Upside Down

1 I — Prólogo


Notas iniciais
Então... Como estão? Estou muito animada com essa história, não vou amolar muito aqui, por tanto, sintam-se á vontade em comentar, favoritas, acompanhar, faça o que achar conveniente e julga que minha fict merece, certo? Obrigada por estar lendo, acima de tudo, quero compartilhar minhas ideias com vocês, meu leitores. Amo responder á comentários, e me esforço para responder todos no mesmo dia... Não irão ficar no "vácuo". Boa Leitura! Prólogo, edição: Ok

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"Não se preocupe, não se preocupe, criança
Veja, o céu tem um plano para você
Não se preocupe, não se preocupe agora." — Don't You Worry Child (Swedish House Mafia)

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I — Prólogo

Meu rosto ficou quente devido aos raios de sol que entravam pela janela que por alguma razão estava aberta, eu me lembro de tê-la fechado antes de dormir, que estranho.

Fiquei fitando o teto por um tempo. A cor amarela mesclava com algumas rachaduras e marcas d’água, aquela cor desgastada me lembrava muita coisa, inclusive meu pai que estava sumido por tanto tempo, dois anos para ser mais exata.

Não tinha a mínima hipótese de a minha vida voltar a ser como era antes e o que eu mais temia estava se realizando, minha vida passou de perfeita para um estado crítico. Não que eu estivesse reclamando, eu tinha saúde. Mas, falando sério, a quem eu quero enganar? Eu estava reclamando, sim. Na verdade eu estava quase implorando que tudo voltasse á ser como era antes.

Eu não reclamava da minha mãe e nem do meu pai, mas foi tudo tão rápido... Tão enervante que até agora eu não tive tempo para reorganizar minhas ideias, eu estava há mais de dois meses dentro do quarto, escutava minha mãe batendo na porta. Às vezes ela arrastava as costas pela madeira e eu escutava seus soluços, aquilo fazia com que meu coração chorasse junto com ela, meu interior se contorcia na ideia de vê-la chorando. Mas minha mãe nem se quer pensou na dor psicológica que ela me impôs, e quando eu precisava de um abraço, ela simplesmente resolveu viajar a negócios, me deixando sozinha, desolada.

Aí, vieram as complicações. Eu não gosto nem de pensar. E á cada vez que me lembro das palavras e atitudes que irromperam meu coração a chorar, eu sinto um bolo em minha garganta.

Acariciei minha cadela. Ela se enfiou debaixo das cobertas e esfregava o focinho molhado em meu braço. Seu tamanho estava desproporcional ao comprimento da minha cama, quase que me derrubando da mesma.

— Maya! — Ela se apoiou na cama e me olhou com a cabeça levemente arqueada para o lado direito. — Sua vaca! — Ela soltou um latido como se quisesse me convencer que ela era um cachorro. Bufei e peguei meu celular na escrivaninha. Eram oito da manhã.

— Lucy... — Escutei a voz da minha mãe. Estava séria. — Preciso conversar com você. Por favor, desça. — Ponderei se desceria ou não, decidi pela última opção. — Não estou pedindo, é uma ordem! — E então escutei ela se afastar, minha mãe nunca tinha falado comigo daquele jeito.

Resolvi acatar sua ordem e me vesti com a calça jeans que estava em cima da cadeira ao lado da porta.

Maya passou por mim como um furacão e ficou na porta esperando que ela abrisse, sua expressão era animada por me ver sair do quarto, pobre ilusão.

— Não se anime. — Resmunguei.

As escadas nunca pareceram tão longas. Quando cheguei à sala, minha mãe estava sentada no sofá com um homem muito bonito, que aparentava ter por volta dos 40 e tantos anos, olhando em direção a um álbum de fotos junto com ela.

— Acho que ela vai gostar. — Layla levantou os olhos para mim, vi um brilho de empolgação em seu olhar e em meu interior tive um terrível pressentimento. Como se tudo tivesse se desligado e eu fosse a única a me mexer. — Oh, oi querida. — Eu vi emoção no olhar da minha mãe. Talvez pelo fato dela não me ver muito morando na mesma casa que a minha.

— O que aconteceu? Quem é ele?

