Upside Down

10 X — Calcanhar de Aquiles


Notas iniciais
Olá! Tudo bem com vocês? Não me matem! Eu sei que demorei, e demorei muito mais que prometi, era para postar na sexta passada da passada. Não vou mentir, não estava atarefada, e sim estava com extrema preguiça. Tanto que nem conseguia mexer meus dedos. Outra coisa, a Annie demorou séculos para me entregar o capítulo betado, ou seja, não deu mesmo. ME DESCULPEM. E por favor, não me xinguem :) RECOMENDAÇÃO NOVA, RECOMENDAÇÃO NOVA, RECOMENDAÇÃO NOVA! *----* Queria agradecer imenso á nova recomendação, gente, fiquei tão animada. Muito mesmo. Gre Hinata, eu realmente amei muito sua recomendação, cada palavra foi muito importante para mim. Agradeço com todo meu coração, agradeço mesmo! Cada palavrinha daquela fez meu coração palpitar. Quando comecei á escrever não fazia a mínima ideia de que faria esse meio "sucesso" que faço com UD. Muito obrigada mesmo! Não só á Gre-chan, mas também á cada um que comenta e todos que acompanham e todos aqueles que favoritaram, cada um de vocês tem um lugarzinho no meu coração e nunca sairão de lá, Bom, agora vamos ao capítulo não é? Capítulo bônus narrado pelo Natsu. Boa leitura, á todos! K. Edição: Ok

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivado-se do sofrimentos, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.” — Carlos Drummond de Andrade

X — Calcanhar de Aquiles

Agora entendo tudo o que meu pai dizia sobre as pessoas marcadas. Sempre achei tudo não passava de mentiras e que ele inventava tudo aquilo pelo fato de querer me controlar sempre, como uma espécie de tirano. Como ele foi minha vida inteira.

Só que ainda assim tenho essa sede incontrolável de que ele me ache bom o suficiente para ser seu filho.

Até porque eu necessito de sua aprovação.

Quando vi aquela marca exposta nos ombros de Lucy, tive certeza de que aqueles pensamentos conturbados que ouvi em minha cabeça na casa de seu pai vinham dela. Assim como o desejo também.

Ela gosta de mim. Só não admite para si mesmo. Pelo menos não ainda.

Mas eu teria feito tudo diferente se eu soubesse disso. Ando de um lado para o outro na cabana de Mavis.

Por mais que eu desconfiasse, saber de tudo isso me deixa verdadeiramente puto.

Porra, você deveria ter me falado! — Bagunço meu cabelo com as mãos.

— Acalme-se, Natsu. Isso era escolha dela, que optou por pensar um pouco. A Lucy é muito conturbada! — Sua voz estava pacifica, ao contrário dos meus pensamentos que trabalham à todo vapor. — Eu imaginei que já desconfiava. Quero dizer, você escuta os pensamentos dela, não é?

E, como sempre que estou perto dela, senti algo diferente. Não vindo de mim, mas parecendo que eram os sentimentos de outra pessoa, como se fosse arrependimento. Paro de andar tentando pensar o que seria isso.

— Sim, a princípio não pensei que fossem dela.

— Natsu, a convença. A Lucy não vive tem bastante tempo, ela me contou sua história em partes, não sei de tudo, mas consigo sentir o quanto ela foi machucada. — Ela suspirou enquanto meu coração se apertava num sinal de mágoa e tristeza. Uma dor física, como se tivessem me batendo. Isso tudo me deixa confuso, a carga pesada de seus sentimentos me deixam sensível com ela

— Eu vou falar com ela agora. — Anuncio. Estou atordoado com a intensidade de tudo.

Mavis me olha com compaixão.

— Está sentindo, não é? Vá, agora.

[...]

Quanto mais eu me aproximava de sua cabana, mais sentia os sentimentos e a confusão crescentes.

De alguma forma, isso é bom. Saber o que se passa dentro dela, senti-la em cada parte do meu corpo, me faz pensar de uma maneira diferente do que de costume. Me faz mais humano.

Chegando mais próximo, consigo escutar a discussão lá dentro, dessa vez com meus próprios ouvidos aguçados.

Querem saber de tudo? Ah, então, okay. Sempre confiei nos outros acima de mim mesma, sempre fiz por eles mais do que por mim. Sabe de uma coisa? Isso só me fez cair de cara no chão e me sentir um verdadeiro lixo.

Arregalei os olhos e continuei andando.

