Upside Down
2 II — Sobrenatural
Notas iniciais
****
"Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço, mas jamais duvidei da sinceridade da platéia que sorria. —- Charles Chaplin"
****
II — Sobrenatural
— Vocês têm trinta minutos, não se percam nem vão muito longe. — A voz autoritária do homem carrancudo denominado Laxus ecoou pelo ônibus. Todo mundo desceu, estávamos em um posto de gasolina que tinha uma lanchonete ao lado.
Desci por última e puxei Maya pela guia, ela nem se quer hesitou em levantar e correr dali.
Fui até a parte detrás do posto e soltei, deixando andar livremente. Não há problemas, ela nunca mordeu ninguém, não será hoje que ela vai morder. Ela farejou algumas árvores e depois seguiu pelas imediações do pequeno bosque, andando atrás dela percebi o quanto ela era grande e andava saltitando. Sorri e ela soltou um latido baixinho, como se risse também.
— Maya, quer voltar? — Ela me encarou com seus olhos expressivos e continuou andando. — Acho que isso é um não.
Foi rápido. Por um momento estava olhando para frente e Maya sumiu, quando olhei para o lado ela estava de frente para mim como se me protegesse de algo. Os pelos de suas costas estavam eriçados e seus dentes estavam expostos, que estranho. A primeira coisa que me disseram sobre Maya era que ela não avançava em ninguém, nem mesmo num bandido. Olhei na direção que ela olhava continuando a rosnar.
— Maya, não tem nada ali.
Com os olhos pregados na mesma direção, ela permaneceu. O caminho estava limpo, apenas uma brisa sacudia meu cabelo que eu havia soltado. Estava silencioso demais e se tem uma coisa que eu aprendi é que nunca deve ter algo certo quando tudo está em silêncio, o silêncio é ruim.
Nem um passarinho está cantando, posso ouvir apenas barulhos de carros na estrada e os rosnados e resmungos de Maya, ela está completamente arrepiada ao meu lado, como um porco-espinho.
— Maya, pare com isso! — Ela me olhou, mas continuou. — Para! Está me assustando. — Olhei de novo na direção em que ela olhava e então eu escutei um barulho. Passos. Maya chegou ainda mais perto de mim. Como se me protegesse. — Okay, agora eu acredito.
Será que se eu gritar vai adiantar? Meu Deus. Eu vou morrer. Os passos aumentaram e Maya rosnou mais alto soltando um latido grosso e imponente, nunca tinha visto-a latindo assim.
Deve ser um Serial Killer. Daqueles que pegam você, te torturam até a morte e só então ressuscitam você para que, assim, possam se aproveitar de seu corpo para logo depois te jogar de um penhasco? Cara, eu estou com medo de estar psicótica.
— Ajude-me, Senhor. — Olhei para o céu azul com nuvens brancas. Não parecia vir nenhuma ajuda. Choraminguei.
— Calma. — Uma voz masculina soou. Era tranquilizadora, mas eu podia sentir tudo quanto é tipo de sentimento menos tranquilidade.
— Calma, okay. Pelo amor de Deus, quem está ai?
Maya continuou rosnando.
— Acalme seu cachorro. — A voz disse novamente.
Respirei fundo e me agachei ao lado de Maya, ela me olhou e eu encostei a mão em sua cabeça.
— Está tudo bem. — Eu falei e ela parou quase que no mesmo instante que um homem saiu de trás das imediações da lanchonete, e... Uau.
— Lucy, certo? — Olhei em sua direção com as sobrancelhas arqueadas. Apenas assenti, acho que estou sem palavras.
— Sim. — Balancei a cabeça para dar mais ênfase, minha boca estava sem palavras e as malditas riam da minha cara a metros de distância, meu Deus, como eu vou falar aqui? Acho que perdi a respiração. — Você é...?
— Sting. — Ele sorriu e seus olhos azuis sorriram junto. — Sting Eucliffe.
— Prazer. — Maya soltou um baixo rosnado. — Calada. — Ela choramingou.
