Upside Down
9 IX — Confiança
Notas iniciais

“Um amigo falso e maldoso é mais temível que um animal selvagem; o animal pode ferir seu corpo, mas um falso amigo irá ferir sua alma” — Buda
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IX — Confiança
Passei a toalha em Maya enquanto ela se balançava me molhando.
— Para Maya! — Gritei rindo. Ela latiu e continuou se sacudindo. Ri novamente e parei de secá-la. Levantei-me e retirei o short em conjunto com a blusa, ambos molhados. Peguei uma nova toalha e sequei meu corpo devagar.
Meu olhar desceu para a marca, ela estava da mesma forma. Sem querer eu sorri e pus minha mão ali, ela pinicou e tive a mesma sensação de quando Natsu me tocou.
Continuei com a mão ali e Maya latiu. Encontrei-me sorrindo feito uma idiota e com uma expressão estranha no rosto apenas de lingerie no quarto e completamente molhada, parei com isso na mesma hora.
Retirei a roupa de baixo vestindo outra e vesti um casaco de moletom e um short mole.
Verifiquei e vi que Maya já estava seca.
— Vamos, está com fome? — Ela se pôs de pé em frente a porta, sorri e abri para ela passar. Lisanna estava deitada no mesmo sofá e eu apenas segui até a cozinha para colocar comida para Maya.
A porta do banheiro se abriu e acredito que Erza estava tomando banho.
— Estava tomando banho? — Escutei a voz de Lisanna. Revirei os olhos, que pergunta estúpida. Coloquei o pote de Maya no chão e pude escutar Erza responder:
— Não, dei um mergulho no vaso sanitário. — Quase caí no chão de tanto rir.
— Hoje é dia de complô contra a Lisanna? — Posso imaginar ela revirando os olhos.
— Você realmente não é o centro do mundo!
— Eu não disse isso, sua chupadora de vidas!
— Eu não sugo vidas, eu tomo sangue, cabelo de cocaína. — Engasguei com o ar.
— Vai falar do meu cabelo? Mau humor em pessoa, aprenda á ser mais legal com as pessoas, Erza.
— Sei ser legal com pessoas que merecem. — Me dirigi até a sala encontrando Erza de toalha sentada em um dos sofás e Lisanna deitada.
— Não, você consegue ser estúpida com todo mundo. — Sentei-me no mesmo sofá de Erza.
— Não, eu não sou estúpida com a Lucy. — Erza respondeu e eu fiquei mais interessada na Tevê que passava uma notícia de ataques de um maníaco á um parque.
— Ás vezes é sim, não é Lucy? — Lisanna me encarou assim como Erza.
— Não me meta nisso ai não, problema é de vocês. — Dei nos ombros enquanto elas continuaram brigando.
— Sério, ás vezes me arrependo de ter começado á falar com você. — Erza disse.
— Só sei que quem começou á falar aqui fui eu! — Elas estavam alterando as vozes.
— Só queria nunca ter te conhecido, você sempre briga, estou cansada. — Erza suspirou e saiu andando, Lisanna estava pasma e de olhos arregalados.
— Eu sou uma péssima amiga, não sou? — Sua voz estava chorosa.
— Sem drama, Lis. Você é uma amiga maravilhosa, vocês brigam por nada. Tem que aprender uma a aceitar o jeito da outra, sem críticas. — Dei nos ombros novamente passando a mão pela cabeça de Maya que estava em meu colo.
Ela fica calada, uma coisa rara. Aproveito esse tempo para tentar colocar meus pensamentos em ordem. Não que minha cabeça esteja um caos... Na verdade ela está apenas bagunçada, nada como uma faxina para resolver.
Eu sou muito complicada, é difícil conviver comigo, nem eu me agüento.
Erza se sentou ao meu lado vestida com um pijama de morangos. Ele era muito fofo, havia um morango á cada milímetro, apesar de não condizer em nada com a pessoa que o vestia.
— Vou cozinhar. — Lisanna se levantou. — Quem vai me ajudar?
— Eu passo, não sei nem fritar um ovo! — Me encolhi no sofá. — Da última vez que tentei fazer macarrão acabei comendo carvão.
— Eu não estou á fim. — Erza suspirou.
— Isso, coloquem Lisanna para trabalhar! Ela é escrava! — Joguei uma almofada na cara dela sendo imitada por Erza. — Vão partir para agressão? — Ela berrou.
— Vamos! — Eu e Erza gritamos ao mesmo tempo encarando os olhos dela.
— Está bem, que violência meu Deus. — Ela murmurou indo para a cozinha, sorri bufando, ela não tem jeito.
