Upside Down
7 VII — Calmaria após a tempestade
Notas iniciais
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“Existem momentos na vida da gente, em que as palavras perdem todo o sentido ou parecem inúteis, e, por mais que a gente pense numa forma de empregá-las elas parecem não servir. Então a gente não diz, apenas sente.” – Sigmund Freud.
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VII — Calmaria após a tempestade.
Eu poderia dizer que minha expressão estava, no mínimo, apática. Puxei meu braço num pulo, mesmo que aquela sensação fosse muito boa, eu estava confusa. Na verdade, estou extremamente confusa e com os olhos arregalados para o fato de que sua mão coberta por uma luz não me queima, e, muito pelo contrário, minha pele absorvia aquela luz.
— Isso era para acontecer? — O sangue do meu rosto desapareceu e corre com toda a velocidade por minhas veias, tão forte que consigo escutar.
— Não. — Encarou sua própria mão e depois seu olhar desceu até meu braço. — Não entendo.
— Talvez porque nossas magias sejam compatíveis? — Arrisquei.
— Acho que só pode ser por isso.
Suspirei e me levantei.
— Bom, eu vou voltar, Lisanna deve estar um pouco... Preocupada comigo. — Sorri meio sem jeito e me levantei, depois disso preciso de tempo para pensar.
— Certo, te levo até lá. Tudo bem? — Assenti positivamente.
[...]
Encarei os portões do galpão quando Sting me deixou. De certo, quero acreditar que minha mãe tenha ido embora... Com certeza, eu estou quase rezando para isso.
— Lucy! — Lisanna corre em minha direção. — Ficamos preocupados, onde você foi?
— Pensar. Estava com a cabeça confusa. — Fiz uma careta.
— É, mas, depois que você saiu, chegaram mais visitas para você! — Ela disse feliz.
Estranhei á princípio, vi que havia apenas poucos pais sentados ainda. Olhei ao redor, procurando alguém que pudesse ter vindo me ver. E quando olho para uma duas mesas longe de mim, arregalo os olhos e abro um sorriso me deparando com olhos cinza suaves e gentis, a sorrir.
Andei o mais rápido que pude, abraçando o pequeno corpo a minha frente.
— Vovó. — Inalei o cheiro de seus cabelos e seu perfume adocicado que fazia meu nariz irritar. Como senti falta disso.
— Olá, docinho. — Sorri diante de sua voz. — Como você está, querida?
— Estou bem, vovó. Como veio até aqui?
— Sua tia me trouxe. — Olhei para o lado e me deparei com minha tia, que não havia notado antes. Seus cabelos eram negros e ela sorria para mim, assim como seus olhos escuros.
Abraçamo-nos e ela acariciou minha cabeça.
— Olá, meu amor. — Sua voz era calorosa.
— Tudo bem, tia? — Ela assentiu positivamente.
Sentamo-nos na mesma mesa que elas estavam anteriormente.
— Como você está com tudo isso? — Encarei os olhos de minha avó, por um momento não soube o que quis dizer. — Eu sei de tudo.
— A senhora...? Porque nunca me contou?
— Querida, eu não sabia como ia reagir, por isso quando sua mãe insistiu em te mandar para cá não opus. — Seu sorriso me tranqüilizou.
— O que a senhora é?
— Eu sou uma bruxa, e sua tia é vampira. — Sorri para ambas, é bom saber que posso conversar sobre isso com elas.
— Porque você não estava aqui quando nós chegamos? — Minha tia perguntou.
— Bem...
Contei uma parte da discussão do meu pai com a mamãe. Elas apenas assentiam.
— Querida, você não devia ter passado por isso. — Disseram elas.
— Eu sei, mas... — Sorri. — Fico feliz que estejam aqui.
Abracei ainda mais minha avó. Continuamos conversando, fazia um tempo que não tinha conversado com nenhuma das duas. Minha avó e minha tia são como mães para mim. Quando minha verdadeira mãe resolveu me “abandonar”, elas que cuidaram de mim no meu estado depreciativo.
Nem sei o que seria de mim mesma sem elas duas; sempre me fazendo rir, não me deixando sozinha. Posso até arriscar a dizer que elas são mais minhas mães do que... Bem, ela.
— Mãe? — Me viro e meu pai está lá. Agacho para minha avó e lhe dou um abraço.
— Foi bom ver a senhora. — Sorri tanto que os cantos dos meus olhos se enrugaram. Virei-me e abracei também minha tia.
