Utopia

6 Capítulo 5


-O que você está fazendo aí!? — ele perguntou surpreso — Ou melhor, a quanto tempo tá aí parada?

Dei um passo para trás.

-Ah... eu só estava olhando as jaulas. Não sabia que você estava aqui.

Ele me fuzilou com os olhos.

-O que exatamente você viu?

Soltei um suspiro irônico.

-Bom, isso não importa. Mas o que você tava fazendo aí?

Ele pareceu ficar meio sem graça.

-Eu só...

Nesse instante, um raio cortou o céu e uma chuva fina começou a cair.

-Ah, não! — falei exasperada — tenho que voltar! Boa sorte aí.

-Ei, garota, espere...!

Me virei antes de ouvir o que ele pretendia dizer. Tinha que sair dali antes que a chuva piorasse. Passei por algumas jaulas e não encontrei o caminho para voltar à entrada do zoológico. Parei perplexa. Eu tinha me perdido?!

Voltei para onde vi o menino, mas ele tinha ido embora.

A chuva começou a aumentar. Olhei ao redor em busca de uma ajuda ou qualquer pista para sair dali e só escutei passos vindos da esquerda. Contornei uma árvore a corri até lá.

Não encontrei nada nem ninguém, porém ouvi um farfalhar de folhas atrás de mim e me virei. Quando vi o que era, quase gritei.

Aquela mesma cobra de antes. E agora vindo na minha direção!

O animal, vermelho com listras pretas, tinha um pouco mais de um metro. Eu não entendia nada de cobras, mas não iria mesmo ficar parada ali, a vendo vir até mim. Se eu corresse, ela poderia tentar alguma coisa. Mas e se eu não corresse?

Eu não sabia o que fazer!

Sem eu perceber, um vulto surgiu atrás de mim e se posicionou bem minha frente.

-Ei, toma cuidado. Ela não é venenosa só que ataca por instinto quando está com fome.

Era outra vez aquele garoto.

-Olha, não te conheço direito, mas preciso que me ajude — ele olhou rapidamente para mim enquanto falava — vá até aquela árvore ali atrás e pegue uma injeção e a caixa marrom.

-T-Tá!

Me virei e fui até a árvore.

-O que você vai fazer? — perguntei, entregando-lhe a seringa.

-Você vai ver.

Ele pegou a cobra como se conhecesse os gestos do animal e aplicou a injeção. Em menos de um minuto, a cobra parou de lutar e permaneceu imóvel.

-Abra a caixa.

Depois de fechar a tampa, a entreguei ao garoto.

Ele sorriu aliviado.

-Nossa, sabia que você me ajudou pra caramba agora!? Tentar fazer isso sozinho é muito irritante.

Eu sorri também.

-O que tinha na injeção? Você matou a cobra!?

-Não! Não foi isso. É que aquela era uma fêmea que fugiu do zoológico e que iria ter filhotes em menos de duas semanas... Por isso, como o pessoal daqui parece ser bastante inútil, eu decidi procurar por ela. Valeu pela ajuda.

-Ah... de nada.

Aquela chuva estava me ensopando e eu não sabia o que mais dizer a ele. Só o que consegui fazer foi ficar encarando-o e reparar que ele devia ter a mesma idade que eu.

-Você ainda não me disse seu nome — ele perguntou com um sorriso no rosto.

-Camila. E você?

-Hiago.

Ficamos conversando enquanto ele me acompanhava até a entrada. Ele era muito divertido, no entanto, mesmo que sorrisse bastante, notei que seus olhos tentavam um medo que manchava sua face, escurecendo todo o brilho que seu sorriso revelava.

Quando chegamos, me despedi dele e fui para a lanchonete. Olhei uma última vez para trás e, como se fosse um sonho, ele já tinha partido.