Vórtice do Amanhã
7 O Padre Está Aqui
Em Aetherfall, as noites nunca eram completamente escuras. Às vezes três luas – Azira, Lume e Sombra – revezavam sua vigília sobre os céus da academia, garantindo que nem mesmo os sonhos mais inquietos se perdessem por completo na escuridão. Mas naquela noite... o céu estava mudo. Nenhuma estrela. Nenhuma lua. Nada.
Lysel acordou com a sensação de estar sendo observada. Um peso estranho repousava sobre seu peito, como se algo tentasse atravessar seus ossos por dentro. O broche – sempre quente de forma discreta – agora ardia. Ela levou a mão até ele instintivamente. Ainda estava preso à roupa, mas vibrava como se tentasse escapar.
Jéssica dormia sentada, o livro das Rupturas fechado em seu colo, a cabeça apoiada contra a parede de pedra polida. Ela parecia exausta, mesmo em descanso. O dia anterior tinha sido longo – entre as aulas interrompidas pelas anomalias, os alarmes de contenção e o incidente no espelho, ambas já haviam aprendido a identificar quando uma noite não traria paz.
E, como previsto, aquela era uma daquelas noites.
A escola tremeu.
Foi um tremor pequeno, como um soluço contido por milênios. As runas no teto piscaram uma vez. O ar ficou pesado, denso, como se a brisa estivesse começando a esquecer de circular por ali.
Lysel se levantou devagar e foi até a janela. Lá fora, tudo parecia... apagado. As torres distantes estavam escuras, como se Aetherfall houvesse sido tragada por uma sombra maior do que o céu. E então ela ouviu.
Sinos.
Mas não os sinos encantados da torre astral, que marcavam os horários mágicos com tons cristalinos. Aqueles eram os sinos de ferro, ocultos nas fundações da academia. Forjados para tocar somente em uma condição: quando o tempo está prestes a se romper.
Jéssica acordou no mesmo instante, erguendo o rosto como um animal farejando perigo.
– Você ouviu?
Lysel apenas assentiu, os olhos ainda fixos no breu lá fora.
– Não tem nenhuma lua. Nunca vi isso acontecer.
– Nem eu. Isso não é comum. É como se o céu estivesse... evitando nos ver.
Elas não tiveram tempo de especular mais. A porta do dormitório se abriu com violência, e uma figura entrou: alta, de braços longos, vestindo um casaco de amarelo gasto que exalava cheiro de óleo, metal e carvão. Abaixo do braço, ele trazia algo que parecia uma pequena esfera metálica, com olhos de diamante.
Era Professor Alexander.
– Se mantenham trancadas. Fechem as janelas. – A voz dele soava mais urgente que autoritária.
– O que está acontecendo? – perguntou Jéssica, já se pondo de pé. – O que são esses sinos?
Alexander ergueu a mão. A esfera de metal se animou em sua palma, abrindo as asas com um clique e alçando voo pela sala, espalhando uma onda de luz azulada por cada canto do ambiente. Quando a criatura completou o mapeamento, voltou para o ombro do professor e se aninhou ali como uma ave de caça.
– O sistema de vigilância detectou uma violação na muralha sul. Os sensores não conseguiram identificar o invasor, o que significa que ele está vindo de uma fenda. Temos uma teoria que é o viajante do tempo que o Oráculo profetizou.
– Quem? – Lysel perguntou, a voz mais firme do que esperava.
Alexander olhou diretamente para ela. E por um instante, seus olhos – habitualmente distraídos, cheios de cálculo e invenção – estavam imóveis. Frios.
– O Padre. Provavelmente ele está aqui.
Silêncio.
Não era um nome comum. Não era nem mesmo um título reconhecido em registros oficiais. Mas todos em Aetherfall já tinham ouvido, pelo menos uma vez, as histórias. O caçador. A criatura que selava rupturas com dentes e garras. Metade homem, metade fera. Antigo. Indesejado até pelas linhas temporais que defendia.
– Achei que ele fosse uma lenda – disse Jéssica, baixando a voz.
– Lendas não quebram muralhas com doze camadas de magia – respondeu Alexander. – E se for ele mesmo, está aqui por causa dela.
Ele apontou o queixo em direção a Lysel.
As paredes de Aetherfall tremiam como se estivessem tentando conter um grito antigo. O chão vibrava em pulsos. Runas antes silenciosas agora cintilavam de forma errática, e o ar, carregado com energia mágica instável, parecia mais denso a cada segundo. As defesas da escola, tão antigas quanto a própria pedra que sustentava suas torres, estavam se desfazendo – não por força bruta, mas por algo mais profundo: a presença de alguém que não pertencia a nenhuma linha do tempo estável.
●❯ 「☾」 ❮●
Lysel corria.
Ao lado dela, Jéssica mantinha a respiração sob controle, apesar dos olhos selvagens buscando ameaças. Atrás delas, os corredores ecoavam com sons inumanos — rosnados baixos, como orações ditas em outra frequência. Cada passo que davam parecia mais pesado que o anterior, como se o tempo ao redor estivesse tentando resistir à presença de Lysel. Como se ela fosse a rachadura pela qual tudo podia ruir.