— Aonde você vai, querida? — Sua voz fez com que me virasse em sua direção me deparando com meu pai encarando-me. Suspirei, eu só queria poder abraçar ele de novo sem me sentir um caco. Controlei as lágrimas. — Fique.
— Não, vovó. Tenho que ir.
— Ela não está falando comigo mãe. — Controlei um riso cínico que cismava em tentar aparecer em meus lábios.
— Mas... Por quê? — Dessa vez foi minha tia quem perguntou.
— Hum. Só quero ir, tudo bem? Sem discussões por hoje, por favor. — Virei-me dessa vez disposta a correr se necessário. Minha avó sempre teve a terrível mania de fazer com que os outros voltem a se falar, e eu não quero isso... Não agora.
— Posso ir com você? — Me virei para minha tia. — Eles têm que conversar, e quero bater um papo com você.
Sorri mais que o gato de Alice no país das maravilhas.
— Claro, tia. — Ela se levantou e murmurou um “já volto” para minha avó. Seguimos para fora, eu ainda estava com meu sorriso enorme e me senti sendo observada.
Sabe aquela sensação de que se está fazendo alguma coisa errada e essa pessoa está vendo? Pois é assim que estou me sentindo agora. Encarei tudo a minha volta e vi Natsu me encarando. Por quê? Minha testa está suja?
Não quero parar de sorrir, finalmente alguma coisa realmente boa no meu dia, e ele não vai estragar.
— Como você está se sentindo realmente?
Certo, a voz dela me tirou do transe e me assustou. Sempre me assustava quando minha tia simplesmente adivinhava o que estava sentindo ou pensando.
— Estou bem, tia. De verdade. — Tentei sorrir. Mas, não deu. Ela me encarou com uma expressão de: “Me diga a verdade... Ou morra!” — Na verdade... Eu não estou tão bem assim.
— Converse comigo, querida. — Abracei a mulher mais incrível do mundo.
Observei uns bancos bem debaixo de uma das árvores. Guiei minha tia até lá e nos sentamos, seus olhos pareciam estar me avaliando.
— É toda essa situação com a minha mãe. Eu não sei o que há de verdade. E agora ter vindo para cá me deixa tão... Exausta. Tem tanta coisa acontecendo que eu nem sei ao menos como lidar com toda essa situação. Até um tempo atrás eu achava que seres sobrenaturais eram charlatões e agora eu tenho asas.
— Ah querida. — Seus olhos suavizaram e sua mão veio em diretamente até meu rosto, acariciando-o. — Entendo que tudo isso possa parecer estranho. Mas no fundo, você só lidou tão bem com todas essas mudanças, porque aqui — Sua mão guiou até meu coração. — Você sempre sentiu algo diferente consigo mesma.
— Eu nunca fui muito normal mesmo. — Dei nos ombros de modo largado.
— Nem uma única vez. Sempre vi certo brilho em você. — Seus olhos brilhavam com o divertimento.
— Muito engraçada, tia. — Tentei conter um riso fácil saindo de meus lábios, mas foi impossível.
— Ah, Lucy. Você pode não se lembrar, mas quando era pequena, sempre faziam coisas que pareciam meio sobrenaturais. Não sei como não percebeu nada antes.
— Como, por exemplo? — Minhas sobrancelhas arquearam diante dessa afirmação dela.
— Você não se lembra de todas as histórias que inventava? — Vasculhei minha memória procurando sobre o que ela estava falando, mas não encontrei. Anui de modo negativo em sua direção. — Você sempre fantasiou muito. Criava histórias, todas as suas histórias tinham algo sobrenatural. Eram histórias de criança, claro.
— Não me lembro de nada disso.
— Você deveria ter uns dez anos, quando simplesmente parou com isso. Foi quando você deixou de ir lá em casa com tanta freqüência. A última história que me lembro foi bem engraçada. Você disse que um anjo tinha te visitado e te contado algumas coisas que você deveria saber.
— Espera, sério? — Ela riu e assentiu.
— Talvez tenha sido só fruto de sua imaginação. Ou não. Nunca se sabe.
— Mas o que o anjo disse que eu precisava saber? — O rosto dela pareceu contorcer enquanto tentava se recordar.
— Não lembro querida. Você era uma criança falante. Muito falante. — Eu ri de sua careta. — Mas uma das coisas que me lembro foi a que você tirou prova, você chegou perto da sua avó enquanto ela cozinhava e simplesmente tirou a panela do fogão e pôs a mão no fogo sorrindo.