— Esse é o senhor Strauss, ele está aqui para me mostrar como são as imediações do internato Fairy Tail. — Internato? Meu interior se revirou e senti meus olhos marejarem.

— Internato? — Maya passou por mim como se me obrigasse a sair de sua frente. Ela correu para fora.

— Sim, é ótimo.

— Eu não vou para um internato.

— Vai e ponto.

— Papai sabe disso? — Os meus olhos brilharam e eu tive a sensação que seria melhor eu não ter perguntado.

— Lucy, seu pai nos abandonou. Se convença disso. Olha, é melhor para nós duas, você não precisa ficar sozinha quando eu for viajar e pode sempre vir para casa me visitar no fim de semana, e eu posso ir ver você também. Tenho ótimas impressões. — O bolo no meu estômago pareceu insuportável. Mas alguma coisa que eu via na expressão da minha mãe... Ela não ia desistir. Era como destinação.

— Não. Eu não vou.

— Eu estou cansada de você ficar trancada dentro do quarto. — Rezei para que ela não completasse. —... Você nem parece mais minha filha. — Aquilo doeu em meu interior. Não pelo tom magoado dela, mas também pelo olhar.

— E Maya? — Ela se virou para o homem. — Esse internato aceita animais de estimação?

— Sim, a Fairy Tail é uma família. — Algumas coisas nas palavras calmas do homem fizeram com que meu interior se acalmasse, como uma droga. Quando olhei nos olhos castanhos do homem, vi um brilho de compreensão. Só não entendi o porquê.

— Se minha mãe não quer minha companhia, não vejo nada demais. Tudo bem. — Minha voz saiu fria. Quase áspera.

— Não é isso Lucy... — Ela tentou dizer, mas apenas segui pela porta da frente. Vi o corpo preto, branco e alto de Maya se movendo pelo jardim. Alguma coisa naquela cena me parecia muito familiar. Faz bastante tempo que eu não aspiro ar fresco. Queria que minha mãe viesse atrás de mim, mas ela não veio.

Maya veio saltitante e se juntou ao meu lado, ficando no meu encalço, apenas me sentei na varanda enquanto ela se deitou aos meus pés.

Porque eu tenho a impressão de que ir até esse lugar não é a melhor ideia do mundo?

[...]

Minha calça era clara e a blusa preta, meu cabelo estava tão rebelde que um rabo de cavalo foi a melhor opção e Maya também não parecia de bom humor, bufava á toda hora, mas como se ela soubesse que eu necessitava de companhia ficou em meu encalço o dia todo.

E de manhã se aconchegou em mim quando um choro sofrido saiu dos meus lábios, ela ficou emitindo sons como se estivesse chorando junto comigo, ela é minha irmã. Sorri com o pensamento. Era isso que o papai dizia. "Papai", essa palavra tem tantos significados expressivos que quase ninguém entende, mas até agora ele não tinha entrado em contato, mas estava na esperança dele me tirar daquele internato.

Eram duas da tarde enquanto eu olhava para a paisagem calma do bairro, era um lugar legal, mas eu sentia como se nunca mais fosse voltar.

— Lucy, está me ignorando? — Ela me olhou pelo retrovisor. Maya estava com a cabeça apoiada em meu colo e me encarou também, como se me passasse conforto.

— Não. Só não quero falar nada. — Dei nos ombros. Minha mãe sempre odiou quando meu pai falava isso, e infelizmente – para ela – eu puxei muito mais ao meu pai do que ela gostaria.

O ônibus estava estacionado na praça central. Graças aos Deuses não tinha quase ninguém, mas quando cheguei perto percebi que tinha poucas pessoas. Que não pareciam estar por lá vistas de longe.

Encarei uma mulher albina do lado de fora do ônibus, ela estava com uma prancheta na mão e seus cabelos cinza iam até a cintura, ela não aparentava ter mais que trinta anos, mas algo em sua expressão demonstrava tanta sabedoria que por um segundo cogitei a idéia de que fosse mais velha que minha mãe. Ela estava concentrada em alguma coisa, então não viu o carro parando ao seu lado. Quando ergueu o olhar, sorriu. Segurei-me para não revirar os olhos e bufar.

