Utópico.

26 Capítulo 25 - Um pouco de verdade.


Todos ainda pareciam em choque enquanto absorviam aquela informação. Eleanor odiava ter sido ela a portadora da verdade, mas era o certo. Eles precisavam saber e pelo pouco que viu da sobrinha ela não pretendia mencionar o ocorrido, pelo menos não tão cedo.

Todos haviam tido reações aquela revelação, os O'Connor pareciam perturbados e enojados. Elena chorava baixinho sendo consolada pelo jovem que estava ao lado dela. Nikollay encarava o pedaço de madeira que estava estraçalhado no chão.

Cameron abraçava a esposa que chorava baixo e negava com a cabeça e os outros filhos de Nikollay pareciam tomados pelo ódio, principalmente o jovem Bruce. Todos pareciam bem perturbados com a informação e não era para menos. Em um rompante a mulher de Cameron se afastou dele e encarou Nikollay furiosa.

— Tudo isso é culpa sua Nikollay, sua e de sua vingança estúpida. Tantas vezes eu e até mesmo o seu pai falamos que isso seria ruim e o que você fez? Simplesmente ignorou e treinou uma criança para ser o seu anjo vingador! E agora ela quase foi estuprada e se tivesse sido a sua culpa seria ainda pior. — Agatha bradou aquelas palavras e logo em seguida se retirou da sala não dando tempo de resposta.

A dor no olhar de seu irmão foi ainda maior conforme ouvia cada palavra e naquele momento Nikollay encarou o chão novamente em silêncio e maneou a cabeça negativamente. Todos estavam em um silêncio constrangedor.

— Brian sei que está aqui para nos apoiar, mas acho que nesse momento era melhor ficar só a família, entende? — Falou Eleanor com um tom calmo chamando atenção do homem.

— Claro Elly, entendo perfeitamente. É bom saber que está de volta e o que vocês precisarem ou o que decidirem terão o total apoio do meu Clã, monstros como eles não merecem vida ou misericórdia. Gustav. — Após proferir essas palavras ele se levantou e foi em direção a porta chamando o filho.

Eleanor observou o jovem dar um beijo no topo da cabeça da sobrinha que estava ao seu lado e em seguida ele se levantou se retirando junto com o pai. Nikollay deixou o peso de seu corpo cair sobre a cadeira soltando um longo suspiro.

Ela encarou seu irmão, ele parecia perdido e angustiado enquanto olhava para o nada. Todos ainda pareciam um pouco perdidos diante de tudo o que havia acontecido naquela noite.

— Pelo que você falou ele não foi até o final, certo? — Questionou Elena enquanto enxugava as lágrimas. — Até onde ele foi ?

— Querida, não sei se é uma boa ideia falar mais sobre isso. — Disse Eleanor em um tom afetuoso.

— Fale, Eleanor. — A voz de Nikollay saiu rouca, mas firme.

Ela soltou um longo suspiro enquanto todos a encaravam esperando uma resposta. Cameron voltou a se sentar parecendo atordoado com tudo aquilo. Eleanor respirou fundo e assentiu.

— Ela não fez comentários sobre isso, mas os empregados fizeram. Então, não tenho certeza do que realmente aconteceu podem ser boatos aumentados por fofoqueiros. — Eles assentirem diante das palavras dela e ela suspirou continuando. — Bom, os relatos falam que estavam todos em uma festa e ela começou a se sentir mal. Antes que Luce ou Sebastian percebessem que ela não estava bem Bernard a levou de volta a mansão. A jovem que está sempre com a Luna, Abigail. Estava passando na hora que eles entraram pelas portas principais e por ser uma das vítimas de Bernard desconfiou daquilo e rapidamente a tomou dele dizendo que ela mesma a levaria para o quarto e a ajudaria.

— Mas se ela desconfiou como foi que ele conseguiu? — Questionou Mark irritado.

— Abigail foi até a cozinha pegar um chá para dar a Luna depois de deixá-la na cama e quando ela saiu do quarto ele entrou. — Ela engoliu a seco e suspirou. — O que dizem é que em algum momento Sebastian e Luce saíram da festa preocupados com o sumiço de Luna. A verdade é que todos conheciam os boatos sobre Bernard, mas como Travis sempre dava um jeito de acobertar nunca conseguiram provar nada.