Meus olhos se arregalaram e desceram até minhas mãos. Como não me lembro disso?
— Você gritou toda animada e eu corri para tirar de lá, mas sua mão não tinha absolutamente nada. E você disse empolgada: “O anjo disse que o fogo é meu amigo.”
— Não tinha queimadura, nem nada?
— Não, querida. Não tinha absolutamente nada. Não demorou muito para você parar de colocar fogo nas coisas. Durou um mês essa sua fascinação por fogo.
— Isso é estranho, vocês nunca estranharam?
— Eu sou uma vampira e sua avó uma bruxa, você não queimar no fogo, foi a menor de nossas preocupações, querida. — Ela riu novamente. — Mas uma coisa me deixa intrigada até hoje. Você vivia dizendo que demônios não eram tão maus quanto todo mundo dizia. Uma criança falar sobre demônios deixou-nos bem preocupadas.
— Vocês não tentaram descobrir o porquê de eu estar dizendo essas coisas?
— Você poderia ter ouvido na tevê, ou então algum adulto falando. — Ela deu nos ombros. — Era coisa de criança, Lucy.
Suspirei, alguma coisa me dizia que isso não era coisa de criança como ela dizia.
[...]
Quando coloco minha cabeça no travesseiro, todo o meu dia vem como um turbilhão de emoções suprimidas e posso sentir minha cabeça sendo comprimida por elas.
Eu definitivamente não estou me sentindo bem, no fundo, eu sei o que está causando tudo isso. Meu pai. Odeio ficar nessa situação com ele.
Sento-me no colchão e apoio minhas costas na cabeceira, agarrando meus joelhos. Essa posição me conforta e me acalma. Sinto minha visão turva e afundo em lágrimas.
Minha cabeça está latejando e sinto Maya encostar-se a mim.
Passo minha mão em sua cabeça e sorrio. Mas esse sorriso morre aos poucos quando um forte sentimento me atinge como um cometa. Frustração e decepção. Odeio ficar decepcionada com alguém, toda vez que esse alguém me decepciona e, acredite em mim, isso sempre acontece, me sinto um lixo e completamente exposta a tudo e a todos.
Um soluço forte comprime meu peito e meu coração. Não quero mais chorar, não suporto mais chorar.
Eu queria tanto... Apenas, esquecer e me aliviar de todos os sentimentos que ainda estão guardados lá nos arredores do meu coração.
E eu me protejo de todas as formas possíveis. Ergo barreiras, me protejo com uma armadura. Mas sentimentos ruins são como cobras venenosas, eles ficam a espreita, se mexendo de um lado para o outro, para que você tenha noção que eles estão lá. E quando está frágil e deixa todas as proteções de lado por um tempo, esses sentimentos entram com tudo em seu coração. Devastando tudo lá dentro, matando qualquer fagulha de sentimento bom existente por lá, e quando você vê, está tomada pelo veneno das cobras... Cada um tem um sentimento ruim que fica sempre lá. Um que é devastador para si. Uns é a solidão, outros é a tristeza, traição... E por ai se vai, a lista é imensa.
Mas no meu caso, é a decepção. Nunca, jamais, quero me decepcionar com alguém, e quando eu aposto todas as minhas fichas numa pessoa... Ela joga tudo pelos ares. E eu sempre fico assim, por mais que, sim, eu saiba no fundo que irei me decepcionar. Eu sempre me jogo de cabeça. E isso sempre me machuca, é como se a cada rasteira que a vida me dá eu resolvo confiar novamente. Esquecendo completamente do que passei anteriormente. Eu sinto pena de mim mesma. Por mais que eu odeie a pena também, é um sentimento desprezível, mas não tem outro que defina tão bem o que estou sentindo por mim mesma nesse momento.
Escuto um trovão e o quarto inteiro se iluminou. Sorri, não é que o céu resolveu chorar junto comigo?
Á cada gota que batia com força total na janela, eu sentia que uma lágrima caia de meus olhos.
Levanto-me quase que instantaneamente da minha cama. Toda vez que eu ficava assim, existia apenas uma pessoa que me confortava e não vou deixar que minha mãe me atrapalhe novamente. Ela não pode me impedir de ser feliz, isso é uma escolha minha.
Abro a porta normalmente vendo a cabana escura, e saio correndo pela entrada, encharcando meu short curto e minha regata. Dei graça a Deus por estar de sutiã e que o short não fique transparente.
