Upside Down

4 A Casa Invertida


O desespero em ajudar falou mais alto. Ajudar aquela garota que odiou por um tempo, que hoje ambos ainda tentam romper uma barreira que os impede de serem bons amigos. Ela se dá tão bem com Dustin e Lucas, mas algo não funciona muito bem entre Mike e ela. Por quê?

Os passos de Mike aceleraram, e ele se jogou em cima do sujeito que arrastava Max. Os dois rolaram pelo chão, entre mato alto e grama, de forma que Mike terminou no chão e o sujeito por cima dele, pronto para lhe dar um soco. Mike esguichou o spray de pimenta, afugentando o sujeito. Ele usava roupas pretas, brincos e coisas de metais atravessadas na pele. Algum punk, e estava armado. Aos berros causados pela ardência nos olhos, puxou a arma do bolso, e as cegas, atirou para um lado qualquer. O segundo tiro enterrou na terra perto da perna de Mike. Max bateu com um galho nas costas do punk, jogando-o no chão. Um segundo punk surgira por trás de Max. Foi tudo tão rápido. Ele a derrubou batendo com um taco em sua pernas. O segundo golpe foi na cabeça, mas Mike aparaceu com seu spray antes que Max fosse atingida. O sujeito foi mais rápido, e em vez de atacar Max, investiu em Mike. O taco acertou nas mãos do garoto, jogando o spray para longe. O golpe seguinte acertou nos braços de Mike que ele usou para proteger o rosto. Caído, ganhou uma pancada na perna. Seu grito ecoou por toda a floresta.

— Sai de perto dele! – avisou Max.

A garota segurava a arma de fogo do primeiro punk, aquele que agora estava quase desacordado, largado no meio da terra úmida, mas ainda gemendo de dor pela pancada que a própria Max havia lhe dado.

— É o último aviso ou vou estourar seus miolos. Eu mandei sair de perto! – berrou.

O sujeito acatou, mesmo que relutante. Afastou-se lentamente. Max manteve a arma apontada para ele, caminhando desengonçada até Mike e o puxando pela roupa para ajudá-lo a ficar de pé. Os dois sumiram na floresta.

x-x-x

Eleven apoiou as mãos nos joelhos e vomitou.

— É esse lugar – alertou Clancy. – Temos que ir para a casa. É seguro.

— Consegue nos levar até lá? – perguntou Will.

— Se me emprestarem o mapa. Creio que sim.

Clancy abriu o papel velho e mofado. Tanto Eleven, que já estava melhor, quanto Will, ficaram impressionados que o rapaz conseguiu se localizar em pouco tempo. Devia estar há um bom tempo preso no Mundo Invertido. Apontava e mostrava alguns pontos de referências que nenhum dos dois tinha noção do que era antes de Clancy aparecer.

— Certo, me sigam. O fogo das tochas vai assustar um poucos os... Demodogs?

— Isso – confirmou Will.

— E se o monstro do lago aparecer? – perguntou Eleven. – Você...

Ela ainda estava aprendendo uma palavra ou outra.

— Desligou? – acrescentou Will.

— É, desligou. O que faremos se você ficar daquele jeito de novo?

Joelhado no chão e com as crianças ao redor, Clancy apontou para um ponto do mapa.

— Aqui é onde sairemos das cavernas e retornaremos para a floresta. Esse triângulo do outro lado é a casa. Só tem árvores pelo caminhos, além dos demodogs, talvez. Se o monstro do lago aparecer, por favor, não me deixem para trás. Não quero morrer aqui, não quero terminar como o Chris e a Lola.

— Lola? – quis saber, Will.

— Uma garota que estava aqui também. Posso contar tudo que sei, mais tarde, mas temos que ir e logo, vamos morrer aos poucos respirando o ar daqui.

Eleven e Will concordaram.

— Tem certeza que o triângulo é a casa? – perguntou a garota.

— Tenho. Desenhamos um pequeno mapa na parede da casa, alguns simbolos são os mesmos. Esse era um dos projetos do Chris. Ele... Ele era criativo, tinha muitas ideias, mas não falava nossa língua, então era difícil entender muitas coisas que ele tentava dizer. Até deu um nome para o monstro do lago. Arboletion, Arbouleth. Acho que era Arbouleth. Pelo menos era o que eu entendia. Lembro desse episódio do mapa, de quando o Chris conseguiu o papel e gesticulava desesperado, simulando estar segurando uma caneta.

Clancy abaixou vagamente a cabeça. Uma ou duas lágrimas escorreram pelo rosto.

— Agora entendo que ele queria fazer um mapa do lugar. Um que pudessemos levar de um lado para o outro. Queria tanto ter ajudado... Enfim. Vamos logo.