— Seu cachorro é bem... Temperamental. — Ele sorriu.
— Ás vezes. — Dei nos ombros. Maya continuava resmungando. — Para Maya! — Ela apenas me encarou. — Você estava sentado lá no fundo do ônibus, não estava?
— Sim. — Ele disse, arqueando as sobrancelhas. — Você é...?
— Como assim? — Franzi o cenho. — Sou mulher... Sei lá. O que eu sou exatamente? Loira? — Arqueei minhas sobrancelhas em dúvida.
Ele pareceu bastante surpreso.
— Ah, você não sabe.
— O que, diabos, eu não sei? Você é a segunda pessoa que me fala isso! — Respirei fundo. — Quer dizer, ah, você vai falar: "Chegando ao internato você vai descobrir" — Bufei. — Está atrasado, Lisanna já disse isso.
— Como você sabe que eu ia falar isso? — Ele me olhou com olhos levemente arregalados. — Você lê mentes?
— Claro que não. Pelo amor de Deus. — Respirei fundo. — Que ser humano é capaz de ler mentes? Pelo amor dos Deuses, isso é impossível. — Ele pareceu frustrado quando falei isso.
— Alguns sempre são capazes. — Ele disse baixo demais, eu fiquei surpresa por conseguir escutar.
— Lógico. — Revirei os olhos. — E mais o que? As fadas vão vir e jogar pozinho mágico? — Bufei, e espantei uma parte da franja que cobria meu rosto. — Faça-me o favor. Essas coisas não existem.
Cara, falei igual minha mãe agora. Que inferno!
— Cada um acredita no que quer. — Ele deu nos ombros. — Foi um prazer conhecer você, Lucy.
A forma como disse meu nome, fez com que minha pele se arrepiasse. Ele seguiu rapidamente pelo mesmo caminho que chegou. É estranho.
Ele nem se aproximou de mim. Não que eu quisesse isso... Mas, sei lá.
Prendi a guia em Maya. Ela ainda me olhava como se estivesse magoada. Apenas ignorei. Seguimos pelo caminho em que viemos, não que eu estivesse com medo nem nada. É que quanto mais andávamos em direção ao ônibus, mais eu tinha vontade de sair correndo dali. E não era um medo bobo, era como uma mão me puxando.
— Maya, onde minha mãe me meteu? — Ela apenas soltou uma espécie de ronronar. Respirei fundo enquanto me aproximava da lojinha, com dinheiro em mãos peguei alguns chicletes, uma lata de refrigerante e um pacote de biscoitos de cachorro – eu não sei por que vendem isso aqui.
Enquanto esperava na fila, algumas pessoas me observavam. Notei pessoas na entrada, uma mulher ruiva. Seus cabelos eram num tom surpreendente de vermelho. Seus olhos castanhos flamejantes grudavam em mim, como imã. Ela era de uma altura média, suas feições eram sérias e fortes, apenas de olhar fiquei com medo.
Ao seu lado estava uma garota bem baixa, ela tinha cabelo... Azul? Tá, ela tem um cabelo extremamente azul. Seus olhos eram castanhos claros, quase mel. Suas feições eram meio infantis e ela sussurrava algo no ouvido da ruiva que apenas concordava.
Do lado direito estava um sujeito... Estranho. Ele tinha cabelo azul, como a garota. Suas feições eram misteriosas e macabras. Uma tatuagem cobria metade de seu rosto e ele olhava a garota ruiva como se fosse... Devorá-la.
Tremi e olhei novamente para frente, alguma coisa, um instinto, me diz para correr e Maya está forçando a corrente, quando olho para ela, vejo que está observando o grupo que acabei de olhar, ela está exatamente igual quando viu Sting. E a cada rosnado que ela solta fico com mais medo, isso está me deixando atordoada.
— Calma Lucy. — Senti uma onda de calma. Meu pânico aumentou e eu puxei o braço, olhei assustada em direção a Lisanna. — Está tudo bem?
