Utópico.
25 Capítulo 24 - Frustrações.
Quando ela viu Sebastian e Luna atravessarem os portões, entrou em pânico. Se eram os Deverpolt eles dois estariam em perigo, aquela guerra entre eles e seu pai existia a quase 30 anos. Quando tentou avançar na direção deles foi contida pelos guardas e não demorou para mãos pequenas e gentis a puxarem para trás pelos ombros.
— Fique aqui Luce, é melhor. — Abi sussurrou em seu ouvido.
Pelo tom de voz podia perceber que ela estava tão assustada quanto Luce, mas tentava se manter firme para que Luce manter-se a calma. Isso só serviu para que o pânico de Luce crescesse, como poderia ficar calma se seu irmão e sua melhor amiga estavam indo de encontro a pessoas que poderiam matá-los em um piscar de olhos?
— O que esses dois idiotas estão fazendo? Estão querendo morrer? — Luce praticamente gritava diante de seu desespero.
Ao olhar para frente viu que Luna parecia tentar convencer Sebastian a voltar, mas conhecia seu irmão. Ele era estúpido o suficiente para fazer algo inconsequente se achasse que aquilo era o certo, ela não fazia ideia do que o irmão pretendia fazer. Mas sabia que poderia não acabar bem.
— SEBASTIAN! LUNA, VOLTEM PRA CÁ SEUS IDIOTAS. — Luce esbravejou enquanto tentava passar pelos portões novamente.
Só que mais uma vez os guardas se colocaram na frente dela bloqueando o caminho, pelo visto ela não conseguiria ir até eles e aquilo só fazia que o pânico aumentasse. A todo momento Luna tentava parar Sebastian, eles discutiam e ele voltava a se aproximar da margem da floresta.
— Alguém tem que fazer alguma coisa! Vão até lá e arrastem eles de volta! — Gritou Luce para os guardas, mas os mesmos permaneceram parados.
— Senhorita, a ordem que temos é para que se algum Deverpolt for visto fechar os portões. Não o fizemos por causa do Senhor Sebastian e da Senhorita Luna, mas não podemos ir até lá e deixar a entrada desprotegida a um possível ataque. — Disse um dos guardas.
Os olhos de Luce haviam se enchido com pequenas lágrimas que ela controlava para não deixar cair, mas era difícil mediante a situação. Entendia que os guardas não poderiam deixar o portão desprotegido por conta das pessoas que viviam na cidade.
Mas era bem difícil aceitar que seu irmão e Luna estavam por conta própria. O pior era saber que ela não poderia fazer nada, nada além de torcer que eles ficassem bem. Ficou encarando eles se aproximarem da floresta em silêncio e com o coração batendo de forma acelerada, como se quisesse sair de seu corpo.
— Movimentação na floresta. — Gritou um dos guardas que patrulhavam em cima do muro.
O pânico dominou Luce e ela tentou mais uma vez passar pelos guardas, mas dessa vez eles a seguraram enquanto ela gritava o nome do irmão. Podia perceber que haviam seis pessoas paradas na frente de Luna e Sebastian, eles pareciam conversar.
Luce sabia que provavelmente eram os Deverpolt, ainda não entendia como Sebastian podia ser tão estúpido em ir até lá. Lágrimas escorriam por sua face e os guardas tentavam afastá-la e acalmá-la, mas parecia impossível.
— Abi, ela foi até lá? — Escutou uma voz masculina um pouco distante, soava quase como um sussurro.
— Sim, os dois foram. Será que... — Abi deixou a frase morrer no final e a angústia estava tomando conta de sua voz.
Luce sentia as lágrimas deslizando por sua face, sentia as mãos dos guardas fechadas em seus braços de forma firme, mas com delicadeza para não machucarem ela. Ao olhar por cima do ombro viu Pablo e Abi de costas para ela conversando, acabou franzindo o cenho, confusa.
