- Já está pronta Claudia? – Perguntei impaciente.

- Sim. Vamos. – Disse ela, pulando para fora do trem que havíamos pegado às 4 horas da manhã, sem me despedir de Angela e Gabriela. Deixando-as sozinhas.

- Espere por mim. – Gritei, dando um salto para fora do trem vazio.

Já era de manhã e o sol era ofuscante demais, claro e quente demais para mim. O ar era muito úmido e tinha cheiro e gosto de poluição. Estávamos numa cidade grande. Perto da cidade, de fato. Os prédios arranha-céu gigantescos e brancos.

Os postes enormes nas ruas de asfalto preto. As várias lojas de eletro-doméstico-eletrônicos. As placas de “compre aqui”, “10% de desconto” estavam em todos os lugares. Pessoas passavam para lá e para cá numa dança descoordenada.

Andávamos em silêncio na maioria das vezes. Ela sempre ficava envergonhada quando tentávamos conversar então o silêncio era predominante. Ainda procurávamos um hotel, embora mal dormíssemos.

- Vamos entrar aqui. – Disse pegando em sua mão. Seu rosto corou e ela se libertou dos meus dedos. – Desculpe.

- Ahh. – Disse ela. – Vamos entrar.

O hotel não era luxuoso, mas sim confortável. Tinha uma vibe bem legal. Era meio feito de madeira, quer dizer, tudo era de madeira. Havia uma recepção pequena. Uma mulher, de óclinhos e aparelho; estava atrás do balcão.

Ela devia ter uns trinta e oito anos, e em seu crachá tinha um nome, Suzane.

- Olá. Meu nome é Suzane. – Disse ela num tom profissional e apático.

- Ola Suzane. Eu quero dois quartos. – Ela me olhou desconfiada de minhas boas intenções.

- Tem certeza? – Perguntou Suzane apaticamente. – Será o dobro que terá de pagar! – Continuou ela rispidamente. Eu podia apostar que ela queria comprovar alguma coisa, um pensamento próprio.

- Eu tenho dinheiro para comprar este lugar e muitos outros hotéis. – Disse superiormente. – Aposto que posso pagar duas diárias.
— Espera. – Disse Claudia sentindo algo desconhecido que eu chamaria de sentimento. – Acho que podemos ficar com um quarto. Será o bastante para nós dois.

- Não precisa. Eu tenho dinheiro sobrando e você sabe disso.

- Eu não tenho o dia todo. – Resmungou Suzane.

- Vamos querer um quarto. – Falou Claudia.

- Tudo bem. – Disse Suzane mexendo no computador velho ao seu lado direito em cima da mesinha da madeira. Vocês têm algum tipo de relação? – Perguntou sem se controlar. Aposto que ela queria saber os detalhes para fofocar com as outras empregadas mais tarde.

- Claro. Ela é minha esposa. – Menti descaradamente. Sabia que ia apanhar depois, mas eu não correria o risco de haver algum homenzinho paquerando ela.

- Desculpem-me por isso. Mas vocês sabem; é tudo protocolo.

- Tudo bem. – Concordei veemente, mesmo sabendo que tudo o que ela falava era um bando de mentiras mal inventadas. – Já estamos indo.

- Tenham uma boa estadia. – Disse ela no seu sorriso malicioso e frustrado. – A propósito, como irá pagar senhor...? – Opps, eu havia esquecido de dizer a ela meu nome.

- Senhor Zac. – Disse entregando a ela uma nota de cem. A junção de senhor e Zac não me pareciam uma junção muito boa. – Pode ficar com o troco.

Ela assentiu e eu e Claudia fomos em direção a escada. O quarto era monótono, as cortinas marrons e todos os móveis eram da cor mogno, quer dizer, a cama; o criado mudo e a estante que só tinha uma pequena TV de 14º.

Tinha uma porta preta ali perto da estante, era a porta do banheiro que certamente não usaríamos. Tudo o que comíamos e bebíamos desaparecia do nosso organismo, logo quase nunca enfiávamos algo para dentro do estomago.

- Uau. – Disse eu quebrando o silêncio. – Que lugarzinho legal.

- Eu gostei daqui. – Disse Claudia timidamente. – Bem! O que vamos fazer nessas férias? – Perguntara ela, sempre tímida, mas desta vez animada.

- Eu não sei; você pode escolher. – Mostrei um grande sorriso a ela e dei um passo à frente, só para olhar para os seus olhos negros. Ela os afastou dos meus olhando para baixo. Pôs as mãos no cabelo e virou-se.

- Desculpe. –Ela disse sem se virar, ainda encarando a parede.

- Você... – Comecei já hesitante. – Não gosta de mim? – Ela se virou, a mascara de vazio em seu rosto estava se contorcendo, transformando-se em culpa.

- É claro que eu gosto, mas... – Ela parou, e foi quando eu percebi que o assunto já havia acabado.

- Tudo bem. – Disse tentando amenizar sua culpa. – Você não tem que me explicar nada. – A tristeza se apossou do meu corpo. Era sempre assim que eu reagia dela, mas geralmente eu conseguia fingir bem... Eu acho.

- Ahh. Vamos conhecer a cidade? – Me perguntou tentando me distrair.

- Não. – Eu disse. – Estou meio cansado. Acho que vou descansar um pouco.

- Tudo bem. Eu vou passear então.

- Tudo bem, mas tenha cuidado. – Ela riu da minha preocupação boba e eu também em seguida.