrar aleatoriamente, quebrando-se por completo.
Abri a boca pelos cantos; um sorriso malicioso nasceu de toda a frustração antecipada. Um puxão de oxigênio veio dele e meus olhos voaram praquela agulha gigante.
Assoprei na direção dele.
A agulha cortou a já rachada lente, pedaços pequeninos e brilhantes alcançando a terra em pouco úmida, caindo leves como uma pena, mas bateram no chão como uma bola de concreto.
Nezar pulara rápido demais até para mim, aflito e ofegante. Minha agulha se fora cortando ao meio as outras grandes árvores centenárias, me permitindo enxergar até mais longe. Ri! Não havia graça, mas eu sempre fazia da tristeza e dos problemas dos outros algo hilário.
-Há! – Dissera ele surpreso, franzindo o nariz. – Você é uma criança forte.
- Não sou uma criança. – Rugi de raiva. – Tenho 18 anos.
- Uau! – Exclamara ele sem êxito, debochando de mim.
Agachei-me numa posição de guepardo.
- Já é um rapazinho não?
Raiva! Ódio. Tudo era sentido em dobro. Cada sentimento era forte demais; como conter uma casa em chamas com um potinho de areia. Impossível.
- Sou grande o suficiente para te matar! – As palavras saíram ásperas, irritadiças.
Minha garganta se encheu de enxofre. A dor queimante no meu esôfago me lembrava do início, quando eu ainda lutava contra Azharar; pensava que seria capaz de tirá-lo de mim, de minha mente e corpo.
- Eu só tenho cento e cinquenta anos e me acho jovem.
Seu corpo frágil estava num galho de uma arvore antiga, de pé; segurando no tronco principal. Seus olhos amarelos e desfocados me encarando raivosos e divertidos. O canto de sua boca se abriu, num sorriso malicioso.
Pude sentir seus olhos correndo ao redor do meu corpo, avaliando a nova linha abaixo de mim. Uma linha de sangue.
Claudia>
Eu estava chegando perto. Podia sentir o cheiro de Azharar, o enxofre de seu corpo; e outro cheiro doce como mel. Nezar.
Estava preocupada demais para me concentrar. Queria encontrá-los e ver com meus olhos que ele estava bem. Precisava dessa certeza.
Sabia o que ia acontecer se ele pisasse naquela estrela maldita. Sabia como seria sua morte, seu fim...
...”Eu tenho que destruí-lo.” Pensei eu, enraivecida e tomada pelo caos.
“Vamos destruí-lo agora.” Ordenou Sakuya; sempre achava que mandava em mim. Só a deixava ser a chefe porque não queria perder tempo discutindo com um “demônio”.
“Sim.” Assenti.
Pulei o mais alto que pude e me enfiei na estrela abaixo de seu corpo, juntando-se a ele e ignorando a multidão abismada, surpresa, curiosa e confusa. Ele me olhou nos olhos. Uma paixão divertida queimou neles. Isso me distraiu.
Estendi as mãos, na altura de sua barriga.
Sabia que se encostasse em sua barriga eu iria triturá-lo. A broca na minha mão podia quebrar qualquer diamante. Não haveria problema em destruir aqueles ossinhos.
Ele continuava me olhando, me analisando, me deixando confusa sobre suas intenções. Suas mãos levantaram delicadamente e pousaram na minha bochecha, afagando-as lentamente. Minhas mãos voaram para dentro de seu corpo, instintivamente.
Pude sentir o triturar das coisas...
Seus olhos me olhavam tristes e pesarosos. Senti-me horrível– como se eu tivesse que me sentir assim por matar um demônio — impiedosa. Ele parecia me amar. Podia sentir isso na intensidade do seu olhar, na força com que eles se prendiam aos meus. No modo instintivo e selvagem que eles queriam me dominar.
Ele. Sangrando sem parar levantou uma mão e chamou uma garota. Ela veio correndo, com a face indignada e de ódio. Olhou-me de cara feia.
- Saia daqui! – grunhiu ele para mim.
Saí. Corri e pulei para um galho numa arvore antiga.
- Como você está? – Perguntou a menina.
- Mal. – Cuspiu sangue. – Fique aqui na minha frente.
O circulo com a grande estrela ficou vermelho-sangue, todavia era uma cor muito fraca. Ela pôs as mãos no chão, uma sobre a outra e começou a falar alguma coisa ininteligível. A garota começou a levitar, como se dentro de seu peito houvesse um grande imã. Ela começou a ofegar. A cena só piorava e as pessoas pareciam adorar o show. “É claro que esses idiotas adoram esse showzinho.” Rugiu Sakuya na minha mente.
A menina começou a tremer sem parar. Seu corpo ficou esbranquiçado e sem vida. Algo muito grande começou a subir do seu estomago para o esôfago. O pescoço inchado. A respiração rápida e pesada. Sua boca se abriu e dele um coração saiu. Paralisei. Ele voou até o corpo de Nezar, Introduziu-se no mesmo lugar onde o buraco negro indicava o lugar de seu antigo coração; agora inexistente. Tudo começou a ser regenerado.