— Sim... Tudo ótimo. — Respirei fundo, tenho que me acalmar. — Maya, pare com isso. — Encostei em sua cabeça e ela suavizou. — Só estou meio... Assustada.
— Entendo perfeitamente. — Ela disse e me prendi em seus olhos azuis, agora que percebi, em volta de suas íris, tem uma fina raia dourada, ela parece faiscar. Prendi-me tanto nisso e acho que encarei demais, ela tinha uma expressão divertida. — O que foi?
— Você tem contornos dourados nos olhos.
É quase como hipnotizador, não consigo parar de olhar como o azul se mescla com o dourado de uma forma absurdamente... Perfeita.
— Você consegue ver? — Ela piscou algumas vezes como se isso fosse capaz de diminuir a intensidade daquilo, parecia o sol brilhando.
— Sim, está faiscando. — Assenti dando mais ênfase. Meus olhos estavam levemente arregalados e meus lábios crispados.
— Vai pagar as coisas, senhorita? — Despertei do pequeno transe, a caixa mascava um chiclete e parecia extremamente entediada.
— Ah, sim. — Deixei uma nota de vinte dólares em cima do balcão. — Não precisa de troco. — Saí da fila carregando as coisas.
— Deixou uma gorjeta de aproximadamente dez dólares? Nada mal.
Sorri em sua direção.
— Ótimo. Ela está trabalhando duro. — Ela me olhou ironicamente. — Sim, ela tem trabalho em mascar chiclete para contrair caries. — Ela gargalhou com isso.
Enquanto andávamos em direção á saída, senti meus nervos se acalmando conforme Lisanna gargalhava alto, será que todos naquele ônibus tem poder sobre mim?
Senti uma mão gelada – congelante – tocando meu braço. Maya rosnou um intensamente. A mulher encarou os olhos fortes e decididos de Maya, mas ela não recuou. Ficou em posição de ataque, rosnando e com as costas eriçadas.
— Você é quente. — Uma voz forte e feminina surgiu. Olhei na direção da voz e a ruiva me olhava fixamente. Agora percebi, sua pele é pálida. Seus lábios estão pintados num roxo intenso e seus olhos faíscam. — Muito quente.
— Sim, e você é gelada. Pode me soltar? Por obséquio? — Ela me encarou por um momento. Seus dedos frígidos apertaram a pele do meu braço. — Por favor. Está me machucando.
Maya se pôs entre mim e ela.
— Larga ela, Erza! — Lisanna disse, sua voz estava quase em pânico.
— O que você é, garota? — Ela perguntou. Senti meu sangue fervilhar, ela pensa que é o que?
— Solta. A. Merda. Do. Meu. Braço. — Eu disse pausadamente. — Entendeu, meu bem? Ou quer que eu soletre? — Ela apertou ainda mais meu braço e sua pose se tornou desafiadora.
— É corajosa... — Ela disse numa voz de deboche.
— Erza, larga a menina! — disse a baixinha que, além de ter o cabelo azul, tem uma voz fofa.
— É bonita... — Ela continuava falando, alheia a todos. — O que você é?
— Larga! — Puxei minha mão, mas ela não largou. Meus músculos latejaram.
— Não. — Sua voz era debochada, odeio pessoas debochadas, odeio pessoas metidas, isso me lembra coisas desagradáveis.
— SOLTA! — Minha voz saiu quase como um rugido.
Puxei meu braço bruscamente impulsionei o corpo dela para trás. Ela se moveu um metro e largou meu braço, minha pele estava roxa. Maldita. Senti meu sangue correr numa extrema velocidade. Maya estava de frente para ela, na minha frente, como se me protegesse.
— O que está acontecendo aqui? — Vi Mira andando em nossa direção, ela estava na porta de entrada. Ela me olhou surpresa.
— Reconheci o cheiro. — Quando o homem azulado falou, juro que quase me cheirei, estou fedendo?
Não estava entendendo nada.
— O que estava acontecendo aqui? — Mira voltou a falar, exigindo uma explicação.
Voltei a mim e meu coração estava batendo bem forte.