—... Minha mãe sempre me ignorava! Sempre! Nunca tive uma conversa com ela, e sabe de uma coisa? Isso só contribuiu para eu me tornar violenta, não falava com ninguém, e eu tinha só 15 anos! E olhe só, eu confiava numa prima, uma única prima e ela me traiu, me abandonou, ela me largou com a minha mãe e eu descobri, vejam só, ela ficou com meu namorado! — Dei um tranco na caminhada enquanto sentia lágrimas caindo pelo meu rosto. Lágrimas que não pertencem a mim. — Ele foi meu primeiro namorado! Eu era violenta, fui á psicólogos e me tornei calma como estou hoje, e fiquei bem. Arrumei amigos novos, tudo certo. Fiquei inteiramente bem. Confiei em cada um, e adivinhe? Todos não passavam de falsos, inclusive meu próprio namorado!

Dessa vez acelerei ainda mais o passo, não quero que ela se sinta desse jeito que estou me sentindo, vazio e completamente inútil. Não quero que ela sinta essa angústia. E a parte ruim de sentir tudo o que ela sente, é que eu não posso fazer nada para mudar seu passado.

Mas vou tentar ao máximo fazer com se sinta melhor e que seu futuro seja um paraíso em vista de seu passado.

Agora vejo o quanto ela é forte e decidida, se fosse qualquer pessoa, perderia qualquer e toda confiança nos outros, mas ela não... Pelo contrário, ela confia mais. Não sei definir se isso é masoquismo ou então muita coragem e vontade de interagir com os outros.

Mas nunca imaginaria que uma pessoa como ela teria uma história tão... Trágica. Em certo ponto, meu primeiro julgamento foi que, talvez, ela fosse uma dessas garotas que tem tudo que quer e na hora que quer, mas vejo que não é assim. Seu jeito me confundiu, sempre de bem com todos, sempre sorrindo.

A única vez que tive o verdadeiro vislumbre do que Lucy era por dentro foi no dia em que sua mãe veio visitar-lhe. De certa forma, a cada grito que sua mãe dava, me sentia mal, me sentia compelido a ir lá e ajudá-la a fugir daquilo, tampar seus ouvidos e falar que tudo ia ficar bem.

Nunca pensei que ficaria tão... Angustiado em ver uma outra pessoa chorar.

Assim que cheguei á varanda escutei o barulho da porta se fechar num estrondo. Erza e Lisanna agora discutiam.

Viu o que você fez, Erza?

— Como eu ia saber?

— Porque a chamou de egoísta?

— Porque... Deu-me vontade! Não consigo segurar o que eu falo. — Erza parecia à beira de um choro. — Ela está chorando, sinto o cheiro de lágrimas.

Nesse momento abri a porta encontrando lágrimas nos olhos das duas. Nunca havia visto Erza chorar. Nunca. E olha que eu a conheço há muito tempo mesmo.

Você ouviu tudo? Os olhos fumegantes de Erza me encararam. Assenti devagar ainda um tanto chocado por vê-la chorando. — Não ouça atrás da porta, estúpido!

— Não me chame de estúpido.

— Erza, ele tem ouvidos aguçados, não precisou encostar o ouvido na porta! — Ignorei-as e segui até a porta da Lucy, girei a maçaneta e estava trancada. Preciso dar um jeito nisso, consigo escutar suas lágrimas e esse pedaço de madeira me impede de ajudar. — Oi... Onde você vai? Deixe-a sozinha!

Dei um pequeno chute na porta para que o trinco soltasse.

— Que falta de educação! Não saia arrombando a por... — Quando retirou a cabeça do travesseiro focalizou a visão e arregalou os olhos levemente. —... ta. O que está fazendo aqui? — Sua mão passou pelo rosto num ato que apertou meus músculos. Permaneci encostado no batente da porta.

— Eu estava vindo falar com você. — Fechei a porta e sentei-me no baú em frente a sua cama. Não sei, mas meus olhos devem transpassar pena.

— O quanto você ouviu? — Vi uma única lágrima cair de seu olho direito e senti as frases ecoando confusas pela minha mente. Consigo ouvir claramente tudo o que ela pensa.

— O suficiente. — Seus olhos cor chocolate fecharam-se por um tempo, como se ela estivesse pensando o quanto isso teria impacto em sua vida. Escutei sua respiração regularizar quando ouvi uma frase que me chamou atenção: “Só não sinta pena”.

— Quanto? — Suas pernas cruzaram-se em frente ao corpo.

— Tudo. — Ela não quer pena, e eu não vou sentir isso por Lucy. Portanto apenas dei nos ombros, como se fosse uma coisa inteiramente normal. — Bom, eu queria falar com você sobre essa marca.

— Estou escutando. — Sempre acho incrível que, mesmo nesse estado, ela consiga ser sarcástica.

