Utopia
29 Capítulo 28
— O quê? – minha respiração parou – Por que tá falando isso?
-Eu vou embora, Camila.
-Não, por favor. Eu... – minha voz falhou quando as lágrimas começaram. Eu preciso de você, era o que eu queria dizer. Levei minhas mãos aos olhos e percebi inutilmente o quanto elas estavam tremendo.
Hiago, não conseguindo mais me encarar, baixou os olhos para a mesa.
-É por causa do câncer, não é? – e verdade deixou minha voz ácida.
Seus olhos se encheram de dor.
-Não é por isso – mentira! Eu queria gritar – São os traficantes e os outros. Eles ainda estão atrás de mim. Não sei se já sabem onde moro, mas tente entender, Camila, eu não quero que eles te encontrem e te machuquem!
Hiago empalideceu e seus olhos emudeceram. Enxuguei as últimas lágrimas que atrapalhavam minha visão.
-Se é por isso – falei devagar, para não perder o controle novamente – eu vou com você.
Ele finalmente conseguiu me olhar nos olhos.
-Mas...
Entendi onde queria chegar; uma garota com câncer só seria um problema.
-Esqueça o câncer – murmurei, cerrando os punhos para tentar conter minha raiva.
-Impossível.
Aquelas palavras derrubaram toda fúria que resistia em mim.
-Você é forte, Camila. Vai conseguir continuar sem mim.
-Não diga isso – lutei contra as lágrimas que queriam abafar minha fala – Nós podemos dar um jeito.
-Pare de pensar só em você! – ele me interrompeu, levantando-se abruptamente da cadeira – Você tá sendo muito egoísta achando que só você tem problemas. O mundo não gira à sua volta.
Dizendo isso ele me deu as costas e saiu da cozinha.
Egoísta...? então era assim que Hiago me via? Uma parte de mim fez questão de concordar com ele.
Levantei-me sem ânimo nenhum e foi nesse mesmo instante que um raio cobriu o céu e um som estridente ecoou pelo ar. Cheguei até a janela e olhei para cima. Uma tempestade estava por vir.
Não me importando com o barulho da chuva, caminhei até o meu quarto. Assim que me encontrava nele, tranquei a porta e me joguei na cama, fechando os olhos.
Eu não queria pensar em nada, em ninguém. Concentrei todas as minhas forças para deixar minha mente em branco, mas as imagens vieram mesmo assim.
Talvez eu pensasse mesmo que o mundo girava ao meu redor, no entanto, não era por eu me achar o centro de tudo, e sim para descobrir se eu era realmente importante na vida dessas pessoas; se eu era uma das peças que completariam o quebra-cabeça. Que pessoa nunca se sentiu assim?
Amigos, família, amores e trabalho. Mesmo sem ser a minha intenção, acabei prejudicando todos eles. Não era isso que eu queria.
Busquei no subterrâneo da minha consciência por alguma coisa que eu pudesse fazer para consertar os danos que causei. Tinha que haver algo. Subitamente, abri os olhos. Já sabia o que tinha que fazer.
Lutei contra meu lado que não concordava com meu plano até o convencer. Abri a porta silenciosamente e, quando passei, a fechei outra vez. Segui na ponta dos pés para a sala. Felizmente, a luz estava acesa e não precisei tatear às cegas pelo bloco de notas e uma caneta. Encontrei ambos numa mesa ao lado da estante de livros. Estranhamente, eu não estava triste ou com medo. Eu simplesmente sabia o que precisava fazer.
Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Seja feliz.
Essas foram as palavras que escrevi na folha de papel antes de abrir a porta.
Fale com o autor