Fiquei olhando para a tevê e então apoiei minha cabeça no braço do sofá olhando para a mesma ao contrário, é engraçado ver os apresentadores do noticiário de ponta a cabeça.
— Você está parecendo uma retardada gargalhando porque está vendo a televisão de cabeça para baixo. — Bufei e revirei meus olhos assim que ela falou.
— Não enche e se divirta, Erza! É legal ver o mundo de ponta cabeça, ás vezes é necessário para que as coisas façam sentido.
Ela ficou pensativa e eu continuei olhando a televisão. Escutei uma explosão rápida e uma forte aflição.
— O... Que? — Erza foi como na velocidade da luz até a porta, não estava mais escuro e sim claro, como se tivessem acendido a luz. — DE NOVO?
— O que está acontecendo? — Lisanna veio correndo da cozinha e foi também lá para fora. Arqueei minhas sobrancelhas, se ela disse de novo...
Corri até o lado de Erza e eles estavam se encarando com uma expressão homicida no rosto.
— Seu bastardo, eu vou fazer você parar de respirar. — Natsu começou á chutar e socar Sting, seus punhos e pés estavam cobertos por fogo e Sting se defendia com a luz branca que me cegava. Olhei confusa para aquela imensa balburdia e Maya começou á latir com tanta intensidade que eu me assustei.
— Parem! — Vi que Erza se moveu e colocou-se entre os dois, mas Sting parecia possesso e deu um soco nela, vi os olhos de Erza se tornarem vermelho sangue num segundo, estavam da cor de seu cabelo.
Sting ignorou Erza e socou a cara de Natsu, foi tão rápido, senti minhas pernas fraquejarem e tive de me apoiar no batente da porta sentindo lágrimas quentes em meu rosto. Maya me olhou com intensidade como se soubesse da marca.
— Lucy? Está passando mal? — Lisanna chegou ao meu lado, mas apenas fiz que não com a cabeça ofegando quando Sting apertou o pescoço de Natsu, me senti parar de respirar.
Maya correu tão rápido, eu realmente não vi. Quando me dei conta ela estava coberta por uma luz tão dourada que era parecida com a fênix que atacou Mavis, ela pulou em cima do loiro o tirando de cima do Natsu, só então pude respirar.
Quando foquei nos olhos de Sting não estavam mais azuis e sim brancos, como papel.
Ele deu um soco tão forte que fez Maya cambalear, mas ela não parou. Eu encarei aquela cena com os olhos arregalados.
— Lucy! Porque a Maya está fazendo isso? — Lisanna me perguntou, mas eu não conseguia responder.
Eu apenas via Maya pulando e empurrando Sting até uma árvore, parecia estar tirando a luz, ela estava diminuindo completamente a intensidade. Mas em um lapso de momento, ele deu um soco nela. Prendi a respiração quando Maya veio voando e caiu á poucos metros das escadas da cabana e continuou deitada.
Mesmo com as pernas cambaleantes eu corri e me ajoelhei batendo minhas pernas com violência no chão.
— Maya. — Seus olhos chocolates estavam sem brilho algum, e a luz ainda á rodeava, o mais incrível era que essa mesma luz parecia estar entrando em minha pele. — Vamos garota, você é forte.
Ela lambeu minha mão e eu senti meus músculos fraquejarem, e então vi seu peito diminuir até parar completamente de se mexer.
— Não. Não. — Só então percebi que Lisanna mantinha a mão com uma luz azul em cima da cabeça de Maya. — Não estou conseguindo.
— O que está acontecendo aqui? — Vi Mira e Laxus chegarem. Laxus fez com que um trovão enorme caísse na cabeça de Sting o deixando desmaiado, notei que havia um lobo de tamanho extraordinário em cima de Natsu o impedindo de levantar, os olhos vermelhos eram muito semelhantes ao cara que divide a cabana com eles.
— Oh, meu Deus. — Mira estava ao meu lado, mesmo sua mão em minhas costas não fizeram as lágrimas secarem e muito menos diminuir o aperto em meu coração.
— Não, não, não. — Apertei a cabeça dela levemente, mas nada, nenhuma resposta. — Vamos, Maya. — Nada. Cheguei meu ouvido perto de seu peito agora parado e não conseguia escutar seu coração.
Minhas lágrimas se tornaram ainda mais quentes. E as palmas de minhas mãos ficaram mornas.
— Lucy, você está brilhando. — Não prestei atenção em ninguém, eu estava com os olhos fechados imaginando Maya correndo alegre e todas as vezes que me fazia cair da cama de manhã.
“— Papai, uma cachorrinha!
— Princesa, você tem que prometer que vai cuidar dela, acima de tudo. Ela será sua irmã mais nova, okay?”
