Utopia

21 Capítulo 20


É, havia sido uma ótima ideia ir até ali. Nunca pensei que poderia me arrepender tão rápido de alguma coisa como naquela hora. Cutuquei Heloísa e lhe disse baixinho sobre o que eu havia pensado — tirando, é claro, a parte sobre o conde. Ela chegou à mesma conclusão que eu. Encurralada naquela árvore, a única opção que eu tinha era esperar anoitecer para ir embora. Pelo menos não faltava muito.

Mesmo sem eu pedir, Heloísa afirmou que iria me fazer companhia até que eu conseguisse sair dali e, caso alguém me visse, me ajudaria a fugir também. Fiquei extremamente graça a ela por esse gesto.

Poucas horas depois, o sol terminava de sumir no horizonte e a rua voltava para sua calmaria rotineira. Tinha que ser agora.

Descemos da árvores e fomos andando abaixadas. Como havíamos combinado, eu me escondi atrás de um carro e ela andou alguns metros até chegar na esquina. Se ela acenasse, significava que a rua estava vazia.

Ela não acenou.

Heloísa voltou correndo e se abaixou ao meu lado.

-Vi um vizinho seu vindo de moto — ela murmurou.

Como estávamos atrás de um carro preto, eu esperava que estivéssemos bem escondidas. Escutei o barulho da moto e logo a vi passando pela rua. Ela parou só no outro lado do quarteirão. Não consegui ver quem era, mas nem me importei.

Esperamos dois minutos. Depois, Helo foi novamente até o fim da rua e desta vez acenou. Sentia o vento me atingir e gelar minha pele enquanto eu andava; minha cabeça latejava e meu pulmão doía a cada vez que eu respirava.

E ainda faltava muito para chegar à casa do Hiago.

Se nós duas estivéssemos apenas caminhando normalmente acho que já teríamos chegado, entretanto, preferimos não arriscar. Só depois de quase uma hora e meia que avistei bem ao longe a casa dele. Parei e olhei em volta. Não havia ninguém além de mim e Heloísa. Quando falei para ela que eu já poderia seguir sozinha, ela me pediu para que eu a mostrasse onde estava morando, assim, saberia onde me encontrar. Como eu não tinha ideia do que o Hiago acharia disso, preferi não mostrar o caminho. Ela insistiu e eu recusei novamente. Por fim, nos despedimos e a esperei voltar pela direção em que viemos. Tudo tinha acontecido tão de repente que nem conversamos direito... E ainda esquecemos de combinar onde nos encontraríamos da próxima vez. Esse pensamento me entristeceu.

Fui para casa só olhando ao meu redor algumas vezes, o que foi naquela hora um erro meu, tenho que admitir. Abri o portão da garagem e acho que o Hiago deve ter me ouvido, pois, assim que parei em frente a porta, ela se abriu e ele surgiu bem na minha frente.

-Onde você tava? — Hiago me perguntou com uma preocupação sincera.

-Meus pais morreram — falei sem emoção.

Ele piscou duas vezes sem acreditar. Quando abriu a boca para, talvez, me consolar, o impedi mudando logo de assunto. Não estava mesmo a fim de falar sobre aqueles dois.

-Ah, Hiago, também tenho outra coisa para te falar — tentei parecer descontraída para fazê-lo esquecer do assunto de antes — eu consegui um emprego!

-Hã, sério?! — ele exclamou mais contente do que eu esperava.

-Aham! Já começo amanhã — havia sido mais fácil do que imaginei mudar de assunto.

Ele sorriu por um segundo e logo em seguida encarou um envelope que escondia nas mãos. Meus olhos seguiram seus movimentos. Me arrependi no mesmo instante.

-Você ainda tem que vender isto? — minha voz saiu num sussurro estrangulado.

-Vou tentar vender esses hoje. São os últimos.

Cerrei os punhos. Tinha me esquecido desse detalhe. Vendo minha reação, Hiago veio até meu lado e, fitando o chão, falou:

-Só mais hoje, tudo bem? — ele não esperou minha resposta e passou por mim sem dizer mais nada.

Me virei para pedir que ele não fosse mas minha voz não me obedeceu. Vi ele saindo para a rua e, em segundos, me encontrei sozinha. Entrei em casa e tranquei a porta. Me escorei nela e escorreguei até o chão, abraçando meus joelhos e enterrando meu rosto ali.

A sala estava escura e sem som. Depois de tudo que aconteceu hoje, eu não queria ficar sozinha — embora nem sequer consegui pedir ao Hiago que não fosse hoje.

Sem me dar conta, percebi meu rosto molhado e, uma vez que as lágrimas começaram, eu não quis impedi-las. Eu não estava chorando pela morte de meus pais, pois eles não mereciam uma lágrima minha. Também não era pelo câncer.

Foi por tudo que aconteceu hoje. Por cada fio de esperança que a morte deles me roubou.

Foi por mim.