— Não se preocupe, ela vai tira-los de lá em segurança. Não tem nada que aquela garota não consiga. — Ele soltou um pequeno suspiro e pousou a mão sobre o ombro de Abi.
Luce achou aquela frase ainda mais estranha, Luna tiraria eles de lá? Mas como e como esse garoto tinha tanta certeza disso? Os guardas soltaram Luce e ela suspirou se afastando um pouco deles, não adiantaria ela entrar em pânico isso só pioraria tudo.
— Deu tudo certo pelo menos, né? — Perguntou Abi em um sussurro.
— Sim, elas conseguiram chegar em segurança. Agora vão ficar bem. — Sussurrou Pablo.
— Que bom. Deve ter sido horrível o que elas passaram, tantos anos presas sendo ameaçadas e maltratadas. — A voz de Abi continha um certo pesar.
Luce não estava entendendo mais nada. De quem eles dois estavam falando? Será que foram as pessoas que foram para a floresta? E o que aqueles três tinham a ver com aquilo? Ela franziu o cenho e cruzou os braços na frente do corpo.
— Sim, todos achavam que Eleanor estava morta e a última coisa que imaginavam era que ela estava sendo mantida refém com uma filha. Foi um basta susto quando descobrimos elas duas, a garota estava presa em uma cela e acorrentada, desnutrida e toda suja. Usavam ela para chantagear Eleanor a se manter quieta e obediente, agora quero ver como aqueles dois vão ficar quando descobrirem que elas fugirem. — Disse Pablo.
— Queria ser uma mosquinha para ver. Albert continua trancado no solar, pelo que ouvi cada dia mais louco dizendo que Amber o está assombrando, que ela vinha durante a noite para culpa-lo por sua morte. — Disse Abi e soltou um pequeno suspiro.
— Também escutei algumas coisas sobre isso, na minha opinião só está colhendo o que plantou. — Disse Pablo dando ombros, ela observou Abi assentir.
Ao ouvir as palavras deles dois Luce encarou as costas deles, chocada com aquilo. Pelo que se lembrava das histórias dos Deverpolt Eleanor era a filha caçula de Elena e Alphonse, que havia desaparecido antes do grande golpe, (como ela e Sebastian costumavam chamar). Mas na realidade a mulher estava em Borthen o tempo inteiro, com uma filha que a família não sabia da existência.
Provavelmente seu pai e Albert eram os culpados pelo desaparecimento da mulher, apesar de tudo ela não estava surpresa. Já não se surpreendia mais com as maldades de seu pai, as vezes desejava não ser filha dele. Porque cada atrocidade que descobria sentia mais vergonha.
— Estão voltando! — Gritou um dos guardas.
Ela se virou correndo e foi até os portões novamente, os guardas não deixaram ela passar. Mas suspirou aliviada ao perceber que às seis figuras haviam desaparecido e Luna e Sebastian já subiam a colina novamente, se aproximando da cidade.
Ela suspirou aliviada e logo percebeu que não estava mais sozinha, Abi estava de seu lado direito e Pablo parado ao lado dela com uma expressão séria. Os dois encaravam seu irmão e Luna com certo alivio no olhar, aparentemente não perceberam que ela havia escutado a conversa deles.
Sebastian e Luna pararam no meio do caminho, Luna parecia inquieta com alguma coisa. Depois de discutirem por um tempo voltaram a subir, quando eles já estavam a poucos metros do portão Luce se aproximou deles correndo.
Dessa vez os guardas não impediram e ela agradeceu mentalmente por isso. Assim que se aproximou o suficiente se jogou nos braços do irmão, que não demorou a segura-la e abraçá-la. Luce começou a chorar baixinho enquanto Sebastian afagava suas costas e sua cabeça.
— Shiu, está tudo bem Luce. Calma. — Disse ele em um tom suave.
