Vórtice do Amanhã
2 O Tédio Antes da Tormenta
Era o tipo de tarde em que nem os pássaros se davam ao trabalho de cantar. O céu permanecia encoberto, preso entre o cinza do fim de inverno e o azul preguiçoso que prometia chegar – mas não chegava. E lá estava ela, Lysel Vernay, sentada no telhado inclinado do celeiro, com um livro aberto no colo e os olhos perdidos muito além das páginas.
Ela não estava lendo de verdade. Seus olhos passavam por cima das palavras como quem assiste a um filme em silêncio. Já havia lido aquele mesmo romance três vezes. Um jovem mago descobrindo um portal para outro mundo – coisa típica, nada que combinasse com a vida que levava.
Suspirou. O telhado era seu lugar favorito, embora Isadora vivesse dizendo que um dia ela cairia dali e quebraria mais que um braço.
A vista dali era, ao mesmo tempo, maravilhosa e triste. Campos infinitos, verdes e vazios, onde bois pastavam sem pressa, onde o silêncio era ensurdecedor e o calor era insuportável. A casa onde moravam parecia ter sido esquecida por todo tipo de civilização – um chalé de madeira meio torto, encostado num morro, com uma varanda de redes esfiapadas e cercas vivas crescidas demais. A estrada mais próxima ficava a três quilômetros, e o sinal de celular vinha com a mesma frequência que os eclipses.
Mas a solidão era o menor dos problemas de Lysel.
O verdadeiro problema era o que vivia dentro dela.
Lysel sempre soube que era diferente. Não só por ser adotada – isso, na verdade, nunca lhe doeu. Isadora era boa com ela, uma mulher de mãos calejadas e coração firme, que fazia pão artesanal, cantava em francês quando achava que ninguém estava ouvindo e tratava a vida com o tipo de dignidade que só se aprende apanhando do mundo.
Mas havia algo... estranho. Algo que nem Isadora podia explicar.
Relógios paravam quando ela os encarava tempo demais. Espelhos se embaçavam sozinhos – mesmo em dias secos. E as portas? Fechavam-se atrás dela, às vezes devagar, às vezes com força suficiente para assustar qualquer um.
E então havia o broche.
Lysel o encontrou quando tinha dez anos. Uma caixinha de madeira, escondida dentro de uma gaveta velha do quarto de Isadora. O broche estava ali, reluzente apesar dos anos: uma peça dourada, oval, com o desenho de um olho estilizado. Mas havia uma rachadura no centro, como se tivesse sido partido e colado de volta com pressa.
Naquela noite, sonhou com uma torre de vidro e um mar que brilhava como mercúrio.
Desde então, guardava o broche numa pequena caixa de madeira no criado-mudo, como quem guarda uma memória que não entende – ou uma arma que não sabe usar.
– Lysel! – gritou uma voz do quintal, interrompendo seus devaneios. – Sai desse telhado, menina! Você quer virar estatística?
Ela riu. Isadora.
Fechou o livro, desceu com cuidado pela calha lateral – como sempre fazia – e aterrissou com leveza no chão de terra batida. A chuva da noite anterior deixara o solo úmido, e o cheiro de barro e hortelã fresca flutuava no ar.
Isadora estava na varanda, com um avental manchado de farinha e uma expressão entre o alívio e a bronca.
– Eu juro por tudo que é sagrado, ainda vou colocar uma cerca elétrica nesse telhado.
– Eu quero ver como você vai explicar isso pro seguro rural – retrucou Lysel, entrando em casa. – “Desculpa, moço, é que minha filha sobe no telhado pra conversar com os urubus e ler livro de magia...”
Isadora soltou um suspiro cansado.
– Já leu esse livro três vezes só esse mês.
Lysel ignorou o comentário. A cozinha estava aconchegante como sempre. Fogão a lenha aceso, cheiro de pão e canela no ar, uma chaleira de ferro chiando baixinho no canto. Era o tipo de cenário que deveria aquecer o coração. Mas não o dela.
– Você dormiu bem? – perguntou Isadora, servindo chá num bule de cerâmica antiga.
Lysel hesitou.
– Acordei às três da manhã. Tive... aquele sonho de novo.
Isadora parou por um segundo, as mãos ainda segurando as xícaras.
– A torre?
Ela assentiu.
– E um relógio derretendo. Um homem nele disse que o tempo estava se despedaçando.
As duas ficaram em silêncio por um momento. O som da chaleira preenchia o espaço entre elas como uma terceira presença.
– Talvez seja só o estresse, Lysel – disse Isadora por fim. – Você tá quase terminando o último ano. É normal sonhar estranho…eu sonhava com vacas vampiras na minha época.
Lysel rio rápido, queria acreditar. Mas sabia que não era só isso. Ela podia sentir as coisas. Bem mais no fundo. Uma intuição que vinha como um soco na cara.
●❯ 「☾」 ❮●
Naquele dia, Isadora pediu que ela verificasse o celeiro. A tranca estava emperrando, e era melhor ajeitar aquilo antes que os ratos decidissem fundar uma república lá dentro. Lysel foi sem reclamar – o celeiro era o único lugar onde ela sentia algo... próximo da verdade.
O lugar era velho, sim. Cheirava a madeira úmida, feno antigo e ferrugem. Mas também tinha um tipo de silêncio que ela não encontrava em nenhum outro canto da propriedade. Um silêncio que parecia olhá-la de volta.
Ela empurrou a porta e entrou. Os feixes de luz atravessando as frestas da parede faziam dançar partículas de poeira no ar. O chão rangeu sob seus pés. O ar estava frio – mais do que devia.
Foi quando ela viu.
Uma rachadura.
No fundo do celeiro, bem na parede de madeira que dava para o nada, havia uma fenda vertical. Não estava lá na semana passada. Nem ontem. Mas agora, estava. E brilhava.
Lysel se aproximou. O brilho era sutil, quase imperceptível, como um reflexo dourado sob uma camada de sombra. Esticou a mão.
O dedo encostou na rachadura.
E então tudo... mudou.
A sensação foi imediata. Como ser sugada para dentro de si mesma. Como se o tempo tivesse escorregado pelos cantos da realidade.
Ela sentiu o chão sumir. O som explodiu nos ouvidos – um zumbido crescente, como mil relógios girando ao contrário. As cores se inverteram. A luz piscou. E a gravidade... deixou de existir.
Tudo ficou branco. Depois preto. Depois nenhum.
Quando abriu os olhos, estava deitada. O chão era de pedra. Chovia. E ao fundo, sirenes gritavam como animais feridos.
Lysel tentou se levantar, cambaleando, ainda zonza. Seu corpo parecia ter sido desmontado e montado de novo, só que com as peças trocadas.
Olhou ao redor. Ruas estreitas. Postes baixos. Letreiros em uma língua estranha. Homens de farda correndo. E lá, tremulando num prédio com colunas cinzentas...
... uma bandeira nazista.
Lysel congelou.
Não era um sonho.
Ela não estava mais no celeiro.
E definitivamente, não estava mais em 2025.
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