Senti a terra molhada entrar em contato com meus pés e senti enorme satisfação nisso. Talvez por me sentir humana? Só sei que, conforme a chuva me encharcava, eu sentia mais lágrimas grossas e salgadas descendo e se misturando com a água congelante da chuva.
Eu nunca fui á sua cabana. Onde será que fica?
Sem me importar muito com isso, deixei que minha intuição me guiasse. Mavis sempre disse que minha intuição era completa, vou deixar ela me levar por um tempo.
O caminho está completamente deserto. Meu cabelo está escorrido e minha franja tampa metade de meu rosto, mas isso não está me importando. Não pretendo participar de um concurso de miss.
[...]
Sinto meu coração trepidar no peito e meu sangue corre com toda facilidade em meu corpo. Minha respiração está irregular e por mais que ainda esteja chorando, estou me sentindo incrivelmente bem comigo mesma.
Adentro na varanda sentindo frio. Certo, não foi uma atitude muito prudente, mas... O que posso fazer?
Bato na porta com três socos leves e envolvo-me em meus próprios braços, sentindo um frio ainda mais intenso que faz com que meus músculos tremam e meus dentes batam um no outro.
— Lucy? — Eu não estava preparada para os sentimentos bons que chegaram apenas em escutar sua voz. — O que... — Sua voz morreu quando ele desceu o olhar para o meu estado deplorável. —... Aconteceu?
Eu praticamente me joguei em seus braços. Meu pai sempre esteve lá, mesmo que minha mãe me tratasse daquele jeito, ele sempre estava lá para me dar um abraço. Apertando-me contra seu próprio corpo, senti um calor crescente que aos poucos foi eliminando todas as dores e sentimentos ruins que me afligiam. Não sei ao certo quanto tempo fiquei em seus braços, mas só eu sei o bem que me fez... Eu senti tanta falta.
— Querida. — Ele me segurou pelos ombros e encarou meus olhos. Seus olhos negros avaliaram meu nariz vermelho e meus olhos marejados. — O que foi?
— Me... Desculpe. — Ele me enviou uma expressão um tanto confusa. — Me desculpe por te culpar por tudo que todos fizeram comigo por simplesmente não estar comigo, eu não sou o centro do mundo. Mas, eu me sinto tão... Culpada por não ter te dito antes, me desculpe por ter brigado com você e falado aquele um monte de coisas... Desculpe-me não ter te abraçado assim antes... Desculpa, desculpa... — Fiquei murmurando “desculpa” com minha voz fanha e chorosa enquanto sentia mais lágrimas escorrerem pelo meu rosto já seco.
— Lucy, Lucy. — Parei de falar e olhei para o homem na minha frente. — Pare de me pedir desculpas. — E então mais um abraço. Mas dessa vez ele me puxou para dentro, e eu tenho que agradecer, estava congelando lá fora.
Escuto uma tossida forçada e só então me ligo que pode ter alguém com ele, que cabeça a minha.
— Jude, se quiser podemos sair. — Virei com força total.
E olha que maravilha, o Natsu estava lá, com o pai dele.
— Está tudo bem. — Sequei o resto das lágrimas que ainda caiam. — Só vim falar isso mesmo, vou voltar. — Meu pai me encarou com olhos repreendedores.
— Nada disso, você está toda molhada. — Me dando conta disso cruzei os braços em frente ao meu busto. — E... Você vai me contar porque está assim, não é só por que está se sentindo culpada.
Ás vezes fico com raiva do meu pai, como ele sempre sabe quando estou dizendo mentira ou não dizendo tudo?
— Toma. — Que alívio, não estou mais congelando. Apertei o casaco contra meus ombros. Tem duas pessoas me encarando e eu nem me dei conta disso. — Igneel, essa é minha filha.
— Então você é a famosa Lucy. — Pude sorrir. — Muito prazer em te conhecer.
Arqueei minhas sobrancelhas na direção do meu pai e ele deu nos ombros se sentando no sofá de frente para os convidados. Sentei-me na poltrona.
— Prazer é o meu, senhor. — Me encolhi na poltrona.
— Creio que já conhece meu filho. — Assenti devagar, acho que por desconfiança.
Ele sorriu. Sim, ele pode ter uma expressão muito fria e assustadora no rosto, mas seu sorriso é fofo. Retribui.
