Utopia
11 Capítulo 10
Logo que consegui me levantar, fui com o Hiago até a cozinha.
-Não tem problema se eu passar um tempo aqui? — perguntei receosa.
-Não — ele respondeu enquanto procurava alguma coisa na prateleira ao lado do fogão — Droga, só achei macarrão instantâneo. Você deve estar com fome, né? Já é quase meio-dia.
-Espera... Meio-dia!?
Ele pareceu achar engraçado minha cara de surpresa.
-Sim, você dormiu a manhã inteira.
Encarei o chão, sem graça. Hiago não pediu muito a minha ajuda para preparar o miojo, então, decidi não atrapalhar. Havia suco de manga na geladeira e bebemos para acompanhar o macarrão. Eu estava realmente com fome! Não sabia que estava tão desesperada por comida assim.
Mesmo ele reclamando, o ajudei a lavar a louça. Depois, como se eu fosse uma visitante, Hiago me mostrou o resto da casa. Além da cozinha e do quarto onde eu acordara, fomos a um outro cômodo com um armário antigo e um colchão acinzentado, o banheiro, um pequeno quintal e uma sala com uma estante cheia de livros.
Na último aposento, deslumbrada, aproximei-me dos livros por impulso e peguei um de capa azul claro titulado: Biologia Marinha.
-Gostou? — ele perguntou ao meu lado.
-Sim, não sei muito sobre animais aquáticos, mas parece ser um livro interessante.
Hiago sorriu contente.
-Tem vários tipos de livros aí. Se quiser, pode escolher alguns para ler.
-Legal! — falei, devolvendo o livro à prateleira — Ah, e valeu.
-Imagina.
Nesse momento, ele olhou rapidamente para o relógio de pulso e pareceu preocupado.
-Tenho que ir trabalhar agora. Tudo bem se você ficar aqui sozinha?
-Não, tudo bem. Se eu sair podem acabar me achando...
Ele fez uma careta e continuou:
-Acho que posso voltar antes das 6 e aí trago alguma coisa para comer.
-Tá... bom trabalho.
Me despedi dele e voltei para a sala.
Ele parece ser solitário... morando sozinho aqui e tendo que trabalhar ainda. Eu não sabia muita coisa sobre o Hiago, só que mesmo conhecendo um ao outro tão pouco, ele me ajudou e concordou em me deixar passar um tempo aqui. Não sei onde estaria agora se ele não tivesse aparecido...
Suspirei para tentar esquecer isso e caminhei até os livros. Já que eu não tinha nada — nada mesmo — para fazer, escolhi dois livros intitulados O segredo da noite e O fim do amanhã.
Mesmo depois de eu passar quase a tarde inteira lendo e sem fazer muito esforço físico, eu ainda me sentia cansada. Para me distrair e recuperar o ânimo, decidi dar uma volta pela casa.
Com paredes claras e janelas espalhadas por todo canto, o lugar à minha volta era calmo e acolhedor. Fui para a cozinha e, abrindo os armários e a geladeira, percebi que não havia muita comida. Como eu iria passar uns dias ali, segui para o quarto em que estava e contei quanto dinheiro tinha trago: 127 reais. Isso teria que ajudar por um tempo.
Quando vi que já eram quase cinco da tarde, tomei meu remédio e comi uma barra de cereal. Ainda sem ter nada para fazer, caminhei curiosa até o quarto ao lado. Poucos segundos depois de entrar, parei de repente. Havia um cheiro estranho ali.
Tentando descobrir o que era, me dirigi até onde o cheiro parecia estar mais forte até parar em frente a um criado-mudo. Sem pensar duas vezes, abri a gaveta. Ali encontrei um pequeno envelope transparente com uma espécie de pó dentro. Eu já havia visto aquilo em documentários e na internet antes. Arregalei os olhos e cambaleei para trás quando descobri o que era:
Maconha.
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