Luce se afastou e desferiu alguns tapas nos braços de Sebastian. Ele primeiro reclamou, mas depois acabou sorrindo e afagando o rosto dela, não demorou muito para ele começar a enxugar as lágrimas que ainda escorriam pela face da jovem.
— O que você tinha na cabeça seu idiota? Queria morrer? Se queria me falasse, eu mesmo te matava, seu idiota. — Ela esbravejou irritada, desferindo mais alguns tapas em seu irmão.
— Hey, calma Luce. Eu só queria tentar um dialogo com eles, tentar acabar com toda essa guerra que está acontecendo a anos e não deixa nenhum dos lados viver em paz. — Disse Sebastian soltando um pequeno suspiro.
— Acha que se te matassem isso acabaria? Isso só pioraria tudo, seu idiota.
— Foi exatamente o que eu disse. — Resmungou Luna de braços cruzados.
Luce se aproximou da amiga e a abraçou com força. Luna soltou um pequeno suspiro e retribuiu o abraço, ela também havia ficado preocupada com a menina, não somente com o seu irmão.
— O que importa agora é que todos estão bens e seguros! — Exclamou Abi com um sorriso de alívio em sua face.
— No final deu tudo certo, mesmo não sendo tudo como planejamos. — Ao falar aquilo Luna olhou diretamente para Pablo e Abigail que estavam parados na frente dela lado a lado.
Ambos assentiram em silêncio e Luna soltou um suspiro de alívio. Então Luna estava junto com eles em seja la o que? Mas por que ela não confiou em Luce ou em Sebastian? Presumiu que seu irmão não sabia de nada, já que o mesmo tinha se afastado alheio aos três e conversava com os guardas.
Luce então decidiu jogar o jogo deles e se aproximou com um pequeno sorriso. Eles pareciam sussurrar algo e quando Luna percebeu a aproximação de Luce encerrou a conversa e sorriu para ela. Isso só deu mais certeza para Luce que eles estavam escondendo algo.
— Eu ainda não sei ao certo o que vocês três fizeram, mas eu vou descobrir. — Afirmou ela seria encarando os três.
Abi arregalou os olhos, mas Luna e Pablo mantiveram a expressão neutra, como se Luce não tivesse falado nada. Pelo visto os dois sabiam disfarçar, mas Abi havia se entregado com a cara de espanto que havia feito.
— Luce, não faço ideia do que você está falando. — Disse Luna com calma a encarando.
Os outros dois se mantiveram em silêncio e a encaravam, Luce sorriu e soltou um pequeno suspiro.
— A noite conversaremos sobre isso Luna, quando todos forem dormir. Agora vamos embora, porque eu preciso de um banho quente pra me acalmar. — Disse a jovem.
Ela nem esperou uma resposta, ela somente se virou e caminhou na direção do irmão que parecia discutir com alguns outros guardas que tinham aparecido, isso incluía o chefe da guarda.
— Eu estou bem, eu só queria tentar resolver as coisas com diplomacia. — Explicou Sebastian visivelmente irritado.
— E conseguiu? — O chefe perguntou com o cenho franzido.
— Não, mas pelo menos eu tentei... — Disse Sebastian dando ombros.
— No final das contas arriscou a sua própria vida e da senhorita Luna para nada? — Perguntou de forma retórica e com a voz contendo um bocado de sarcasmo.
— É. — Respondeu Sebastian mal-humorado.
Luce teve que conter uma risada, era engraçado como seu irmão ficava mal-humorado quando as coisas não aconteciam da forma que ele queria. No final, o que importavam é que eles estavam bem e seguros naquele momento.
Claro, que ela ainda tinha que descobrir o que aqueles três estavam aprontando, esperava que Luna não tentassem enrolá-la como costumava fazer com Sebastian. Ela a algum tempo vinha observando a forma como Luna agia, as coisas que ela fazia.