— Igneel, vamos continuar. Quero conversar com a mocinha. — Revirei meus olhos e encostei minha cabeça na poltrona. Só então me dei conta que deixei Maya lá, mas... Ela ficará bem.
Eles conversam e eu viajo. Pelo menos minha habilidade de me desligar funciona, não sei sobre o que conversam e não quero saber.
Certo, o senhor-cabelo-rosa está olhando o que? Minha testa está suja? Meu nariz está pintado de vermelho?
Bem, não tenho tempo para isso.
Encaro o chão e penso em tudo que eu já fiz, não foram atitudes muito sensatas, admito. Arrependo-me de muitas coisas. Talvez eu pudesse ser mais inteligente e não agir pensando sempre nos outros, mas isso é uma coisa muito irracional, não consigo pensar muito nas conseqüências de não por tudo para fora quando estou com vontade. Talvez seja por isso que sempre estou descendo o barranco das emoções.
Isso é um fato.
Eu sempre estou instável internamente, não consigo pensar em nenhuma vez que estive de bem comigo mesma e plenamente feliz com todas as decisões que tomei depois dos dez anos. Porque eu sempre me deixei levar, e isso é horrível. Não queria ser assim.
Mas, tenho que pensar no lado positivo, se é que tudo isso tem um lado positivo. Não é á toa que eu vim parar aqui, é?
— Lucy? — Interrompo minha linha de raciocínio e encaro quem me chamou.
— Oi? — Sempre estou alheia a tudo em minha volta, é cotidiano.
— Escutou a pergunta?
Acho que minha careta de confusão foi divertida porque todo mundo riu. Tenho cara de palhaça?
— Acho que não. — Assenti negativamente. — Bem, o que acha de eu e você sairmos no fim de semana que vem? Estou combinando com Igneel, ele toma conta do clã. — Ouvir isso da boca do meu pai é... Estranho. — E eu queria sair um pouco com você.
— Claro! — Sorri animada. — Não precisava nem ter perguntado, pai. — Senti meus olhos arderem. Certo, só de pronunciar essa palavra sinto nós em meu estômago e uma sensação de felicidade tremenda. Olha aí o mesmo problema de sempre.
Eu o perdoei, como perdôo a todos. Com muita facilidade, foi necessário apenas um abraço.
— Então, está certo? — Assenti em sua direção. Tirei um pouco o casaco dos meus ombros e soltei um pouco a blusa do meu corpo, está me dando calor.
Eles continuaram a conversar... Da onde tiram tanto assunto? Só então prestei atenção que Natsu não conversava e sim me olhava e assentia. Certo, ele estava assentindo para seu pai e me encarando.
Fixei meus olhos em seu rosto e enruguei minha testa em direção. O que diabos ele está olhando?
Ele continuou sério me encarando enquanto eu olhava confusa em sua direção. Ele parecia estar procurando alguma coisa em meu rosto.
A mesma expressão que me encarou quando segurou meu braço no rio.
É como se um sentimento estivesse me possuindo... Não estou sentindo isso. Meu ventre se contorce e meus pelos se arrepiam. Eu conheço... É atração? Não sei, mas por um momento vou chamar assim. Tudo bem que ele não é feio. Mas isso não é motivo para me sentir dessa maneira.
Não consigo dizer o que é... Mas é um sentimento muito bom.
Arregalo levemente meus olhos quando meu interior se contorce ainda mais. Mas... É como um desafio? Aqueles desafios infantis de quem encara mais?
Arqueio ainda mais minha sobrancelha e me contorço de leve na poltrona. Não sei ao certo quanto tempo ficamos nesse joguinho infantil de “quem encara mais”. Só sei que, ele dá um sorriso e inclina um pouco a cabeça para a direita. Sorrio e desvio o olhar. Quando olho novamente para seu rosto, noto uma expressão vitoriosa... Idiota.
Passo a mão em meus braços tentando controlar os pelos que estão completamente eriçados e eu cruzo e descruzo minhas pernas. Que sensação mais estranha.
Tudo bem, eu realmente não sei o que isso significa, mas é uma sensação tão... Diferente. Nunca havia sentido algo parecido.
— Bem, terminamos por hoje? — Sou tirada de meus devaneios quando meu pai se pronuncia. Eles se levantam e eu fico na dúvida, devo levantar ou não?
— Sim, então está certo, Jude. — Ele vem em minha direção e então eu me levanto. — Foi um prazer conhecer você, Lucy. — E ele me abraça... Mas... Por quê?