— Não sei se ficou sabendo, mas... Meu pai havia me obrigado a encontrar a outra marcada. — Ela assentiu e uma enxurrada de pensamentos e emoções me atingiu, esforcei-me ao máximo para controlá-las e continuar impassível. —... Eu tinha ideia que você já sabia. Então, eu conversei com ele ontem, estava desistindo. Eu só não entendo porque não me falou antes.

“Porque será?”

Ela moveu os braços prendendo o cabelo em um coque. Esse não era o problema, era que ao fazer esse movimento, seus seios se projetavam para frente e isso deixou minha boca seca.

Eu queria muito culpar essa marca. Eu queria muito conseguir controlar essas coisas que eu sinto num simples movimento dela, mas eu sei que não é possível. Nem culpar a marca e muito menos me controlar.

Certamente, desde a primeira vez que eu a vi descendo do ônibus e senti seu cheiro adocicado, fiquei extasiado, completamente desarmado em frente a sua beleza. Porque sou obrigado a admitir que além de linda por dentro, ela é linda por fora. Além de ser muito gostosa. E isso, de fato, complica tudo.

— Por favor, me diz que você está brincando. — Ela respirou fundo e olhou para a cachorra que agora estava deitado aos seus pés. Fechou os olhos fortemente respirando fundo, como se estivesse se segurando para não me matar, e eu gosto disso. Na verdade, o que eu não gosto dela?

No pouco contato que tivemos eu sei que gosto de praticamente todas as suas atitudes, falas, ironias, e até mesmo quando ela fala coisas desagradáveis.

—... Você tentou me matar no meu primeiro dia aqui, fora que não foi muito compreensivo. Além de mais, eu ia falar o que? “Ah, oi Natsu. Sou uma garota traumatizada e sou ligada a você, quer ser meu amigo?” Não ia rolar.

Ela bufou e cruzou os braços, se Lucy soubesse o quanto isso me deixa desorientado e completamente aceso – e isso não se deve aos meus poderes –, ela nunca mais faria isso. Pelo menos não perto de mim.

Mas, eu me prendi numa única parte de sua fala: “Quer ser meu amigo?” Eu conseguiria rir debilmente, mas não quero fazer isso agora.

— Pelo menos me avisar, Lucy. Eu procuro a pessoa, quer dizer, você. — Fiquei preocupado em enfatizar “você”, porque eu gosto de ver seu corpo se arrepiando e dos efeitos que isso causa em mim. — E eu queria apenas que me falasse a verdade. Sabe que se ficarmos muito longe um do outro, podemos morrer, certo?

Novamente ela respirou profundamente, fechando os olhos.

— Sei, Mavis me falou.

Fiquei aguardando ela continuar, mas pelo o que me parece não está muito afim.

— Então... — Fiz sinal com os braços para ela continuar. A forma como seu cenho franziu me deixou feliz e em seguida pude escutar: “Não sei, mas essa forma com a qual ele fala, me deixa feliz, parece outra pessoa.”

— Não quero ficar com você. Não por isso. — Eu gostei de escutar isso, ainda mais pelo “só”. Isso significa que ela pensa, e isso é bom. Ainda mais depois de tudo pelo o que ela passou. — Bom, você ouviu minha história, ela é legal não é? — Seu sorriso irônico me deixou confuso. — Então, eu não estou preparada para ficar com ninguém, depois que eu fui humilhada e derrubada psicologicamente, sem contar o físico. Minha cabeça é um caos, Natsu.

Eu sei que a cabeça dela é um caos. Posso escutar tudo, os pensamentos são embolados e não como de todo mundo. Ela tem desequilíbrios emocionais gritantes, uma hora está feliz e alegre, depois está irônica e depressiva e quando está triste, me deixa muito... Atordoado, no mínimo.

— Você falou com seu pai? — Ela arqueou as sobrancelhas em confusão. É difícil pronunciar a palavra. Talvez por pensar em como poderiam machucá-la, ela é tão... Frágil que eu nem sei como eu consigo falar com ela sem ter medo de quebrá-la, tanto emocionalmente quanto fisicamente. — Sobre tudo, Lucy.

— Ah, não. Quer dizer, eu ia falar. Aconteceu alguns dias depois que ele escafedeu-se, mas não ligou e eu não tive noticias, então, não. Eu não falei e nem quero falar, é muita humilhação. — Sua voz aparentou cansaço. E eu apertei os olhos tentando decifrar o mar de pensamentos, mas ás vezes é quase impossível.

— Lucy, você não entende. Você se sente mal perto de mim, não é?

— Mais ou menos, eu percebo a confusão na sua cabeça e os meus próprios sentimentos ficam confusos. — Ela ficou atenta aos pensamentos e apertou os olhos.

— Eu também sinto isso. Eu sei de tudo que você pensa, consigo escutar seus pensamentos em minha cabeça.