— Essa maluca agarrou meu braço, e estava me perguntando "quem eu era". Estava me machucando.
Segurei meu braço, ele estava dolorido, mas não estava mais roxo, nenhuma marca, nada.
— Erza, isso é verdade? — Mira pareceu dura e por um momento pude ver o mesmo contorno que Lisanna tem em seus olhos nos dela, só que numa intensidade bem maior, eu estou quase que hipnotizada.
— Sim. — A ruiva deu nos ombros. — Estava curiosa. — Ela me encarou, seus olhos estavam normais. — Ela é ilegível. — Suas sobrancelhas se arquearam em minha direção e eu me senti nervosa por um momento, eu podia ver dentro dos seus olhos que havia algo muito errado do qual eu não tinha conhecimento.
— Não estou entendendo nada.
Estou muito – extremamente – confusa.
— Anjo, você entenderá no internato, sim? Vamos para o ônibus? — Mira disse e eu assenti. Puxei a guia de May, ela ainda estava nervosa.
— Maya, junto. — Ela andou e se emparelhou com minha perna, andei em direção ao ônibus, meu braço não está mais dolorido e muito menos roxo, não estou entendendo nada.
O ônibus estava vazio. E eu agradeci por isso, me sentei no banco em que estava anteriormente, por alguma razão não estou conseguindo me acalmar, talvez pela sensação de nervosismo com a qual me senti em tê-la me encarando ou então porque meu sangue continua fervilhando ou pela curiosidade para saber o que está acontecendo, essa coisa que todos falam da qual eu não faço a mínima ideia. Respirei fundo me concentrando num único ponto perto de mim, mas nem isso adiantava.
Se eu estivesse em casa, deitada na minha cama, nada disso estaria acontecendo, se minha mãe não fosse tão... Estou com ainda mais raiva.
Segurei a lata de refrigerante e dei um longo gole, estava me sentindo muito estranha, nunca me senti assim. Respirei e expirei. Não consigo me acalmar, tomei todo o resto do refrigerante e apertei a lata tão forte que ela ameaçou. Minha mão começou a sangrar, mas nem me importei. Lisanna se sentou ao meu lado e cobriu minha mão com um pano.
— Meu Deus. Lucy! Acalme-se.
— Não consigo. — Respirei fundo e ela apertou meu braço.
— Já estamos saindo daqui, calma. — Ela enrolou minha mão, e perdeu a voz por um segundo. — Nossa.
— O que foi? — Olhei para minha mão, ela não tinha nada. Suspirei. — Sempre foi assim, sempre fui taxada como a esquisita, é normal. Tenho uma cicatrização bem rápida, mas parece que ficou muito mais rápida nos últimos meses.
— Quantos anos você tem? — Seus olhos estavam avaliativos e me olhavam atentos enquanto eu processava a pergunta que ela acabara de me fazer.
— Fiz 17 dois meses atrás. — Lisanna ofegou. — O que está acontecendo?
— Nada, acalme-se. — Ela repetiu e como se aquelas palavras tivessem poderes sobre mim eu parei de sentir tudo, respirei aliviada.
— Quem aquela garota acha que é?
Lisanna revirou os olhos.
— A Erza nunca foi um exemplo de menina. — Ela guardou o pano que pôs em minha mão. — E ela não é de todo ruim, só estava meio nervosa, ela não se dá bem com pessoas novas.
— Isso não significa que ela possa sair puxando o braço dos outros, aquilo foi grosseria. — Suspirei. Maya me olhou. — Quer biscoitos? — Ela pôs a língua para fora, peguei uns biscoitos e fui dando um a um em sua boca.
— Ela te acalma não é? — Olhei confusa para Lisanna. — Maya, ela te acalma não acalma?
— Ah, sim. Muito. Quer dizer, ela me lembra meu pai e isso me acalma, mesmo que ele não tenha sido um grande exemplo de pai. Antes de ele nos abandonar era um ótimo pai, mas depois, não foi um grande exemplo, entende?
— Não muito bem, mas compreendo sua situação, seu pai deve ser um homem e tanto.
