Upside Down

3 Clancy, o Peculiar


E mais uma vez, Eleven e Will seguiam a todo vapor pelas cavernas, agora tendo um sujeito que conduziam para qualquer lado que fosse. O desconhecido parecia morto, mas ao mesmo tempo vivo. Depois de ter visto a criatura do lago, simplesmente perdeu qualquer instinto de sobrevivência. Ele apenas corria porque Will segurava em sua mão. O tentáculo parecia não segui-los mais, mas adentravam cada mais pelos túneis.

Encontraram um caminho sem saída. Tudo estava quieto mais uma vez. Parecia seguro. Colocaram o rapaz sentado um canto e improvisaram uma fogueira com os pequenos tocos de madeira que encontraram no baú do Chris e carregavam desde então. Aliás, onde estavam não era o mesmo lugar onde encontraram Chris. Talvez jamais voltassem lá, as cavernas eram um labirinto total, e o único motivo de Eleven ter seguido confiante era que tinham um mapa. Ali havia somente pedras, nada de raízes ou cipós. Gotejava em uma parte do local. Will estalou os dedos diante dos olhos do rapaz, ele sequer piscou.

— Ele tá bem? – perguntou Eleven, genuinamente assustada e preocupada.

— Acho que sim. Só tá assustado demais para voltar à realidade.

Sentaram no chão, lado a lado, mas um pouco longe do desconhecido para poder manter os olhos nele. Devia ter mesmo cerca de vinte anos, parte do rosto era azul acinzentado, onde a barba começava a crescer. Os cabelos era raspados como os de Eleven quando vivia no laboratório. Eleven disse que ficaria atenta e usaria seu dom caso fosse preciso. Exploraram o mapa, em busca de localizar onde estavam. Depois poderia procurar pelos outros baús de Chris, talvez pudesse ter algo que fosse tira-los do Mundo Invertido.

Dustin perguntava-se o que estava no acampamento. Não era nenhum tipo de Demogorgon, o problema agora parecia mais comum, mas não menos perigoso. Tudo deu errado tão de repente. Quando teriam segurava a faca com força. Não ia matar ninguém, seria apenas para ameçar quem estivesse prestes a entrar na dispensa de materiais de construção. Ou será que mataria alguém, de fato?

Saiu de trás do saco de cimento com todo cuidado, a curiosidade em saber quem estar ali falava mais alto. Sempre assim, um garoto cuja a curiosidade falava mais alto que tudo. Era Nancy. Olhava ao redor, a procura de algo, ou alguém. Dustin saiu do esconderijo devagar para não assustá-la. O alívio tomou conta de ambos por algum momento. Não hesitou em pedir para a irmã de Mike ajudar e carregar mais coisas para a cabana de madeira. Demorou um pouco até que ela desistisse de pedir explicações e começasse a de fato ajudar.

— Eu me chamo Clancy – disse o sujeito até então desconhecido para Eleven e Will. Sentado no chão, seus olhos ainda estavam fixados em um ponto vago. O medo que Clancy emanava era de fato mais intenso do que Will sentia, mesmo que o garoto carregasse vários traumas do Mundo Invertido.

— Aquela criatura surgindo das profundezas do lago, não sei o que fazer quando ela aparece. Meu corpo parece não responder meu cérebro e... Bem, obrigado pela ajuda.

Eleven tocou o ombro de Clancy como forma de conforto. De alguma forma, ela se reconheceu nele, o medo do desconhecido, a cabeça revirando em pensamentos e agonia. Era parecido na época em que Papa a perseguia por Hawkins, querendo fazer contato com sabe-se lá o que.

— Vamos ficar juntos, podemos ajudar um ao outro, certo? – disse Eleven.

Clancy apenas concordou, mantendo o olhar perdido no nada.

— Eu tenho uma casa. É um pouco longe, mas se corrermos, os monstros não vão nos pegar. Não existe somente aquele do lago.

— Nós vimos – disse Will. – Os Demodogs.

Clancy moveu o olhar pela primeira vez, focando em Will que por sua vez ficou meio sem jeito e desviou o contato visual.

— Nós nos cochecemos? Você é o Will, não é?