Seu estomago triturado começou a voltar ao normal, seu sangue estava sendo sugado de volta; o fígado tomando o meio-esquerdo e, a carne retornando ao espaço não ocupado antes.
Era como se a cena estivesse retrocedendo, voltando ao ponto inicial; quando nada havia acontecido ainda. Fiquei muito confusa. Ele devia estar usando algum poder psíquico, mas eram poucas as chances de um demônio usar um poder psíquico. Era algo muito avançado.
Voei ao encontro de seus olhos. Seu corpo pálido e quebrável estava intacto, não havia vestígio de que havia sido triturado. A menina começou a descer do seu “altar invisível”, Suas pernas moveram-se devagar e seus olhos estavam mortos; é claro, ela não tinha mais um coração.
Nezar estava concentrado, parecia que ele tinha que esquecido da minha presença ali, parada olhando seus olhos amarelos. Seus dedos moviam-se constantemente e enfim olhei para eles, Teias estavam presas nas pontas e estas iam de encontro à menina enfeitiçada e sem vida.
A teia do dedo indicador se agarrou a cabeça da garota, enquanto outras quatro tomavam um lugar, os dois braços e as duas pernas. A linha da teia era tão fina que microscópios não poderiam enxergar. O ar ficou pesado e espesso, uma nuvem cinza se apossou do cenário, pairando perto da multidão maravilhada pelo desempenho de Nezar. A pobre e morta menina havia se transformado numa marionete.
Era incrível ver como a multidão reagia encantada ao show dele. Senti-me sufocada o suficiente para querer gritar:
- Ela a ma... – Senti meu grito feroz se transformar numa dor excruciante que apareceu do nada para me derrubar...
Eu tinha que impedi-lo. Não deixaria que ele morresse. Não podia. Mas eu sabia que não poderia ganhar. Sabia que se eu fosse até lá eu iria morrer, então tentaria trocar a minha vida pela dele, embora ele não fosse gostar disso e até pudesse me atrapalhar – o que resultaria na nossa morte.
Estava certa do meu futuro. Mas o que eu podia fazer? O coloquei nisso e Sakuya não queria perder Azharar, não de novo. Eu iria protegê-lo, mesmo que com minha vida...
Zac>
A grande estrela de sangue estava em torno do meu corpo, num tom de vinho. Eu ainda não entendia o porquê dela estar ali, qual era sua função! Aquilo estava me sufocando. Eu queria saber o significado daquilo.
- O que foi? – Disse ele tirando minha atenção.
- O que são esses rabiscos no chão?
- São só desenhos que eu gosto de fazer antes das batalhas.
- Sei.
Senti um frio diferente correr pelo meu corpo, estava me consumindo, faminto, sombrio e maligno. Forcei meu corpo a se mexer, — sem sentido algum ele ficou paralisado, entorpecido – usando minha força para sair do circulo gigante e ensanguentado.
Não funcionou. A sombra era quase invisível, fumaçenta e espessa. Seu corpo era sinuoso e gracioso – o modo com que se movia pelo meu, começando pelos pés, rodeando as minhas pernas, procurando uma maneira de entrar, de me derrubar.
- Mas que droga é essa? – Perguntei irritado.
- Ahh... Você percebeu?! – Não entendi seu sarcasmo.
- Por que não veria? – Perguntei enraivecido.
- Os outros demoraram mais. – Ele tinha que dar ênfase nos outros, só pra me mostrar que já havia matado outros. Senti-me impotente, minha falta de experiência não me ajudava muito.
- Ahh. – Disse eu, tentando distraí-lo; talvez assim a sombra cedesse – caso ele perdesse a concentração.
- Mas os outros eram bem mais fortes... e mais rápidos. – Seus olhos demasiado maliciosos riram para mim.
- Claro, claro! – Disse, tentando não irritar ele.
- Devo dizer que eu estou decepcionado! – Disse pulando do galho da arvore e parando na minha frente.
- Sinto muito por isso. – Disse, engasgando nas palavras.
“O que esta fazendo?” Perguntou Azharar aos berros. Ele estava tão enraivecido que eu podia sentir a temperatura do meu corpo subir gradualmente.
“Estou tentando ganhar tempo.” Rebati vencido.
“Você está me fazendo passar vergonha. Isso não vai adiantar.”
“Mas então o que eu posso fazer?” Perguntei começando a ficar irritado, duas almas num mesmo condomínio; já estava me dando problemas. Como se eu precisasse disso!
“Vamos com tudo pra cima dele!” Azharar pensou confiante. Ver a razão parecia não ser seu ponto forte.
- Está “fofocando” com Azharar? – Perguntou Nezar presunçoso.
- Sim e não. – Disse sincero.
- Não entendo. – Disse ele pensativo por um instante. – Você já deveria estar caído.
- Por que você acha isso?
- As minhas sombras já deveriam ter tomado conta do seu corpo.
- Jura?