— Sim, ele é. Mas eu nunca entendi porque ele nem ao menos entrou em contato. — Respirei fundo. — Só sei que ele está vivo pela minha avó.
— Sua avó é legal?
— Senhorita Lina? Perfeita. — Sorri. É bom falar da minha avó. — Ela é um exemplo de mulher para mim, teve apenas um filho e trabalhou bastante na educação dele, mesmo que ocorreu um deslize em suas últimas atitudes. Ela não queria que eu viesse. Mas minha mãe, sempre, consegue o que quer, ela tem um poder muito grande de persuasão, mas isso, como você pode notar, nunca funcionou com meu pai. — Suspirei. — Minha avó é um exemplo de velhinha.
— Estamos prontos para sair? — A voz de Laxus ecoou pelo ônibus. O resto das pessoas entrou pela porta. Uns que nunca tive contato e então o garoto loiro denominado Sting entrou, ele sorriu e eu ergui minha sobrancelha num cumprimento. E então Erza foi para seu lugar.
Não que eu sinta uma antipatia por ela, mas meu sangue ferveu e Maya resmungou quando ela me olhou. Seus olhos não faiscavam mais, mas tinham uma grande curiosidade, não entendo. O que eu sou? Loira? É a única resposta plausível que posso pensar no momento, tenho que ignorar isso por agora.
— Está animada para conhecer o internato?
Olhei na direção de Lissana. Animação não é o adjetivo que define muito bem o que estou sentindo no momento, está mais para desânimo total, ou então uma intensa curiosidade para saber do que as pessoas tanto falam.
— Hum, talvez curiosidade. Quero saber em qual quarto irei fica e com quem. — Ela riu. — O que foi?
— Você vai entender.
Revirei meus olhos, estou cansada disso. Mas resolvi não discutir mais.
[...]
Ás vezes eu me pergunto até que ponto a vida pode ser cruel com as pessoas. Não acho que seja uma dádiva viver nesse mundo, muitas das pessoas foram corrompidas ao mal ou então tem o prazer de alienar os outros com bobagens e coisas que a população não precisa.
Como por exemplo, quando uma criança entra no mundo do crime, ás vezes, essa criança não teve alternativa a não ser fazer isso, pode ser por necessidades financeiras ou porque um parente está adoecido, ou então porque ela tem tendência á esse mundo cruel. Essa criança, um dia na vida, foi pura, não entendia nada sobre o mundo e a vida – sempre cruel – forçou-a a uma realidade que ela não queria, mas foi concretizada.
A vida é um instrumento que nos faz sofrer, nos faz pensar. Por muitas vezes pensei em dar cabo a minha, afinal de contas, eu não era nada mais que mais uma vida nesse mundo cruel... Mas então eu perdia a coragem. Por quê?
Nunca fui uma das garotas mais corajosas do mundo. Tenho medo de coisas que a população em geral não tem, como por exemplo... Abelhas. Eu morro de medo de abelhas. Ou então escuro, pode ser infantil, uma garota de dezessete anos com medo do escuro, mas sim, eu tenho pânico a qualquer ambiente que esteja escuro.
A vida é uma caixinha de surpresas, não temos certeza de nada, muito menos da morte. Não sabemos se vamos ser atingidos por carros em alta velocidade ou se você vai se desequilibrar na caminhada e cair no meio da pista. Pode haver uma chuva de meteoros, abalos sísmicos, atividade vulcânica... O fato, é que nem ao menos da morte temos certeza.
Então, para que viver?
Para alimentar a esperança da sociedade de que um dia, tudo será bom, tudo será um paraíso. Não sou burra e muito menos cega para enxergar o que tenho em minha frente, a sociedade não está melhorando com o passar do tempo e dos anos, na verdade está piorando gradativamente durante todo o processo estúpido da vida. As pessoas matam os outros por motivos fúteis, as pessoas se matam por motivos fúteis. E isso alimenta ainda mais a pergunta "para que viver?"