— Seja amigável. — Agora eu bufei. Prendi a guia em Maya, por mais que ela seja dócil, o seu tamanho assusta ás vezes.

— Claro. — A ironia era quase palpável em meu tom de voz.

Abri a porta traseira do carro e sai segurando Maya, a corrente ficou frouxa e ela ficou andando ao meu lado como se fosse adestrada, por mais que eu nunca tenha posto nem tentado impor limites a ela.

Peguei a pequena maleta com a outra mala grande, um homem que mais parecia um armário pegou de minhas mãos e levou até o bagageiro. Respirei fundo e expirei.

— Olá, Lucy, certo? — Assenti. Ergui o olhar e vi que tinham alguns olhares direcionados á mim pelo vidro do ônibus. — Meu nome é Mirajane. Sou instrutora do internato Fairy Tail.

— Olá. — Não senti a necessidade de cumprimentá-la com mais, nem a conhecia. Suas sobrancelhas brancas arquearam em minha direção e eu me senti fragilizada pela surpresa em seu olhar.

— Hum, é Layla Heartphilia, não?

— Layla Reyes. — Ela disse o nome de solteira e aquilo me fez bufar.

— Olá, Sr. Strauss explicou tudo, não? — Minha mãe assentiu. Quando ela se virou para mim vi a melancolia em seu olhar. Não. Ela não vai fazer cena.

— Tchau mãe. — Ela arqueou a sobrancelha num ato choroso e magoado. Aquilo apertou meu coração e eu quase cedi. — Nos vemos em breve. — Minha voz estava bem mais suavizada.

— Tchau querida. — Não que eu quisesse abraçar ela. Mas quando ela veio eu estava num conflito interno e acabei apertando ela contra mim, sentindo um aperto no coração. Eu poderia estar com raiva dela, mas ainda a amava.

— Tchau mamãe.

— Eu te amo, sabe disso, não sabe? — Aquilo estava soando incrivelmente como uma despedida definitiva. Eu não quero ir. — Sabe que eu não tenho escolha, não sabe?

— Mãe, me leve para casa, por favor. Eu quero ficar aqui. Com você. — Meus olhos arderam e Maya se esfregou em meus pés como consolo. Minha mãe hesitou e apenas respirou fundo.

— É melhor para você. — Respirei, secando as lágrimas. Não, o melhor para mim era ficar com ela.

— Tudo bem. — Me esforcei para minha voz não sair magoada, mas saiu. Muito. Assustei-me quando minha mãe deixou muitas lágrimas rolarem. Aquilo doía nela também, mas doía mais em mim.

— Desculpe a intromissão. — A mulher albina se meteu. — Vamos? Estávamos esperando por você. — Mirajane acariciou a cabeça de Maya que se aconchegou em sua mão.

— Claro. — Apenas entreguei a mala que tinha em mãos ao homem que pediu. Ele estava carrancudo. Segui a mulher para dentro do ônibus, nem precisou eu chamar Maya, ela veio instantaneamente. Olhei por cima do ombro enquanto minha mãe secava as lágrimas que caiam dos olhos. — Tchau mãe.

Ela acenou com a cabeça de leve. Aquilo magoou, eu ainda tinha a esperança dela me dizer que ia me levar de volta para casa. Mas ela não fez isso, nem esperou eu entrar no ônibus para acelerar o carro, ela finalmente estava livre. Esse pensamento fez com que meu coração falhasse uma batida. Senti uma mão em minhas costas e uma calma me afligiu.

— Vai ficar tudo bem, anjo. — A mulher chamada Mirajane disse. E eu estranhei por sentir tranquilidade. Maya recuou, olhei em sua direção, ela me encarava com um olhar suplicante.

— Maya? Vamos! — Ela se sentou no chão como um animal contrariado. E ficou lá, encarando a porta do ônibus. — Vamos garota! — Seus olhos chocolates estavam com medo. — O que foi? — Olhei para os lados não vendo nada. — Maya... Venha! — Ela soltou um choro parecido com o que ela soltou hoje de manhã quando eu chorei, senti meu coração apertar. — Maya. Vem! — Andou um pouco, mas parou novamente, olhei para a direção onde ela olhava e vi que ela olhava para todos assustada.

