Utopia
22 Capítulo 21
Acordei com uma dor estranha no peito quando respirava. Não era a mesma dor de sempre, parecia agora como se ela tivesse ganhado peso extra e aumentasse de tamanho. Tentei respirar fundo e só o que consegui foi uma crise de tosse. Segui rápido para o banheiro e tomei o remédio. Esperei alguns minutos e a crise parecia ter melhorado só que, me olhando pelo espelho, eu parecia estar péssima. Eu tinha dormido bem então por que aquelas olheiras nos meus olhos e essa pele acinzentada?
Preferi desviar o olhar de meu reflexo. Eu tinha mais coisas para fazer — como o primeiro dia no meu emprego, por exemplo — e não podia me preocupar com detalhes como a cor da minha pele.
Segui para a cozinha e, envolto de uma fumaça escura, encontrei Hiago tentanto fritar um omelete enquanto segurava em uma das mãos uma garrafa de suco prestes a cair.
Ele me ouviu chegando e virou o rosto rapidamente para mim.
-Uma ajudinha aqui? — ele imitou uma carinha de um anjo em apuros que eu não resisti.
Revirei os olhos e corri até o fogão para não deixar o omelete queimar. Hiago conseguiu salvar o suco, colocando-o sobre a mesa mas do omelete nem o cheiro havia sobrado. Ele se aproximou do fogão e suspirou.
-Droga, isso sempre acontece.
-Acho que o fogo tá muito alto, por isso não deu certo...
Ele me olhou e, como se buscasse uma resposta, colocou a mão no queixo, porém a retirou em segundos depois.
-Que seja — murmurou por fim e foi se sentar.
O acompanhei também. Eu não estava muito a fim de conversar, mas Hiago parecia eufórico e antes mesmo de eu me sentar direito, ele começou:
-Camila, lembra o que te falei ontem?
-Uhum — respondi, pegando um pouco de suco.
-Consegui vender tudo — ele abriu um sorriso que só faltou me cegar.
-Então...
-Tô livre daquelas coisas!!!
Ele estava tão feliz que tentei me alegrar também. Ensaiei um sorriso que, pela expressão de confusão do Hiago, não deve ter dado certo.
-Você está triste hoje — ele disse, ficando sério.
-Ah... — não tinha ideia sobre o que poderia responder.
-Ele aproximou-se de mim e me encarou, como se entendesse meus problemas.
-Melhora essa carinha. Não se preocupe que hoje é seu primeiro dia de trabalho, Camila. Tudo vai dar certo.
Agora era eu que estava confusa. Era por isso que ele achava que eu estava triste? Senti uma onde de alívio me atingir. Para não ter que fazer um discurso sobre meus problemas, preferi fingir que era isso mesmo. Quando abri a boca para falar, Hiago pareceu não perceber e correu para dentro de casa, voltando em segundos com alguma coisa nas mãos. Ele estava radiante. Com uma das mãos apontou para o que segurava e disse:
-Eu sei o que pode te alegrar.
-Onze reais e 20 centavos. Mais alguma coisa?
A mulher me entregou o dinheiro e sacudiu a cabeça negativamente. Ela pegou o prato de salgados que estava sobre o balcão e se dirigiu para a saída.
Até que estava ocorrendo tudo bem. Hiago tinha razão. Sorri, lembrando dele. De manhã, depois do café, ele me ensinara a jogar alguns jogos de baralho como truco e pôquer, por exemplo. Também, ficamos contando piadas e imitando alguns de nossos professores antigos.
Foi divertido.
Enquanto pensava sobre isso, via o número de pessoas comprando na confeitaria aumentar e, com esse movimento, depois das duas horas, o dia estava passando rápido. Dependendo do número de clientes que vinham depois das 6h da tarde, a loja fechava, em geral, um pouco depois daquele horário. Meu turno acabou às 6h30.
Para meu conforto, nenhuma pessoa que eu conhecia apareceu durante todo o dia. Não sabia o que aconteceria comigo caso a polícia ou algum vizinho meu me encontrasse mas, naquela hora, olhando para o céu e vendo os primeiros traços da lua aparecerem, decidi não pensar em nada disso.
Cheguei em casa e não encontrei o Hiago. Estranho... ele costumava chegar antes das sete nos outros dias. Pelo menos deve haver uma boa explicação para isso, pensei comigo mesma, e acabei não me preocupando com isso. Depois de tomar banho, continuei a ler O fim do amanhã enquanto esperava ele voltar.
Quase uma hora se passou e o Hiago não tinha aparecido. Sem conseguir me concentrar na leitura, fiquei remoendo meu cérebro para ver se descobria alguma pista ou qualquer coisa sobre onde ele podia estar. Quando decidi dar uma busca pelas redondezas foi que escutei passos apressados vindos da garagem. Corri para a sala a tempo de ver o Hiago fechar a porta num golpe rápido e, ainda sem soltar a maçaneta da porta, se ajoelhou acabado no chão. Ele estava visivelmente sobressaltado e tremia.
-O que aconteceu? — minha voz saiu num tremor desfigurado.
Seu olhar estava cheio de medo quando me viu. Ele respirava com dificuldade, como se estivesse correndo há muito tempo.
Só depois de fitar a garagem pela janela foi que me respondeu num sussurro sufocante:
-Eles estavam atrás de mim.
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