Se todos nós nos matássemos e matássemos todos os arquivos e qualquer orientação de que um dia esse lixo de população existiu, talvez pelo mesmo processo da primeira vez, haja outra espécie de ser humano, talvez mais avançada, ou até mesmo igual com índoles melhores. O que eu não entendo é que, essa sociedade um dia também vai para os mesmos caminhos dos padrões em que vivemos hoje, a não ser que haja uma explosão do sol e queime cada milímetro da terra... Sempre vai haver estúpidos, é um ciclo vicioso.
Mas se todos são teimosos em dizer que devem viver, eu sou perspicaz ao ponto de querer ficar por aqui para ver no que tudo isso vai dar, por mais que eu saiba que isso resultará numa grande catástrofe.
— Chegamos Lucy! — Lisanna disse animada.
Olhei pela janela, havia três ônibus dispostos um do lado do outro, com a mesma insígnia, eles eram brancos, muitos estudantes desciam e outros se sentavam nas calçadas. Enxerguei uma entrada de metal escrita "Fairy Tail" em dourado brilhante. Os alunos estavam com caras desanimadas e de olhos fechados, eram todos em silêncio.
Nunca vi tantos adolescentes em silêncio ao mesmo tempo. É como um bando de cupins que não comem madeira, é estranho. Como pássaros que não voam. É quase impossível adolescentes sem conversar e gritar, mas pelo visto, tudo nessa escola é... Bizarro.
Mira começou falar.
— Bem, alguns de vocês são novos e outros não. — Ela parou para respirar. — Uns sabem por que estão aqui e outros não. — Ela me encarou, como se quisesse me encaixar em uma dessas opções. Obviamente que era a segunda. — Alguns de vocês procuram uma coisa completamente diferente do que precisam.Quem não tem a mínima noção do que estou falando, siga-me. Os outros esperem os de sua raça e entrem só então, entendido?
Raça? Não entendi, na verdade não estou entendendo nada nessa porcaria de colégio, será que dá para eu voltar para casa correndo daqui?
Se minha mãe achou que me colocando nesse lugar me ajudaria de alguma forma com meus problemas, ela estava enganada, seria de maior ajuda me colocar num hospício. Porque, esse papinho todo está completamente incompreensível. Não tenho a menor ideia do que estou fazendo aqui. Sinceramente, raça?
Que eu saiba, os seres humanos não são separados por raças e muito menos por classificações, então do que eles estão falando?
"O que você é?", essa pergunta está rodeando minha cabeça á muito tempo, não entendo ao certo qual respostas eles esperam, mas, eu sei que é algo bem grande porque toda vez que penso no assunto meu cérebro dá voltas e minha pele fica arrepiada, e eu não sei ao certo se é uma coisa boa ou ruim.
Alguns se levantaram, uma menina bem baixa de cabeço azul, um menino com cabelo laranja. E outros, percebi que Lisanna, Sting e a garota gelada também, ficaram sentados. Respirei forte e me levantei, Maya veio junto.
— Mira. — Ela me encarou e sorriu. — Posso levar ela?
— Acho melhor não. — Depois ela pareceu pensar. — Deixa para lá, traga ela sim. — Assenti e segurei a guia dela bem perto de mim. — Deixem suas malas ai em seus lugares, Laxus as colocará em seus quartos. — Ouvi o loiro carrancudo resmungar alguma coisa bem baixa.
Quando desci do ônibus foi como um mar de sobrancelhas arqueadas em minha direção e um cachorro rosnando. Apenas segurei meu cabelo num lado do ombro porque estava ventando bastante.
Corri meus olhos por todos os rostos, mas não tinha nenhum conhecido. Eles pareciam surpresos com alguma coisa, ou então estavam surpresos com Maya, não sei ao certo, mas eles olhavam de mim para minha cadela e então focavam no meu rosto e isso me deixa extremamente nervosa, odeio chamar atenção demasiada.