— O nome dela é Maya? — A mulher perguntou e eu assenti estranhando o comportamento dela. — Vamos, Maya. — Quando ela encostou em Maya, ela se contorceu e se afastou do toque. Mirajane pareceu inconformada.

Pus a mão na cabeça dela e afaguei.

— Calma. Eu estou aqui. — O olhar dela pousou em mim e ela se enlaçou em minha perna, mas começou a andar. Respirei aliviada. Mirajane parecia inconformada quando encarou minha testa, mas não disse nada, apenas sorriu.

— Você se dará bem aqui. — Suspirei achando meio impossível porque eu não queria estar aqui.

Todos os pares de olhos dentro do ônibus se viraram para mim. Ótimo! Agora sou completamente o centro das atenções.

— Sente-se ali. — Ela apontou para um lugar atrás da cabine onde o motorista se sentava, agradeci mentalmente e lhe ofereci um sorriso mínimo. Sentei-me no banco ignorando e não olhando para ninguém daquele ônibus, Maya parecia amedrontada e se enfiou entre minhas pernas com as orelhas abaixadas.

— Maya. O que está acontecendo? — Ela apenas lambeu meu joelho que estava sob a calça jeans. Meu celular apitou e uma raiva crescente tomou conta do meu corpo.

"A esquisita está fora, adeus, trouxa"

Suei frio, tremi. E senti alguém me olhar, eu sabia que todo mundo estava me olhando. A inspetora estava do meu lado e pôs a mão na minha cabeça.

— Está tudo bem, anjo? — Dessa vez a calma não me dominou.

— Tem como minha mãe ligar para o colégio? — Ela assentiu. Minha voz estava raivosa e meus nervos estavam latejando. Abri a janela do ônibus e joguei meu celular a muitos – uns cinquenta – metros de distância e respirei fundo. Como ela tinha meu número?

— Anjo, acalme-se. — Respirei fundo e dessa vez a calma me tomou, e eu apenas inclinei a cabeça em direção ao banco. Olhei pelo ombro e todo mundo me olhava, que inferno!

— Estou calma, sou a personificação da calma. Estou bem. — Maya lambeu minha mão e apenas suspirei ainda mais olhando para a mão da inspetora pousada em meu braço, ela estava sentada ao meu lado. — Como é seu nome mesmo?

— Mirajane, chame-me de Mira. — Ela sorriu e eu concordei.

— Desculpe Mira. Por não ter falado com você direito quando cheguei, estou passando por alguns momentos ruins. — Ela me olhou com compreensão. E quando olhei em volta eles olhavam para mim com as sobrancelhas arqueadas. Apenas suspirei. — Como é o internato? — Por mais que eu falasse baixo, tinha a sensação que todos estavam escutando... Isso era estranho. Ela sorriu e me tocou novamente como se lesse meus pensamentos de que eu necessitasse dessa calma que ela me passa.

— Oh, o internato fica num local reservado, temos uma cachoeira e lagos, riachos. Florestas, na verdade, ele fica no meio de uma floresta.

— E isso não é perigoso? — Notei o medo em minha voz e ela me ofereceu um sorriso tranquilizador.

— Não, temos sistemas de alarmes. Não se preocupe com sua segurança. — Ela apertou meu braço amigavelmente e vi que Maya estava dormindo com uma orelha em pé. — Você dormirá numa cabana com três quartos e lógico que, três meninas serão suas companheiras. — Um pânico tomou conta do meu rosto e ela soltou uma risada. — Ninguém vai te morder. — Tive a impressão de ouvir umas risadas atrás de mim, mas apenas ignorei.

— Eu sei. Só não estou muito... Hum, acostumada. — Ela assentiu, parecia saber de tudo. — Minha mãe conversou com você?

— Hum? Não. — Ela disse e eu me senti confusa, por que ela me olhava como se soubesse todos os meus problemas?

— Tem certeza? — Arqueei minhas sobrancelhas, ela me olhava e me confortava como se soubesse de todos os meus problemas e os compreendesse.