O garoto tornou a olhar para Clancy, tomado pela curiosidade.

— Sim, mas não te reconheço, desculpe.

— Você deve ser de Hawkins também, não é? É uma cidade pequena, é fácil lembrar de nomes.

— Falando em Hawkins, sabe como voltamos para lá? – perguntou Eleven.

Clancy fez que não com a cabeça.

— Mas sei que devemos sair daqui. O ar que respiramos é venenoso. Eu vivia em uma casa com...

De um segundo para o outro, Clancy voltou em seu curioso estado vegetativo, olhando para um ponto qualquer. Dessa vez os olhos encheram de lágrimas. Eleven e Will trocaram olhares, sem entender ou saber o que fazer. Clancy engoliu os traumas e sua voz agora trêmula tornou a surgir.

— Enfim, a casa é segura. Colocamos proteções, tem água e comida. O ar é menos tóxico naquela região. Não sei o porquê. Enfim. Posso ganhar um tocha também? Os monstros tem medo de fogo e qualquer ajuda contra eles é bem vinda.

Em pouco tempo, já haviam rasgado mais uma tira de uma das roupas que jaziam na mochila de Will e agora Clancy tinha uma fonte de luz.

— Temos um mapa, olha – mostrou Will, que desdobrou o grande papel com a ajuda de Eleven.

Clancy ganhou uma expressão que misturava curiosidade com surpresa.

— Onde conseguiram isso?

— Achamos em algum lugar por aqui – disse Eleven.

— Estava junto com um esqueleto.

Um choro pesado de silencioso foi a única coisa que Clancy fez. Sentou-se no chão, as costas apoiadas na parede da caverna. Abraçou o mapa como se fosse algum objeto valioso. Mais uma vez, Eleven e Will não entenderam. Clancy era um homem peculiar. Tentaram consolar o sujeito acariciando seu ombro. A única conclusão que chegaram era de que Clancy devia conhecer Chris muito bem.

Nancy contou para Dustin que voltaram para verificar se tudo estava bem. Joyce ainda era atormentada com tudo que Will viveu, e deixar o filho tão longe, acampando junto com os amigos a assustava. Ela e Jonathan estavam por perto, dentro do carro, quando ouviram tiros. Decididos a adentrar na zona do acampamento, se separaram para dar uma olhada ao redor já que tudo estava muito quieto. Foi a última vez que Nancy viu Jonathan.

Já Dustin explicou que estavam todos juntos em suas cabanas, rindo e conversando sobre a vida. Ouviram Will gritando quando ele saiu da cabana para ir ao banheiro. Mike foi o primeiro a buscar pelo amigo, Eleven o seguiu. Will parecia estar em uma área mais isolada, onde as vegetação era mais densa. Dustin, Lucas e Max para trás. Então vieram os sons dos tiros. Correram para uma das cabanas de madeira para avisar qualquer inspetor, era uma área fechada, pessoas vigiavam o tempo todo. No meio do caminho, Max foi puxada por algo. Lucas seguiu a garota através de seus gritos, e Dustin os perdeu de vista. Logo Max se calou, e Dustin encontrou apenas Lucas. Caído no chão, tinha um ferimento na barriga que sangrava aos poucos. Arrastou o amigo alguns metros até ser encontrado por Mike, que também havia perdido Eleven de vista. Alertando Mike sobre o que havia acontecido, agora Eleven, Max e Will estavam desaparecidos. Focaram em Lucas no momento, levando-o para uma cabana de madeira. Mike partiu mais uma vez em busca de Eleven, não a perderia mais uma vez.

Não tinham ideia do que acontecia, mas era preciso arriscar. Nancy sugeriu ir buscar o carro, entrar no acampamento, resgatar Lucas e depois pedir por ajuda. Não podiam esperar que algo acontecesse, além disso, era preciso ser racional. Procurar por Eleven, Max, Will e até mesmo Jonathan ou Mike era perigoso, principalmente quando alguém armado vagava por perto. Dustin concordou com o plano. Com a cabana de madeira agora fortificada, ia proteger o lugar e Lucas enquanto Nancy ia buscar o carro há cerca de um ou dois quilômetros dali. Tinham que ser positivos, tinha que dar certo.