Solto uma exclamação de surpresa e fico quase que imóvel, isso foi bem inesperado.
Soltando-me, ele se encaminha até a porta de saída e Natsu estende a mão em minha direção. Posso ver uma coisa... Ele tem uma marca parecida com a minha no pescoço. Enquanto a minha é no ombro, a dele é no lado direito do pescoço. No mesmo lado. Estranho.
Toco em sua mão por pura educação, não esperava que sentisse calor. Deve ser pela magia dele. Não é?
[...]
Ficar sozinha nunca foi um grande problema para mim.
Enquanto um dos maiores temores da população é se sentir sozinho. Eu sou ao contrário, até gosto de ficar um pouco sozinha, serve para colocar minha cabeça em ordem.
Além disso, me sinto em paz com meus pensamentos nessa hora. Por mais que, o escuro cause medo em todos – inclusive em mim. –, ele não deixa de ser calmante e extremamente reflexivo. Ficar coberta pelo negro causado pelo falta da luz é bom ás vezes. Mas eu tenho medo de escuro... Portanto, apenas ás vezes já é o suficiente.
Mas como estou num momento que meus pensamentos e minha cabeça estão uma verdadeira bagunça, eu preciso ficar no escuro para pelo menos tentar pôr tudo em ordem. Porém, agora está muito tarde para pensar em qualquer coisa... Quero apenas descansar e nunca mais me lembrar que esse dia existiu. Á não ser as partes boas, claro.
Olho para o relógio, já são quase três da madrugada. Meu pai acabou de me deixar aqui, ele disse que vai tentar conversar com a minha mãe. Eles estão brigados, mas ele falou que eu sou o elo entre eles e que ela não tem que me tratar dessa forma. Mas o jeito que falou... Tem alguma coisa nessa história.
Ele vai tentar convencê-la de que aquele novo namorado dela não gente boa. Porque, segundo ele, também sentiu algo muito ruim em relação á ele. Pelo menos não estou ficando paranóica.
Eu nunca tive muitas expectativas em relação á dona Layla. Eu sempre esperava o pior dela, mas isso nunca impediu que eu me ferisse cada vez que notasse a indiferença e tamanho ódio por mim, tal sentimento que não faço a menor ideia de onde tenha surgido.
Maya encostou-se a meu pé e se esfregou. Escutei muitas ‘rosnadas’ dela em relação ao meu pai, mas sempre foi assim. Então é normal e isso me dá nostalgia.
Encostei novamente minha cabeça no travesseiro e empurrei minha testa com a mão. De certo, amanhã vou estar com um maravilhoso humor. Ou talvez com mau humor devido ao pouco sono. Mas, estarei com paz de espírito, a não ser com relação minha mãe. Mas eu nunca estou assim com ela.
[...]
— O aconteceu ontem à noite? — Lisanna me perguntou, arqueando as sobrancelhas. Olhei em sua direção, ela estava sentada do lado oposto a mim.
— Hum, o que?
— Sua aura, ela está num rosa que está me cegando e um amarelo que está até contagiando a minha, está feliz?
— Quanto ao amarelo, eu conversei com meu pai... Estamos nos falando de novo. — Abri um sorriso tão grande que meus olhos se fecharam levemente e covinhas se formaram em minhas bochechas.
— Nossa, como você fica fofa rindo desse jeito, é sério. — Ela disse animada. — Mas o rosa...?
— Não sei. Não aconteceu nada demais, a não ser isso. — Suspirei. — Eu não estou gostando de ninguém, Lisanna.
— Eu não disse nada.
— Mas está pensando, esse risinho ai não é comum. — Apontei para seu rosto. Realmente, aquele risinho que ela estava dando me fez sentir medo.
— Eu hein. Você lê pensamentos?
— Não, mas você está pensando coisas erradas. — Eu disse enquanto ela me avaliava.
— Sou uma fada, Lucy. Eu lido com emoções. Posso controlá-las e senti-las melhor do que ninguém, e no momento, você está me contagiando com esse bom humor. — Ela revirou os olhos dramaticamente. — Certo, você não encontrou nenhum garoto não?
Devo contar ou não para ela? Será que Lisanna pode me ajudar?
— Na verdade sim. — Ela pareceu animada com minha resposta. — Bem...
Expliquei o que aconteceu comigo e com Sting. Resolvi contar tudo desde o início.