— Sim, eu não cuido da admissão dos alunos, é o senhor Strauss, ele é meu pai. Eu cuido dos alunos quando já estão lá... — Ela disse com uma calma fora do comum, não me admira que seu toque me acalme de tal maneira que eu desejasse que ela me tocasse toda hora, e como se lesse meus pensamentos, sua mão pousou em meu braço. Arqueei minhas sobrancelhas em direção a sua mão. — Ficará tudo bem, eu entendo a situação dos meus alunos.

— Como faz isso? — Ela me olhou quase como confusa, mas não me convenceu.

— O que? — Sua voz transparecia calma, mas de alguma forma, eu sentia que ela estava mentindo.

— Isso. — Apontei para sua mão em meu braço. — Essa calma. — Ri pelo nariz. — Deixa para lá, devo estar louca, fiquei tanto tempo dentro do quarto que daqui a pouco vou estar vendo o papai Noel voando pelo céu. — Mira me olhou com certo humor no olhar, mas eu podia ver que seu olhar demonstrava surpresa... Só não entendo o porquê.

— Tudo bem. É compreensível, espero que nos tornemos amigas. — Ela disse e parecia bem sincera. — Por hora tenho que ficar com Laxus. — Franzi a sobrancelha para ela. — Ele. — Apontou para o "loiro carrancudo" que acabara de se sentar bufando no banco da frente.

— Ah, tudo bem. Eu estou acostumada a ficar sozinha. — Ela me olhou hesitando em levantar, eu mesma pude notar que minha voz saiu triste e magoada, o que está acontecendo comigo, afinal? — Está tudo bem mesmo. Pode ir. — Ela apenas assentiu e levantou.

Passei a mão pela testa sentindo minha cabeça latejar e por alguma razão senti meus olhos acumulando lágrimas que ficaram escondidas desde que eu abracei minha mãe, mas não permiti que elas caíssem. Não só porque quando eu choro, meu rosto fica completamente vermelho, minhas pálpebras ficam inchadas, meus olhos vermelhos e meu nariz dobram de tamanho... Era por meu próprio orgulho. As pessoas ainda me olhavam e isso de certa forma era desnorteante.

Encostei minha testa no vidro enquanto via o ônibus se afastando lentamente do meu último contato com o espaço que eu confortavelmente chamei de lar durante a minha vida toda, pelo menos até os últimos meses.

Respirei fundo e minha respiração embaçou a janela, rabisquei algumas letras, como "L" "H" ou um desenho como uma árvore ou flor. Mas como se um sentimento de derrota tomasse conta de mim escrevi "Z".

Eu não acredito que ainda penso nele, não fui capaz de odiá-lo, mesmo depois de tudo que acontecera, mesmo depois de me sentir humilhada e maltratada, eu não conseguia odiar, não conseguia guardar rancor e, segundo minha mãe, essa era uma das minhas melhores "qualidades". Ah, como eu queria ficar rancorosa a ponto de dar um soco no nariz dele naquele dia.

Mas os momentos de raiva são quando eu não quero, começo a suar frio e uma sensação de que posso levantar um caminhão me passa a mente, mas quando eu quero ter força suficiente para sair correndo... Nunca acontece.

Naquele dia minhas pernas travaram enquanto eu via o corpo daquela vagabunda – aquela me mandou a mensagem – se movendo em cima do corpo dele como um pedaço de metal sendo atraído pelo imã, ainda tenho a capacidade de escutar todos os sons, todos os gemidos nojentos que ela murmurava.

Palavras como "Eu avisei", "Canalha", "Vamos sair daqui, Lucy", sempre vem a minha mente. Naquele tempo eu não reconheci, mas agora, vejo que tinha que ter saído correndo. Ele se virou e proferiu aquelas palavras que me deixaram tão abalada que eu queria estar morta ou em estado vegetativo, e acredite, eu me senti um verdadeiro lixo.

O fato é que, quando se é adolescente, principalmente uma apaixonada – pelo menos é o que você acredita – você não enxerga um palmo a frente do nariz, não escuta num raio de 600 quilômetros e não acredita em seu corpo avisando-lhe para sair da enrascada. Quando se está desse jeito chega a ser perigoso, e isso, certamente, deve-se ao fato de uma palavra com apenas quatro letras inofensivas – a vista normal. Mas têm tantos significados, tanto léxicos, tantas probabilidades... Que fica quase impossível imaginar que a simples junção de quatro letras possa dilacerar seu coração e resumir sua vida num nada, numa coisa que nunca deveria ter ocorrido. "Amor" não é uma coisa bonita como todos imaginam.