— Não, não. Ela não. — Eu murmurava de olhos fechados.
— Saiam de perto dela, agora! — Acho que é a voz de Mavis e na mesma hora que escutei todos se afastando senti meu corpo pinicar por inteiro e eu ter a mesma sensação de quando minhas asas se põem para fora, quando abri meus olhos eu estava dentro de um circulo com vários símbolos que eu não conhecia e de todos saía uma luz dourada que me fez fechar os olhos novamente, e permaneci fazendo a mesma coisa de antes, pensando em Maya, eu não faço ideia do que esteja fazendo. Mas espero que dê certo.
Pensei em Maya correndo e em toda a paz que ela me proporcionou. E quando abri novamente os olhos estava envolvendo-nos com as minhas asas, eu realmente as tinha posto para fora rasgando a parte de trás do moletom que estava vestindo.
— Vamos meu amor, abra os olhos para mim. — Eu disse pondo a mão em sua cabeça e olhos, de minha mão saiu o mesmo brilho que estava sendo emitido por todo o meu corpo. — Vamos, você ainda tem muita coisa para fazer.
E então quando retirei as mãos de seus olhos, os mesmos estavam abertos e me olhando com o mesmo brilho de antes. Suspirei aliviada e assustada, chorando e rindo ao mesmo tempo quando minhas asas se ergueram do casulo e Maya se levantou e ficou com suas quatro patas erguidas, olhando para mim.
Senti meus olhos marejados e quando olhei nos olhos de Maya vi os meus olhos refletidos num brilho intenso, parecido com a cor do sol, não consegui reconhecê-los. Era uma cor maravilhosa.
Minha cabeça começou á arder e então o círculo no qual eu me encontrava emitiu um brilho ainda mais forte, Maya se afastou rapidamente. Pressionei minhas mãos em minhas têmporas sentindo que meu cérebro fosse explodir e minhas asas ficaram muito erguidas quando eu pressionei minha testa contra minhas coxas gritando de dor.
— Não, não! Ela perdeu o controle, não! — Mavis gritava ao mesmo tempo que meus gritos agonizantes ecoavam por toda a floresta, dos meus olhos caiam uma coisa quente e quando olhei para o chão, ali estava um poça enorme de sangue, eu estava chorando sangue.
Eu senti que Mavis tentava se aproximar, mas a luz emitia pequenas explosões fazendo com que todos se afastassem, minha cabeça borbulhava e mais parecia que meu corpo iria explodir como uma bomba relógio.
Era quase como se eu pudesse sentir a luz deixar meu corpo, levando o poder junto. Como se aos poucos eu sentisse como se me fundisse com a luz. Era uma sensação nauseante e muito dolorosa. Gemi enquanto pressionava as mãos contra as têmporas.
— Lucy! Olhe para mim. — Abri meus olhos com a visão avermelhada e quando olhei para os olhos verdes de Mavis ela me encarou chocada e eu podia ver que estava chorando. — Se concentre na sala em branco, se concentre, pense que está na sala branca.
— Não consigo, minha cabeça e meu copo estão queimando. — Minha voz estava entrecortada e calma. Muito calma. Como se não fosse eu.
— Me ajude, o que eu faço. — Mavis estava ajoelhada no limite que as luzes deixavam ela se aproximar de mim, incrivelmente, eu sabia que as luzes tentavam me proteger, não que Mavis fosse uma ameaça. — Lucy, pense no homem dos seus sonhos. — A olhei confusa. — Apenas pense, peça-o ajuda!
— Como...?
— Peça! — Fechei os olhos de maneira hesitante e temerosa, também, eu mais parecia estar morrendo e ela pedia para eu pensar numa pessoa ou luz que nem conheço?
Mas mesmo assim me concentrei naquela imagem que aparecia em meus sonhos, e logo a mesma paz me tomou. “Acalme-se, concentre-se. Imagine essa luz voltando para seu corpo, como se você a sugasse.”
E então a sensação parou e voz foi embora. Entrei num desespero tremendo, e se eu morrer aqui? Quando abri meus olhos vi a luz na minha frente e não era um sonho, eu via a expressão pasma de todos. Mas ele não falava nada, era como se estivesse na minha mente. “Concentre-se.”
Fiz o que me foi mandado, foi quando senti uma coisa quente em volta de mim. E então notei que aquela luz estava me abraçando, como se fosse uma pessoa.
Todas as luzes, a que me envolvia, a do chão e a ‘coisa’ que estava me abraçando sumiram, minhas asas voltaram para sob a pele e eu vi tudo negro, caindo num baque surdo no chão.
