:- Cara finalmente terminamos pensei que não acabaria nunca! – O menino moreno exclamou jogando a caneta e suspirando se espreguiçando, sentido o peso imaginário nas costas ficar mais leve pouco a pouco a tensão diminuir.

:- Nem me fale, quanto tempo estamos aqui? – Dulce começou a estalar os dedos e a se espreguiçar como forma de saber e comprovar que tudo estava funcionando.

:- Quatro horas. – O menino loiro respondeu olhando o relógio no pulso, tão cansado quanto os outros.

:- Não brinca? – A loira perguntou por perguntar por que sabia que ele estava certo, tanto que seu estômago lhe avisava do tempo que passou ali, ela não tinha comido e estava morrendo de fome.

:- Pois é, vamos aproveitar que ainda dá tempo de encontrar com o Felipe, terminando a última aula e reentregar o trabalho. – Eugênio sugeriu.

:- Mais que ideia de gênio, Eugênio. – Poncho implicou com o amigo, abraçando a namorada e lhe dando um selinho, Poncho fingiu ignorar assim como Dulce que encarava o incomodo de Angelique e Eugênio, não com a brincadeira e sim com a atitude do moreno.

:- Espera, Dulce me passa seu tablet. – Angelique pareceu lembrar de algo.

:- O que foi? – ela passou olhando preocupada.

:- Vou salvar o nosso trabalho no meu e-mail e também no seu pen drive, Eugênio. – as mãos deles se tocaram quando ela foi pegar o pequeno objeto, e a forma na qual se olharam mostrava o quanto constrangedor e bom aquele toque foi. – Tudo por segurança. – ela voltou a falar desviando o olhar.

:- Pronto. Nosso trabalho está impresso com cheiro de tinta ainda. – Poncho voltou à mesa, com o trabalho com mais de 20 páginas nas mãos sorrindo.

Dulce só faltou agradecer aos céus quando ele voltou, aquela cena era patética entre seu homem e sua amiga não sairia de sua cabeça por um bom tempo.

:- Vamos?! – Angelique chamou depois de ter salvado o trabalho, e mandado também para o e-mail da classe.

Querendo ou não os quatro foram em casais, Angelique e Poncho, namorados e Dulce e Eugênio, a amizade deles começava a ser questionada, a união não era tão forte e os sentimentos estavam se transformando. O que influenciava nessa transição, era Felipe, a cada provocação, a cada intolerância com os quatros.

Poncho foi o que bateu na porta da sala do professor, já não tinha mais alunos, e seguido dele entrou Dulce e Eugênio e Angelique.

:- Viemos entregar nosso trabalho, com as alterações refeitas, professor. — Dulce falou num tom que não detectava a raiva dela só de olhar para o rosto dele.

Felipe pegou o trabalho com descaso, os meninos só queriam entregar, receber a nota e poder ir embora assim como os outros universitários, mas esses não eram os planos de Felipe.

:- Está tudo... – Perfeito, ele pensou folheando o trabalho, na verdade não tinham erros graves ao ponto de refazer o trabalho antes, ele queria brincar com a paciência dos meninos e estava conseguindo, o trabalho se igualava a um TCC, aqueles quatros jovens eram superdotados realmente, muito inteligentes.

Porém, ele não daria esse gostinho da vitória, não podia deixar eles pensarem que estava nas mãos deles. Tinha que se impor e mesmo que passasse dos limites ele não se importava.

:- Uma droga. Completamente errado, lamento garotos. – olhando para cada um começou a rasgar folha por folha na frente deles.

:- O que está fazendo? – Dulce não pode evitar a voz sair sofrida, pensou nas horas que cada um ficou fazendo o trabalho e agora como nada tinha valido a pena.

:- Estou fazendo o que tem que ser feito, esse trabalho é um lixo. – desistiu de rasgar todas as folhas e jogou de uma vez na lata de lixo que estava ao seu lado.