—Então acha que os irmãos suspeitaram de algo? — Perguntou Cameron.

— Acredito que sim, pelo que ouvia dos empregados os três sempre estão juntos para cima e para baixo, ela parecia fugir de Bernard sempre que podia. Então devem ter percebido ou só ficaram preocupados por ela passar mal. Quando chegaram no quarto dela escutaram algo e invadiram, foi quando eles viram...— Ela silenciou encarando as próprias mãos.

— Continue. — Ordenou Nikollay.

Ela encarou o irmão com pesar, o olhar de seu irmão era de pura angústia e culpa. Ela sabia que as palavras da esposa de Cameron o haviam estremecido e talvez ele quisesse saber o que ele acha que causou a própria filha.

— Eles chegaram no quarto e Luna parecia dopada, grogue e Bernard estava sobre ela. Nessa hora começou uma gritaria e todos se aproximaram para ver, uma das moças que trabalha lá me disse que quando chegou lá a Luna estava chorando abraçada a Luce que havia coberto ela com um lençol e Sebastian estava socando o irmão. Ao que parece foram precisos três guardas para conseguirem tirar ele de cima de Bernard e ele saiu do quarto desacordado. — Soltou um suspiro e encarou o seu irmão.

— Da para entender o porque Luna o protegeu tanto hoje, se não fosse ele e a irmã...— Cameron deixou a frase morrer, mas todos entenderam o que ele quis dizer.

— Agatha tem razão no que ela disse, se eu não tivesse sido tão cego. Tantas pessoas falaram sobre isso, várias vezes ao ver Luna se esforçar dez vezes mais que os outros eu me questionei se era justo com ela. Hoje eu vejo que não. — Nikollay dizia aquelas palavras com pequenas lagrimas escorrendo por sua face.

— Antes de a mamãe morrer ela não ligava para esse plano, ela sempre disse que quando chegasse a hora ela iria fugir e pronto. — Disse Bruce soltando um riso amargo. — Mas depois de o que aconteceu coma mamãe ela passou a treinar mais e passou a desejar essa vingança, então não se culpa meu pai.

— Isso é verdade, se ela não quisesse ela simplesmente desobedeceria ao senhor, como sempre faz. E se o senhor é culpado todos nós também somos, porque nos permitimos que ela fosse. — Concluiu Mark.

Todos ficaram em silêncio por alguns minutos perdidos em seus pensamentos, Eleanor achou melhor também se calar. Já havia falado demais e suas palavras trouxeram dor para sua família.

— Sabe pelo que vocês falaram Luna confia no garoto e até agora as únicas coisas que escutei sobre ele foi como ele salvou a minha irmã, como ele é corajoso e sobre ele pensar nos outros primeiros sem se importar consigo. Deveríamos dar uma chance a ele. — Disse Elena quebrando o silêncio.

— Os relatórios de todos os espiões, até os de Pablo e Luna sempre colocaram ele e a irmã como pessoas completamente diferentes de Travis, também acho que ele merece uma chance e não deve pagar pelos erros do pai. — Concordou Cameron.

— Acho que os de Luna podem estar comprometidos. — Disse Nikollay com uma expressão mais fria.

Eleanor ficou tensa na cadeira, assim como o jovem Bruce. Ela também havia escutado os boatos sobre a possibilidade de um romance entre eles, mas achou que era um assunto delicado demais para se mencionar. Bruce encarou o pai em silêncio, mas visivelmente apreensivo e Elena parecia bastante confusa.

— Por que os da Luna estariam comprometidos? Ela de todos nós sempre foi a mais exemplar quando se tratava de missões, ela nunca comprometeria a missão. — Disse Elena como se aquilo fosse obvio.

— Ela está apaixonada por ele. — Declarou Nikollay e encarou os demais.