[...]
— O que é isso no ombro dela, Mavis?
— Não é da conta de vocês, se a Lucy quiser falar, deixe-a, mas se não quiser deixe-a também!
— Ela ficará bem?
— Ela está respirando?
— Aquilo eram asas?
Minha cabeça deu uma pontada tremenda quando abri os olhos, ainda estava de noite e eu estava no chão do lado de fora da cabana, e haviam pares de olhos demais me encarando.
— Os olhos dela voltaram ao normal. — Alguém disse.
Maya pulou em cima de mim lambendo minha cara. Virei a cabeça de um lado para o outro me livrando das lambidas de Maya.
— Ela está abrindo os olhos. — Posso reconhecer a voz de Lisanna. Abri-os na mesma hora os arregalando. Sentei-me atordoada e olhei para todos os lados, meu cabelo não estava preso?
Meu cabelo estava solto e caia completamente liso até depois do meio das costas, tocando no chão. E minha marca estava do lado de fora, completamente exposta, já que só restaram algumas partes do meu moletom graças á minhas asas que rasgaram o mesmo e conforme olhavam para ela, a mesma mudava de cor instantaneamente e as chamas pareciam trepidar.
— Minha cabeça. — Pressionei minhas têmporas e Lisanna me abraçou apertado quase me levando ao chão novamente. — Meu corpo está doendo também.
— Desculpa. — Ela murmurou e vi seus olhos vermelhos e inchados, seu nariz vermelho e suas bochechas coradas. — Você tinha parado de respirar por trinta segundos! — Notei que Mavis assentiu e quando vi Erza estava ajoelhada, nem havia visto que ela estava me encarando com olhos pequenos e vermelhos, ela estava chorando?
— O que é isso no seu ombro? — A fênix queimou e as chamas ficaram realmente num vermelho vivo, e os olhos dela ficaram amarelos. — Está mudando de cor.
— Mavis, me ajuda, por favor. — Eu não queria que isso ficasse exposto para todos, sinto meu rosto coberto por lágrimas e me levantei com rapidez do chão. Isso tinha que acontecer justo hoje? Sentia como se eu tivesse perdendo o controle sobre minha vida, parece que tudo nunca depende de mim.
— Ela não quer falar, por favor, respeitem isso. — Mavis se pronunciou dando um claro aviso á todos.
— Mas, isso não é uma tatuagem normal. — Andei de um lado para o outro e comecei a bater o pé no chão... Tinha que ser Sting, e ele não deveria estar desmaiado? Senti meu sangue correr mais rápido e eu podia jurar que minhas bochechas estavam ficando vermelhas devido a raiva. — Tipo, está pegando fogo!
— Cala a boca, seu estúpido! — Arregalei meus olhos com minhas próprias palavras, mas não consegui controlar as próximas, estava possessa. — Não fique perguntando asneiras quando isso não é da sua conta, você quase matou a Maya. Quase não, você matou ela! Seu idiota, babaca! — Apontei o dedo bem em seu rosto, eu estava gritando só um pouco. — Sabe o quanto ela é importante para mim? Não sabe não é? Ouse encostar num fio de pêlo dela e eu juro que caço você até nas profundezas do inferno e depois te torturo até não sobrar nem pó de Sting, está me escutando, imbecil? — Encarei-o com olhos ferventes.
— Quem você acha que é para falar assim comigo? — Assim que ele disse se levantou. Eu escutei meus lábios moldarem uma risada sarcástica.
— Quem eu acho que eu sou... Está com raiva, é? Eu deveria te esganar e te mandar para a puta que pariu, mas eu não fiz isso, não é? Pelo menos ainda não. — Seus olhos estavam num azul quase cristalino.
— Sua... Sua... — Ele estava procurando palavras para me xingar.
— “Sua...” O que, Sting? — Minhas mãos estavam fechadas e eu podia sentir minhas unhas cravando nas palmas.
— Esse... Cachorro nunca gostou de mim mesmo, deveria ter é morrido. — Meus olhos viraram pratos de tão espalmados.
— Seu desgraçado de uma figa, vou te mandar para o lugar que nunca deveria ter saído. — Senti tudo ao meu redor ficar mais intenso e meu corpo estava brilhando numa luz dourada, e o dele na mesma luz branca. Mãos me seguraram no exato momento que eu ia pula em cima dele. — Me solta, quero apertar o pescoço dele até ter certeza que ele foi para as profundezas do inferno.
— Pare Lucy. — E num passe de mágica tudo voltou ao normal quando escutei a voz do meu pai.
— Papai, você ouviu o que ele falou de Maya! — Meu pai me abraçou como se tudo fosse normal. — Pai... Ele... Estou sem ar.