Odiava dias de apresentações de trabalho no colégio, falar bem não significa que você está preparada para explicar uma coisa irracional para pessoas de classes menores, mas meus "colegas" de classe não entendiam isso... Odiava ter de me apresentar em uma escola nova e acima de tudo, eu odiava chamar atenção por qualquer motivo, desde a quarta série.
No primeiro dia de aula na quarta série, eu era menos anti-social, então minha mãe inventou de me arrumar bastante, eu me senti linda com uma faixa nova que ela colocou no meu cabelo, era uma faixa bonita, branca.
Eu cheguei e me apresentei, estranhando todos estarem olhando para mim com uma careta, tudo bem, eu não era muito estranha na época. Então na hora do intervalo um garoto veio falar comigo, acho que ele era de uma série mais adiantada porque ele era mais velho que eu. Ele falou "Tudo bem, Lucy?"
Eu olhei estranhando em sua direção. "Como você sabe que meu nome é Lucy?" Ele apontou para minha testa, mas eu não estava entendendo. "COMO VOCÊ SABE QUE MEU NOME É LUCY?"
Eu estava gritando no meio do pátio
Ele continuava apontando para minha faixa, eu resolvi tirar e ver, e estava escrito "Lucy"
Meu rosto ficou vermelho e eu pedi desculpas correndo para o banheiro, lembro que naquele ano eu sempre merendava no banheiro até que uma menina veio falar comigo, mas ninguém nunca mais esqueceu o episódio da faixa.
Desde então, eu nunca mais gostei de chamar muita atenção para mim mesma.
Enquanto Mira guiava um grupo pelos portões eu me virei para ela, saindo de meus devaneios, segui andando e puxando Maya, até que ela parou. Olhou para trás e como se sentisse uma presença maligna, começou a rosnar.
— Maya. — Ela resmungou e continuou parada. — Venha.
Toda vez que ela fica assim não é um bom sinal.
— O totó está zangado. — Uma voz debochada e extremamente arrepiante soou. Ergui meu olhar encontrando um homem de cabelo... Rosa. Okay, isso é novo. — O pulguento não gosta de mim.
— Maya, vem. — Quando ele percebeu minha presença pareceu tão surpreso quanto eu olhar para um homem de cabelo rosa. — Pode, por favor, não a chamar ela de "pulguento" e muito menos de "totó"? — Senti meus músculos retraírem. Mira estava bem lá na frente, os outros estavam olhando para nós e Mira continuava andando, como se não soubesse o que estava acontecendo.
— A loirinha é bravinha. — Seu sorriso me deu nos nervos.
— Maya, anda! — Encostei-me a sua cabeça, mas dessa vez pareceu não adiantar. — Meu nome não é loirinha.
— Será que você faz alusão ao seu cabelo? É burra? — Suas sobrancelhas se curvaram num ato desafiador, senti meu sangue fervilhar.
— Cá entre nós, não vamos falar sobre a cor do cabelo okay? A cor do seu cabelo não te define e a sua é bem comprometedora. — Suspirei e olhei novamente para Maya. — Junto. — Ela não respondeu. Ótimo dia para ficar teimosa.
Olhei para o cara e ele me olhava surpreso. Talvez por eu ter falado de seu cabelo? Eu só sei que, ele avançou em mim.
— Você é corajosa. — Seus olhos eram muito verdes. — Não tem medo de mim?
— Sinceramente? — Um sorriso de desenhou em meus lábios. — Não. — Minha voz saiu debochada e extremamente divertida, não era para sair nesse tom sarcástico, mas é a vida.
— Ótimo, porque você vai ficar.
Senti a temperatura subir, olhei para as mãos dele e juro que vi seus punhos ficarem vermelhos, Maya avançou, mas eu dei um solavanco em sua coleira e ela se retraiu, alguma coisa me diz que ele não está para brincadeira, mas mesmo assim não consigo sentir nenhum pingo de medo em meu corpo, sua expressão estava completamente assustadora e eu pude ver fumaça saindo dos punhos que antes estavam vermelhos, meus olhos estavam arregalados. De repente um punho enorme cobriu a mão do cara cor de rosa.