— Como assim? — Ri da forma como ela pronunciou as palavras lentamente.

— Você ainda não está com a percepção sobrenatural completamente desenvolvida, por isso eu escuto claramente o que está pensando só de direcionar meus pensamentos em você, mesmo que estejamos longe. Como agora eu sei que estamos ligados, seus pensamentos são mais concretos, antes eram bem abstratos e, nesse momento, você está pensando no porque Mavis não tinha te contado isso.

— Isso, isso... — Perdeu as palavras e gaguejou arregalando os olhos. — Mas, mesmo assim, não estou disposta a ficar com ninguém.

Senti duas energias muito conhecidas. Suspirei. Sempre foram curiosas além da conta e admito que abri um pequeno sorriso ao escutar Lucy bufar.

— Porque vocês estão escutando atrás da porta? — Sua voz estava contida.

— Não... Não... Estamos. — Lisanna disse. Sorri, ela sempre foi muito inocente.

— Sua idiota. — Erza resmungou. — Estamos saindo.

— Obrigada. — Escutei uma risada extremamente agradável em minha mente, acho que é de Lucy. — Mavis me falou que se ficarmos amigos, não ficaremos... Hum, afetados, eu acho. — Fiz careta e ela riu um pouco. — Por favor, vai. Não quero ficar com ninguém, Natsu. Não estou preparada.

— Eu entendo. — Disse eu um tanto contrariado. Pus minhas mãos na cabeça respirando fundo e ao mesmo tempo bufando com a sua teimosia. Ao mesmo tempo que entendo seus motivos, eu acho que ela está sendo um pouco irracional. — Se ficarmos amigos, acho que dá no mesmo. Darei um jeito de falar com meu pai.

— Tem certeza? Quer dizer, não quero que você se machuque. — Suspirou e então escutei: “O que eu disse?”. — Não, é... Ah, isso. Eu não quero que você se machuque.

Ri de seu momento e Lucy contraiu um enorme bico, isso me fez engolir em seco. Nunca tive tanta vontade de beijá-la como agora, nem no dia que estávamos no rio. Talvez, eu estivesse querendo que ela atingisse paz interior. Porque, enquanto estávamos no rio, eu vi que seus sentimentos ficaram confusos, mas eu conseguia que pensasse apenas nisso e isso era o que me acalmava. E queria que ela se sentisse bem e isso parecia se tornar minha meta. Fazê-la feliz.

— Eu também não quero que você se machuque, Lucy. — Sorri abertamente. “Pela primeira vez eu vi um sorriso em Natsu. Já o achava lindo e agora está bem mais com esse sorriso, e posso dizer que isso me tira o fôlego.” Sorri realmente ainda mais, consegui escutar perfeitamente. — Obrigado.

— Por quê? — Um de seus olhos encolheu. Realmente, muito engraçado. Ela esqueceu.

— Por achar que meu sorriso te tira o fôlego, e que eu sou lindo. — Ela engasgou com a própria saliva e esfregou a testa com uma das mãos. Pude observar seu rosto adquirir um lindo tom de carmesim e ela ficou ainda mais linda assim.

— Sério, pare com isso.

— Não tem como, eu posso escutar, Lucy. — Suspirei após a frase, assim como ela.

— Está bem. Só finja que não ouviu, não sei se vou conseguir controlar meus pensamentos. — Sorri com isso e ela deu nos ombros. — Certo, não acho que tenha problemas ficarmos amigos. — Uma mudança brusca de assunto.

— Certo. — Me apoiei em sua cama, eu estou sentindo uma enorme vontade de saber tudo que se passa em sua cabeça, quero ter mais acesso e a possibilidade de decifrar todos esses pensamentos confusos. Embora saiba que não conseguirei, já não consigo decifrar nem 1/3 deles. — Agora, me fale de você, tudo, não me esconda nada. Prometo que falarei também.

— Eu sou obrigada? — Ela não abandonou o sarcasmo e revirou os olhos. Em seguida dei de ombros.

— Sim, não. Basta saber se você quer. Você quer? — Sua careta ficou pensativa enquanto ela avaliava meu rosto e seu olhar decaiu em meus olhos. Notei que os seus não eram meramente chocolates.

Exibiam nuances de dourado perto da íris e eram mesclados com mel. Simplesmente, uma cor inarrável. Posso dizer que tenho a capacidade de olhar para sempre em seus olhos sem me cansar.

Em meio a toda a confusão, escutei um único pensamento, que me fez ranger os dentes e ficar com mais raiva de todos que a fizeram sofrer, inclusive sua mãe: “Mas ele não vai me decepcionar como todos?”

Eu prometo que não.

