Utopia

5 Capítulo 4


Naquela noite tive um sonho. Talvez o mais absurdo que já sonhei.

Eu estava flutuando em um vazio aveludado, como se ali fosse um lugar impossível de existir na realidade. Um lugar nenhum, um sonho. Uma utopia.

Abri os olhos e senti uma onda de paz me atingir. O que imaginei não tinha nenhum sentido, no entanto, o que era aquela sensação agradável me envolvendo? Achei melhor não encontrar uma resposta.

Desci as escadas e encontrei minha mãe vendo TV na sala.

-Uma grossa camada de chuva está sendo prevista para hoje...

-Bom dia, mãe — falei um pouco sem graça.

Ela virou-se e sorriu para mim.

-Como está se sentindo hoje, Camila?

-Ah... eu me sinto bem.

Ela esboçou meu sorriso preferido, que eu não via há meses.

-Venha, sente-se aqui. Parece que hoje vão inaugurar um novo zoológico. Que tal se formos até lá, eu, você e seu pai?

Passeio em família? Pisquei sem entender. Fazia tempo que isso não acontecia.

-Tudo bem. Eu vou.

-Depois do almoço então nós três vamos até lá. Vai ser divertido.

Não falei nada e segui para a cozinha. Como eu já imaginava, encontrei uma garrafa de bebida alcoólica vazia escondida no armário e um isqueiro em cima da mesa. Mesmo meus pais dizendo que tinham parado, a prova estava ali, bem na minha frente. Tudo continuava como sempre, caminhando diretamente para a ruína.

Bem-vindos ao Zoocenter, dizia a placa de inauguração. Havia pessoas por todos os lados e vendedores ambulantes anunciando quase aos gritos suas mercadorias. Um típico dia na cidade.

Se era preciso que parecêssemos uma família comum ali, nos divertindo e esquecendo dos problemas que nos perseguiam constantemente, talvez fingir isso não seria um problema para mim.

Primeiro, visitamos as aves. Espécies de vários cantos do país estavam ali: pássaros — cujas cores me fascinaram -, papagaios, duas araras-azuis e muitos outros que nem o nome eu me lembrava direito.

Fomos depois ver o lobo-guará, o leão e outros felinos. O que mais me impressionou foi a onça-pintada. Calmamente num tronco de árvore dentro da jaula, encarava a todos que passavam ali, como se zombasse deles. Gostaria de saber o que ela via por trás daqueles olhos, o que chamava sua atenção e o que a intrigava...

Um pouco antes das quatro, fomos a uma lanchonete na entrada do zoológico. Como atração, o lugar oferecia brindes em forma de animais na compra de certos lanches. Como meus pais encontraram um grupo de amigos do trabalho, preferi então dar uma volta enquanto eles ficavam conversando.

Olhando o mapa do lugar, decidi ir até onde estavam as cobras e serpentes. Mesmo com o tempo se fechando, continuei avançando. Vi a placa com as fotos dos animais, mas me decepcionei com o que me deparei a minha frente. O lugar estava deserto!

Pensei em ir embora, porém, já que eu estava aqui, só uma volta não iria me atrapalhar em nada. Pelas jaulas já desgastadas pelo tempo, ali ainda devia estar em reforma — talvez isso explicasse o abandono de visitantes naquela área do zoológico.

Passei por todas as jaulas para conferir mesmo se não havia nenhum animal ali e cheguei até uma placa com os dizeres: Área Restrita. Para minha surpresa, bem ali na minha frente, se encontrava um garoto tentando aprisionar uma cobra que se arrastava pelo chão.

Um misto de espanto e surpresa congelou meus movimentos.

Com uma caixa na mão, o garoto deu um passo na direção do animal, só que a cobra foi mais rápida e fugira pela mata que circundava as jaulas.

-Droga! — o menino exclamou.

Ele virou-se para sair dali e foi quando finalmente me viu.