Utopia
15 Capítulo 14
Mesmo com câncer, sabia que teria que arranjar um emprego. E rápido.
Antes das duas, prendi meu cabelo num rabo de cavalo, coloquei o único boné que trouxe juntamente com um par de óculos escuros. Não era o melhor disfarce do mundo mas ajudaria.
Saí andando pela rua até chegar a um correio que distribuía jornais de graça. Peguei um exemplar e me sentei na calçada. Se eu quisesse continuar no caminho que escolhi e também ajudar o Hiago, eu não podia perder tempo. Fui para a página de empregos e comecei a procurar um que eu pudesse me candidatar. Li todas as opções disponíveis e me decepcionei. A maioria exigia experiência, e idade superior à 17 anos.
Fechei o jornal e respirei fundo. Não vou desistir logo no começo.
Se eu não pudesse arranjar logo um emprego, pelo menos podia ajudar com outra coisa. Mesmo com o calor, e a costumeira dor no peito me atrapalhando, decidi ir até um supermercado e com uma parte da mesada que trouxe, iria comprar algumas coisas, principalmente comida.
Antes de entrar, olhei rapidamente em volta. Não vi ninguém que eu conhecia. Escolhi comprar um pouco de tudo. Desde frutas e verduras até bolachas e pizza congelada. Peguei uma toalha pra mim, um sabonete e shampoo também. Fui até o caixa e paguei os produtos. Quando estava indo para a saída, vi uma silhueta que eu conhecia.
Uma espécie de choque súbito me atingiu assim que vi quem era. Parei subitamente assim que nossos olhares se encontraram.
A imagem seguinte foi como uma pintura antiga congelada no tempo.
Nos encaramos como se estivéssemos vendo nós mesmas num espelho imaginário. Mesmo em um estado hipnótico, uma parte de mim tentava me falar para sair dali, embora uma outra parte, que se impunha sobre a primeira, implorava que eu fosse até aquela pessoa. Resultado: eu não sabia o que fazer e, diante de todo aquele caos dentro de mim mesma, uma única certeza me dominava: a de que eu não devia fugir dali.
Sem conseguir me mover, ela veio correndo em minha direção e me abraçou.
-Camila! Pensei que não fosse mais te ver!
-Heloísa... O que você tá fazendo aqui?
-Ah, isso não importa — ela retrucou, revirando os olhos e mostrando um sorriso aliviado no rosto — Mas e você?! Por que sumiu de repente?
-Eu fugi de casa... – eu não iria mentir à minha melhor amiga — Agora tô morando na casa de um... amigo.
Ela me olhou surpresa.
-Amigo? Você nunca me falou dele.
-É uma história meio estranha...
Mesmo eu também sentindo falta dela e de todas as nossas conversas, será que ela não percebeu que eu estava tentando acabar logo com o assunto e ir embora?
Eu não podia me arriscar assim.
-Pode falar então. Meus pais não estão aqui comigo e tô sem nada pra fazer. Não precisa me dizer por que você fugiu, mas por que não me ligou ou qualquer outra coisa assim? Eu sou sua melhor amiga! Como acha que me senti esquecida assim?
Refleti um pouco. Ela tinha mesmo razão. Acho que não teria problema se eu lhe falasse sobre o que aconteceu. Pelos menos a minha parte da história...
-Tudo bem então, Helo — lembrei-me do que o Hiago disse mais cedo e sorri comigo mesma — É melhor deixar tudo em pratos limpos mesmo.
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