— O quê?

Seus olhos coloridos ficaram confusos e depois se alertaram em entendimento.

— Eu prometo que não vou te decepcionar como todos, Lucy. Eu me importo com você e quero apenas que confie em mim, porque eu confio em você. — Ela me encarou como se minhas palavras fossem um grande enigma que ela não tivesse a capacidade de decifrar. E então ela suspirou fechando os olhos por longos segundos respirando fundo. Acho que isso é mania.

“Eu confio nele? Claro que sim.” Foi a coisa que consegui decifrar, alegrei-me, mas depois escutei: “Agora eu estou me jogando de novo, só que dessa vez, se eu cair de cara no chão, não sei se terei forças para levantar... Pelo menos não de novo.”

Se eu pudesse dizer agora mesmo em sua frente o quanto eu queria que todos esses sentimentos e confusões que ela sente passassem para mim, não sei se ela acreditaria. Sua alma é tão frágil, passou por tanta coisa que eu duvidaria muito que alguém conseguisse.

Não sei porque pessoas como ela sofrem tanto.

Ela suspirou tão forte que acho que roubou todo o oxigênio do quarto, antes de falar mais uma de suas respostas inteligentes.

— Você já sabe muito de mim, gênio. Escutou coisas que não era para escutar, preciso saber de você por agora. — Ela sorriu levantando a sobrancelha direita como num desafio. Sorri.

— Ah, é? — Encostei-me a meu braço ficando um pouco mais perto e controlando meus sentidos para que não ficasse inebriado com seu cheiro, que me deixa num estado de frenesi. — Eu preciso saber o que quer saber.

— E eu preciso que me conte tudo, na verdade quero saber o que você quiser que eu saiba sobre você. — Pensei um pouco em suas palavras para que tais não confundissem minha mente.

— É mais fácil você me fazer perguntas. — Sua careta pensativa era... Perfeita.

— Bom, se você me falasse pelo início seria bom. — Ela deu um sorriso genuíno.

— Você tem que fazer as perguntas, se não, não irei responder. — Ela cruzou os braços. A forma como lida com palavras deixaria qualquer um confuso.

— Você. É. Chato. — Sua mão recaiu sobre a cadela que dormia tranquilamente entre nós. — Estranho, ela sempre dorme com uma orelha em pé. — Parecia que estava falando consigo mesma para logo depois voltar a me encarar. — Eu realmente não sei quantos anos você tem.

— 17. — Ela espremeu um pouco os olhos.

— Hum, é a mesma que eu. Tenho 17. — Voltou a pensar. Reparei em todas as curvas dela, e isso me deixa atordoado. Não sei para onde olhar quando estou perto dela, se olho em seus olhos fico fascinado, se olho para seu corpo tenho desejo, na verdade ficar perto é meio complicado também. Por causa do seu cheiro. — Qual sua cor preferida?

Ela pensou tanto tempo, só para me fazer essa pergunta?

— Verde. Jura que vai continuar me fazendo perguntas assim?

— É a cor de seus olhos. — Ela não reparou em meu último comentário e focalizou em meus olhos. Pisquei atordoado enquanto via ela se animar em me fazer perguntas. — Animal de estimação preferido?

— Pelúcia. — A forma como arqueou as sobrancelhas e se retesou um pouco olhando para Maya foi engraçado. — Não tenho nada contra cachorros ou gatos, mas eles nunca foram meus fãs, não sei o que deu nela nesses dias. — Apontei para a cachorra que dormia calmamente.

— Entendo isso. Até ganhá-la também não era muito fã de animais. Eles eram desleais. — Sua voz ficou meio trêmula, mas ela pareceu recuperar. — Bom, me fale de você por completo, você sabe muito mais de mim do que eu de você.

— É verdade. — Suspirei e notei que suas mãos estavam sobre as coxas se retorcendo. — Hum, quando eu era criança não era, bem, como sou hoje.

Ela inclinou a cabeça para a direita e esperou um momento para absorver as informações.

— Continue.

— Foram alguns problemas com meu pai que me levaram a ser como sou hoje. Meu pai sempre foi muito... Repressor. E essa represália não me deixou muito a vontade. Eu contrariava tudo que ele impunha. E fazia muitas coisas erradas. — Suspirei e encarei novamente seus olhos, eles expressavam apenas curiosidade e entendimento. — Mas quando tinha 15 anos entendi o que eram regras e que eram para serem seguidas, não a risca, mas eram feitas para serem seguidas. — Dei nos ombros. — Talvez seja por isso que tenha ficado tão... Frio. Talvez seja por isso que nunca tenha arrumado uma namorada, só casos passageiros, mas meu pai tem culpa nisso também. Ele é fissurado para que eu encontre, e eu encontrei você. Só não sei se nosso relacionamento vai melhorar, em parte acho que ele quer tanto que eu encontre minha parceira porque ele não encontrou a dele.

