Useless
4 The Fourth Uselessness
Notas iniciais
O clima de tensão era forte no elevador. Acontecia um jogo de gato e rato, um tentando contrapor a resposta do outro. Apesar de estarem escorados relaxadamente em paredes opostas, talvez, em algum momento, um saltasse sobre o outro (sem malícia, creio eu) tentando enforcar o adversário. Graças ao bondoso silêncio e ao escuro, as coisas foram se apaziguando, pouco a pouco, sem pressa.
–Hatsune, posso lhe fazer uma pergunta?- a voz de KAITO estava calma e relaxada, diferente de alguns minutos atrás. Fitava o próprio reflexo no espelho com o canto dos olhos.
–Faça. Nada te proíbe. — não queria admitir, mas a voz dele tranquilizou-a um pouco. Miku nunca teve muita afinidade com a escuridão, e uma companhia num momento como esse era um bom suporte psicológico.
–Por que você está aqui?- olhou-a diretamente nos olhos, sério e com um tom um pouco sombrio.
–Para ir ao primeiro andar?- deixou da fitar o teto, entediada. Por que faria uma pergunta estúpida como essa? Queria irrita-la e diminuir a paciência dela cada vez mais?
–Não digo aqui, no elevador.- apontou para o chão, com um olhar cansado, como se tivesse tentado explicar algo à uma criança azucrinante.- Digo aqui, na Crypton, no ramo artístico.
Ficou um pouco espantada, não esperava que ele fizesse uma questão dessas. Nunca haviam perguntado isso a ela, já que a resposta parecia ser óbvia. Fama, dinheiro, status, uma vida sem preocupações, sem estresse, sem trabalhar feita louca num escritório... Contudo não foi por isso. Era um motivo diferente. Um motivo que ela não contaria para ele, pois não parecia haver confiança naquele mundo.
–Isso não lhe diz respeito. Tenho minhas razões e não preciso contar.
A conversa terminou aí. Ele não insistiu mais e ela não ficou o interrogando. Era melhor que fosse assim, cada um no seu canto, sem dizer uma única palavra. Aquela questão ainda martelava a cabeça de KAITO, constantemente, tentando impedir que ele pensasse em qualquer outra coisa. Como aquela garota baixinha podia ser tão comportada? É, ela deveria ser uma boneca, daquelas que logo depois do uso, ficam imóveis e jogadas num canto.
De certa forma, ele entendia o ponto de vista dela, aquela vida de artista parecia ser uma maldição. Nunca poder ser ele mesmo, sempre perfeito, controlado, feliz, talentoso. Só que ninguém naquele lugar queria isso. Queriam errar, fazer alguma burrada, rir sem motivo, patinar pelo chão escorregadio do corredor, serem egoístas, teimosos, estúpidos, impacientes, imperfeitos.
A luz reapareceu no elevador, e a rotina continuou. Encontrar os fãs enlouquecidos tentando os agarrar, responder aqueles “Algum interesse amoroso, Hatsune?” “Por que você e Shion chegaram atrasados?” “E aquele boato?” dos repórteres, os “flashs” das câmeras dos paparazzi que cegavam os olhos, as reclamações dos empresários, os sorrisos falsos e sem sentimento, a multidão de loucos.
Era a normalidade.
Fale com o autor