O amor corrói você por dentro. Te transforma num pedaço de poeira voando ao vento, sem direção. Te faz um objeto que não tem vontade própria. Talvez sejam os genes que nos levam a nos apaixonar, mas às vezes eu fico me perguntando se quando você se apaixona é porque fez algo muito errado e Deus resolveu te dar um castigo te transformando em uma pessoa cega, surda e muda. E á cada concepção de amor que passou por minha vida, tanto por experiência própria quanto por experiências com pessoas próximas... Eu vejo o quanto essas quatro letras podem ter um entendimento incorreto por muitas pessoas e pode ser uma palavra maligna, capaz de destruir uma alma.

Ainda tiveram os acontecimentos que se passaram depois, a dor física, o medo que senti... Não gosto nem de lembrar o que teria acontecido naquele dia caso Maya não me protegesse.

Respirei fundo e apaguei aquela letra. Não que eu me sinta coagida apenas por uma letra, mas apenas por ler ela me sinto vazia, como se eu devesse sentir algo a mais, mas eu não consigo sentir. E eu sei o que deveria sentir: ódio e rancor. Mas eu não sinto. Apenas uma mágoa bem fraca se instala no meu peito ás vezes, mas não passa disso, um sentimento passageiro, eu deveria sentir desprezo por ele, um ódio mortal o que ele fez não é aceitável. Não foi uma coisa como perder um brinco ou um anel na qual você não tem culpa, o que ele fez... Não tem perdão. Por mais que me sinta no dever de perdoar e isso só me deixa ainda mais deprimida. Aquelas palavras... Nunca mais vou me esquecer, preferiria que um caminhão lotado de âncoras me atingisse em cheio e me matasse... Mas sonhos quase sempre não se realizam. E toda dor física que veio depois só fez com que eu desejasse que três desses caminhões manobrassem em cima de mim.

Maya passou a cabeça por meu joelho e eu sorri. Seus olhos atentos me observam como se ela fosse minha proteção... Meu anjo da guarda. E eu sempre acredito nisso.

— Com licença? — Uma voz doce me chamou atenção, alguém estava se sentando ao meu lado. — Lucy, certo? — Olhei para a menina com cabelos brancos, ela era muito – idêntica – parecida com a instrutora. Seus olhos azuis cintilavam e ela me olhava com certa curiosidade, e o curvar de sobrancelhas que ela exibia como todos me deixou apreensiva. Assenti positivamente. — Meu nome é Lisanna.

— Prazer. — Disse e sorri. Não um sorriso monstruoso, foi um sorriso simpático... Eu acho. Ou melhor, eu espero.

— Sabe, não temos muitos alunos novos, a Fairy Tail é uma escola bem reservada e fico feliz por a aluna nova ser uma mulher, ultimamente só estão se juntando homens á instituição e isso é...

—... Frustrante? — Ela me olhou e seus olhos brilharam. Não sei como fiz isso, as palavras apareceram em minha mente.

— Exatamente. — Ela sorriu, o sorriso exatamente igual ao da instrutora.

— Qual o problema, de todo mundo, em franzir as sobrancelhas? — Lisanna pareceu surpresa. — Quer dizer, tem alguma coisa escrita na minha testa ou algo parecido?

— Ah, você não sabe de nada.

— Hã? Devia saber alguma coisa?

— Quando chegarmos lá você vai saber, sem preocupações com isso... Por enquanto. — Lisanna sorriu. — Mas fique feliz em saber que, não. Não tem nada escrito na sua testa.

— Ah, isso me alivia bastante. — Respirei dramaticamente.

— É sua? — Olhei para onde ela apontava e me deparei com um par de olhos chocolates curiosos encarando nós duas como se entendesse exatamente o que estamos conversamos.

— Sim, Maya, essa é Lisanna. — Lisanna riu pelo nariz. — Lisanna esta é Maya. — A albina ergueu a mão e tocou a cabeça preta de Maya que lambeu instantaneamente seus dedos num sinal de carinho.