Clancy, Eleven e Will seguiam com cuidado. Clancy ia na frente, mas pediu para que Eleven ficasse muito atenta para usar o dom dela. Ele não pareceu espantado ou assustado a respeito disso. Viver no Mundo Invertido já era loucura demais para se incomodar com a garota que telecinése. A caverna gotejava, um grunhido ecoava até os ouvidos dos três. Clancy foi parando aos poucos. Virous para Will e Eleven.

— Vamos voltar para a floresta – sussurrou. – Cheguem mais perto

Ambos fizeram fizeram o que foi pedido.

Clancy mostrou dois desenhos no mapa: uma torre de energia e um milharal. Teriam que chegar na torre, ali encontrariam placas. Tinha que seguir para o milharal, então iam ver a casa em uma parte mais alta.

— Essa caverna vai nos levar até a beira do lago. Por favor, evitem ao máximo fazer qualquer barulho. Não quero que o monstro do lago acorde.

Eleven e Will concordaram. Clancy temia mesmo o Arbouleth.

— Não se preocupem em matar os demogods, são muitos. Afastem eles e continuem me seguindo. Se Arbouleth aparecer, vocês já sabem como chegar na casa. Espero que dê tudo certo.

Clancy rapidamente seguiu em frente. Uma luz fraca acertou o rosto de cada um. Era aquela estranha iluminação que vinha do céu sem Lua ou Sol. Eleven e Will começaram a correr quando Clancy acelerou o passo. No lado esquerdo estava o enorme lago de água negras. Do lado direito um barranco do qual Clancy olhava para o topo o tempo todo. Os demogods estavam a espreita.

Adentraram entre as árvores. Will parecia descontrolado, olhando para todos os lados a todo momento. Era doloroso acreditar que estava no Mundo Invertido mais uma vez. Clancy parecia o mais controlado, mas toda a sua experiência ia por água abaixo se o monstro do lago surgisse. Eleven estava tensa, esteve no Mundo Invertido por pouco tempo. O medo do desconhecido é algo que afeta qualquer um.

Subitamente algo agarrou o pé de Eleven, a arrastando para a escuridão, deixando apenas sua tocha que apagou assim que tocou a terra úmida. Will ameaçou gritar por ela, mas Clancy tapou sua boca rapidamente. Pegou na mão do menino e começou a correr para onde ela havia sido levada. Subitamente ela surgiu. Livrou-se do demodog com seu dom, mas sentiu uma leve felicidade porque Clancy e Will foram atrás dela. Uma criatura voou na direção dos três. Clancy entrou na frente e bateu com a tocha, jogando a criatura de volta na escuridão. Em seguida sinalizou para o seguirem, Eleven apanhou o toco de madeira e o reacendeu no caminho com a ajuda de Will.

Corriam desesperadamente pela floresta. Um grunhido extremamente alto os fez parar. Galhos tremeram, ouviram som de água ao longe.

— Mas que droga! – gritou Clancy.

Correram ainda mais rápido, tropeçando em raízes e cipós emaranhados pelo caminho. Não demorou para que Arbouleth os seguisse. Na verdade, Arbouleth era tão grande que ainda estava em seu lago, o que seguia o trio eram seus enormes tentáculos, trazendo junto uma enorme quantidade de um líquido viscoso cinza. Os demodogs rosnavam nas sombras, outros seguiam suas presas, famintos. Eleven empurrava galhos do caminho com o seu dom. As árvores secas foram sumindo aos poucos, e agora começavam a ver a torre que Clancy tinha falado. Estava torta, barras de ferro penduradas, balançando sutilmente. Uma construção morta, um resquicío da realidade.

Estavam embaixo da torre. Nas bordas do lago, era possível ver um milharal seco e escuro, cercado por grades tortas e velhas feitas de madeira. Mais longe ainda, no topo de uma pequena montanha, estava a casa. De longe, parecia um lugar pleno e calmo, tomado pelo silêncio do Mundo Invertido. De onde estavam, puderam ver Arbouleth. Era uma criatura gigantesca, com tentáculos de diversos tamanhos, barbatanas, espinhos e musgos e algas enroscadas por todo o corpo. Entre a mistura de coisas orgânicas, viram uma cabeça surgindo. Havia dois tentáculos esverdeados que balançavam para todos os lados, como duas antenas molengas. Uma característica boca colossal abriu-se em cinco partes, lentamente, devido ao tamanho da criatura. Era tão grande que poderia facilmente engolir um elefante inteiro. Era possível ver dentes pontudos no interior de cada uma das partes da boca. Arbouleth soltou um rugido tão alto que tudo estremeceu. Clancy lutou dentro de si, deixou uma lágrima de medo escorrer. Chamou a atenção de Eleven e Will e continuaram em direção a casa do mundo invertido. A casa invertida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.