Upside Down - Seddie

45 Capitulo 45- There´s no place like friends


Missy adorava o silêncio do próprio apartamento. Mas não porque fosse reconfortante. Era o tipo de silêncio que ecoava como provocação. Ele a obrigava a ouvir o som dos próprios pensamentos — e era disso que ela gostava.

Sentada em sua poltrona favorita, cruzava as pernas com elegância estudada. A xícara de chá esfriava ao lado, intocada, enquanto os olhos percorriam as notificações do celular. Cada toque de dedo era preciso. Quase cirúrgico.

Ela não precisava estar presente na vida de Freddie para controlá-la.

Ela precisava ser o sussurro. O incômodo. A dúvida. A rachadura que se abria aos poucos — e se tornava irreversível.

E ela já tinha conseguido uma vez.

O rumor da gravidez de Sam tinha se espalhado como pólvora — discreto, rápido e venenoso. Bastou uma única semente plantada na roda certa, com a entonação certa: “Vocês perceberam como ela tem evitado bebidas e está com a mão na barriga o tempo todo? Já pensaram se…?”

Claro que o boato foi desmentido — e com gosto — na maldita festa na piscina. Sam aparecendo de biquíni, cerveja na mão, debochando de tudo como se fosse apenas mais um dia de verão. Freddie ao lado, orgulhoso, rindo alto, como se o mundo fosse dele.

Mas Missy sabia. A dúvida tinha surgido. Nem que fosse por cinco minutos. E isso já era uma fissura.

— Acha mesmo que isso vai fazer diferença? — perguntou Liam, do outro lado do sofá. Ele mexia no celular sem muita atenção, mas o incômodo em sua voz era mais claro do que ele gostaria que fosse.

Missy virou lentamente o rosto para ele.

— O quê?

— Ficar obcecada com dois adultos felizes que nem se lembram que você existe. Isso não é meio... cansativo?

Ela manteve o sorriso calmo. O sorriso que parecia sereno, mas carregava navalhas por trás dos dentes.

— Cansativo é saber que ele está feliz com uma mulher que não significa nada. Que é só um capricho rebelde. Ela não entende ele. Não conhece os códigos. A história. A dor. Eu sei disso tudo. Eu estive com ele quando ele ainda era inseguro. Quando ele ainda era meu.

Liam a encarou por alguns segundos. Depois voltou o olhar ao celular.

— Isso foi há anos, Missy.

— E você acha que isso muda alguma coisa?

Ela se levantou. A seda do robe deslizando pelas pernas nuas, os passos calmos até a varanda. A cidade à noite parecia dormir. Mas ela sabia que certos sentimentos não dormem nunca.

— O problema com Freddie é que ele aprendeu a fingir que superou. Mas eu conheço ele. Ele guarda as coisas. Ele é metódico. Organiza sentimentos como quem organiza gavetas. Mas um dia, tudo transborda.

Ela virou-se para Liam, com os olhos brilhando com um tipo doentio de convicção.

— E quando isso acontecer... eu vou estar lá. Pronta pra colher os pedaços. Ou empurrar tudo de vez.

Liam se levantou também, cruzando os braços.

— Você se ouve? Isso não é amor, Missy. Isso é... outra coisa.

Ela deu um passo à frente, colando o corpo no dele.

— E você se importa?

Ele hesitou. E esse foi o erro dele.

Missy percebeu.

Passou os dedos pela gola da camisa dele e sorriu.

— Você gosta dessa vida. Do que eu te dou. Do que você tem por minha causa. Então não me venha com lições de moral.

Liam não respondeu. E Missy, satisfeita, virou-se de volta para o vidro.

A festa na piscina tinha sido um balde de água fria, sim. Mas ela não trabalhava com ataques óbvios. Não mais. Ela plantava, observava. Era paciente. Freddie podia estar feliz agora, envolvido nos braços daquela garota vulgar e cheia de atitude... mas o mundo girava. E sentimentos, mesmo os enterrados, às vezes ressuscitavam com força.

Ela sabia o que estava fazendo.

E isso era o mais perigoso.

oOo

Sam encarava a taça de espumante como se ela fosse uma extensão de sua própria mente: turva, borbulhante, com gosto doce demais para o que ela sentia.

Estavam no terraço do apartamento de Carly — uma cobertura moderna, bem decorada, com plantas resistentes e almofadas em tons quentes que sugeriam que, apesar da riqueza evidente, ali vivia alguém que ainda sabia o que era conforto emocional.

Sam havia aceitado o convite meio a contragosto. Não gostava de encontros frusfrus, coisinhas de mulher. E Carly, ela aprendera, era insistente do jeito certo — tranquila, afetuosa, persistente com doçura. Um tipo raro entre os sorrisos plásticos de Los Angeles.