— A deixe em paz, Natsu. — A voz do loiro carrancudo. Ele estava sério, muito sério.
— Ela me provocou, Laxus.
Tsc, minha expressão assumiu uma descrença crescente, ele quem começou á implicar comigo e eu quem provoquei? Que injustiça!
— Eu? — Suspirei. — Esquece. Maya vem. Logo! Saco. — Ela se moveu e eu puxei sua coleira, ela andou á força. Nem me importei em olhar para trás, andei mais rápido para alcançar Mira. Assim que cheguei ao seu lado ela conversava com a menina de cabelo azul, ela falou quando me viu:
— Lucy, não arrume briga logo com o Natsu. Ele tem sangue quente. — Ela suspirou.
— Percebi, eu não tinha falado nada. Ele quem começou. — Bufei como um touro.
— Eu sei, escutei. Peço que quando ele te perturbar, por favor, venha falar comigo que comunicarei os de sua raça, okay?
— Mira, o que é isso de raça? — Minhas sobrancelhas se contraíram numa expressão confusa, que é o que relata meu cérebro agora, confusão.
— Desculpe, esqueci que não sabe. Em breve ficará sabendo, Lucy.
Suspirei e me afastei um pouco, as pessoas estavam umas com cara de confusas e outras com caras desinteressadas. Eu realmente quero saber o que está acontecendo aqui.
Chegamos á um enorme refeitório com mesas de madeira, o piso era branco e as mesas eram marrons, o ambiente era quase clínico. Para um internato, quanto será que minha mãe paga aqui? Será que se eu ligar e me oferecer o pagamento desse lugar em dobro ela aceita?
— Sentem-se. — Ela se sentou numa mesa e todos os jovens – uns oito – se sentaram ao redor, sentei de frente para ela. — Vocês estão aqui porque são especiais.
— Especiais? — A menina de cabelo azul falou.
— Sim. Sempre ouvimos falar que criaturas como fadas, vampiros e lobisomens não existem, mas na verdade, o verdadeiro conhecimento está em quem presencia algo parecido.
— Calma você esta falando que somos... Sobrenaturais? — Eu estava tão assustada que nem conseguia me mexer, minha mãe me meteu numa tremenda enrascada.
— Sim. — Tenho certeza que meus olhos estão bem arregalados. — Wendy, você é uma fada. — A menina pareceu bem descrente. — Por enquanto eu só sei quem você é. Os outros são daqui a pouco.
— Então tem a possibilidade de eu ser um chupador de sangue, ou então eu posso me transformar num cachorro? É isso? — Minha voz saiu debochada.
— Não existem apenas lobisomens e vampiros. — Ela estava calma.
— Onde minha mãe foi me meter. — Suspirei. — Okay, então há a probabilidade de eu não ser nada disso?
— Nenhuma. — Olhei descrente em sua direção. — Meu pai é especializado nisso.
— Eu sou o que então?
— Não sei. — Minhas sobrancelhas ergueram. — Mas vocês todos são sobrenaturais, daqui a pouco os líderes das raças vão vir até aqui com os integrantes, e então eles sentem quando vocês são de sua mesma raça, e vocês saberão.
— Como você sabe que eu sou fada? — A menina disse. Ela estava calma e crente em tudo.
— Porque eu sou líder das fadas. — Ela sorriu. — Eu sou responsável por todos com esse dom ou poder, como preferirem. — Ela se apoiou no banco. — Alguma pergunta?
— Porque todo mundo ficava me perguntando o que eu sou? — Perguntei. Estava realmente confusa quanto á isso.
— Porque sobrenaturais sentem outros sobrenaturais, tem energias, umas são mais intensas que outras. Maya sentiu de todos por isso ficou tão desconfortável no ônibus. Os seres humanos têm energias fechadas, fracas.
— Então a minha é fraca?
— Não. Você não tem energia alguma.
— E isso significa? — Meus olhos se arregalaram.
— Apenas os mortos não têm energia. — Ela disse numa expressão calma.
Espera... Eu estou morta?!
***Continua***
Fale com o autor