Untitled
2 I try to see but I'm blinded
Notas iniciais
Ouvi o barulho do carro do vovô, fui correndo até a porta.
- Vovô! Fui correndo em direção a ele dando um super abraço. — Que saudades de vocês, cade a vovó?
- Tá saindo do carro, sempre como uma lesma. Disse ele rindo.
Meus avós eram uma combinação perfeita, meu avô um brincalhão de 65 anos com uma cabeça de 30, minha avó uma mulher de 60 anos com um coração do tamanho do mundo.
- Vovó, como a senhora tá bonita.
- To usando aqueles creminhos que você me deu, acho que tão fazendo efeito né?
- Tão sim, com certeza.
Entramos e tomamos café juntos, conversamos como foi à viagem deles e sobre o que eles tinham feito enquanto fiquei no hospital.
O dia foi longo, mas fui dormir cedo já que no outro dia iria para a cidade cedo trabalhar.
Acordei 5 da manhã me arrumei peguei meu carro e fui para a cidade.
Na clínica chegaram mais 2 pacientes novos, 2 duas mulheres entre 20 e 30 anos, ambas em estado terminal.
Conversei sobre minha vida e sobre a delas com as mesmas, rimos bastante, são muito engraçadas, e bonitas.
Fui ver também os pacientes que já acompanho à algum tempo.
A área em que eu trabalho é diferente da que eu fiquei internada, então fiquei sem saber o que acontecia enquanto eu estava internada.
Quando pedi para Marisa a ficha dos pacientes que estou acostumada a cuidar percebi que estava faltando um, uma para ser mais precisa.
- Marisa, onde está a ficha da Eliane?
- Sara, ela descansou semana passada, não queríamos falar com você enquanto estava internada.
Fui para minha sala e chorei, na minha profissão é impossível não se apegar a seus pacientes, principalmente quando eles tem as mesmas limitações que você.
Não podemos chorar ou demonstrar nossos sentimentos em público para não comprometer nosso trabalho, mas sempre choramos e ficamos sentidos quando há uma morte.
Eliane era uma jovem de 25 anos, contraiu o HIV aos 15 de uma forma bem parecida que a minha, talvez por isso me identificasse tanto com ela.
O resto do dia foi triste e sem cor para mim, mas vi os outros pacientes, dei os remédios, conversei com eles, almocei com as meninas e no final do turno fui embora, mas antes passei na casa da família da Eliane, fiquei muito próxima deles quando ela deu entrada no hospital.
Toquei a campainha e a mãe dela foi quem atendeu.
- Sara, como você está? Soube que ficou internada.
- Já estou ótima dona Lurdes, vim conversar com vocês, posso entrar?
- Claro, à vontade.
- Eu lamento muito pelo o que aconteceu com a Eliane, só fiquei sabendo hoje, desculpem por não ter vindo antes.
- Estamos muito tristes, mas sabemos que ela agora é uma estrelinha no céu e está lá nos protegendo.
- Pode ter certeza que sim.
- Eu tenho comigo, uma coisa que ela me deu quando estava internada, vocês sabem que temos histórias parecidas, ela me deu uma foto dela com a senhora e seu marido, disse que era pra eu guardar o sentimento mais precioso que ela tinha na vida comigo, que não pude desfrutar do mesmo. Tirei do bolso a foto e entreguei para Lurdes, com uma lagrima caindo sobre ela.
- Sara, fique com ela para você, afinal foi um presente da nossa filha, se ela te deu é porque gostava muito de você. Ela disse emocionada.
- Obrigada dona Lurdes, saibam que ela se foi, mas será uma lembrança eterna para todos nós, ela sempre foi muito amada, pode ter certeza.
- Eu sei, posso te dar um abraço Sara, um abraço de mãe?
- Claro. Eu disse indo em direção a ela.
Aquele foi um abraço que há muito tempo eu sentia falta, um abraço de mãe com ela mesma disse. Tive um sentimento indescritível com aquele abraço, era uma emoção tamanha misturada com tristeza, deixei algumas lagrimas cairem, e ela também, foi uma coisa tão fraternal, tão bela que eu não tinha vontade de soltá-la.
Fui embora dando um beijo em sua testa.
Durante todo o caminho eu pude sentir o perfume dela, tinha cheiro de mãe, cheiro de amor, de doçura.
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