– Por aqui! – gritou Jéssica, puxando-a para uma passagem lateral que levava às câmaras de contenção alquímica.
Mas o som de ferro se partindo interrompeu a fuga. Uma das portas da torre norte explodiu de dentro para fora, lançando estilhaços e faíscas pelos ares. Três professores tentavam conter a entrada com feitiços. Um deles, Professor Ragnar, mantinha um artefato girando sobre a mão — uma engrenagem viva, que gerava campos de desaceleração. Mas nem mesmo isso foi suficiente.
O uma criatura atravessou o corredor como uma maré de sombra.
Sua túnica negra estava rasgada em pedaços, revelando um corpo em constante mutação — pelos surgindo e desaparecendo em ondas, como se o tempo não decidisse se ele era lobo, homem ou algo entre os dois. Os olhos dourados dele se fixaram em Lysel. Não houve dúvida. Ele queria ela.
— Ruptura. — A voz saiu como uma sentença escrita em pedra.
Professor Ragnar gritou um aviso, mas o padre avançou com velocidade impossível, derrubando um dos robôs de defesa de Alexander com uma única investida. O impacto criou uma onda de choque que lançou faíscas por todo o teto. Os corredores acenderam em vermelho.
Lysel e Jéssica correram.
– Ele está me caçando – gritou Lysel, sem ar.
– Eu sei. Mas você não está sozinha. – Jéssica apertou sua mão. – Eu vou ficar com você até o fim.
– E se o fim for agora?
Jéssica parou. Colocou as duas mãos no rosto de Lysel.
– Então vai ser comigo. Aqui. Agora.
Por um momento, nada existiu além das duas. O caos atrás delas, os feitiços voando, o rugido do padre se aproximando – tudo ficou abafado pela respiração entrecortada e pela conexão silenciosa que havia ali.
Então, como se o destino também tivesse respirado fundo, uma explosão de luz azul atravessou o teto.
Era Alexander.
Ele havia ativado um dos seus drones maiores – um colosso de ferro encantado, com seis braços armados com runas de contenção e lâminas de éter girando como asas.
– CORRAM! – gritou ele. – AGORA!
O colosso desceu com impacto, bloqueando a passagem por onde o padre vinha. Os corredores tremeram. As paredes se iluminaram com símbolos de conjunção que não eram vistos havia séculos. O tempo dentro daquele trecho da escola se contorceu, criando um campo de desaceleração.
Mas o padre não recuou.
– Isso é inútil. A Ruptura já foi feita. O tempo a sente. A busca por ela... já começou.
E com isso, ele pulou. Direto por cima da barreira, ignorando a gravidade como se fosse nada.
Lysel e Jéssica seguiram em frente. Seus dedos ainda entrelaçados, mesmo com os corredores se desintegrando em volta. As defesas da escola falhavam uma a uma. Professores conjuravam feitiços de contenção, círculos de proteção, mas nada funcionava completamente. O tempo recusava ajuda quando a própria rachadura estava dentro das muralhas.
Elas viraram à esquerda e se jogaram para dentro de uma sala antiga – A sala Espiral, um lugar onde magos do caos criavam o inexplicável.
– Aqui! – disse Jéssica. – As paredes dessa sala são reforçadas com Caos e Tempo. Ele pode hesitar pra entrar.
Lysel encostou-se à parede, ofegante, o coração disparado. O broche em seu peito brilhava com uma luz dourada quase branca, como se estivesse prestes a rachar de vez.
– Eu não quero ir. Eu não quero ser levada. – Seus olhos se encheram de lágrimas. – Eu encontrei alguém... eu encontrei você. Isso devia ser o suficiente.
Jéssica se aproximou e a abraçou com força.
– Então a gente vai lutar. Mesmo que ele seja o tempo inteiro disfarçado de monstro, eu vou lutar com ele até o último segundo.
Os dois corpos se encontraram, atraídos por um amor avassalador. O caos ao redor era real, mas naquele instante, o momento era delas.
Do lado de fora, o rugido voltou. Mais alto. Mais próximo.
O padre estava abrindo caminho.
E Lysel sabia: ela estava ficando sem tempo.
A sala tremeu pela segunda vez. A porta de ébano encantada, reforçada com ligamentos temporais e selos prateados, resistia com dificuldade às investidas da criatura. Cada golpe não parecia apenas físico, Na cabeça dela era uma premissa – como se ele estivesse rompendo não só a entrada, mas o próprio direito de Lysel permanecer naquela era.
– A porta vai ceder – disse Jéssica, recuando até a parede mais distante, puxando Lysel consigo. – Mesmo o tempo está hesitando em protegê-la agora.
Lysel não conseguia responder. A pulsação no broche em seu peito havia se intensificado a tal ponto que doía. Ele não apenas brilhava – ele latejava, como um segundo coração apavorado. E dentro dela, algo gritava que aquele momento não era mais sobre luta. Era sobre despedida.