— Pare com isso, Lucy. Você não é assim, lembra? — Ele disse assim que me soltou. — Controle-se.
— Mas... Ele... Falou mal de Maya. — Minha voz não passava de um sussurro.
— Fique calma. — Parei para respirar e abri os olhos calmamente. — Assim.
— Eu quero dormir. — Soprei o ar com força dos meus pulmões quando olhei para meu ao redor quase lotado de gente, Natsu estava lá, e bom... A expressão dele estava... Impagável.
Ele me encarava, olhava para meu ombro e quando olhei em sua direção, nossos olhos se conectaram. Tremi quando as sobrancelhas dele formavam arcos. Abracei á mim mesma numa falha tentativa de me proteger de seu julgamento.
— Lucy. — A voz de Laxus fez até meus ossos tremerem, completamente sinistro. — Quem era aquele homem?
— Homem? Que homem? — Arqueei minhas sobrancelhas.
— O que te abraçou.
— Não era um homem, era uma luz. — Suspirei. — Nem eu sei, Laxus. Só sei que sonho todas as noites com esse cara ou luz, sei lá. Para mim era só uma luz.
— Não, ele apareceu e desapareceu no ar. Era um homem. — Olhei para meu pai e ele tinha uma expressão estranha no rosto, mas depois relaxou, como se ele soubesse de uma coisa e eu não. Assim como Mavis. Estranho, muito estranho.
— Eu não sei, está bem? Não faço a mínima ideia de quem seja! — Respirei fundo.
— O que estão esperando para ir embora? — Vi Erza dizer, ela queria falar comigo.
— É saiam daqui, vão dormir! — Lisanna gritou, nunca havia ouvido Lisanna gritar.
— Mavis. — Natsu disse de repente. — É, não é? — A loira que é minha mentora me encarou de maneira calma, como se aquilo dependesse de mim, quando na realidade tudo já estava fora dos eixos e ele me encarou por um tempo, tudo que eu estava escondendo foi para o espaço, então, olhando em sua direção, eu apenas assenti confirmando a dúvida presente no olhar dele.
— Sim, Natsu. — Suspirei cansada enquanto olhava para o chão. Me sentia um pouco envergonhada, até. Analisando agora, eu deveria tê-lo contado antes. Era algo inevitável e poderíamos ter lidado com isso juntos.
— O que é isso no seu ombro, querida? — Agora foi meu pai quem perguntou.
— Por favor, estou cansada. Pode conversar com Mavis ou Mira? Eu só queria dormir cedo! — Segurei minha franja e coloquei para trás. — Quero tirar esses trapos.
— Acho que você pode ir dormir, Lucy. Aliais, você deve estar exausta, não é mesmo? Vá dormir. — Ela apenas me enxotou com a mão.
— Eu vou porque estou cansada, não me enxote como se eu fosse uma mosca. — Resmunguei subindo com certa velocidade até a cabana, antes de Erza e Lisanna, eu só quero deitar minha cabeça no travesseiro, dormir.
[...]
— Lucy, está dormindo? — Escutei uma voz depois que minha porta foi aberta, eu estava no escuro e de pijama.
— Não, estou treinando para morrer. — Murmurei com a minha voz sonolenta enquanto Maya se empoleirava em minha cama se deitando sobre minhas pernas.
— Como você é engraçada, sinceramente. — Quando as luzes se acenderam pisquei um tanto aturdida focalizando minha visão para dois corpos parados em frente ao batente da porta, notei que Lisanna quem havia falado.
— Sou, não sou? — Minha voz estava cansada e arrastada.
Erza se moveu com extrema rapidez e se sentou no baú de frente para minha cama enquanto Lisanna se sentou ao meu lado na cama com a mão sobre a cabeça de Maya.
— Eu quero saber o que é isso ai! — Ambas apontaram para a marca visível pelo pijama fino e de alças.
— Uma... Marca. — As duas me olharam ironicamente. — Oras, não é uma marca?
— Sério gênio? — Erza me respondeu.
— Queremos saber o que é e porque quando você entrou o Natsu ficou agitado e quase arrastou Mavis exigindo umas tais “explicações” e porque você não falou para nós? — Os olhos azuis de Lisanna me encararam.
— Por que... Eu não queria.
— Achei que fossemos amigas. — Lisanna disse.
— Não é para tanto, somos amigas á menos de um mês, como poderia confiar em vocês? — Pela expressão de Erza e Lisanna concluí que falei merda. E quando ambas saíram do quarto batendo a porta, concluí que sim, eu falei muita merda.