Havia notado algumas coisas um tanto quanto diferentes e vinha guardando aquilo para si. Por várias vezes flagrou ela e Abi ou ela e Pablo cochichando pelos cantos, como se não quisessem ser vistos ou ouvidos. Nunca tinha dado muita importância para aquilo, até ouvir aquela conversa de Abi e Pablo.
Em alguns momentos sua mente havia tomado uma linha de raciocínio que ela já havia descartado por parecer bastante absurdo, mas depois da noite de hoje. Já não parecia mais tão absurda, ela pretendia descobrir o que realmente estava acontecendo.
— Vamos embora, Sebastian. Estou cansada e preciso de um bom banho para acalmar os nervos depois dessa noite. — Disse a loira soltando um suspiro pesado.
— Vamos sim, também estou precisando. — Disse o loiro e se afastou do guarda e indo na direção de Luna.
Luce observou com os braços cruzados enquanto esperava os quatro decidirem o que iriam fazer de suas vidas. Mas quando Sebastian parou ao lado de Luna ele a puxou pela cintura e simplesmente selou os seus lábios aos dela.
Abi olhava aquilo tudo com uma expressão de espanto e ria ao mesmo tempo, Luce somente sorriu arqueando a sobrancelha. Ela já havia percebido que eles estavam se envolvendo. Não era possível que só ela tinha reparado eles dois cheios de riso o dia todo? Ou que em determinado momento eles sumiram e depois voltaram ainda mais risonhos? Somente sendo cego para não ver o sentimento que um tinha pelo outro.
Ao se afastarem notou que o rosto de Luna estava completamente vermelho e não pode deixar de rir com aquilo. Já havia visto a Luna corada e com vergonha antes, mas nunca daquela forma.
— Sebastian, o que você tá fazendo ? — Resmungou ela apoiando suas mãos nos braços dele.
Ele a envolveu em um abraço carinhoso pela cintura e desferiu um pequeno beijo na testa dela. Luce sorriu observando Luna fechar os olhos e em seguida abrir um pequeno sorriso tímido.
— Estou sendo grato por estar vivo e deixando bem claro que não pretendo esconder de ninguém o que sinto por você. — Disse Sebastian.
Luce observou ele erguer a mão até a face de Luna e acariciar a mesma, estava curiosa sobre o que Luna estava aprontando e um pouco chateada por ter sido deixada de lado. Mas acima de tudo estava feliz por ver eles dois daquela forma, nunca havia visto seu irmão daquele jeito.
Claro, que ele já havia se envolvido com outras pessoas ao longo da vida, mas nunca tinha visto ele tão apaixonado. Para ela não restavam dúvidas sobre os sentimentos que seu irmão nutria por sua amiga e nem os de Luna por ele.
Basicamente podia se dizer que estava escrito na testa de ambos, não fazia ideia o porque eles haviam tentado esconder. Mas pelo visto aquilo não importava de fato, já que eles dois eram péssimos em disfarçar.
— Pombinhos, deixem para namorar no quarto. Vamos logo embora, estou cansada. — Disse Luce com um sorriso travesso.
Luna corou ainda mais, mas logo em seguida ergueu o dedo do meio para Luce. Aquilo fez a loira soltar uma gargalhada e dar ombros, logo em seguida se virou e começou a seguir na direção do trem que os levaria até o nível um.
Não demorou muito para escutar as vozes animadas de Luna, Abi e Sebastian atrás de si fazendo planos para o dia seguinte. Enquanto Luce só queria um banho quente e esclarecer suas suspeitas, os três já estavam planejando o próximo evento beneficente.
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Nikollay e os outros voltaram para o acampamento em silêncio, ele perdido nos próprios pensamentos e os outros ele sinceramente não se importava, só agradecia pelo silêncio enquanto tentava manter a cabeça em ordem.
Estava dizendo para si mesmo que entendeu tudo errado, que era só mais um plano louco de sua filha. Mas sabia que estava mentido para si mesmo quando pensava aquilo, ele viu o olhar dela para o rapaz, era exatamente daquela forma que Amber o olhava.