Bruce abaixou a cabeça e ficou encarando as próprias mãos, Mark e Eleanor se moveram desconfortáveis na cadeira. Cameron ficou com uma expressão confusa que aos poucos foi se dissipando e sendo substituída por um tipo de compreensão espantosa. Já Elena teve uma reação bem inusitada e começou a rir bem alto, fazendo que todos a encarassem confusos.

— Luna? Apaixonada? Ainda por cima, por um humano? — A gargalhada foi ainda mais alta. — Ela sempre falou que odiava o amor e que nunca sentiria isso já que esse sentimento basicamente transformou o senhor em um zumbi ambulante. Sempre desdenhou do sentimento e não se apaixonaria logo pelo filho de Travis, por favor.

Todos ficaram em silêncio encarando ela. De fato todos sabiam o quanto a Luna era cética em relação ao amor, mas todos os outros viram o suficiente mais cedo para perceberem aquilo. De fato era uma situação estranha, mas não dava para negar o que foi visto.

— Bruce, você e eu fomos os primeiros a perceber e não adianta negar. Ela nunca implora para ninguém fazer nada, ela manda alguém fazer ou obriga essa pessoa a fazer e ela implorou no começo para que ele voltasse. Tinha medo em sua voz porque sabia que poderíamos atacá-lo a qualquer instante. Quando ele pediu para que ela subisse para acalmar a irmã ela perdeu o controle e começou a gritar com ele, geralmente ela só grita comigo daquela forma e eu preciso irritá-la bastante para isso. — Disse Nikollay encarando Bruce sério. — Na verdade, ela perdeu mais vezes o controle essa noite do que nos últimos cinco anos e tudo estava relacionado a ele.

— Sim, agora que vocês falaram. Eu achei estranha a atitude dela, mas achei que era porque ela podia precisar dele para o plano. O que vocês falaram faz bem mais sentido e também da para perceber que ele sente o mesmo por ela, já que ele pediu pela vida dela e não pela dele. — Completou Cameron.

— Não vamos esquecer que ela estava disposta a lutar com o papai para protegê-lo. — Disse Mark.

Elena encarava tudo boquiaberta, pelo visto não esperava aquilo vindo de sua irmã. Bruce continuava em silêncio somente sustentando o olhar de seu pai e Eleanor estava quieta com seus pensamentos.

— Como assim? — Perguntou Elena confusa e chocada.

— O garoto tem coragem isso não podemos negar, em nenhum momento ele se acovardou mesmo estando na nossa frente. Quando ele pediu o julgamento para Travis ele disse para o papai que se ele simplesmente matasse Travis a sangue-frio e sem um julgamento ele se tornaria como Travis. Nisso o papai ameaçou ir para cima dele e os olhos dela mudaram, ficou na frente dele em postura defensiva. Ali eu tive certeza do que estava rolando. — Disse Mark parecendo empolgado com aquilo.

— Estou chocada, admito eu esperava que até o Mark conseguisse uma namorada. Já a Luna? Achei que ia morrer sozinha sentada naquela cadeira velha do papai. — Disse Elena sorrindo.

— Ei, pera lá. O que quis dizer com isso? — Perguntou Mark.

Os dois pareciam não se importar muito com o fato de Sebastian ser filho de Travis e sim nas qualidades do garoto, provavelmente também consideravam os sentimentos da irmã. Ela sempre rejeitou o amor e nunca entregaria seu coração a um crápula.

— Eu vou ordenar que ela volte para casa. Essa palhaçada tem que acabar, já correu riscos o suficiente e ainda por cima se apaixona pelo filho daquele homem? Eu ia deixá-lo vivo, mas depois de vocês confirmarem o que eu estava suspeitando é bem melhor que ele morra de uma vez para não corrermos riscos. — Disse Nikollay com raiva e amargura em sua voz.

— Nik, não sei se isso vai ser uma boa ideia. — Disse Cameron.

Nikollay se colocou de pé e sorriu com deboche enquanto encarava o irmão. Pelo visto ele não aceitaria tão fácil o fato de sua filha, futura líder de seu clã estar apaixonada por um Campbell. Isso não era nada que de fato surpreendesse Eleanor.

— Ainda bem que o líder ainda sou eu e que a palavra final é minha e não sua, não é querido irmão? — Disse de forma debochada.