:- VOCÊ ESTÁ PASSANDO DOS LIMITES. – Foi Poncho que explodiu, sempre foi mais estourado e por isso ele pagava um preço alto. Bateu na mesa do professor e o encarou olho no olho. – E tudo tem limite. – falou perigosamente.

Não percebeu, nem os outros amigos que eles tinham testemunhas ali no corredor que cediam à curiosidade e presenciavam a cena, uma sala havia acabado de ser dispensada e em vez de ir embora para casa, ficaram a tempo de ver a explosão de Poncho com o professor.

‘●’

Poncho

Você confia totalmente em sua aliada, estão num jogo que não se deve confiar em ninguém além de si mesmo.

Obs: Quem lhe garante que 205304, não está te enganando?

Caçador.

Reli pela quinta vez o bilhete que o garçom tinha acabado de me entregar, engoli saliva antes de amassar o maldito papel. Ele foi impresso, e ainda tinha a audácia de colocar o número de Dulce, em vez do seu nome.

Isso significava que o caçador estava vivo no jogo e atento as nossas ações. Fiz questão de colocar a pequena bolinha de papel na mesa, e contrariando meu estado raivoso, fingi jogar futebol com os dedos, até jogar a bolinha para longe com um chute.

Depois me esforcei para colocar um sorriso representando confiança no rosto e levantei minha cabeça olhando para todo o restaurante que estava lotado, tinha certeza que o caçador estava ali. Analisando minhas reações, e se ele queria plantar a discórdia entre Dulce e eu, não conseguiria. Por que nós não pararíamos até descobrir a verdade.

E se tinha alguém em que hoje eu confiava, apesar dos pesares, contraditoriamente era Dulce. Não tinha família, ignoro a existência do meu irmão mais velho assim como ele fez quando eu estava preso, não tenho amigos, tenho meus empregados, mas sabia que totalmente não confiaria.

Com Dulce era diferente, minha inteligência, minha razão e até meu coração ridiculamente falando, mandavam para que eu confiasse nela. Esse bilhete significava das duas uma ou a vingança estava surtindo o efeito esperado e o caçador estava acuado, ou que caçador estava de olho em nós dois e precisávamos tomar cuidado. Afinal um bilhete direto assim no restaurante do hotel em que nós estamos hospedados.

Isso queria dizer, mais pesquisas, estamos no caminho certo para a verdade. Sorri pegando minha taça de vinho e olhando discretamente cada pessoa que estava ali, talvez reconhecesse o caçador antes que Dulce chegasse.

O que não demorou e para me desagrado também não identifiquei ninguém conhecido entre as pessoas que estavam no restaurante.

:- Por fim cheguei. – Foi à primeira frase que ela disse, deixando a bolsa no quanto da mesa, dispensando cumprimentos.

Decidi não comentar sobre o bilhete que tinha acabado de receber, eu queria descobrir algumas coisas antes de conta para ela. E pegando minha vodka não reprimi meu sorriso torto e meu sarcasmo.

:- Se divertiu no chá de bebê da hermanita? – E recebi um olhar direto e repressor e já valeu a pena.

:- Não sei por que eu fui, sabia que seria um dia para ficar ouvindo mulheres falando sobre bebê de Ceci, maridos, casamentos e filhos. – ela revirou os olhos por que ela não tinha nada daquilo e o surpreendente, não queria ter.

Talvez Dulce levasse mais a sério essa vingança do que eu, isso significava que ela estava mais obcecada e queria ser perfeita em tudo. Não que eu não quisesse essa vingança tanto quanto ela, mas eu estava mais calmo queria ser certeiro, sem chance para apelos ou erros.

:- Eu quero lhe pedir desculpas, acabei jantando antes, achei que demoraria mais então não resisti a minha fome.

O garçom chegou com o pedido dela, e depois de agradecê-lo, só depois voltamos a falar.

:- Mas, eu vou lhe fazer companhia. – Sorri, levantando meu drink e balança-lo antes de leva-lo a minha boca.