Apesar de a cor dos olhos serem diferentes, os olhos de Luna sempre foram iguais os de Amber. A sua menina sempre teve os mesmos olhares que sua amada, por isso que as vezes, era duro demais olhar para ela, principalmente porque ele sabia que a gentileza e compaixão dela tinha sido herdado diretamente de sua amada.
Quando entraram no acampamento ele seguiu direto para a sala de reunião, se manteve em silêncio enquanto retirava a espada com a bainha de sua cintura e jogava a mesma sobre a mesa. Logo em seguida ele deixou o corpo desabar sobre a cadeira que ficava na cabeceira, a cadeira que pertencia a ele.
— Senhor, com licença. A senhora Eleanor e a senhorita Crystal já foram acomodadas e estão se banhando. Precisa de mais alguma coisa? — Perguntou Ramona assim que entrou na sala.
— Peça para minha irmã vir aqui quando acabar, depois pode ir descansar. — Disse Nikollay com um tom de voz cansado.
Não demorou muito para os outros que estavam com ele adentrar a sala e cada um sentar em uma cadeira, todos pareciam bastante sérios e pensativos. Logo em seguida Elena, Gustav e Agatha entraram não tardando a se sentar.
— As duas chegaram bem aqui, então por que está todo mundo com essas caras? — Questionou Elena.
Nikollay encarou a filha em silêncio e apoiou o braço no braço da cadeira, não demorou muito para sua mão estar apoiando seu rosto enquanto a mesma tapava os lábios dele. Todos encaravam Elena e ela retribuía o olhar com uma expressão confusa.
— Parece que sua irmã enlouqueceu ou algo assim. — Resmungou Beatrice.
— Como assim? Vocês viram a Luna? — Perguntou Elena animada e confusa ao mesmo tempo.
— Sim, tivemos a chance de matar um dos filhos do Travis e ela ficou dando uma de louca ficando na frente e dizendo que não permitiria. — A jovem bufou irritada.
Bruce a encarou irritado e aquilo fez Nikollay arquear a sobrancelha, de todos os filhos ele era sempre o mais calmo e centrado, poucas as vezes viu o filho irritado com algo. Mark também não parecia feliz com as palavras da jovem e nem Elena.
— Matar o garoto só porque o pai dele é um babaca não resolveria nada, não foi ele que fez algo contra a nossa família. Os filhos não devem pagar pelos erros de seus pais, se você acha que a solução é sair matando todos que vemos pela frente, fico feliz em saber que não será a Alfa do Clã O'Connor. Já que o seu senso de justiça é péssimo. — Disse Bruce de forma ríspida.
Naquele momento todos encararam Bruce com espanto, geralmente quem dava as respostas atravessadas, era Luna e Elena. Bruce sempre se mantinha neutro e calmo em todas as discussões e assuntos, mas quando algo atingia Luna o instinto protetor dele sempre vinha a tona.
— O que você disse garoto? Repete se tem coragem. — Bradou a garota ficando de pé irritada.
Bruce não se deixou intimidar e ficou de pé encarando ela com um olhar sério. Todos se mantiveram em choque com aquela reação do rapaz, nenhum deles estava acostumado com Bruce agindo daquela forma.
— Que bom que não será a Alfa do Clã O'Connor, porque o seu senso de justiça é péssimo. Achar que devemos matar o rapaz só por ele ser filho de Travis, sendo que o mesmo só queria tentar resolver tudo sem derramar sangue. Ele foi bastante ingênuo achando que conseguiria resolver algo, mas pelo menos ele estava pensando em algo além do próprio umbigo e em matar por diversão. Pelo visto ele é mais sensato que você. — Respondeu Bruce de forma ríspida.