— Você realmente é tão egoísta assim? — Pela primeira vez desde que aquele assunto surgiu a voz de Bruce foi ouvida.

Ele encarava Nikollay com raiva de início o pai o fitou confuso, mas logo em seguida recuperou a compostura e o encarou com frieza. Os olhos de Nikollay clarearam um pouco enquanto encarava o filho.

— Você a vida inteira a forçou a treinar, primeiro para ser sua maldita espiã e depois para liderar o clã. Ela não virou um robô por conta da mamãe e de mim, agora que ela finalmente está descobrindo um sentimento tão bonito você quer simplesmente acabar com isso? Pelo que? Pelo seu ego? Por sua estúpida vingança? — Disparou Bruce com raiva enquanto se colocava de pé.

— Meça suas palavras, Bruce. Sou seu pai e o seu Alpha. — Rosnou Nikollay.

— A única coisa que aquele garoto fez foi protegê-la quando você a mandou direto para o perigo. A única coisa que ele fez hoje foi ter coragem de te encarar e te dizer o que queria, foi sincero querendo que as coisas melhorassem. Pediu pela vida dela e das outras duas, mas em nenhum momento pediu pela própria vida. E não vamos esquecer que hoje ela estava disposta a te encarar para protegê-lo e não vai ser uma ordem sua que vai mudar isso. Se matá-lo ela vai te odiar e eu apoiarei o que ela decidir. — Disse Bruce.

Era a primeira vez que viam ele agir de tal forma, ele era sempre calmo e afetuoso. Geralmente quem arrumava confusão e batia de frente era Luna, já ele sempre tentava controlar ela e amenizar a situação.

— Se você matar esse rapaz meu irmão, ela ficará pior ainda do que você. Quem ela ama vai morrer pelas mãos do próprio pai e além de perder o amor, vai perder o pai junto. Ela pode não te matar, mas ela nunca iria te perdoar e provavelmente desertaria. — Disse Eleanor tentando trazer a sanidade de volta ao seu irmão.

— E provavelmente metade do clã iria junto com ela. — Disse Mark.

— Mesmo ele sendo filho de Travis, acham mesmo que eles iriam segui-la? — Questionou Nikollay de forma debochada.

— Alguns talvez não fossem por conta disso, mas muitos não se importariam com isso. Não se vissem o que vimos hoje, como ele gosta dela, como ele a protege e cuida dela. A decisão de nos entregar o pai foi justamente por causa da Luna, o senhor não vê isso? — Retruca Bruce irritado.

Nikollay solta uma gargalhada debochada e encara seu filho com os braços cruzados. Eleanor temia que o ódio havia consumido seu irmão de tal forma que o havia deixado cego. Precisava ajuda-lo a enxergar a verdade e parece que seus sobrinhos tinham o mesmo pensamento.

— Até parece que ele fez isso por Luna e não pela mãe ou pela irmã. — Retrucou o homem.

— Na verdade, foi por ela sim. Muitos tem medo que Travis faça algo com Luna porque ela conseguiu colocar Bernard na cadeia. Coisa que ninguém antes conseguiu, porque o pai sempre acobertava o filho. Dizem que ele a ameaçou na delegacia, mas como tinha repórteres e outras pessoas perto ele recuou. Pense bem meu irmão, Sebastian teve anos para dar um jeito de se livrar do pai por conta das agressões que aconteciam mais nunca fez. Então Travis ameaça Luna e ele sabe que não conseguiria proteger a garota do pai, na primeira oportunidade vem até você oferecendo ajuda. — Disse Eleanor.

— Ele sabe que se fizermos isso o pai dele vai morrer e ele fez uma escolha. Entre o seu próprio pai e a Luna, ele escolheu a sua filha. Mesmo não sabendo quem ela realmente é. — Disse Cameron.

Nikollay voltou a se sentar na cadeira em silêncio, parece que as palavras de todos o fizeram refletir sobre tudo o que ele estava pensando. Tudo o que perderia com tal atitude, perderia o amor e respeito de muitas pessoas.

