Upside Down - Seddie
49 Capitulo 49 - Dark past
Pov geral
O apartamento de Missy exalava luxo — móveis de design exclusivo, quadros assinados, cortinas importadas. Mas nada na decoração disfarçava o que se passava dentro dela: raiva, frustração e sede de vingança.
Sentada no sofá de linho claro, ela percorria distraidamente seu feed, tentando afastar o incômodo que insistia em corroer sua paz: o fato de Freddie Benson estar completamente envolvido com Sam Puckett. Era como um pesadelo sem fim.
Liam, seu namorado, surgiu na sala com uma garrafa de uísque na mão e o olhar entediado de sempre.
— Você ainda está obcecada com esse cara? — murmurou, ao notar o nome de Freddie em mais um post de celebridades. — Isso tá começando a parecer doentio.
— Não começa, Liam — respondeu Missy, ríspida. — Vai beber e fingir que tem uma vida enquanto eu cuido das coisas sérias.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas não discutiu. Conhecia bem o gênio dela. E também sabia que, apesar de todos os caprichos, Missy sempre encontrava uma forma de conseguir o que queria.
De repente, algo chamou a atenção dela. Um vídeo amador em baixa qualidade, postado num fórum underground e compartilhado anonimamente no X. O título era vago: “Ela valia cada centavo”.
Curiosa, Missy deu play.
O vídeo começava com uma plateia escondida sob máscaras e holofotes suaves. Era um leilão. Mas não um qualquer. Aquilo não era beneficente, nem autorizado. Era claramente um evento clandestino. E, no centro do palco, com um vestido preto justo e olhar firme, estava Sam Puckett.
Missy sentiu o coração acelerar.
Sam. Num leilão. Ilegal.
Ela avançou o vídeo, e lá estava ele: Freddie. Levantando a mão. Oferecendo o maior valor. E então o momento: ele subia ao palco e pegava a mão de Sam, como se aquele encontro tivesse sido predestinado.
Missy pausou.
— Não é possível… — sussurrou, os olhos se arregalando.
Ela vasculhou os comentários. Muitos já haviam sido apagados, mas algumas postagens antigas explicavam o contexto. Sam Puckett participara daquele leilão arriscado para arrecadar dinheiro. Boatos diziam que era para ajudar alguém da família com uma doença grave.
Missy, com os olhos semicerrados, começou a montar o quebra-cabeça.
— Claro… é isso. Ela se vendeu. E ele comprou. Literalmente.
— Que foi agora? — perguntou Liam, já servindo mais uísque.
— Eu acabei de encontrar o que precisava. — Missy se levantou lentamente, como uma vilã prestes a executar o plano perfeito. — Isso não é só um escândalo. É a bomba que vai acabar com ela.
— Você vai expor que ela participou de um leilão ilegal? Tem certeza? Isso é... pesado até pra você.
Ela virou-se, com o olhar frio.
— Ninguém precisa saber do contexto. Ninguém precisa saber sobre a irmã. Basta plantar a dúvida. “Modelo famosa participou de evento ilegal e foi comprada por atual namorado?” — disse, já digitando freneticamente no celular. — E o melhor: “Vazamento anônimo revela vídeo comprometedores do casal do momento.”
Liam bufou.
— Você está realmente disposta a queimar isso tudo por orgulho?
— Isso não é orgulho, Liam. É justiça. — Ela se virou lentamente, um sorriso venenoso crescendo no rosto. — Ela me tirou o que era meu. Agora, vou mostrar ao mundo o que ela realmente é.
Do outro lado da cidade, Sam recebia uma mensagem de Carly, rindo com Freddie na sala do apartamento deles. Estavam em paz — até demais. O tipo de calma que antecede a tempestade.
E Missy, sentada em frente ao laptop, apertava "enviar" no e-mail destinado a um portal sensacionalista. Junto, o vídeo. Sem cortes. Sem contexto.
Ela tinha seu trunfo.
Ou pelo menos achava que tinha.
oOo
Era quase fim de tarde quando a notícia se espalhou. Missy não se contentava em perder espaço, e descobrir qualquer coisa que pudesse atingir Sam era como um prêmio pessoal. Ao colocar as mãos em uma cópia de documentos vazados sobre o leilão ilegal — uma página obscura que anos atrás serviu de palco para a angústia e desespero de Sam — Missy sentiu como se tivesse vencido. Não precisava nem inventar nada. A verdade bastava. Bastava ser maldosa o suficiente para contá-la da pior forma.
Sam estava na varanda da casa de Freddie, o vento vindo do mar bagunçando seus cabelos soltos. Ela ria de algo bobo que Freddie dissera sobre uma fantasia de Halloween que Gibby usou anos atrás, quando seu celular vibrou. Uma notificação. Uma matéria. Título em letras duras:
“Ex-modelo é acusada de participar de leilão ilegal de acompanhantes em Seattle.”
As palavras não se conectaram de imediato. Ela ficou olhando para a tela por tempo demais até descer a noticia e ler tudo. Ela havia sido exposta. Seus dedos escorregaram e o celular caiu no chão de madeira, Freddie se virou.
— Sam?
Ela cambaleou um passo para trás. A brisa já não parecia suave. Estava sufocante. O mundo começou a perder foco. O rosto de Freddie o mar ao fundo… tudo se embaralhou.
— Eu preciso de… — sua voz era quase inaudível, e então, a pressão no peito veio com força. O ar se recusava a entrar. Era como se estivesse afundando.
Freddie correu até ela a tempo de segurá-la antes que caísse.