Elena tentou conter um pequeno riso, mas não teve muito sucesso naquilo. A garota estava irritada logo puxou a espada que estava presa em sua cintura e apontou na direção de Bruce. Quando ela fez aquilo todos os outros se levantaram e desembainharam suas armas apontando na direção da garota, exceto Brian, Nikollay e Gustav. Os três permaneciam sentados encarando a cena.
Gustav estava rindo baixo, Brian massageava as têmporas irritado e Nikollay se mantinha na mesma posição. A espada de Cameron estava no pescoço da garota, mas ela não havia abaixado a espada, seu irmão não a machucaria, mas também nenhum deles permitiriam que ela encostasse em Bruce.
— Brian, controle sua filha. Ela não pode vir a minha casa e ofender os meus filhos dessa forma e nem levantar suas armas contra alguém do meu clã. — Disse Nikollay em um tom polido e frio.
— Desculpe meu amigo, ela ainda tem problema em controlar seus impulsos. Vou garantir que isso não se repita. — O homem se levantou e se aproximou da filha.
A mesma o encarou com os olhos arregalados e depois com irritação, pelo visto ela estava esperando que o pai ficasse do lado dela. Mas ambos dos líderes sabia que o que ela fez poderia destruir a aliança deles, principalmente se ela tivesse atacado alguém.
— Beatrice, deixe suas armas na mesa. Todas elas. — Disse em tom sério.
— Mas papai eles que...— Ela começou a falar.
— Obedeça. — Disse em um tom ameaçador.
A jovem bufou e jogou a espada sobre a mesa, em seguida retirou algumas adagas de pontos estratégicos e jogou as mesmas junto das espadas. Entre os seios, das botas, de bainhas na cintura e algumas menores escondidas nas mangas.
— Não esquece a do cabelo. — Disse Gustav rindo.
Ela o fuzilou com o olhar e depois puxou o adorno que prendia o coque em seus fios negros, logo os mesmos deslizaram sobre as costas dela. E Nikollay reparou uma pequena adaga bem fina e discreta, ela usou a mesma como um assessório de cabelo.
— Agora saia, vá para a nossa tenda e fique lá até que eu mande você sair. Não faça nada idiota, Beatrice. — O tom de Brian era sério e ameaçador.
A morena assentiu e saiu da sala visivelmente irritada bateu a porta com força fazendo Brian revirar os olhos. Todos guardaram suas armas e voltaram a se sentar em silêncio, um pouco aliviados por não terem que lutar com aliados.
— Me desculpe velho amigo, às vezes ela é impulsiva demais e tem algum problema muito sério com as regras. — Resmungou Brian voltando a se sentar.
— Sem problema, como esse problema já foi resolvido. Vamos voltar ao assunto de antes. — Disse Nikollay.
Todos assentiram em silêncio, pelo visto ninguém estava querendo começar a falar. Então como líder acabaria sobrando para ele iniciar a discussão. Ele estava tentando pensar na melhor forma de usar as palavras para tentar descobrir se mais alguém havia percebido o mesmo que ele.
— Bom, de modo geral a operação foi um sucesso já que Eleanor e Crystal estão seguras. Mas eu ainda estou intrigado com aquele garoto, ele realmente quer acabar com tudo ou é mais um plano sórdido de Travis? — Questionou Nikollay.
— Todos vocês estão envolvidos emocionalmente nessa historia toda, já eu sou o único que permanece neutro, certo? — Questionou Brian e Nikollay assentiu. — Pelas batidas do coração dele dava para perceber que não estava mentindo, só um pouco assustado, mas que humano não estaria, certo?
— Eu posso estar errado, mas senti sinceridade na voz do garoto. E sempre ouvimos coisas boas a respeito dele e da filha mais nova de Travis. Tanto dos nossos espiões, quanto de Pablo e Luna. — Disse Cameron.
— Pablo demonstrou clara apatia pelo rapaz, hoje acho que entendi o porquê. — Mark deu um pequeno sorriso e Nikollay percebeu quando Bruce desceu seu cotovelo sobre a costela de seu filho mais velho. — Mas sempre disse que os mais novos de Travis eram bondosos com o povo e que nem pareciam ser filhos daquele crápula.