- Já deveriam ter arrancado seu coração! – Disse ele num ato evidente de teatro. Ele parecia ser bem dramático.
- Ahh. – Disse eu aliviado. – Eu não tenho mais coração.
- Hum. – Falou pensativo. – Sendo assim...
A atmosfera ficou mais pesada, mais intensa e inebriante. Havia um cheiro muito doce, e o seu gosto era insuportável, pior do que enxofre, pior que o sal e o veneno juntos que viviam na minha boca. Franzi o cenho. Era difícil não ficar enjoado com esse cheiro.
As sombras ainda me rodeavam, testando furiosamente as minhas defesas, seu limite e sua força. Não seria fácil me livrar disso. Elas pareciam cordas de aço, duras demais para me deixar escapar. Começara a me engolir; as pernas, cintura, os braços e já estavam em minha cabeça.
Uma bola invisível aos olhos nus, mas negras aos meus olhos, como um lençol preto-transparente sobre o meu corpo enrijecido e paralisado.
- Mas que merda é essa? – Rugi de raiva e dor.
- Ahh. – Disser ele num sorriso torto, de vitoria. – Como você não tem mais coração, vou destruir seu corpo. – Disse ele agora sério, me explicando.
- Hah hah... – Gritei de dor, enquanto as sombras sugavam toda a minha energia.
- Esta gostando Azhararzinho? – perguntou deliciando-se, sentindo um prazer imenso; da minha dor.
- Vou te mandar para o ínfero. – Rugimos de ódio. Cada junta do meu corpo estava formigando, meu corpo estava eletrificado.
- Ahh. Mas é claro que vai... – Seu deboche ia me matar, literalmente. – Já está me matando... De felicidade agora. Já mandei tantos para o inferno. Você será meu número 666 de demônios mandados de volta.
- Uau! Que numero interessante. – Arfei de frustração. Devia ter algo que eu pudesse fazer.
- É não é? Mas será rápido agora. – Suas palavras foram muito claras. – Vou tentar ser o mais rápido possível.
- Hah hah. – Eu ri... Então isso seria o final.
Seria mesmo rápido. Sentia-me tonto, enfraquecido e sufocado. Tudo havia parado, vários tons de cinza acumulando-se em minha visão periférica, alterando-se, alternando-se em movimentos sutis e frágeis.
A sombra me puxava para o chão, queimando meu corpo, sempre mais quente e mais forte, me destruindo, exterminando cada célula escudeira que eu tinha. Era o fim, E eu só queria me despedir dela.
- Solte-o agora. – Disse uma voz autoritária, a minha salvadora.
- Por que você não vem brincar comigo? – Ofereceu Nezar com seus olhos brincalhões.
- Pode ter certeza que vou. – Ela gritou exasperada, pulando de um galho ao norte, numa velocidade incrível, uma shuriken jogada por um ninja.
Ela girava, rápida e reta, como um broca trabalhando, pronta para quebrar o chão, chegou rapidamente ao lugar onde Nezar se encontrava, quebrando o chão ao seu redor. Quase me matou também. Ele pulou tão rápido que nem tive tempo de vê-lo se agachar, apoiando-se nos pés.
Tudo ficou em ruínas, só o meu pedaçinho do chão sobreviveu. Ela era incrível. Eu sabia que ela era boa mas nunca a havia visto atuar como a protagonista. Queria correr para abraçá-la, mas a sombra ainda me rondava, hesitante, me tocando devagar, sugando minha vitalidade vagarosamente.
- Tem uma sombra aqui. – Gritei enraivecido novamente. Ela me olhou analisadoramente.
Ela mergulhou na terra causando pequenos terremotos embaixo dos meus pés. Retirou a sombra do meu corpo com sua broca – que se quebrou instantaneamente como um vidro colocado circularmente para que eu ficasse preso – e ela voltou em cacos furiosos e frios para ele.
Respirei fundo.
- Mas o que foi isso? – Perguntei nervoso e desequilibrado.
- A sombra Nezariana. – Ela me respondeu irritada.
- O que? – Engasguei com as palavras.
Ela olhou para mim com seu olhar mortal que me fez gelar, mas o sorriso torto que ia aparecendo em sua boca me relaxava um pouco, Claudia ainda estava La!
- A sombra Nezariana é seu poder mais forte. Ela se apossa de um corpo com coração e o arranca fora; como você não tem um ela suga sua vitalidade enquanto queima e paralisa seu corpo. – Ela respondeu atrevidamente esperta.
- Vocês têm uma enciclopédia de ajuda de iniciantes para mim? – Fiz uma piada idiota, tentando acalmá-la, não adiantou; logicamente. – Bem... – Murmurei irritado enquanto me limpava da sombra, varrendo com as mãos o meu corpo enrijecido, retirando qualquer partícula Nezariana de mim. Nezar bocejou do outro lado, de volta ao seu galho. – Acho que vou ter mais cuidado.
- Não me agradeça ainda. – Disse-me apontando praquela figura pálida e esquelética acima das arvores, com aqueles grandes olhos amarelos...
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