— Prazer em conhecê-la, Maya. — Ela disse rindo. Como se entendesse, Maya emitiu um som de latido um pouco baixo como se respondesse. Sorri. — Ela é adestrada?

— Não. Apenas é assim. — Lisanna pareceu surpresa.

— Ela á linda. — Sorri. Ela é realmente linda.

— Sim. Muito. — Maya lambeu minha mão. — Você é parente da instrutora? ... Hum, Mira... Eu acho? Vocês são muito parecidas.

— Ah, sim. Mira é minha irmã. — Ela sorriu. — Somos tão parecidas assim?

— Em tese... Praticamente em tudo. A única diferença é que seu cabelo é mais curto. E considerando que você está com o braço apoiado no meu. Eu estou sentindo o mesmo calor e sensação que ela provoca quando me toca. Sim, vocês são quase idênticas. — Ela pareceu perplexa.

— Hum, entendo. — Ela disse e parecia saber algo que eu realmente deveria saber.

— Tudo bem, posso parecer bem observadora quando quero. — Eu digo, jogando e apoiando minha cabeça no banco. — Não que eu diga que você é cópia dela, nada disso. — Minha voz aparentava pânico, eu tenho tendência a falar as coisas erradas na hora errada, ela riu e eu respirei aliviada.

— Relaxe. Está tudo bem. Todo mundo diz isso, estou de certa forma conformada com isso.

— Que bom. Eu tenho tendência a falar coisas desnecessárias, nas horas menos propícias. — Ela riu. — O que foi?

— Você fala palavras engraçadas. — Eu ri.

— Sim, minha mãe escreve para uma coluna num jornal, e eu sempre ajudei. Então meio que fiquei com um vocabulário extenso.

— Sério? Que legal. Sobre o que ela escreve?

— Ela é descrente de tudo. Escreve desmitificando assombrações, casas mal assombradas, mistérios que ninguém decifra. Mas sua atividade principal é desmascarar pessoas que fingem anormalidade. — Lisanna ofegou.

— Pode explica melhor?

— Ah, são como vampiros, lobisomens, fadas, elfos, essas coisas. Não que ela seja ateia ou algo parecido, quando meu... — Senti minha garganta parar. —... Pai estava morando com a gente, íamos a igreja todos os domingos, mas depois que meu pai... Hum, foi embora, meio que ela ficou desacreditada e desmascara anormalidades é sua atividade preferida.

— E... E você? — Olhei para ela confusa. — Acredita? Ou é igual á sua mãe?

— Ah, convivência gera descrença. Mas não sou obcecada como ela. Não que eu acredite que exista, mas alguma coisa dentro de mim me alerta e me força a acreditar... Mesmo que nunca tenha presenciado nada parecido. Pode-se dizer que sou meio... Fascinada com essas coisas. — Lisanna pareceu respirar com facilidade.

— Eu sou exatamente igual — Sorri, alguma coisa nessa conversa está estranha. Muito estranha.

— Fala alguma coisa de você. Seus pais?

— Ah. — Ela pareceu magoada ou algo parecido. — Minha mãe morreu durante meu parto. — Arregalei meus olhos.

— Oh, Deus. Sinto muito. Me desculpe.

— Tudo bem. Não tinha como você saber. — Ela sorriu meio que forçada. — Tudo bem mesmo. Meu pai cuidou de nós. Mira e eu. — Ela disse com uma expressão caridosa no rosto.

— Hum, minha mãe sempre foi meio distante.

— E seu pai?

— Meu pai? Ele me abandou há alguns meses, eu e minha mãe. Como se fôssemos cães sarnentos. — Maya soltou um rosnado e Lisanna olhou para ela.

— O que há com ela?

— Ah, mesmo meu pai dando ela de presente dois anos atrás, Maya nunca gostou dele e quando meu pai saiu de casa... Toda vez, quando ela escuta o nome dele e "Pai" ela fica assim, como uma velha ranzinza. Resmungando e rosnando. — Lisanna riu e eu me senti compelida a rir também.

— Dizem que os animais de estimação são o espelho de seus donos.

— Eu acredito nisso. — Sorri. — Por mais que eu não seja ranzinza... Só para constar. — Lisanna riu novamente.