:- Tudo bem sobre o que queria conversar? – a observava comer.

:- Daqui a pouco vou me encontrar com Olívia.

Ela levantou as duas sobrancelhas, e ainda mastigando com suas bochechas cheias me deu um singelo sorriso, por um momento me lembrei do nosso beijo e de como eu fiquei quando ela nos separou, achando graça e de como eu queria beija-la de novo e antes que ela percebesse minhas intenções, me controlei antes de levar algum outro tapa.

:- Hoje com a ajuda dela eu vou me infiltrar na casa de Eugênio, vigiaremos cada passo e atitudes do nosso casal.

:- Como vocês vão fazer isso? Vimos o esquema de segurança de ponta da última vez em que fomos sua casa, falando nisso é bem suspeito, comum, mas suspeito.

:- Sim, a segurança estava desativada naquela noite do noivado, mas eu também reparei nisso, câmeras sofisticadas, alarmes e tudo mais. Eles são ricos, porém essa não é uma tecnologia qualquer, devem ter algum segredo naquela casa e por isso eu quero estar lá.

:- Lembro-me de ver essa tecnologia na prisão nos primeiros anos em que estive presa. – concordei com ela isso era suspeito. – E como convenceu Olívia? – ela riu por que sabia que dinheiro estava envolvido.

:- Além de uma boa quantia em dinheiro, ela está ali por que não tem família e mesmo assim reclama de Eugênio por ele não lhe dar folga e exigir muito dela, ou seja, ela tem seu preço e eu vou pagar, por que vai valer a pena.

:- Posso lhe fazer uma pergunta? – Ela até deixou de comer para se aproximar de mim. Com sua cadeira também.

:- Pode.

:- Como consegue tanto dinheiro, Poncho? Antes você nem tinha algum lugar para cair morto, na universidade, lembro que você trabalhava num restaurante e dormia em algumas aulas, você explicou por cima essa história agora, me diz a verdade.

Por que antes eu nunca percebi o quanto os olhos dela era profundos, bem expressivos. Talvez por que eu só quisesse os dissimuladamente claros e azuis de Angelique.

:- Alicate deixou sua herança para mim. – Contei também se aproximando como pretexto de ver melhor seus olhos, era melhor do que ficar encarando seu decote. – E quando me formei em designer, administração e direito na prisão, eu já trabalhava nas áreas desde lá, claro que pessoas me representavam aqui fora, porém todo o trabalho árduo foi meu. Só que agora vamos trabalhar juntos. – Sorri de perto olhando para ela.

:- Trabalharmos?

:- Sim. – Apoiando meu cotovelo na mesa e minha cabeça na minha mão. — Vou abrir uma agência de publicidade para poder exercer minha profissão e paixão, que é o designer, então vou precisar de uma publicitária e outros funcionários essa burocracia toda.

:- Por isso você anda sumido? – Afirmei a cabeça ainda encostada na minha mão, em parte eu também andava me divertindo o que não pude, por aí sem que ela pegasse no meu pé. – Quer saber de uma coisa? – Ela se aproximou mais, e percebi que era de propósito, Dulce era uma sedutora nata, até quando não queria.

:- O quê?

:- Ainda vou descobrir o porquê de você ter me ajudado tanto. Não acredito na conversa que me contou.

E eu ri, Dulce era uma surpresa realmente fascinante era uma pena que ela não queria se divertir comigo, porém isso não me impedia de me engraçar com ela. Eu desviei do seu olhar e passei pelo restaurante e impossível foi não ver o olhar questionador de Anna, nos encarando.

Ela era mulher de Júlio, um arquiteto dinamarquês que estava na cidade, eu passei uma noite com ela sem saber que era casada e não me surpreendi quando ela me revelou no outro dia seu estado civil, o que me surpreendeu foi ela fazer o marido ficar mais dias no país por minha causa.