Soltei um suspiro cansado e Lucy ainda me encarava absorvendo informação. Sei disso porque seus pensamentos estão vazios e eu não escuto absolutamente nada.

Notei a marca em seu ombro, e não pude conter a satisfação em vê-la ali. Significava que qualquer descendente demoníaco ou da raça dela, pelo menos os do sexo masculino, se sentiriam mal perto dela.

— Razoável. Julgo ser normal os pais serem severos. — Parei por um momento, parece que estou em consulta com uma analista quando falou assim. — Minha mãe nunca me cobrou, meu pai... Muito menos. Posso te garantir que seu pior inimigo são seus próprios pensamentos. — Ela pressionou uma das têmporas com o dedo indicador. — Ele é capaz de te fazer sofrer, digo, seu cérebro. Ele te traí á toda hora, mesmo que não fosse cobrada eu me sentia cobrada.

Sua forma de pensar acalentou-me tanto quanto um soco na cara.

— Bom, se você concordar em ser meu amigo, não que eu esteja te propondo isso, só para deixar claro. — Sorri enquanto ela movimentava as mãos com rapidez. — Eu só quero que seja sincero comigo, por favor. Acha que consegue fazer isso?

— Acho que sim. — A forma como ela perguntou me deixou em dúvida se queria isso mesmo.

— Bom, isso é bom. Agora, me responda uma pergunta, lembre-se de que prometeu ser sincero comigo. — Assenti confuso. — Porque, exatamente, parou de falar com Lisanna?

[...]

Quando consigo finalmente fechar os olhos noto que já é de manhã. Levanto e sinto como se nem tivesse dormido, e isso seria ruim se eu não estivesse tão animado por me encontrar com ela novamente.

Fiquei realmente até muito tarde com ela. Conversamos durante muito tempo, e quando saí de lá, notei que Lisanna e Erza dormiam no sofá.

“Porque, exatamente, parou de falar com Lisanna?”

Essa foi difícil. Queria dizer que foi pelo meu pai, como todos pensam, inclusive ela. Mas não, não foi. Na verdade eu estava em estado conflitante naquela época, não sabia o que pensar e agia descontroladamente, sem querer causei medo e pânico em todos, mas... Eu não queria fazer isso com minha amiga de infância.

Lisanna sempre foi tão boa com todos, tão inocente e tão transparente com sentimentos, que soube no mesmo instante que estava morrendo de medo de mim. Chegava perto ela se afastava, não era mais a mesma coisa. Não conversávamos como antes, era completamente diferente quando decidi me afastar dela. Talvez tenha sido até melhor falar que foi por determinação do meu pai.

Mas sinto que ela não queria isso, e toda vez que olho em seus olhos azuis, noto que ela ainda tem medo, mas ao mesmo tempo vejo minha amiga ali dentro.

E quando contei isso a Lucy sua expressão foi engraçada e ela me falou algo que me deixou realmente perplexo. “Então, quer dizer, que você parou de falar com ela por achar que Lisanna tinha medo? Está de brincadeira? Porque não conversaram e você explicou que estava com conflitos interiores?”

Quando ela falou isso, eu me senti um babaca.

De fato, ela estava completamente correta. E sinto que quanto mais me aproximar de Lucy, mais me sentirei feliz e completo, como estou hoje, por exemplo.

Saio do banheiro já vestido com uma calça jeans e uma blusa de botões verde musgo. Essa é a marca do colégio, os meninos usam blusa de botão. A cor que achar melhor. Quando saio do quarto, vejo Sting com a mesma camisa azul e Gajeel com uma preta, típico.

— Porque está sorrindo, cabeça de iogurte? — Por que todos zoam com meu cabelo? Não é engraçado.

— Não estou sorrindo. — Eu disse fechando a cara, mas não conseguia conter um enorme sorriso que saia dos meus lábios.

— Está sim, sorrindo feito um babaca. — Ele disse soltando sua típica risada sinistra/soluço estranho.

— Certo, certo. — Me sentei no sofá roubando um biscoito que estava no pote na mesinha de centro.

— Não vai tentar me socar?

— Não. — Disse calmamente.

— Não vai retrucar? — Seus olhos vermelhos apertaram-se.

— Não. — Respondi, novamente, calmo.

— O que aconteceu com você, cara? — Sua voz estava cética. Notei que Sting estava sentado no outro sofá e de cinco em cinco minutos olhava no relógio.

— Nada. — Disse simplesmente comendo o resto do biscoito.