— Sam? Sam, olha pra mim. Respira. Respira comigo, tá bem?
Mas ela não conseguia. O mundo girava. Tudo que via eram flashes do passado: Melanie pálida no hospital, os olhos dela implorando ajuda. O envelope com os exames. A proposta sussurrada de alguém que nunca viu o rosto. O palco. Os lances. A sensação de humilhação, o medo. E agora... isso de novo. Expô-la.
Freddie a levou para dentro. A deitou no sofá e ligou para a única pessoa que sabia que poderia ajudar, mesmo que isso significasse cruzar uma fronteira complicada.
— Mãe? — sua voz tremia. — Mãe, é sério. É sobre a Sam. Ela precisa de ajuda, tá gelada, acho que ela teve outra crise de ansiedade.
— O que houve meu filho? A Melanie aprontou de novo? Quando Freddie resumiu a notícia a voz da Sra Benson congelou ao ouvir as palavras do filho.
— Que história é essa? — ela disparou. — Você a conheceu essa? Participando de um leilão?
— Mãe, não é o que parece, por favor… — ele começou, mas ela estava furiosa.
— Você levou isso pro seu lar. Pro seu nome. Uma garota leiloada! Você tem ideia da gravidade? Isso vai te destruir. Vai nos destruir.
— Ela fez aquilo pra pagar o tratamento da irmã com câncer, mãe! — Freddie explodiu. — Você não sabe de nada! Ela não teve escolha. E agora ela tá no chão, em pânico, porque tudo voltou como um pesadelo. Não me liga pra julgar, me ajuda!
Freddie desligou, a raiva e o desespero se embolando no estômago. Ele olhou para Sam, que tremia ainda com os olhos vermelhos, o rosto molhado de lágrimas silenciosas.
Foi aí que ele decidiu: não dava mais para fingir que isso ia passar.
Pegou o celular novamente.
— Dra Lea Walters, por favor. É sobre Samantha Puckett. Ela precisa de ajuda. Agora.
oOo
Horas depois — Consultório da Dra. Lea Walters, Los Angeles.
O consultório da renomada psicóloga era silencioso, acolhedor. As janelas filtravam a luz dourada do entardecer. Um aroma leve de lavanda preenchia o ar. Sam estava encolhida em uma poltrona de linho cinza, os braços cruzados contra o peito como uma armadura invisível. Freddie estava ali também, mas a alguns passos de distância, respeitando o espaço dela.
A Dra. Walters a observava com ternura, mas firmeza. Já conhecia aquele olhar — de quem tentou carregar o mundo inteiro sozinha por tempo demais.
— Faz quanto tempo desde sua última crise, Sam?
Sam não respondeu de imediato. Os olhos vagavam pela sala, como se procurassem um esconderijo.
— Tem uns meses mas não foi tão grave como dessa vez. Achei que tinha deixado tudo pra trás.
A psicóloga assentiu.
— Mas traumas não funcionam assim. Eles não desaparecem. Eles se reorganizam. E às vezes, quando algo nos traz de volta, eles emergem com força total.
— Eles vão acabar com a minha vida. — Sam sussurrou.
— Não. Eles já te moldaram, Sam. Mas a sua vida é sua. O que você fez… foi por amor. Por desespero. Mas acima de tudo, por coragem.
Sam não conseguiu conter as lágrimas.
— Eu achei que nunca mais ia precisar lembrar disso. Agora todo mundo sabe. E a mãe do Freddie… Ela me odeia de novo.
A Dra. Walters olhou para Freddie, que estava visivelmente dividido entre culpa e impotência.
— E você, Freddie? O que sente ao ouvir isso?
Ele se aproximou, ajoelhando-se ao lado de Sam.
— Eu só quero te proteger, Sam. Eu não me importo com o que os outros dizem. Mas eu falhei. Eu devia ter previsto. Eu devia ter…
— Não, Freddie — ela o interrompeu, a voz fraca, mas decidida. — Isso é meu. Minha história. Meu peso.
A Dra. Walters interveio com suavidade:
— E talvez seja hora de você aprender a dividir esse peso.
Sam assentiu. Pela primeira vez, sem resistência, ela aceitou a ajuda. Não porque fosse fraca. Mas porque estava cansada de fingir que não doía.
Do lado de fora, Carly, Nevel, Gibby, Robbie e até Cat já tinham chegado. Estavam todos lá, como se tivessem combinado, embora ninguém tivesse. Freddie estava sentado nos degraus da entrada da clínica quando Carly se sentou ao lado dele.
— Ela vai sair dessa — Carly disse, com a convicção de quem conhecia Sam mais do que qualquer um ali. — Mas agora ela precisa ver que não está sozinha.
Freddie assentiu, sentindo um nó na garganta. Tudo estava diferente. A exposição, a crise, a dor. Mas ao mesmo tempo, talvez esse fosse o verdadeiro recomeço.
oOo
Horas depois, quando Sam saiu da consulta com os olhos inchados e o rosto lavado, encontrou todos ali esperando por ela. Ninguém disse nada, apenas Carly se levantou e a abraçou.
— Você é mais forte do que pensa. E agora a gente tá aqui, tá bom?
Sam engoliu em seco, olhando para Freddie, que se aproximou devagar.
— Eu não ligo pra como a gente se conheceu — ele disse, com os olhos marejados. — Eu me apaixonei por quem você é. E se a gente vai enfrentar o inferno, que seja juntos.
Sam respirou fundo. Pela primeira vez no dia, sentiu que o ar voltava aos poucos.
— Então fica — ela sussurrou. — Fica comigo.
E ele ficou.
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