Upside Down - Seddie
46 Capitulo 46 - New Challenges
A noite tinha aquele perfume salgado e doce do mar, misturado ao som contínuo das ondas quebrando logo ali, a poucos metros da varanda. As janelas de vidro da mansão estavam abertas, deixando entrar o vento suave de Malibu. A brisa bagunçava os cabelos soltos de Sam enquanto ela estava sentada no sofá da sala, com os joelhos encolhidos e uma manta jogada sobre as pernas.
Freddie apareceu da cozinha com duas taças de vinho tinto e um olhar atento. Ele sabia quando ela precisava falar — mesmo quando ela tentava disfarçar o silêncio com sorrisos pequenos e distrações.
— Pensei que esse vinho talvez ajudasse você a dormir — disse ele, entregando uma taça.
Sam aceitou com um aceno leve, os olhos ainda fixos nas sombras que dançavam sobre o chão de madeira polida.
— Conversei com a Carly hoje — começou, depois de um gole demorado.
— Imagino que tenha sido uma boa conversa. Você voltou com um ar diferente.
Sam sorriu, mas não havia leveza no gesto.
— Foi bom. Carly... ela tem esse jeito simples de fazer as coisas parecerem menos sufocantes. Me fez lembrar que nem todo mundo nesse mundo é falso ou está esperando eu tropeçar pra dizer “eu sabia”.
Freddie se sentou ao lado dela, perto o bastante para o calor entre eles ser mais um idioma.
— Ela é boa nisso — ele concordou. — Sempre foi. É por isso que eu confiei nela pra estar do seu lado desde o começo.
Sam virou o rosto para ele, tocada por aquela confissão.
— E eu agradeço por isso. Porque hoje, pela primeira vez desde aquela maldita noite na gala, eu consegui falar sobre como me senti sem ter que disfarçar. Sem ter que fingir que não me importei.
— Você não tem que fingir nada, Sam. Nem comigo, nem com ninguém.
Ela o observou por um segundo, como se estudasse cada detalhe dele de novo: o contorno da mandíbula, o olhar firme, o jeito como as palavras dele sempre vinham limpas, mesmo depois de tanto passado confuso entre eles.
— Eu ainda odeio que a Missy consiga me atingir. Mesmo agora. Mesmo depois de tudo o que já superamos. E me dói mais do que eu esperava... porque eu sei que você já amou ela. Que, em algum momento, ela foi o que você quis.
Freddie deixou a taça sobre a mesa e puxou a mão dela com calma, entrelaçando os dedos.
— Ela foi uma projeção, Sam. Um reflexo do que eu achava que precisava pra parecer inteiro. Você... é a verdade. Você não entrou na minha vida pra preencher um vazio. Você chegou e me fez reconstruir tudo — do jeito certo, do jeito real.
Sam respirou fundo, deixando que aquelas palavras fizessem morada no peito.
— Carly me perguntou hoje se eu acreditava que a gente ia aguentar tudo isso. E a única coisa que eu consegui responder foi que... eu não quero aguentar. Eu quero viver com você. Escolher você. Mesmo quando for difícil.
Ele a puxou mais perto, os olhos fixos nos dela.
— Então escolhe. Sempre que tiver dúvida, escolhe. Eu vou estar aqui, todos os dias. Do lado certo.
Sam se inclinou, encostando o rosto no ombro dele. Ficaram assim por longos minutos, com a brisa entrando pela casa e o som do mar preenchendo os espaços entre as palavras.
Foi nesse instante que ouviram o som de passos e rodinhas sobre o piso de madeira da entrada.
— Interrompemos o momento? — perguntou Melanie, com um sorriso debochado, puxando sua mala pequena. Brad, logo atrás, vinha com uma mochila e o olhar divertido.
Sam se levantou e caminhou até a irmã, puxando-a para um abraço apertado.
—Já estão indo ? Fiquem mais. — Pediu Sam.
— Brad tem negócios em Seattle, lembra? — respondeu Melanie, se afastando com carinho. — Mas agora que você virou praticamente uma celebridade com uma casa de revista... posso vir visitar sempre que quiser.
— Sim. E agora que você está me, posso ir até você sempre que precisar.
Freddie se aproximou e deu um abraço curto, mas sincero em Melanie.
— Se cuidem, tá? E me avisa quando chegarem.
Brad assentiu, puxando a mala pela varanda em direção à entrada lateral, onde o carro já esperava.
— E você — Sam apontou para o cunhado — cuida dela. Porque se ela tossir diferente, eu vou saber.
— Sim, senhora. — Ele riu.
Com um último abraço e promessas trocadas no olhar, Melanie e Brad partiram pela lateral da casa, descendo os degraus externos até onde o carro os aguardava com o som do motor ligado e os faróis banhando a estrada da orla.
Sam voltou para o sofá e se encolheu novamente ao lado de Freddie.
— Parece que a casa está mais vazia — murmurou.
— Mas seu peito está mais cheio — completou ele, lembrando das palavras que dissera antes.
Ela sorriu, encostando a cabeça em seu ombro.
— Eu nunca pensei que “ter paz” fosse isso. Silêncio, carinho, vinho barato e o som do mar.
— A paz não precisa de ouro, Sam. Só precisa de verdade.