Suspirando forcei meus pés para fora da cama e controlando meus pensamentos, não era verdade? Mas porque toda pessoa exige a verdade e quando recebe fica magoado? Meu Deus, o que se passa na cabeça delas?
Eu não iria sair falando de minha vida para qualquer um, posso confiar e depositar minhas esperanças em todos, mas não sou burra de sair revelando tudo sem ao menos ter um contato mais íntimo com essa pessoa, porque elas não entendem?
Abri a porta devagar e as encontrei sentadas no sofá, em silêncio.
Suspirei e elas me encararam, a expressão de Erza me causou medo, já a expressão de Lis me deixou verdadeiramente culpada por ter dito aqui, eu realmente não tive a intenção de magoá-las.
— Você não confia na gente, é isso? — A voz de Lisanna fez meu coração apertar.
— Deixa de bobeira, Lisanna. Ela deixou bem claro que não é nossa amiga. — A voz de Erza saiu áspera.
— Gente...
— “Gente...” o que? Lucy? — Erza se levantou. — Quer saber? Achei que me identificava com você, te achei parecida comigo, mas não é! Você não se importa com o que os outros vão sentir, só pensa em si mesma, egoísta. — Seus olhos me atingiram como duas lâminas afiadas.
— Vocês queriam o quê? As conheço á menos de um mês! Á principio são as amigas que mais sabem sobre mim...
— Mas você não confia na gente! — A voz de Lisanna se fez surgir.
As encarei por um certo tempo, tentei dispor das minhas opções, no momento não eram as melhores. Eu falaria tudo? Não entendo o porquê de eu estar ponderando isso, sempre achei que iria esconder essas coisas comigo, nunca me imaginei contando para mais ninguém á não ser a mim mesma, nunca fui a nenhum psicólogo depois de tudo, acredito que, acima de tudo, tenho que confiar nas pessoas que conto algo, mas ai é que está.
Confio mesmo nelas? Ou é essa necessidade de sempre confiar em alguém?
— Querem saber de tudo? Ah, então, okay. — Fechei os olhos enquanto me encostava na parede ao lado do meu quarto. — Sempre confiei nos outro acima de mim mesma, sempre fiz por eles mais do que por mim. Sabe de uma coisa? Isso só me fez cair de cara no chão e me sentir um verdadeiro lixo.
Sorvi a confusão de sentimentos angustiantes que estavam impedindo minha fala e, enquanto as lembranças vinham, eu sentia as palavras se embolando com o choro preso em minha garganta.
—... Minha mãe sempre me ignorava! Sempre! Nunca tive uma conversa com ela, e sabe de uma coisa? Isso só contribuiu para eu me tornar violenta, não falava com ninguém, e eu tinha só 15 anos! — Um soluço brotou em minha garganta enquanto encarava meus próprios pés, era bem difícil falar disso. — E olhe só, eu confiava numa prima uma única prima e ela me traiu, me abandonou, ela me largou com a minha mãe e eu descobri, vejam só, ela ficou com meu namorado! — Á essa hora meu interior se revirava em repulsa e meu rosto estava coberto em lágrimas. — Ele foi meu primeiro namorado! Eu era violenta, fui á psicólogos e me tornei calma como estou hoje, e fiquei bem. Arrumei amigos novos, tudo certo. Fiquei inteiramente bem. Confiei em cada um, e adivinhe? Caí de cabeça num muro denso, todos não passavam de falsos, inclusive meu próprio namorado!
Elas estavam com olhos arregalados, podia ver suas expressão pasmas. Até eu ficava pasma com essa história. Parece que eu sempre tenho tendência para encontrar as pessoas erradas.
— E... Veja só, eu não queria que minha primeira vez fosse com qualquer um, mas meu namorado me pressionava, aquele infeliz! Eu sei, fui estúpida só por iniciar o namoro com ele, admito isso! — Sequei um pouco das lágrimas bruscamente. — Mas... Eu não iria transar com ele, não mesmo, decidi continuar com aquele maldito infeliz, até aquela maldita festa! Eu estava arrasada sim. Por que? Ele tinha me traído, na minha frente com minha “melhor amiga”, ele tinha me humilhado e me machucado ”psicologicamente”. — Fiz aspas com os dedos. — Até que houve um dia que minha mãe estava viajando á negócios e eu fiquei sozinha em casa. Quando ele apareceu lá, não levei á sério. Já tinha terminado com ele. Mas... Sabe de uma coisa muito interessante nesse dia da minha casa? Ele estava bêbado! Discuti e o mandei embora, não sei de qual forma e nem ao menos o porquê naquele dia ele me puxou e me espancou, me bateu como não se bate em nenhuma pessoa, eu só sabia chorar.