— Sabe o que acabei de pensar? — Resmunga Elena parecendo triste.

— O que Lena? — Pergunta Mark curioso.

— Quando ele souber a verdade pode ser que ele a odeie. Afinal, caso ninguém lembre no primeiro mês ela acabou se deitando com Bernard pra conseguir informações. Está mentindo para eles a meses sobre quem ela é e sobre o que realmente está fazendo lá. Uma hora ele vai descobrir. — Disse ela com um suspiro cansado.

Todos ficaram em silêncio pensando sobre aquilo, ninguém havia pensado por esse lado até aquele momento. Eleanor observou que seus sobrinhos ficaram tristes com tais pensamentos, eles realmente pareciam querer que aquele relacionamento desse certo.

— Talvez no fim, eu nem precise me preocupar com esse garoto. — Disse Nikollay com um sorriso debochado.

Naquele momento Bruce virou as costas e caminhou na direção da porta, irritado. Não demorou para Mark e Elena seguirem o irmão parecendo desapontados com as atitudes de seu pai.

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Algumas horas já haviam se passado desde o incidente no portão. Sebastian havia sido chamado por Travis para ser questionado, Pablo sumiu antes que ela conseguisse falar qualquer coisa com ele. Já Abi, Luce e Luna foram direto para seus quartos, tomar um banho e tentar descansar depois de tanta emoção.

Luna havia dispensado Abi, precisava ficar sozinha e colocar a sua cabeça no lugar depois de tudo que havia acontecido. Ela havia enfrentado seu pai e os O'Connor por Sebastian e também estava disposta a protegê-lo caso tentassem matá-lo.

Bruce havia notado desde o início, os olhares e sorrisos dele não esconderam isso. Como sempre ele estava do lado dela e já tinha deixado claro que a apoiaria naquela relação, principalmente com as palavras que disse antes de sumir entre as árvores.

Isso fez com que Luna sorrisse, ela sentia tanta falta de sua metade que às vezes, chegava a doer. Sentia falta de compartilhar tudo com ele, de estar sempre perto dele. Claro, que sentia falta de toda a sua família, mas a sua conexão com Bruce era forte de mas. Aquela tinha sido a primeira vez que via qualquer pessoa de sua família em meses e apesar de toda a confusão se sentia feliz.

Estava deitada na cama com um pijama azul enquanto encarava o teto, provavelmente Sebastian viria depois que ele terminasse com Travis e teria que explicar direitinho aquela historia louca de que Travis não era pai dele ou de Luce.

Um barulho vindo da sacada a tirou de seus devaneios, com um sorriso nos lábios a morena se levantou e caminhou rapidamente até a porta da sacada. Rapidamente puxou as portas abrindo as mesmas com um sorriso em seus lábios enquanto o chamava.

— Sebastian... — Ela o chamou sorrindo.

— Quer dizer que ele pula pra sua sacada no meio da noite, seus safados. — Ao ouvir a voz de Luce ela congelou.

Luna ficou parada encarando Luce com o cenho franzido e o rosto um pouco corado. Já Luce começou a rir enquanto se aproximava de Luna. Não demorou muito para Luna se recuperar do susto e encarar Luce um pouco irritada.

— O que está fazendo aqui e por que não usou a porta, Luce? — Questionou Luna cruzando os braços.

— Eu disse que conversaríamos depois que todos tivessem ido se deitar e aqui estou e não queria que ninguém me visse. — Disse a loira caminhando para dentro do quarto.

Luna soltou um suspiro e apoiou às duas mãos na própria cintura enquanto seguida Luce para dentro do quarto. Ela fechou as portas da sacada e passou a chave. Mas deixou as cortinas abertas, para caso alguém pulasse para a sacada elas conseguiriam ver.

Luce se sentou na cama de Luna deu dois tapinhas ao seu lado e sorriu para a morena. Ela somente suspirou e se sentou ao lado de Luce, sabia que ela estava desconfiando de algo, mas precisava ter certeza do que exatamente.

— Luce você está imaginando coisas. — Resmungou Luna.