Ela o olhou, os olhos brilhando.
— Então me promete uma coisa?
— Qualquer uma.
— Quando tudo parecer barulho de novo... me lembra como é o som da sua voz me dizendo que eu sou real.
Freddie a puxou devagar para um beijo suave. E quando os lábios se tocaram, não era mais sobre promessas — era sobre certeza.
oOo
O aroma suave do café fresco pairava na cozinha aberta da mansão. O mar estendia-se calmo atrás das janelas amplas da sala, tingindo a manhã de tons azuis e brancos que refletiam no piso de pedra clara. Sam estava ali, sentada na bancada da ilha, com o cabelo preso num coque bagunçado, vestindo apenas uma camiseta velha do Freddie e encarando o celular como se aquilo pudesse explodir a qualquer momento.
Freddie apareceu descalço, camisa branca aberta sobre o peito e expressão curiosa. Ele percebeu o olhar perdido de Sam antes mesmo de perguntar qualquer coisa.
— O mundo acabou e eu não percebi, ou você tá só processando alguma coisa pesada? — ele provocou suavemente, abrindo a geladeira.
Sam piscou, olhou pra ele e ergueu o celular, mostrando a tela.
— Carly. E Nevel. Me querem num desfile beneficente. Mas não como convidada. Como destaque. Na passarela.
Freddie parou no meio do movimento, segurando uma garrafa de suco.
— Espera... passarela? Tipo, desfile de verdade?
Ela assentiu devagar, ainda parecendo atordoada.
— É. E antes que você diga algo fofo e encorajador, eu vou te lembrar: eu nunca desfilei. Nunca fui modelo de passarela. Eu era fotográfica. Porque, né... não tenho altura pra isso. Eles sempre deixaram isso bem claro. “Linda, forte, carismática... mas baixa.” Agora, do nada, querem que eu feche um desfile beneficente de prestígio.
Freddie colocou o suco de lado e veio até ela, apoiando as mãos na bancada à frente.
— Isso não é do nada, Sam. É consequência. É reconhecimento. Você foi a exceção porque você é excepcional.
Ela bufou, desviando os olhos como se isso fosse difícil de aceitar.
— Freddie... sabe o que é isso, né? É gente rica querendo causar impacto. “Olha como somos inclusivos! Até deixamos uma modelo abaixo do padrão desfilar!” Eu não sei se quero ser a vitrine da hipocrisia.
— Não — ele respondeu, firme. — Não é isso. Você não está ali pra eles parecerem generosos. Eles é que estão te usando como carimbo de relevância. Porque você entrou nesse meio pelas beiradas e se tornou impossível de ignorar.
Antes que Sam pudesse responder, a porta da frente se abriu, e Carly surgiu no hall com a energia típica de quem já tinha tomado três cafés e comandado uma reunião antes das dez da manhã.
— Então, ouvi que temos uma estrela em conflito — disse ela, entrando com Nevel logo atrás, carregando uma pasta e um sorriso afiado.
Sam cruzou os braços, olhando para Carly com uma sobrancelha erguida.
— Estrela, não. Mais uma peça no circo. Só que dessa vez de salto.
Carly ignorou o sarcasmo e se sentou no banco ao lado.
— Sam, você tem noção do que isso significa? Eles nunca convidariam alguém fora do padrão, ainda mais pra fechar o desfile, se não fosse por pura necessidade de impacto. E você tem esse impacto. Você é uma exceção real. Não um enfeite. Isso aqui... é histórico, mesmo que ninguém admita agora.
Nevel abriu a pasta e colocou sobre a bancada algumas imagens da campanha do evento, com o logo elegante e o nome de Sam em destaque entre os convidados especiais.
— Você vai caminhar entre mulheres que passaram a vida moldando os próprios corpos para caberem nesse mundo. E você vai estar lá sendo quem é. Sem alterar nada. Isso, minha querida, é subversivo.
— É poético — completou Carly. — E uma tremenda vitória. Você tem noção de que isso é o tipo de coisa que a Missy venderia a alma pra conseguir?
Sam riu de leve, balançando a cabeça.
— Ah, agora vem a parte em que vocês me seduzem com a imagem da Missy espumando de ódio, né?
— Tarde demais — respondeu Freddie, erguendo as mãos. — Já me conquistaram com isso.
Sam respirou fundo e pegou uma das folhas. Seu nome impresso ali, destacado ao lado de estilistas e instituições, fazia o estômago revirar um pouco.
— Eu não sei se tenho estrutura emocional pra ser vitrine de tanta gente querendo julgar.
— Você já foi vitrine de julgamentos antes — lembrou Carly. — Na mídia, nos eventos, na piscina daquela festa em que a Missy tentou te enterrar com um boato. E você saiu mais forte. Isso aqui não é armadilha. É conquista.
Sam abaixou o olhar por um segundo e depois olhou para Freddie.
— E se eu tropeçar?
— Eu estarei lá. — Ele se aproximou, puxando a mão dela. — Pra segurar, pra aplaudir, ou pra invadir a passarela e carregar você nos braços. Você escolhe.
Ela sorriu, sentindo o peito se aquecer.
— Vocês são ridículos.
— E você é lendária — disse Carly. — Agora vai lá, estrela. Ensina esse povo a redefinir o que é elegância.
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