Utopia

14 Capítulo 13


Um abraço e uma única frase. Como gestos tão simples fazem um momento se tornar tão precioso?

Assim que recuperei o ânimo, decidi contar ao Hiago tudo sobre meus pais e o que acontera nesses últimos dias. Pensei que ele fosse me falar para voltar para casa ou ir em um hospital mas, ao invés disso, ele me surpreendeu dizendo outra coisa:

-Agora que você me contou sobre sua doença acho que merece também uma explicação minha.

Ele puxou uma cadeira para sentar ao meu lado e como se estivesse fazendo um desenho invisível, começou a criar contornos por sobre a mesa com uma colher.

-Há quase cinco anos atrás, estávamos eu e meus pais assistindo a um filme em casa. Tudo estava bem até que a energia acabou de repente. Sem nem termos tempo direto para levantar, ouvimos a porta da frente ser destrancada e, depois... tudo aconteceu depressa demais. Minha mãe me disse para eu me esconder, e eu, preso no meu medo, corri até as cortinas perto da mesa de jantar. Eles apareceram em menos de um minuto.

Hiago ficou em silêncio e soltou a colher, cerrando os punhos:

-"Isso é um assalto", eles gritaram. Minha mãe tinha acabado de pegar o celular para ligar à polícia só que os assaltantes perceberam isso e atiraram nela. E meu pai, não sei por que ele fez isso, mas avançou furioso em quem atirou nela e acabou levando dois tiros. Meus pais morreram ali, bem na minha frente. E eu não consegui fazer nada pra impedir. Nada!

Vi uma expressão de desprezo ocupar seus olhos.

-Todo aquele barulho tinha chamado a atenção dos vizinhos. Eu continuei escondido até quando aqueles covardes, que estavam sem saída, fugiram.

Atormentado, ele fitou o chão.

-E você... viu tudo?

Ele cerrou mais ainda os punhos.

-Sim. Sabe... eu não consigo me lembrar da rosto dos dois. E depois que vim para esta cidade morar com meu avô, toda noite eu sonhava com o som daqueles tiros e os gritos do meu pai. O barulho, as vozes e as imagens pareciam chamar por mim. Depois de uns quatro anos, quando tudo começava a voltar ao normal, sabe o que aconteceu? Meu avô morreu. Eu estava sozinho, de novo. Nem sei por que, mas a primeira coisa que fiz foi procurar um emprego. Só que o dinheiro que ganhava era muito pouco, então,

faz menos de dois meses, eu acho, que comecei a vender drogas.

Hiago me olhou seriamente, esperando pela minha reação. Eu estava em choque, literalmente. Não tinha ideia de que ele havia passado por tudo isso. A sua história era tão triste que corroeria qualquer um que tivesse que carregá-la nas memórias como algo muito pior que um pesadelo

Sem eu ser capaz de dizer nada, ele levantou-se calmamente e foi para a sala.

-Onde você vai?

-Já é quase uma da tarde. Tenho que ir trabalhar.

-Ah... é mesmo. – murmurei sem graça para o chão.

-Olha, Camila – Hiago suspirou num misto de pesar e apego — eu sei que aqui não é o melhor lugar para alguém doente se recuperar, mas, por favor, não vá embora. Isso só iria me preocupar ainda mais.

Senti meu rosto corar. Não sabia que ele pensava assim.

-Tudo bem. E obrigada por me deixar ficar aqui.

Ele sorriu e se despediu de mim com um aceno de mão.

Voltei à cozinha e vi meu remédio sobre a mesa. Peguei um dos comprimidos e bebi com água. Como se estivesse acabado de encontrar uma resposta, fechei os olhos. O fim não tinha chegado ainda, por isso, não posso mais olhar para trás. Eu escolhi esse caminho. E agora tenho que ir em frente.