— Eu já não to entendendo mais nada. — Reclamou Elena cruzando os braços, sua filha odiava ficar de fora ou sem entender nada.
Nikollay concordou com a cabeça com os dizeres de todos e percebeu que não foi somente ele que notou algo diferente entre Luna e o rapaz, aquilo realmente o preocupava. Mas talvez não fosse hora de falar sobre aquilo, teria que ser um assunto interno para tratar depois.
— Sebastian, o filho de Travis veio ao nosso encontro nas margens da floresta logo depois que Crystal e Eleanor saíram de Borthen. Ele primeiro tentou dialogar e pedir que nos acabássemos essa guerra, para cessar com o derramamento de sangue. — Nikollay soltou um pequeno suspiro e observou que sua irmã estava encostada no canto da sala em silêncio. — Claro, que neguei isso a ele. Afinal, nos fomos os mais prejudicados com tudo e não é nem um pouco justo que nós tenhamos que viver aqui na floresta, escondidos de todos.
— Então o garoto sugeriu uma aliança, ele vai ajudar na tomada de Borthen. Só pediu para que não fizéssemos mal ao povo e pediu também para que deixássemos a mãe, a irmã e Luna livres. Ele colocaria a gente dentro do palácio e deixaria a gente pegar o Travis. — Concluiu Cameron.
— Ele também pediu um julgamento publico e justo para Travis, mesmo sabendo que ele vai ser condenado. Luna mostrou também como Travis foi um bom pai para o garoto. — Disse Mark, a parte final foi carregada de deboche.
Os outro que não haviam ido com eles assentiam em silêncio absorvendo aquelas informações e também tentavam entender tudo que havia acontecido naquela noite, parecia que Nikollay não era o único que estava meio perdido.
— Como assim? — Questionou Elena confusa.
— O rapaz tem as costas cobertas de cicatrizes, algumas provavelmente de quando ele era criança. Possivelmente feita com um chicote com pontas de aço. — Disse Brian com um tom irritado. — E aparentemente a irmã tem também, só que em menor quantidade.
Elena e Agatha encaravam todos ali horrorizados com as últimas informações, aquilo só deixava Nikollay ainda mais irritado. Como ele podia fazer aquilo com os próprios filhos? Pela forma de cicatrização muitas eram de quando o jovem era criança, ele nunca levantou a mão para os filhos.
Ele tinha oito filhos e nunca havia batido em nenhum deles, disciplinava eles com castigos dos mais variados. Ele e Cameron apanhavam de Alphonse quando eram crianças e prometeram que nunca criariam os filhos daquela forma, tentariam métodos alternativos.
Para ele havia funcionado bem e Amber concordava totalmente em não bater nas crianças. A única que sempre teve problemas em obedecer era Luna, que tinha problemas até hoje. Mas isso era por conta de sua personalidade forte e mesmo assim ela nunca o desrespeitou.
— Como eu ficava trabalhando na casa dos Golledray eu sempre ficava sabendo de algumas fofocas. Sempre disseram que ele era um monstro com a mulher e os filhos mais novos. Várias vezes os empregados comentavam com tristeza que ele tinha espancado um dos três e geralmente quem mais apanhava era o menino Sebastian. — Disse Eleanor soltando um suspiro. — Ele era o que mais apanhava porque geralmente se metia para defender a mãe ou a irmã, então ele apanhava em dobro. Teve uma vez que ele quase morreu por conta de uma das surras e ele só tinha 10 anos.
Disse a mulher com pesar em sua voz enquanto puxava a cadeira que antes estava Beatrice e se sentava. Ela ficou encarando as próprias mãos de forma triste e pensativa, todos pareciam um pouco abalados com as palavras dela.
— Luna falou sobre isso em uma das cartas, mas nunca pensei o quão longe isso tinha ido. — Disse Nikollay.