— Não estou, sabe tem um tempo que venho observando você. Está sempre cochichando pelos cantos com Abi, Pablo e até mesmo Ethan. Eu tomei uma linha de raciocínio e depois descartei logo em seguida já que parecia absurda demais. Mas depois de hoje eu já não tenho mais tanta certeza. — Disse Luce soltando um suspiro.

— Luce, Abi e eu estamos sempre conversando sobre algo. Pablo geralmente trazia algum recado de Bernard e Ethan só é gentil comigo. — Disse Luna dando ombros.

— Para de mentir Luna! Quando eu falei que vocês escondiam algo Abi se entregou com a cara que ela fez, já você e Pablo souberam disfarçar muito bem. Eu sei sobre Eleanor e Crystal! — Disse Luce irritada encarando Luna.

Luna congelou naquele momento encarando Luce sem acreditar no que estava ouvindo. Tudo bem, ela não aguentava mais mentir queria poder contar para ela e Sebastian toda a verdade, porque eles não mereciam serem enganados daquela forma e queria dizer que o sentimento que ela tinha pelos dois era real, nunca foi uma mentira.

Ela engoliu a seco e encarou Luce ainda nervosa, sem saber como responder. Respirou fundo e levou os dedos até os fios negros. Não sabia como lidar com aquilo agora, respirou fundo e encarou Luce mais uma vez.

— O que você sabe sobre isso? — Perguntou Luna cautelosa.

— Sei que Eleanor Deverpolt estava sendo chantageada para ficar em Borthen, que haviam prendido a filha dela e não deram escolha a ela. Também sei que você e Pablo que a encontraram, assim como vocês dois junto com a Abi ajudaram elas a fugir. Provavelmente quem prendeu elas, foi o meu pai, não é? — Questionou Luce soltando um suspiro.

Luna ficou em silêncio por algum tempo pensando no que falaria para Luce, não queria mais mentir. Mas também não poderia estragar o disfarce, se por uma acaso ela contasse para alguém eles três estariam em grave perigo.

— Sabe a um tempo atrás eu comecei a pensar que você poderia ser algum tipo de espiã enviada pra cá. Afinal, nossa prima Luna era um bebê da última vez que esteve aqui. Depois descartei pela ideia ser absurda demais, tudo bem que você está sempre se esgueirando por aí, sumindo e cochichando. Mas não parecia certo, sabe? — Luce encarou Luna,

Essa permaneceu em silêncio encarando o chão, não estava preparada para realmente ter sentimento por essas pessoas. Ela estava preparada para chegar aqui e encontrar uma família de filhos da puta que seria fácil enganar, como foi com o Bernard. Mas Luce e Sebastian eram tão diferente dos demais, no final das contas ela não estava tão preparada ou pronta para aquela missão.

— Só que depois de ouvir a conversa de Pablo e Abigail, eu tenho minhas dúvidas. Então comecei a pensar em várias coisas. Abi é compreensível ela estar ao seu lado depois de o que meu irmão fez com ela. Pablo chegou junto com você e por várias vezes assim que chegaram aqui tentavam disfarçar para parecer que não se conheciam, mas ele não é bom nisso. Principalmente se o Sebastian estivesse perto, sempre ficava nítido o ciúme. — Decretou Luce.

A loira ficou de pé e começou a andar de um lado para o outro na frente de Luna. A mesma ficou quieta e só levantou o olhar enquanto começava a encarar uma Luce inquieta andando de uma lado para o outro. Soltou um pequeno suspiro e prendeu os cabelos negros em um coque, estava calor naquela noite e aquela conversa não estava ajudando.

— Depois que vocês chegaram parece que toda a merda que estava guardada nas gavetas estão sendo jogadas no ventilador, Bernard. Albert enlouqueceu, já escutei algumas conversas de Travis dizendo que achava que podiam ter colocado um infiltrado na cidade. Ele sempre foi paranoico, tudo bem, mas dessa vez acho que ele está certo. — Luce parou bem na frente de Luna.

Luna respirou fundo e ficou de pé, a fitou com os braços cruzados em silêncio. Ela não sabia o que dizer ou como fugir dessa situação, na verdade, não sabia se realmente queria fugir e continuar mentindo para Luce daquela forma.