— Não estou me referindo a essa parte. E sim que ela parece bem melhor que alguns cães. Eu tinha um poodle que mais parecia um mini demoniozinho. — Ri. — É sério. Ele pulava na cara das pessoas e fazia xixi nelas, como uma mangueira. Era você falar e acabava com uma mini bola de pêlos na cara e com a cara suja de xixi.

— Que nojo. — Ter essa sensação deve ser horrível.

— Que nojo mesmo. Wood nunca foi um cachorro comum. E como eu falo que o cachorro é espelho do dono...

— Espera, você não sai fazendo xixi na cara dos outros, não é? — Escutei uma risada e constatei que Mira ouvia tudo, mas tinha a impressão que todos escutavam e isso é um inferno!

— O quê? — Ela pareceu chocada. — Claro que não. Não! Que horror! Não! Não! — Ela continuou negando com as pupilas dilatadas e olhos arregalados. — Eu quero dizer que, às vezes, o cachorro não reflete ao dono. Que nojo, não! — Ela continuou negando, mas estava rindo e com uma expressão divertida misturada com nojo que resultava numa careta.

— Calma, eu estava brincando. — Disse rindo. — Não é como se eu acreditasse que você fizesse isso. — Ela pareceu pensar.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Que tipo de coisa?

— Uma coisa... Pessoal.

— Hum, pessoal? Depende.

— Do que?

— Se eu puder fazer uma pergunta desse tipo também.

— Hum, pode.

— Então faça a pergunta. — De repente parecia que todo mundo atrás delas tinha erguido um pouco a cabeça na direção dela esperando a resposta e a pergunta. Que horror!

— Quando você jogou o celular pela janela... — Senti meus músculos ficarem rijos. — Estava com raiva, quase espumando de raiva. — Assenti. — O que era tão... Perturbador para fazer você jogá-lo pela janela?

— Hum, problemas com putas que não sabem onde enfiar a... — Olhei para Mira que olhava em minha direção com uma cara desaprovadora, mas mesmo assim eu via compreensão em seus olhos. Respirei fundo. Tenho que me controlar. — Foi mal, descontrolei. Hum, tive uns problemas com um antigo... Namorado. E hum, essa garota que mandou a mensagem era para ser considerada minha amiga e... Hum, ela na verdade se transformou numa... Bolha.

— Numa bolha? — Ela pareceu chocada.

— É. Numa bolha. — Ela continuou perplexa. — Deixe-me explicar. Uma bolha é nada mais do que sabão e água. Que chega a ser tão frágil que estoura com uma ventania. No entanto, elas podem ser traiçoeiras, podem ir em direção ao seu olho e estourar lá, causando irritação. Mas também são flexíveis a ponto de permitir que um dedo á... Hum, penetre. — Acho que ela entendeu por que ficou vermelha. — É isso mesmo que você está pensando.

— Que... Legal. — Ela pareceu divertida. — Não a situação. Em outras palavras ela é uma puta.

— Em tese... Se transformou. — Ela caiu na gargalhada e por mais que tudo que tinha acontecido comigo não fosse engraçado eu ri também. — Você achou que a bolha é sua amiga e fica brincando com ela. Mas quando menos espera ela estoura no seu olho e bum! Você fica com o olho irritado.

— Ótima lógica. — Mira parecia rir também, assim como todos no ônibus, mas prefiro não prestar atenção nisso.

— Parece que todo mundo está escutando...

— Estão. — Alguma coisa na convicção dela me fez arquear uma sobrancelha, mas não falei nada.

— Então, qual a pergunta que você queria fazer?

— Se estão todos ouvindo, prefiro fazer em outro lugar. Não quero expor você á... Vergonhas, desnecessárias. — Ela concordou.

— Obrigada. — Ela disse sorrindo abertamente.

Por alguma razão sentia como se ela fosse se tornar uma grande amiga...

Notas finais
Minha principal caracteristica.: Meus capítulos terão no mínimo 5.000 palavras e no máximo 7.000 palavras. Amo capítulos grandes, caso não gostem avise-me por comentários que eu analisarei. Obrigada por não ter me abandonado no meio do capítulo e espero ver você nos comentários, beijinhos. K.