Utopia
28 Capítulo 27
Depois de algumas horas eu continuava desperta e com fome. Levantei-me sem fazer barulho para não acordar o Hiago dormindo ao quarto ao lado e fui para a cozinha. Peguei um sanduíche natural e um pouco de refrigerante e segui para o quintal. O sol ainda estava quente e foi refrescante senti-lo aquecendo minha pele. Mesmo na calmaria desse sábado, aquelas cenas frustrantes de ontem estavam fixas no meu pensamento. E o pior de tudo foi que dona Vera, Karem e os outros funcionários descobriram sobre mim. Agora, talvez até me despedissem por causa disso; ou então, talvez quando eu fosse segunda trabalhar, encontrasse o doutor Antônio e aquele advogado de novo.
Passei algum tempo ali no sol pensando nisto e só me levantei quando minha pele começou a reclamar dos raios solares em excesso que a atingia. Andei pela casa, terminei de ler o livro, tomei banho e, por fim, tomei meu outro remédio. Para atormentar meu medo, percebi que só me restavam mais quatro comprimidos. Tentei não pensar no que faria assim que eles acabassem.
-Camila? — uma voz surgiu no corredor.
-Tô aqui no quarto — retruquei, guardando o remédio numa gaveta do criado-mudo.
Segui para o corredor e encontrei Hiago na sala. Ele estava sério e parecia tão preocupado como eu para esclarecer algumas coisas. Desabei no sofá e contei tudo a ele. Isso já estava me atormentando demais e eu precisava desabafar com alguém; e esse alguém só podia ser ele.
Hiago me ouviu pacientemente, o que ajudou a me acalmar, pelo menos um pouco.
-O que você vai fazer agora? — ele perguntou por fim.
-Ainda não sei...
-Mas, se for verdade o que tinha no testamento, eles vão te curar, Camila.
Cruzei os braços.
-Não é exatamente isso que tá me preocupando.
-É o que então?
-Duvido que vão me deixar morar sem um adulto por perto ou com quem eu escolher.
Hiago levantou uma sobrancelha e um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca. Pisquei duas vezes e só depois caiu a ficha. Esquecendo da nossa conversa que tinha até sido bastante séria, me coloquei de pé num pulo.
-Não é isso que você tá pensando!
Ele me lançou um olhar convencido e soltou uma gargalhada.
-Então me explica!
-Deixa pra lá — retruquei emburrada.
Hiago revirou os olhos e se levantou. Ele cruzou os braços atrás da cabeça e me encarou.
-Você que sabe...
Semicerrei os olhos e o vi saindo da sala, indo em direção ao banheiro. Voltei a me sentar o cobri o rosto com as mãos. Eu tinha dito aquilo sem pensar, mas havia uma razão para eu não aceitar ir morar com um desconhecido.
E um única pessoa era o motivo disto.
Hiago.
Desde que o conheci no zoológico, depois de tudo que partilhamos, nossas conversas, problemas, jogos e até nossas risadas eram uma parte de mim impossível de ser retirada. Não adiantava mais eu tentar me enganar. Eu simplesmente o amava desde aquele primeiro dia. E ali junto com ele eu era feliz, como nunca achei que poderia ser.
Nesse momento, o que me tirou daquele transe foi o barulho de passos se aproximando. Não sei se Hiago já tinha percebido isso, porém não iria permitir que minha cara de garota apaixonada me entregasse. Não por enquanto.
Fui às pressas para a cozinha para ver o que tinha para a janta. Abri a geladeira no mesmo instante em que Hiago surgiu no meu campo de visão.
-Ainda tem aquela torta de frango? — ele perguntou.
-Tem sim. E suco de manga também — respondi, sem tirar os olhos da geladeira.
Peguei a torta e coloquei no microondas, e o suco deixei em cima da mesa.
Hiago estava sentado em silêncio e nem me respondeu quando perguntei se ele queria suco. Não demorei para perceber que ele, de uma hora para outra, estava estranho.
-O que aconteceu? — indaguei, engolindo em seco.
Ele não tirou os olhos da mesa.
-Pensei sobre o que você disse e não posso te prejudicar assim, Camila — Hiago fechou os olhos e quando os abriu, olhou fixamente para mim — tá na hora da gente se despedir.
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