Vômito

1 Capítulo Único: Ela não sabe


Notas iniciais
Não espero que gostem ou que entendam, mas sintam-se livres. É a única coisa que peço.

Ela não consegue chorar. Tenta e tenta, mas não sai. Ela têm motivos. Tantos, tantos. Mas não pode. Ninguém sabe, ninguém pode. Saber.

Ela pensa na morte. Em tragédias e desgraças. Ela quer chorar, mas não funciona. Ela quer se livrar da dor.

Ela escreve também. Uma porção de coisas estranhas. Ninguém sabe, ninguém pode saber. E toda vez que nota alguém se aproximar ela esconde o caderno. As mãos tremem e sua voz sai entediada ao responder “Nada”. Não estava fazendo nada.

Ela não sabe por que escreve. Por quê? Porque simplesmente não sabe. Acontece assim, do nada, sabe? Vai e vem, como ondas da praia suja por onde passa o ônibus que ela apanha esporadicamente; vai e vem como aqueles dedos pecaminosos que escorrem pela sua abertura em momentos solitários; aquele vai e vem de sentimentos. Euforia e tristeza. Um complexo, um presídio sem grades.

Ela estava presa. Onde?

A escova toca sua garganta ao fundo, a ponta plástica do objeto barato machucou a úvula, mas ela precisa jogar fora aquela fatia de torta. E os motivos por tê-la comido. Era sangue entre a bile e os restos do doce? Tonteou. Havia um cheiro de queimado. Forte.

Correu para a cozinha, um, dois, três passos. O arroz! Pegou uma colherada do alimento e pôs sobre a pia, colocou a panela fervente em cima. Aquele cheiro se desprenderia da comida. Poderia, mesmo que com um torcer de nariz, ser consumida. E ela?

O calor era bom. Imaginou por um momento como seria se tocasse no metal quente. Doeria. Doeu. As pernas fraquejaram. O que ela estava fazendo? “Nada” respondeu. Não estava fazendo nada.

Ela tinha depressão, foi o que disseram. Ela precisa de Deus, ela precisa orar. Ei, largue isso, tem ponta afiada. Ela é perigosa, ela precisa é de uma boa surra.

Espera, Deus existe?

Por que?

Ela pensa. Ela sente.

As cicatrizes. Não tem espaço para mais delas.

Ela estuda. Não gosta de estudar, mas mente. Ela é esforçada, eles dizem. Não é. Ela é diferente, eles dizem. Diferente de quem?

Pra que a gente existe? Não a gente eu e você, mas a gente?

É. Ela não sabe. Pra que, oh Deus, pra quê?

Deus não existe. Deus é. Acreditar na existência Dele é negá-Lo.

O ovo ou a galinha? Quem criou Deus?

Ninguém sabe, ninguém pode. Saber.

Ela existe. Ela e todas as imperfeições. Ela é humana. Ela se corta às vezes, esporadicamente como em um vai e vem. Ela erra. Ela é humana.

Ela tem giletes usadas, meia garrafa de vodka e duas cartelas de Lorax. Ela não tem coragem. Ela é covarde. Ela quer viver, mas não sabe como.

Então ela chora. Ela sobrevive.

Ela não pode fazer isso. Por que ela não sabe.

Você não notou, não é mesmo? Eu sim.

Porque eu sei quem é ela.

E você sabe quem é?

Notas finais
No que você acredita?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!