Utopia

30 Epílogo


As gotas de chuva da tempestade me seguiram durante todo o caminho. Passei por ruas das quais nem vi o nome, atravessei avenidas, praças e corri. Por mais longe que obriguei minhas pernas a ir, só parei quando não tinha mais forças para continuar de pé.

Eu arfava e minha pele estava fria e molhada. Olhei para a rua em que estava e alguma coisa me pareceu familiar. Girei quase noventa graus e vi uma casa diante de mim.

A casa dos meus pais.

De todos os lugares que eu podia ter isso, por que fui para ali? A imagem deles juntos corroeu minha mente. Mãe, pai... mesmo agora eu continuo em dúvida...

Foram vocês que me abandonaram ou eu que abandonei vocês?

A pergunta pairou em minha mente sem eu achar uma resposta.

Avencei um passo em direção à construção. A cada movimento que eu fazia, as duas janelas da frente pareciam me olhar com fúria e reprovação. Sem desviar os olhos daquela casa vazia e escura, continuei em frente.

Agora até a dor que eu sempre sentia havia se espalhado por todo meu corpo trêmulo. Você é forte, Camila; foram as palavras de Hiago. Não, eu não era mais assim, eu devia ter dito a ele. Já estava cansada de fingir que era forte, pois tudo que me era precioso eu perdi em algum lugar.

Heloísa, Hiago, dona Vera e meus pais. Tudo que eu tinha havia ido embora.

Um vento frio e súbito me atingiu e eu me desequilibrei, tropeçando em alguma coisa e caindo no chão. Não tinha mais razão para me levantar, então, continuei deitada, deixando a chuva me cobrir.

Estava cada vez mais frio.

Me encolhi e estendi uma das mãos para o vazio, como se buscasse um cobertor imaginário. Não encontrei nada. Então, deixei minha mão cair, derrotada, sobre o chão.

Sem me mover, fechei os olhos e esperei que o fim da escuridão chegasse. Tudo o que eu queria era perder esse corpo pesado que me prendia ao chão e me tornar um grão de areia, flutuando pelo ar até alcançar o céu.

Era nisso que eu pensava quando a escuridão me silenciou.

O frio tinha passado. A dor tinha quase desaparecido.

Abri os olhos e a claridade me cegou por um momento. Escutei um arfar ao meu lado e um rosto surgiu em meio a todo aquele branco.

Um anjo. Foi o que ele me lembrou. Olhei atentamente para aquele sorriso e para aqueles olhos que pareciam tão familiares a mim.

Sorri. Sim, ele era um anjo. Um que eu conhecia muito bem.

-Hiago...

-Shhhh – ele sussurrou, afagando meus cabelos – Você tem que descansar agora.

-Por quê? Onde eu estou...? – perguntei, sem conseguir desviar os olhos dos dele, com medo de perdê-lo mais uma vez.

-No hospital. Era verdade, Camila – um sorriso sincero e cálido espalhou-se por sua face – Você não tem mais câncer.

-O quê? – minha voz saiu embargada.

-É isso mesmo que você ouviu.

Fiquei em silêncio, digerindo aquelas palavras. Por mais que eu tentasse, tudo ainda parecia um sonho. Um sonho que eu não precisava acordar jamais.

-Então – comecei, para me convencer logo do que estava acontecendo – o que tá fazendo aqui, Hiago?

Uma dor aguda chegou a seus olhos mas depois dissipou-se. Ele ajoelhou-se no chão e apoiou as mãos no canto da cama, deixando seus olhos na altura dos meus.

-Eu estava tentando fingir que podia voltar a viver sozinho, só que eu não posso viver mais sem você comigo.

O sangue chegou tão rápido a meu rosto que pensei que nenhuma parte do meu corpo iria me obedecer mais.

-Me perdoa por dizer que ia embora? – ele perguntou receoso.

-A culpa nem foi sua – respondi, sorrindo com os olhos.

Hiago esboçou um sorriso de alívio.

As mãos dele alcançaram meu rosto e seus lábios encontraram os meus na mesma ansiedade em que eu busquei os dele. Afaguei seu pescoço e brinquei com seu cabelo sentindo como se fôssemos uma única pessoa, partilhando de dores semelhantes e precisando mais um do outro que do próprio oxigênio para viver

Apenas quando lembrei-me de um detalhe foi que me afastei dele e o encarei nos olhos.

-Mas Hiago – minha voz voltou a ficar sem forças – eu não sei muito bem como é viver...

-Eu também não – ele ficou pensativo por um segundo e em seguida seu sorriso ganhou um brilho próprio – Vamos descobrir juntos.

-Juntos...? – perguntei em dúvida.

-Sim, juntos.

Notas finais
Fiim.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!