— Vocês estão estranhos. Primeiro o senhor “barbie” não quer parar de olhar nesse maldito relógio que está me dando nos nervos, e o senhor cabeça de algodão doce nem ao mesmo responde minhas provocações?

— Hum. — Foi a única coisa que Sting disse antes de olhar no relógio novamente. Eu não disse nada, comi outro biscoito.

— Foi por causa de ontem? Por que você voltou tarde? — Percebi que Gajeel me olhava e Sting também, esperando por explicações.

— Hum, estava conversando. — Comi mais um biscoito. — Com a Lucy.

Gajeel arqueou uma sobrancelha e Sting levantou um olho, o que há de tão estranho nisso?

— Carbonizou ela? — O moreno perguntou ainda tentando entender.

Engasguei com o próprio biscoito.

— Claro... Claro... — Prendi na palavra ainda tossindo.

— Você a matou? — Ambos estavam com os olhos arregalados.

— Claro... Claro... — Eu duvido se não estava ficando roxo quando o biscoito desentalou e desceu rasgando pela minha garganta. — Claro que não! — Agora saiu. — Até porque se eu a matasse, morreria também.

Acho que ambos demoraram um tempo para notar e eu olhei para o teto contando. Um... Dois... Três...

— Espera, como assim? — O imbecil perguntou, acho que Sting notou porque ficou encarando minha marca. Hoje de manhã ao invés de amarelo ovo estava dourado como ouro.

— Ela é parceira dele, Gajeel. — Finalmente escutei Sting se pronunciar.

— Ah, logo ela? — Ele estava confuso demais.

— Sim. Qual o problema com a Lucy? — Arqueei minhas sobrancelhas.

— Nenhum. É que... Ela parece, muito... — Estiquei meu pescoço esperando ele falar, mas parecia estar procurando palavras. —... Frágil, para você. Sei lá, mas boa sorte nisso aí.

A forma como falou foi engraçada. Que coisa estúpida, Sting estava calado demais.

— O que foi Sting, o que está olhando? — Encarei-o. Ontem tivemos uma briga, isso acontece quase sempre, mas dessa vez o motivo foi sério, eu apenas perguntei o que ele foi conversar com a Lucy.

Talvez por influência da marca, não sei. Quando ele respondeu “Assunto nosso” fiquei realmente muito, muito, muito descontrolado.

Não sei, meu pai uma vez falou que tudo que sentimos pelo parceiro quando estamos com a marca é intensificado, talvez seja por isso.

Mas como sempre brigamos, acabamos agindo como se nada houvesse acontecido depois.

— Nada. — Ele deu de ombros. — Por um momento, achei que... Sei lá. Enquanto estava com ela... Achei que, talvez, fosse minha irmã.

Eu e Gajeel arregalamos os olhos.

Sting sempre teve essa suposição. Os descendentes têm um sistema, são obrigados a terem no mínimo três filhos, para que assim pelo menos um deles ser descendente e por assim vai, para preservar a raça.

Isso era controlado pelo governo. Pois é, apesar dos humanos não saberem de nossa existência, temos nossas fontes lá dentro e inclusive á um órgão no governo que cuida de toda burocracia sobrenatural, como se fosse uma espécie de FBI sobrenatural.

Uma vez Sting recebeu uma carta que na qual dizia no fim: “Quero que cuide de sua irmãzinha”. Eele ficou cismado com isso. Seu pai havia sumido e ninguém sabia de seu paradeiro. Ele teve uma filha, disso Sting tinha certeza.

Todas as garotas que meramente se parecem com ele ou com Laxus, ele faz de tudo para descobrir se é sua irmã.

— Mas... O pai dela não é o senhor Jude? — Gajeel disse confuso.

— É. Acho que sim. — Sting deu nos ombros novamente. — Foi apenas uma suposição.

Todos concordamos, ele sempre é desse jeito com garotas, no fim... É isso?

Não é?

De repente senti um cheiro familiar e escutei alguns pensamentos. Lucy estava por perto, e talvez minha marca pinicando seja uma espécie de radar.

Como eu fui me meter nisso? Calem a boca!” Escutava ela resmungando dentro da minha cabeça.

Sorri involuntariamente enquanto ela resmungava alguns palavrões. E quando apurei os ouvidos escutei Lisanna brigando com Erza. Então é por isso.

— Porque está assim, cara? — Gajeel sacudiu meus ombros.

— É a Lucy. — Sting disse e se jogou novamente no sofá parando de olhar no relógio. Lembro que toda vez ele fazia isso. Em seu quarto há algumas fotos e ele sempre espera Lisanna passar, talvez porque goste dela. Mas eu nunca realmente perguntei, foram apenas suposições.