Fechei os olhos com força e esfreguei minha bochecha secando as muitas lágrimas presentes ali, meus braços se encolheram num casto abraço á mim mesma. Para me proteger das memórias. Aquilo já passou.
— Sim, ele estava fora de si, e eu não consegui me defender, tenho marcas, feridas até hoje! Ele me espancou! Me bateu como se fosse me matar, acreditei que morreria naquele dia, e ele apenas fugiu, nunca mais vi sua cara, mas eu perdoei ele! Eu sou uma idiota! O perdoei e nem ao menos considero mais a surra que levei, deletei de minha mente por completo... Ás vezes, é melhor esquecer. Onde minha mãe estava? Viajando, ela chegou pouco depois disso e não quis que eu o denunciasse á polícia e, como se não bastasse, me deixou sozinha novamente para viajar á trabalho! Sempre confio demais numa pessoa e caio de cara no chão, por isso antes de confiar inteiramente faço testes para avaliar se vale á pena. E sabe de uma coisa? Ao decorrer desses testes ninguém passava, ninguém. Eu fiquei mais de dois meses num quarto para minha mãe me mandar para cá! E eu me senti bem aqui, á princípio foi ruim, mas eu me senti bem! Ainda mais com vocês, mas... Essa maldita marca apareceu, e adivinhe, eu sou ligada ao Natsu! Ele tentou me matar, e eu descubro que se ele morrer, eu morro também, se ele se ferir eu sou ferida também! Minha vida sempre foi um inferno, mas sempre me importei em demasiado com as pessoas — Bufei e pressionei meus olhos contra as pálpebras. — Não sou egoísta! Nunca mais me chame assim! Sempre me importei com os outros, mas que a mim mesma! — Fechei os olhos tentando ficar calma. E quando o abri novamente as encarei. — Estou esperando vocês me decepcionarem, no fim, isso sempre acontece.
Voltei para dentro do quarto, deixando elas com olhos arregalados e pasmas. Não queriam saber tudo? Então... Eu disse.
Escutei uma pequena discussão enquanto eu afundava minha cabeça no travesseiro chorando e com Maya pondo a pata em meu rosto.
— Viu o que você fez, Erza?
— Como eu ia saber?
— Porque chamou ela de egoísta?
— Por que... Me deu vontade! Não consigo segurar o que eu falo. — A voz de Erza estava chorosa. — Ela está chorando, sinto o cheiro de lágrimas.
Escutei alguns barulhos.
— Você ouviu tudo? — Tem alguém á mais aqui? — Não escute atrás da porta estúpido!
— Erza, ele tem ouvidos aguçados, não precisou encostar o ouvido na porta! Oi... Onde você vai? Deixe-a sozinha!
Bom, a minha porta... Estava trancada.
— Que falta de educação! Não saia arrombando a por... — Focalizei minha visão em Natsu parado no batente. —... ta dos outros. O que está fazendo aqui? — Sequei o resto das lágrimas que não ficaram no travesseiro.
— Eu estava vindo falar com você. — Ele encostou a porta e se sentou no baú em frente á minha cama.
— O quanto você ouviu?
— O suficiente.
— Quanto? — Cruzei minhas pernas em frente ao corpo enquanto a maldita da marca brilhava. Ótimo, ela reage á ele.
— Tudo. — Dando nos ombros e encarou a marca. — Bom, eu queria falar com você sobre essa marca.
— Estou escutando. — Maya se deitou entre nós e dormiu calmamente.
— Não sei se ficou sabendo, mas... Meu pai havia me obrigado á encontrar a outra marcada. — Assenti em concordância. —... Eu tinha ideia que você já sabia. Então, eu conversei com ele ontem, estava desistindo. Eu só não entendo porque não me falou antes.
Revirei os olhos e ajeitei o coque que estava em meu cabelo.
— Por favor, me diz que você está brincando. — Suspirei e encarei seus olhos. — Você tentou me matar no meu primeiro dia aqui, fora que não foi muito compreensivo. Além de mais, eu ia falar o que? “Ah, oi Natsu. Sou uma garota traumatizada e sou ligada á você, quer ser meu amigo e tomar um chá?” Não ia rolar. — Cruzei os braços bufando.
— Pelo menos me avisar, Lucy. Eu procuro a pessoa, quer dizer, você. — Não sei o porque mas senti meu ventre retesar quando ele disse você. — E eu queria apenas que me falasse a verdade, sabe que se ficarmos muito longe um do outro, podemos morrer, certo?
— Sei, Mavis me falou.
— Então... — Ele fez sinal com as mãos. Não sei, mas essa forma com a qual ele fala, me deixa feliz, parece outra pessoa.