— Ta explicado o porque ele quer o pai morto. — Disse Gustav.
— Acho que, na verdade ele quer justiça. Ele parece querer fazer o certo para todos, todos sabem que Travis, Albert e Bernard não prestam. Ele parece querer que eles paguem por tudo de ruim que eles fizeram com os outros. — Disse Bruce.
As palavras dele fizeram Nikollay lembrar de outra coisa que havia surgido em meio a discussão com o garoto, ele estava tentando não considerar suas suspeitas sobre Bernard, sobre quem ele realmente atacou.
— Vocês conseguiram descobrir o que Bernard fez para ser preso? — Questionou Agatha.
Naquele momento Nikollay retesou sua mandíbula e encarou Bruce, percebeu que os outros haviam ficados alheio as verdadeiras informações que foram passadas para eles, sem que fosse dito diretamente.
Observou o punho do filho que estava sobre a mesa se fechar com a mesma força que ele fechou os olhos e tentava manter a respiração calma. Então, no final das contas ele não tinha imaginado coisa. Observou que Eleanor também havia ficado tensa com a menção daquele assunto.
— Parece que ele drogava as mulheres e abusava delas sexualmente. Aparentemente ele tentou fazer isso com uma moça, mas os irmãos chegaram e o flagraram tentando fazer algo com a jovem. Pelo que Luna disse, os dois depuseram contra Bernard e ele está preso, ele não chegou a ir às vias de fato com essa moça, mas aparentemente com as que vieram antes dela sim. — Disse Brian em um tom que tentava conter sua irritação.
Aquilo era uma coisa que o povo dele não admitia, se uma pessoa abusasse de outra sexualmente era julgada e condenada a morte se fosse considerado culpado. Era um dos crimes mais graves, perdendo só para traição ao clã e assassinato de um inocente.
— Eleanor. — Nikollay chamou a irmã.
A mesma o encarou com uma tristeza em seu olhar, aquilo esmagou ainda mais o coração de Nikollay. Mas ele precisava ter certeza, não poderia ficar com essa dúvida pairando em sua mente ou não teria paz e conhecia sua filha o suficiente para saber que ela não abriria a boca.
— Sim, Nik? — Eleanor tentou parecer tranquila, mas sua voz saiu tremida e um pouco embargada.
— Eu quero que me diga a verdade e eu só vou perguntar uma vez. — O tom de voz dele era contido, mas ameaçador. Ele observou a irmã estremecer e assentir receosa.— A tal garota que quase foi abusada por ele... foi a Luna, não é?
A pergunta dele era quase que retórica, mas ele precisava da certeza. Naquele momento quase todos da mesa olhavam para ele com os olhos arregalados, exceto Bruce que parecia ter ficado extremamente interessado na mesa de mogno.
— S-sim, mas pelo que ouvi Sebastian e Luce chegaram lá antes que... que ele... — Ela não conseguiu terminar a frase e pequenas lágrimas se acumularam nos olhos da mulher.
Naquele momento algo dentro de Nikollay explodiu e ele acabou descontando na mesa, desferiu um soco contra a mesma e não demorou para observar a madeira se partir diante da força usada por ele.
Elena tinha levado a mão aos lábios com uma expressão de horror e lágrimas escorriam pela face da filha, Gustav deslizava lentamente a mão pelas costas da filha dele, tentando consolada.
— Eu quero a cabeça dele em uma estaca bem no meio da praça. — A voz de Bruce era um sussurro grotesco e ameaçador.
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Nosso Bruce realmente ficou bem irritado hoje.
Luna e Sebastian não tão enganando ninguém.
O que será que a Luce vai fazer com o que ouviu? Será que ela vai se tornar uma ameaça?
Como a Luna vai lidar com tudo o que aconteceu e com tudo que ela está sabendo?
O que Nikollay vai fazer no final das contas?
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