— Alguma coisa foi verdade? Ou fazia tudo parte do plano? E meu irmão? Você realmente gosta dele ou ele é um meio para um fim? Eu juro por Deus, que se estiver fazendo isso com o Sebastian eu acabo com você, ele não merece isso. — Disse Luce com lágrimas nos olhos.

A menção de Luce relacionada aos sentimentos de Luna a desestabilizaram. Lagrimas também escorriam da face de Luna enquanto ela negava com a cabeça e se aproximava de Luce. A segurou pelos ombros séria, sentiu Luce estremecer, mas não ligou. Estava na hora de resolver isso.

— Não, isso nunca foi mentira. Eu realmente te amo como uma grande amiga, como uma irmã, Luce. E eu não gosto do seu irmão. Eu o amo. Só fui perceber isso hoje na beira da floresta, eu percebi que eu estava disposta a tudo para protegê-lo. Mesmo que isso me custasse tudo, inclusive a minha vida. — Disse a Luna com firmeza.

— Então é verdade mesmo, não é? Você é uma pessoa infiltrada que veio aqui para acabar com Travis? — Perguntou Luce.

Luna respirou fundo e assentiu enquanto tentava conter as lágrimas. Luce deu um passo para trás se livrando do aperto de Luna e a mesma continuou a encarando com tristeza. Na face de Luce ela enxergava várias coisas, tristeza, decepção e medo. Provavelmente o medo era o que mais havia machucado Luna.

— E veio para matar a todos nós? — Perguntou Luce engolindo a seco.

— Pela lua, não! Eu vim aqui para derrubar Travis e Albert, fazer com que eles pagassem por todos os crimes deles. Descobrir os podres, expor e deixar o povo fazer o resto. Mas ai eu conheci você, Sebastian e até mesmo Amélia, vi que vocês não mereciam nada disso e que ele é um crápula até com vocês. Tenho certeza que eu conseguiria deixar vocês em segurança independente do que acontecesse, mas eles dois e Bernard vão ter o que realmente merecem. Sei que são da sua família, mas... — Luna deu ombros e voltou a se sentar na cama.

— Me conta tudo, tudo o que você fez, o que descobriu desde que chegou aqui. E eu prometo não dizer nada a ninguém, eu entendo o seu lado e de quem provavelmente a mandou até aqui. Eu bem sei como eles são desprezíveis. — Disse Luce.

Luce se sentou na cama e não demorou para Luna se sentar também, ela encarou Luce em silêncio por alguns segundos e depois começou a narrar tudo. Ela contou tudo o que havia feito nos últimos meses, sobre os relatórios, até sobre Bernard. Mas também deixou claro que depois de o dia em que Sebastian a ajudou em seu momento de desespero ela se afastou de vez de Bernard. Luna não sabia ao certo quantas horas se passaram enquanto ela narrava tudo.

Talvez aquilo não ajudasse muito, mas ela precisava ao menos tentar. Por um tempo depois que ela terminou de falar Luce só ficou em silêncio a encarando. Luna deixava as lagrimas escorrerem, era bom finalmente se livrar daquele peso. Mas se sentia péssima e com medo, medo de que Luce a odiasse e a entregasse.

— Isso foi bastante informação, apesar de estar chocada e desapontada com algumas coisas. Eu entendo sabe, o seu povo foi o que mais sofreu com toda essa historia da expulsão. Era bem obvio que iam querer vingança, lembro que falamos sobre isso uma vez e nunca imaginei que a espiã seria você. — Disse Luce.

— Me perdoa, Luce. Eu realmente fiz o que precisava fazer e só me arrependo de poucas coisas na verdade. De Bernard, eu fui longe demais e acho que o ódio que eu sentia era tão grande que me perdi no meio do caminho. Mas você e Sebastian me trouxeram de volta, me mostraram que eu podia cumprir a minha missão sem me rebaixar tanto novamente e também me arrependo de ter mentido para vocês. Só que eu não podia contar, hoje eu confio em você o suficiente para saber que se decidir me entregar ao menos vai me dar a chance de fugir. — Disse Luna dando ombros.