Ela ficou meio... Embasbacada.
— Nossa, que estranho. — Vou fingir que não estou sentindo uma pequena pontada de ciúmes em sua voz.
— Não é? — Suspirei. — Não acho que minha aura esteja rosa por isso...
— Então, por quê? — Sua curiosidade me espanta.
— Bem. Quando eu fui até meu pai... Bem, ele estava conversando com o Senhor Igneel... — Ela fez sinal para eu continuar. — E bem... O... Natsu estava lá.
Sua expressão estava no mínimo cômica.
— O... Natsu? Ele te machucou?
— Lógico que não. Idiota. — Balancei a cabeça negativamente. — No início eu nem tinha notado ele lá, mas depois ele ficou me encarando de uma forma... Estranha. Mas, ele encarou como um desafio. E bem, ficamos bastante tempo nos encarando. E... Só.
Lógico que, não me sinto confortável para falar sobre o desejo que eu senti.
— Mas... A sua aura está ainda mais rosa quando falou dele.
— Deixa isso para lá, Lisanna. — Ela assentiu, mas alguma coisa em seu olhar me dizia que ela não ia esquecer tão cedo. — Cadê a Erza?
— Foi na “reunião matinal dos vampiros.” — Revirando os olhos, ela colocou uma torrada na boca.
Passei manteiga de amendoim num pão sem casca. Enquanto comia, refleti sobre essa “reunião” da Erza. O que eles fazem? Tomam sangue uns dos outros? Vampiro tem sangue? Tenho que perguntar para a Erza depois.
— Lucy, vamos dar um passeio? Hoje todos os alunos saem pelo internato. — Assenti animada.
— Será legal, eu nunca andei muito longe por aqui. O máximo onde fui foi no riacho, e não tive muitas experiências boas por lá. — Balancei a cabeça negativamente para dar ênfase.
— Certo, podemos fazer trilha, que tal? É só ir até o quadro para ver quais estão disponíveis. Vamos?
— Claro!
Espero que realmente seja legal.
[...]
— Lisanna, eu não posso simplesmente ficar dentro do quarto?
Porque estou perguntando isso? Pelo simples fato que estou quase sendo devorada aqui. Muitas pessoas me encaram.
— Lu, relaxa. — ela sorriu. — É que a sua energia está liberada, e creia em mim, qualquer um se sentiria ameaçado pelo tamanho dela.
— Espera... O quê?
— Deve ser seu bom humor, mas ela está com força total. — Sorrindo, ela voltou sua atenção para o quadro.
Que. Inferno!
Respire fundo, Lucy.
É cantarolando esse mantra em minha cabeça que eu continuo olhando para frente sem encarar ninguém por que... Não sei se eu estaria de tão bom humor se fizesse isso.
Mexi meu ombro um tanto desconfortável, é uma ardência horrível que faz com que eu faça uma careta em desconforto. O que será essa dor?
— Como está, Lucy? — Encaro o dono da voz e sorrio. Ele parece ainda mais bonito ou é impressão minha?
— Estou bem. Bom dia! — Sting me oferece um sorriso que eu julgo maravilhoso. Mas logo os acontecimentos do dia anterior me abateram. — Soube de alguma coisa em relação aquilo?
— Eu queria conversar com você sobre isso. — O encarei com as sobrancelhas arqueadas e com uma ruga no meio da testa. — Ah, sua energia está esmagadora.
— Como assim?
— Ele está se sentindo mal por estar perto de você. — Erza responde ao meu lado.
— Da onde você saiu? — Minha voz está um tanto assustada e minha mão está contraída no peito.
— Ela estava do seu lado a um maior tempão. — Lisanna diz sem se virar.
— É mesmo, nem me viu Lucy? — Ela fingiu lágrimas.
— Não sou Buda, não tenho três olhos. — Revirei apenas os dois olhos existentes em meu rosto.
— É, mas... Você não está sentindo minha presença, já que sua energia está forte desse jeito?
— Que saco, não. Eu não senti nada. Se tivesse sentido não levaria um susto. Eu não sei controlar isso, okay?
— Calma, senhorita irritadinha! — Erza disse e Lisanna concordava ainda sem olhar em minha direção. Traíra.
— Ah, para! — Cruzei meus braços e me virei para Sting que olhava nossa discussão com um mini sorriso no rosto. — Isso, definitivamente, não é engraçado quando é com você.
— Sei bem disso. — Mas sua expressão continuava cômica.