— Ah. Ele vai ficar com cara de idiota toda vez que vê-la? — Gajeel perguntou para Sting.

— Possivelmente. — O outro imbecil assentiu feito um débil mental.

— Vão tomar no cu. — Disse antes de me levantar e ir até a cozinha. Eles não existem.

[...]

O acampamento é grande e a área de estudos é ainda maior, feito as escolas normais mesmo. Existem três prédios, um é apenas para educação infantil, as crianças não ficam aqui em tempo integral como nós. O segundo para educação fundamental, que passam apenas as semanas em uma outra área, e o terceiro para o ensino médio, que praticamente moravam aqui.

Todos são muito bem decorados e com uma área enorme para lazer, e como todo lugar na Fairy Tail, bastante verde.

Avisto todas as mesmas pessoas, mas posso ver rostos novos. Estavam ao meu lado Sting e Gajeel. Como sempre todos cochichavam enquanto eu passava. Sentamo-nos num dos bancos olhando para a entrada onde pessoas circulavam.

— Já disse, Lis, não me carregue, droga! Eu sei andar! — Escutei a voz dela. Como sempre tudo está em silêncio. Não entendo ainda porque todos conversam tão baixo, talvez por seus ouvidos sensíveis. E a voz de Lucy também estava baixa. Porém, por todos estarem praticamente em silêncio, apenas os alunos novos conversando alto, todos foram capazes de escutá-la e se virarem em sua direção, e admito que quando fiz isso achei que ela realmente tinha se transformado num anjo.

Estava de costas para mim e usava um vestido que é meio uniforme do colégio. O modelo de uniforme padrão feminino. Mirajane preza por uniformes, assim como seu pai. Ele era um pouco abaixo do meio das coxas não chegando perto dos joelhos, era num tecido esvoaçante e com alças. Além de ser num incrível tom de branco que mais parecia brilhar conforme entrava em contato com os pequenos e fracos raios de sol que faziam seu cabelo loiro brilhar também.

Seu cabelo estava solto, como sempre batendo bem depois do meio das costas. Seus braços estavam cruzados e ela batia a sapatilha dourada. Sinceramente? Ela mais parece um anjo de verdade nesse momento.

— Tenho que te mostrar toda a escola! — Lisanna sempre foi animada demais.

— Eu já te expliquei, não precisa, eu me acho sozinha. Mas se faz tanta questão, por favor, não me carregue. Eu sei andar, Deus me deu pés e eles funcionam. Muito obrigada. — E então ela se virou em minha direção e tive a sensação de desaprender a respirar.

Ela estava completamente diferente de quando chegou e quando a vi saindo do ônibus.

Seus olhos marcantes e característicos estavam delineados de cima a baixo com um preto forte. Seus lábios estavam cintilando, como se houvesse brilho e quando olhou para mim e focou em meus olhos, sorriu levemente, inclinando a cabeça para a esquerda em cumprimento antes de sair andando ao lado de Lisanna. Soltei o ar com tanta força que senti o mundo girar, eu nem percebi que prendia a respiração.

— Realmente, ela é linda. — Escutei Gajeel falando e só então notei que voltaram todos a conversar e eu era o único olhando para o local onde havia passado.

— Como é que é? — Olhei na direção deles. Eu não gostei dele falando isso. Deus, eu estava parecendo um homem das cavernas de tão possessivo.

— Eu falei que ela é muito gostosa. — Fulminei seus olhos e senti meus músculos doerem. — Finalmente!

— O quê? — Minha voz saiu entre dentes e raivosa.

— Todos esses anos que conhecemos você, você sempre foi invencível, nada era importante para você, nada que pudesse te tirar do sério, quer dizer, nada importante, já que você sai do sério facilmente. — Sting falou. Os encarei confuso.

— Mas agora você tem uma coisa que pode te ferir. — Gajeel disse e Sting concordou num ato débil.

— Não entendi. — Murmurei ainda os olhando confuso. Porque eles nunca falam de modo direto? Essas voltas me irritam.

— Seu ponto fraco, Natsu. — Sting disse suspirando. — Agora você tem um ponto fraco incrivelmente frágil, e isso é ruim porque ele tem nome e sobrenome.

Agora eu sabia exatamente do que estavam falando e eu sabia que isso seria ruim. Tenho muitas pessoas que não gostam de mim, e isso seria uma enorme confusão.

Meu ponto fraco se chamava Lucy. Eu estou ferrado.

Continua

Notas finais
Então? O que acharam? Espero que tenham gostado. O próximo não tem prazo, porque quanto mais dou prazos mais atraso. Então o próximo saí em pouco tempo, prometo não demorar tanto. Até mais lindos e lindas. Beijinhos e até mais.