— Não vou entregar você, está louca? Eles te matariam e matariam quem te ajudou, isso faria ele ir atrás dos Deverpolt novamente e mais gente ia morrer. Na verdade, eu vou te ajudar na sua missão. Aquele crápula nunca foi um pai para mim ou um bom marido, se o seu povo vai dar um julgamento a ele é bem mais do que ele merece. — Disse Luce determinada.

Luna a encarou totalmente surpresa e bastante feliz com aquilo. Sempre o que mais a preocupou foi a reação de Luce e de Sebastian, saber que aquela era a reação de Luce lhe trazia conforte e bastante alegria.

— Então você não me odeia? — Perguntou Luna chorosa.

— Claro que não! Você é minha futura cunhadinha e melhor amiga, como vou te odiar? Tudo bem, você errou em vários pontos. Mas ninguém é santo ou perfeito e você está fazendo tudo para o bem do seu povo, do meu e da parte que presta da minha família. Se eles forem presos e condenados, nós todos vamos ter paz. — Disse Luce.

Luna sem pensar muito se jogou sobre Luce e a abraçou com força. A loira soltou uma risadinha baixa e afagou as costas da morena enquanto retribuía o abraço. Luna chorou ainda por um tempo e pediu desculpas umas mil vezes. Luce parecia tentar absorver toda aquela informação, mas uma parte dela já estava preparada para aquilo.

Ela levou muitas horas para pensar em tudo antes de vir ao quarto de Luna e ela já estava quase certa de que seus pensamentos estavam corretos. Quando Luna finalmente se acalmou e se afastou enxugando o rosto Luce lhe desferiu um pequeno sorriso caloroso.

— Bom, que você é uma Deverpolt ficou obvio. Mas todos no clã tem o mesmo sobre nome certo? — Perguntou Luce, não demorou muito para Luna assentir confirmando. — Como você foi escolhida para isso então? Eles te obrigaram?

— Amber quando saiu daqui já estava grávida do Mark e quando ela estava com 7 meses uma bruxa apareceu no acampamento com uma profecia. A criança da profecia restauraria a glória e o poder dos Deverpolt, também vingaria o povo e ainda traria eles de volta para Borthen. — Explicou Luna de forma superficial.

— Então, no caso a criança é você? E o Pablo quem é? — Perguntou Luce curiosa, como sempre.

— Sim, sou eu. Ele é de um clã da América do Sul nossos aliados, se ofereceu para a missão. Tivemos uma amizade colorida por um bom tempo, por isso os ataques de ciúmes, não aceitou o fim muito bem. Eu disse para ele que não queria homem nenhum e que tinha que me concentrar na minha missão. E eu sempre disse a todos que não suportava o amor já que isso fez o meu pai virar um morto vivo quando minha mãe morreu. Ironicamente o homem que eu amo é filho do meu inimigo, o universo é um belo sacana. — Disse Luna revirando os olhos.

— Por isso ele ficava com cara de ódio toda vez que via você com Sebastian, disse que não queria ele e não queria amar. Acaba amando quem você não deveria. — Conclui Luce parecendo entender alguns pontos.— Espera!! Você é filha da Amber e do Nikollay? Como assim? E qual é o seu nome de verdade?

— Sim, sou filha deles e meu nome é mesmo Luna, por uma coincidência bizarra. Luna Deverpolt, muito prazer. — Disse ela rindo e estendendo a mão para Luce.

— Luce, sua melhor amiga e futura cunhada. O Prazer é todo meu. — Luce pegou a mão de Luna e apertou rindo.

Luna ficou séria por alguns instantes e encarou Luce com bastante medo. Ela não sabia como realmente seria dali para frente, mas tinha uma única coisa que a preocupava mais do que tudo e ela não sabia se suportaria a consequência de seus atos.

— Será que ele vai me odiar quando souber, Luce? — Luna perguntou em um sussurro temeroso.

Notas finais
◤━━━━━━━ ☆. ☪ .☆ ━━━━━━━◥ Estamos quase chegando na reta final desse livro ç.ç. Obrigada por não desistirem ♥