Sorri.
— O que quer me falar?
— Pode ser em particular? — Fiquei confusa. — É que aqui todos escutam demais. — Opa, perto demais. Dei um passo para trás e, por conseguinte esbarrei em Lisanna, mas segurei seu braço por reflexo impedindo que caísse no chão.
— Obrigada por me derrubar e impedir que eu caísse.
— De nada. — Notei seus olhos se revirando e sorri ironicamente para ela.
Mas... Porque eu me senti tão desconfortável por ele estar perto demais? É como se fosse errado.
— Certo. Acho que não tem problema. — Minha voz estava hesitante demais. — Lisanna, vou conversar com Sting e já volto. — Ela me encarou e assentiu suavemente. Demorou o olhar em Sting por um momento antes de voltar para atividade de olhar no quadro de avisos.
— E quanto a Erza? Ela também existe. — Ela disse em terceira pessoa.
— Eu sei. Vou até ali e quando voltar vamos fazer trilha, certo? — Ela assentiu sorrindo docemente, sinceramente... Ela tem graves problemas de personalidade.
— Vamos? — Ele disse com um sorrisinho no rosto.
— Sim. — Saí com a maior naturalidade, porque de todos que estavam me encarando o que mais me importava estava com o rosto raivoso e com cara de poucos amigos disposto á pular em qualquer um? Porque ele me olhava mortalmente? E porque eu estava me importando tanto?
[...]
— O que quer me dizer?
Estávamos sentados na varanda da minha cabana. Eu estava apoiada no corrimão da escada e ele estava a pelo menos um metro de distância. Melhor.
— Bem, você já ouviu sobre a marca, não é? — Assenti. — Bom, eu conversei com Igneel hoje pela manhã, e bem, ele me disse algumas coisas. A primeira foi que os descendentes quando têm as marcas, elas são iguais.
Arregalei os olhos e perdi o fôlego por um instante.
— Não se preocupe, não somos parceiros, Lucy. — Ele me mostrou a parte interna de seu pulso. Enquanto a minha marca mais parecia uma gota, a dele parecia uma nuvem.
— Mas... Porque sua magia não me machucou?
— Ele me disse que não tem como a magia não afetar o outro, mesmo que elas sejam compatíveis. — Ele ponderou. — Mas... Não sei então porque minha magia não te afetou, prometo que vou pesquisar porque isso não aconteceu.
Meus ombros caíram, estava com uma regata e uma jaqueta jeans, a retirei e meu olhar desceu para a minha marca, então notei uma coisa estranha.
— O... que? — Minha voz estava pavorosa.
— O que foi? — Ele disse sem olhar para mim, enquanto fazia uns desenhos no chão com sua magia.
Agora eu via... Uma perfeita fênix em preto. Como uma tatuagem. Ela media pelo menos dez centímetros de comprimento e cinco de largura. Ela era num tom escuro, parecia brilhar e estava envolta a chamas em laranja e vermelho.
Sim, era uma fênix, completamente perfeita. E mesmo que eu fosse fascinada por esse animal mítico desde que me entendo por gente, não deixa de ser assustador.
— Lucy? — Sting se pronunciou, se virando para mim, pus rapidamente a jaqueta rezando para que ele não tenha visto nada. Encarei seus olhos e me levantei bruscamente. — Aonde você vai?
— Vou falar com Mavis. Nos vemos mais tarde. — Dito isso eu quase que saí correndo, preciso saber o que isso é realmente.
[...]
— Que violência logo de manhã! — Seus olhos verdes estavam vermelhos de sono e ela os esfregava forte para acordar. Deve ser porque agora sua porta está no chão de tanto que eu bati.
— Você sabia! — Minha voz estava contida e extremamente raivosa. Tive a impressão vê-la tremer.
— Sabia de quê, Lucy? — Tirei minha jaqueta bruscamente e apontei para a fênix em chamas que pareciam crepitar.
Sua expressão poderia ser comparada a uma coisa cômica, se não estivesse tão zangada cairia na gargalhada.
— Meu Deus. Quando isso aconteceu? — Sentei-me com violência no sofá.
— Não sei, de manhã não estava aí. E agora fui tirar minha jaqueta e estava isso aí O que eu faço? O que é isso, Mavis? Estou assustada.
Minha expressão apresentava puro pânico, enquanto Mavis estava um tanto impassível.
Ela tem que me dizer que não é o que estou pensando, por favor.
Continua
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