— Não quero ficar com você. Não só por isso. — Suas sobrancelhas se arquearam. — Bom, você ouviu minha história, ela é legal não é? — Não sei como, mas eu consegui sorrir ironicamente. — Então, eu não estou preparada para ficar com ninguém, depois que eu fui humilhada e derrubada psicologicamente, sem contar no meu físico, não recebi tratamento, minha cabeça é um caos, Natsu.
— Você falou com seu pai? — Arqueei as sobrancelhas confusa. — Sobre tudo, Lucy.
— Ah, não. Quer dizer, eu ia falar, aconteceu alguns dias depois que ele escafedeu-se, mas não ligou e eu não tive noticias, então, não. Eu não falei e nem quero falar, é muita humilhação. — Suspirei cansada.
— Lucy, você não entende. Você se sente mal perto de mim, não é?
— Mais ou menos, eu percebo a confusão de sentimentos e os meus próprios sentimentos ficam confusos.
— Eu também sinto isso. Eu sei de tudo que você pensa, consigo escutar seus pensamentos em minha cabeça, foi estranho no início. Era bem confuso, eram palavras desconectadas, como se fossem meus próprios. Desconfiei que você era minha marcada no dia do rio. Consegui sentir absolutamente tudo que você sentia. Só esperei o momento certo para me manifestar.
— Como assim? — Meus olhos ficaram pequenos.
— Você ainda não está com a percepção sobrenatural completamente desenvolvida, por isso eu escuto claramente o que está pensando só de direcionar meus pensamentos em você, mesmo que estejamos longe. Como agora eu sei que estamos ligados, seus pensamentos são mais concretos, antes eram bem abstratos e, nesse momento, você está pensando no porque Mavis não tinha te contado isso.
— Isso, isso... — Arregalei os olhos confusa. — Mas, mesmo assim, não estou disposta á ficar com ninguém.
Ele suspirou e eu bufei sentindo algumas energias perto demais.
— Porque vocês estão escutando atrás da porta? — Minha voz estava calma.
— Não... Não... Estamos. — Lisanna disse.
— Sua idiota. — Erza resmungou. — Estamos saindo.
— Obrigada. — Sorri internamente. — Mavis me falou que se ficarmos amigos, não ficaremos... Hum, afetados, eu acho. — Sua careta me fez rir. — Por favor, vai. Não quero ficar com ninguém, Natsu. Não estou preparada. Pelo menos não agora.
— Eu entendo. — Suas mãos estavam apoiadas na cama e subiram até a sua cabeça. — Se ficarmos amigos, acho que dá no mesmo. Darei um jeito de falar com meu pai.
— Tem certeza? Quer dizer, não quero que você se machuque. — Suspirei depois que raciocinei o que havia dito. — Não, é... Ah, isso. Eu não que você se machuque.
Ele riu de mim. E isso só fez com que eu contraísse um bico.
— Eu também não quero que você se machuque Lucy. — Poucas vezes tive a oportunidade de ver o sorriso em Natsu, já o achava lindo e agora está bem mais com esse sorriso, e posso dizer que isso me tira o fôlego. — Obrigado.
— Pelo o quê? — Um olho meu encolheu.
— Por achar que meu sorriso te tira o fôlego, e que eu sou lindo. — Engasguei com a minha própria saliva e esfreguei a testa.
— Sério, pare com isso.
— Não tem como, eu posso escutar, Lucy. — Suspirei.
— Está bem. Só finja que não ouviu, não sei se vou conseguir controlar meus pensamentos. — Dei nos ombros. — Certo, não acho que tenha problemas ficarmos amigos.
— Certo. — Ele se apoiou em minha cama na maior calma. — Agora, me fale de você, tudo, não me esconda nada. Prometo que falarei também.
— Eu sou obrigada? — Ele deu de ombros.
— Sim, não. Basta saber se você quer. Você quer? — Pensei por um segundo, até que seria legal ter um amigo do sexo oposto com que possa contar, não é? Mas ele não vai me decepcionar como todos? — Eu prometo que não.
— O que? — Só então lembrei-me que Natsu conseguia ouvir meus pensamentos.
— Eu prometo que não vou te decepcionar como todos, Lucy. Eu me importo com você e quero apenas que confie em mim, porque eu confio em você.
Devo contar ou não? Eu confio nele? Claro que sim.
Suspirei, pronto, agora eu estou me jogando de novo, só que dessa vez, se eu cair de cara no chão, não sei se vou conseguir recuperar minha confiança perdida, não de novo, pelo menos.
Por que tudo não é simples como respirar?
Continua
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