– Lysel – a voz de Jéssica tremeu. – Me escuta. Se ele entrar... eu vou ficar entre vocês. Você me entende?
Lysel segurou o rosto dela com as duas mãos, sentindo os olhos arderem.
– Não faz isso. Não se joga na frente de um monstro que rasga até mesmo magia. Não por mim.
– Justamente por você. Porque pela primeira vez desde que eu cheguei em Aetherfall, alguma coisa faz sentido. Você faz sentido. – A voz dela quebrou, por um instante. – E se esse for o fim, então que ele me leve junto.
Antes que Lysel respondesse, a porta explodiu.
Não em lascas ou poeira. Ela se desfez como areia flutuando para cima, como se tivesse sido desmantelada por dentro, célula por célula. No vão da entrada, envolto em sombra e luz invertida, o Padre entrou.
– Eu não vim para negociar, garota. Vou corrigir o erro no tempo.
Sua presença ocupava a sala inteira, mesmo sem se mover. Era como se a própria realidade desviasse dele. Rachaduras surgiram nas paredes, e os livros de mapas começaram a arder no ambiente.
Jéssica ficou entre ele e Lysel. O rosto erguido, as mãos em posição de conjuração, mesmo que soubesse que magia comum não o conteria.
– Chega. Você não vai ter o que quer, ela tá aqui a dias. Agora ela vai ficar.
– Ela não pertence a este ponto. Ela é ruína viva. É um futuro impossível que caminha. A ruptura precisa ser selada antes que devore tudo.
– Se ela é um erro, então eu quero o erro. – Jéssica deu um passo à frente. – Eu já vi demais do que o mundo considera certo, e não quero nada disso.
O padre não hesitou. Um círculo de contenção dourado surgiu sob os pés de Lysel. A sala estremeceu. O broche em seu peito gritou em calor. E quando ela tentou correr, o chão a prendeu como se o tempo ao redor dela tivesse virado corrente.
– Lysel! – gritou Jéssica, tentando alcançá-la, mas uma barreira invisível a afastou.
A fenda começou a se abrir. Lenta, profunda, como uma boca faminta.
Lysel tentou resistir, tentou fincar os pés, mas era como ser sugada por dentro. O tempo a puxava com uma força impossível. Como se dissesse: Você já ficou demais.
– Jéssica! – ela gritou, a voz cheia de desespero. – Eu não quero ir! Eu quero você! Eu quero aqui!
Jéssica socou a barreira com os punhos nus, chorando, gritando contra uma parede de eras que se recusava a ouvi-la.
– EU TAMBÉM TE QUERO! – a voz dela ecoou como um trovão. – FICA COMIGO! POR FAVOR!
A mão de Lysel quase tocou a dela. Quase.
Mas a fenda se fechou.
E o mundo, mais uma vez, ficou sem ela.
Silêncio. Silêncio absoluto.
Aetherfall havia sumido.
O mundo era outro.
Lysel caiu de joelhos, o corpo ainda vibrando com a força que a puxara para longe. Mas não havia mais vento, nem luz, nem som. Apenas um espaço branco como névoa antiga, um vácuo feito de espera e perda. A nova fenda não a jogou em uma era – não ainda. Ela estava entre tempos. Um limiar puro, onde até o próprio tempo hesitava em existir.
Ela respirava com dificuldade. Os olhos ardiam. A garganta queimava, seca pelo choro que não conseguia mais sair. O peito doía, e não era apenas físico. Era como se parte dela tivesse ficado para trás.
Jéssica.
O nome ecoava em sua mente como um farol distante. O toque, o beijo, a promessa – tudo arrancado em um instante. E agora, Lysel estava só.
O broche em seu peito permanecia intacto... mas algo nele havia mudado. Ele não brilhava. Não aquecia. Não se comunicava. Pela primeira vez desde que o usava, o broche estava em silêncio. Como se até ele lamentasse.
– Onde você me trouxe...? – sua voz soou baixa, quase inaudível, como se o próprio espaço estivesse com medo de escutá-la.
À sua volta, o branco começou a rachar.
Linhas finas se espalharam pelo ar como fraturas em vidro. Cada rachadura mostrava flashes: imagens turvas de eras desconhecidas. Uma cidade em chamas com três sóis. Um campo de neve onde sombras caminhavam ao contrário. Uma torre flutuando entre relâmpagos parados no tempo.
Ela se ergueu lentamente. Os pés descalços tocaram um chão que não existia – firme apenas porque ela acreditava que deveria ser. O tempo, ali, parecia responder a sua presença com curiosidade. Como se quisesse perguntar: “Você ainda quer continuar?”
E então uma voz ecoou. Não a do padre. Nem de Jéssica. Nem de qualquer coisa viva. Era a voz do espaço entre os segundos.
– Você abriu demais. Você pertence a todas as eras, e a nenhuma. E ainda assim, insiste em amar.
Lysel fechou os olhos. Uma lágrima caiu.
– Porque amar é o que ainda me mantém real.
A rachadura maior se partiu. O tempo escolheu um novo destino. E sem mais perguntas, a jogou para dentro dele.
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