Como desculpa, eu usei Dulce para me livrar de Anna, falei que estava noivo. Por que se com apenas uma noite ela fez o marido ficar mais tempo, imagine se nós tivéssemos mais noites juntos, não quero ninguém no meu pé.

:- Eu preciso de um favor seu. – mudei minha postura e Dulce percebeu isso.

:- O que foi, quem você está vendo? – Antes que ela pudesse se virar e ver Anna do outro lado do restaurante, eu puxei mais a cadeira dela para ficar próxima de mim. E com a outra mão levei seu rosto para o meu.

:- Preciso de um favor. – eu repeti. E ela ficou me olhando esperando que eu dissesse o que era. – Preciso que você me dê um beijo.

:- Quem é a mulher da vez que você está fugindo? – me perguntou séria.

:- Anna. A mulher do arquiteto. Foi só uma noite e ela já convenceu o marido de ficar mais tempo aqui, por que queria mais encontros comigo, sabe que não sou de me amarrar, Dulce.

:- Mas, ela não vai embora? – ela deu os ombros e eu ainda segurava seu rosto com minha mão, falávamos nos olhando e falando bem próximos um do outro, qualquer um que nos visse de fora ou mais distante diria que somos namorados e estamos fazendo juras de amor. Isso era perfeito.

:- Sei do meu instinto e ele me diz que essa é psicopata, se afaste o quanto antes.

Dulce deu um sorriso irônico e divertido, antes de fechar os olhos e suspirar, colocando a mão no meu peito, me preparei para quando ela me afastasse empurrando meu peito com uma força que sabia que ela tinha, porém foi ao contrário ela subiu a mão e depositou no colarinho da minha camisa, abrindo os olhos e me olhando de uma forma estranha.

Não era a primeira vez que eu pedia a ajuda dela para me livrar de alguma mulher grudenta, quase sempre não passava de alguma encenação até alguma dança, mãos dadas, até mesmo eu já roubei alguns selinhos, entretanto nunca pedi um beijo assim.

Ela sorriu e via algo dissimulado em seu olhar e no seu sorriso, o modo como ela se aproximava tudo era encenação até que seu olhar desviou do meu e olhou para onde Anna estava e quando voltou me surpreendeu.

Me arrematou com um beijo, um com direito a puxões no meu cabelo e suspiros, ela que terminou no meio, nossos rostos estavam grudados, olhos fechados e a respiração voltando aos poucos. Reações tão estranhas.

Escutamos passos rápidos e específicos, só poderia ser de uma mulher, Dulce tirou as mãos que estavam no meu rosto e se afastou só então eu abri os olhos, ela olhava com um sorriso por cima do meu ombro direito.

:- Queria ter visto a cara dela quando te beijei. – ela riu colocando o polegar na boca e a unha entre os dentes, sorrindo, voltando a ser Dulce irônica.

Olhei para trás a tempo de ver Anna caminhar ainda violentamente para o elevador e subir para seu quarto.

:- Que pena ela foi tão rápido para o quarto. – olhei para Dulce tirando o resto de saliva no canto da minha boca, e ela entendeu pelo olhar que dei, que me referia ao nosso beijo.

:- Uma palavra, — ela me olhou e depois voltou a comer — Pacto.

:- Ok. Deu o meu horário eu vou me encontrar com Olívia e depois com um velho amigo. – Olhei para ela sorrindo foi um bom jantar ao menos, tirando o bilhete que eu investigaria depois. – Boa noite.

Me despedi vendo ela terminando seu jantar. Eu tinha muita coisa o que fazer e antes de entrar no elevador, voltei a olhar Dulce e ela estava me olhando talvez pensasse em Anna ou talvez no nosso beijo. Não resisti em jogar um beijo no ar, rindo pela a expressão que ela fez enquanto eu entrava no elevador.

Ao subir no meu quarto para o meu alívio, não encontrei Anna no caminho, tomei um banho rápido e peguei as chaves do meu carro, até descer no estacionamento, pensei como seria quando a vingança terminasse, o que faria depois de tudo?

– ● –