— Você não precisa dizer nada se não quiser — disse Carly, ao seu lado, com uma taça idêntica na mão. — Mas se quiser falar... eu tô aqui.

Sam respirou fundo, apoiando o copo no braço da poltrona. Estava vestida com jeans rasgado, moletom velho e olhos cansados. Sem maquiagem. Sem armadura.

— Tô pensando na Missy... Eu não entendo por que ela ainda me persegue — disse enfim. — Quer dizer... eu entendo. Ela perdeu o Freddie. Mas o jeito como ela se agarra a isso... é patético. Doentio.

— Missy não perdeu o Freddie. Ela perdeu o controle — Carly corrigiu, com suavidade. — E agora tenta recobrar o pouco de poder que acha que ainda tem. Você é só o alvo mais visível.

Sam virou o rosto para encará-la. Havia algo de honesto em Carly que fazia tudo parecer mais fácil de digerir.

— Você não tem ideia de como é viver com esse tipo de tensão. Sentir que em qualquer evento, em qualquer lugar, ela pode aparecer com um novo ataque. Que alguém vai acreditar nela. Que vão olhar pra mim como se eu tivesse comprado esse lugar ao lado dele.

Carly soltou o ar devagar.

— Talvez eu não saiba como é isso exatamente, mas... eu sei como é viver cercada de gente falsa. De gente que mede valor pelo sobrenome ou pelo número de seguidores. Eu cresci nesse mundo, Sam. E te digo com certeza: é um alívio ter alguém como você por perto.

Sam riu, sem humor.

— Alívio? Eu sou uma ex-leiloada, Carly. Um escândalo ambulante. Eu falo demais, bato se for preciso, e tenho histórico suficiente pra virar pauta de tablóide a cada dois meses.

— E, mesmo assim, quando você entra numa sala, todos prestam atenção. Porque você não finge. Você não performa. Você não é... Essa gente. — Carly a olhou firme. — Eu sou sua amiga por escolha. Não por obrigação social. Não porque você é “a namorada do Freddie”. Eu gosto de você. Gosto da mulher que você é. E isso é raro nesse círculo.

Sam sentiu a garganta apertar, mas não queria admitir.

— Você é uma das poucas pessoas que eu não espero que virem a cara — murmurou.

— E nunca vou virar. E Gibby também não. Aliás, ele achou icônico você ter feito aquela cara debochada quando Missy tentou te acusar de engravidar pra dar golpe.

— Ele achou “icônico”?

— Palavras exatas dele. — Carly sorriu. — E Spencer? Se não tivesse ido virar monge zen no Nepal ou sei lá onde, estaria pintando um retrato seu com tochas no fundo e a legenda “guerreira moderna”.

Sam riu alto dessa vez. Foi a primeira gargalhada genuína desde a gala.

— Você acha que eu e o Freddie vamos sobreviver a isso tudo?

Carly a olhou com ternura.

— Sam, vocês não estão sobrevivendo. Vocês estão se escolhendo. Mesmo depois de tudo. Mesmo com o mundo olhando. Isso é o oposto de fragilidade. É força.

— Ele é minha âncora, Carly. E eu nunca tive isso. Nunca. Sempre fui quem arrastava os outros, quem protegia, quem batia primeiro. E agora, com ele... às vezes, eu posso só ser. E ele segura tudo.

— Então segura ele de volta. Porque, do lado de fora, é claro que a gente percebe: vocês são o que todo mundo lá dentro queria ser, mas não consegue.

Sam piscou, emocionada.

— Isso soa até... poético.

— Não é poesia. É inveja. E você sabe como esse mundo trata o que não pode ter.

Silêncio. Sam olhou para a cidade acesa lá embaixo, sentindo, pela primeira vez em dias, o corpo começar a relaxar.

— Obrigada por isso, Carly. De verdade. Por ser real num mundo que gira tanto em torno do falso.

— Você merece gente real. E se a Missy tentar alguma coisa de novo... eu sou casada com um ex-garoto que vendia carne por assinatura e aprendeu jiu-jitsu nas horas vagas. A gente tá armado.

Sam gargalhou.

— Tá bom. Acho que posso sobreviver mais um pouco com vocês por perto.

— Pode. E vai. Porque você não tá sozinha.

E ali, entre almofadas, espumante e uma amiga improvável que virou essencial, Sam reencontrou um pedaço de si.

Não a Sam que lutava. Não a que se defendia o tempo todo. Mas a Sam que, enfim, tinha com quem contar.