Untitled

3 By the white light


Notas iniciais
"A vida é o filme que você vê através dos seus próprios olhos. Faz pouca diferença o que está acontecendo. É como você percebe que conta."
(Denis Waitley)

Acordei, tomei café e fui ler um pouco. Meus avós já tinham ido para a cidade entregar as encomendas de carne.

Nunca concordei muito com a situação que meus avós matam animais indefesos para ter dinheiro, sou vegetariana desde meus 15 anos, odeio maus tratos a animais, mas é a opção deles, não posso fazer nada, infelizmente.

Lia quando a campainha tocou, achei estranho, ninguém nunca via aqui, fui atender.

Era um policial, bonito, não pude deixar de notar.

- Pois não? Disse sem entender o motivo da visita dele.

- Você é Sara?Sim sou eu, porque?

- Encontramos o endereço daqui junto com isso. Era uma foto minha, com meu nome e um papel com o endereço daqui.

- Meus avós levam isso com eles, o que aconteceu?

- O caminhão que seus avós estavam caiu em uma ribanceira aqui perto, eu sinto muito.

Fiquei sem reação, sem resposta, sem nada a dizer, as lágrimas começaram a cair dos meus olhos sem eu mesma perceber, sem eu sentir, não sabia onde estava pisando, onde eu estava, o que eu estou fazendo aqui? Isso não poderia ser verdade.

- Como assim? Como me diz, o que aconteceu? Eu disse gaguejando, chorando sem saber o que ao certo eu estava falando.

- Nós não sabemos as certo o que aconteceu, recebemos um chamado comunicando o acidente, chegamos lá e eles já estavam sem vida, nós sentimos muito, ainda não sabemos o certo o motivo do acidente, precisamos que a senhora nos acompanhe para reconhecer os corpos.

Eu não acreditava naquilo, entrei, sentei no sofá e não conseguia imaginar nada, a dor que eu sentia era bem maior que qualquer dor que eu poderia sentir, era uma dor tão grande, parecia que eu estava morrendo, parecia que meu coração estava parando de bater, não consegui digerir nem aceitar isso.

O policial gentil, entrou se sentou ao meu lado, e com uma voz suave disse:

- Eu sinto muito por isso que aconteceu, mas você precisa nos acompanhar, sei que é um momento difícil, mas isso é necessário.

- Não, você não sente, eles eram tudo pra mim, tudo eu estou sozinha agora, sai daqui, sai. Eu disse com uma mistura de raiva e tristeza, ela não poderia sentir o que eu sinto, não mesmo.

- Olha, eu vou ficar lá fora, esperando o tempo que você precisar. Ele disse saindo, fechou a porta e me deixou sozinha.

Comecei a olhar em volta, tinham tantas fotos, tantas flores, tudo aqui, absolutamente tudo lembra meus avós, subi em direção ao quarto deles, quando entrei chorei mais ainda, sentei na cabeceira da cama olhando as fotos da escrivaninha, a maioria eram fotos minhas com eles, olhei tudo como se fosse a última vez que eu veria tudo aquilo, como se fosse a última vez que eu fosse lembrar do contato que tive com eles.

Conseguia me lembrar claramente de todos os momentos felizes que passei com eles, mas não podia entender o porque disso tudo. Porque eles? Sempre foram tão saudáveis e um acidente acaba assim com a vida deles? Não podia ser egoísta ao ponto de querer me colocar no lugar deles, sei o quanto eles me amavam e o quanto sofreriam de me ver morta.

Eles sempre cuidaram tão bem de mim, nunca se importaram com minha doença, mas eu acreditava que morreria antes deles, mas minhas previsões falharam.

Me senti cegada, não conseguia ter nenhuma ação que não fosse chorar.

Desci às escadas me despedindo da casa, não sei o porque mas não queria mais voltar nela, não queria mais me lembrar de todos os momentos bons que passei aqui, pois todos eles foram embora junto com meus avós.

Fechei a porta, fui em direção ao policial e entrei na viatura, sem dizer ao menos uma palavra, sem nenhuma ação ou reação.

Todo o trajeto até o IML foi o pior trajeto que fiz em todo a minha vida, não sentia mais nada, apenas me questionava se iria conseguir passar por isso tudo ilesa.

- Aquela é a sala onde os corpos estão, se quiser eu entro com você.

- Não, eu entro sozinha. Estava com um ódio, sim ódio, vida estúpida, mundo estúpido. Fui forte o bastante para aguentar a rejeição dos meus pais, seria forte o suficiente para ver as pessoas que mais amei em toda a minha vida mortas.

Entrei na sala, tinha um médico legista lá, ele tirou o lençol de cima dos corpos.

Comecei a chorar muito, o que tinha acontecido com eles, estavam tão machucados, cheios de hematomas.

Porque, porque. Disse chorando me ajoelhando ficando na altura dos corpos.

Passei a mão na cabeça deles, decorando cada expressão deles, cada parte.

- São seus avós?

Apenas assenti com a cabeça.

- Tem mais algum parente seu que possa entrar com a papelada, você está muito emocionada, acho que você não suportará.

- Tem meus pais, vou te passar o endereço deles, agora eu posso ir?

- Pode, deixe comigo seu número, caso eu precise falar com você.

Deixei meu número e o endereço dos meus pais e fui embora, não para a casa dos meus avós, fui para a casa da Marcela, uma amiga que sempre me ajudou quando precisei.

Contei a ela o que aconteceu, ela me abraçou, disse que não precisava de me preocupar com nada, que ela estaria me ajudando e me dando apoio.

Meu celular tocou, pedi para ela atender, era o policial, ele queria a chave da casa para meus pais, que agora estavam cuidando de tudo irem lá pegar algumas roupas.

Pedi que ele vinhesse até a casa da Marcela pegar.

Passei o resto do dia sentada no sofá, apenas pensando como seria minha vida agora.

- Sara, seus irmãos tão aí. Ela disse com uma voz suave, uma voz que me passava muita calma e seriedade.

- Pode deixar eles entrarem.

Eles entraram, não estavam muito diferentes de mim, estavam chorando, me abraçaram forte, e falaram que iriam estar do meu lado sempre.

Eles ficaram a noite a madrugada inteira comigo, de manhã minha mãe ligou para eles dizendo que o velório começaria às 8 da manhã.

Não me arrumei, não tomei banho, não tinha força para isso, sempre fui uma pessoa que celebrava a vida, mas hoje minha realidade já não era mais a mesma.

Às 7 saímos da casa da Marcela, eu meus irmão e ela.

Fomos andando mesmo, o cemitério onde seria o velório e onde eles seriam enterrados era perto dali.

Cheguei, lá meus pais que eu já não via à quase 8 anos estavam lá, eles continuavam da mesma forma, como se o tempo não tivesse passado.

Eles vinheram em minha direção e me abraçaram, um abraço que eu esperei por minha vida toda, que seria um momento tão feliz, perdeu todo o seu brilho diante da situação.

Minha disse apenas algumas palavras.

- Você continua do mesmo jeito, cabelos curtos castanhos, pele clara, só está mais magra.

Não disse nada, não tinha o que dizer, acho que ela tinha se dado conta que perdeu muito tempo, e que seria difícil recuperá-lo.

Todo o velório fiquei perto dos meus amigos que iam chegando e de meus irmãos, meus pais se afastaram de mim, como sempre.

Quando tudo já estava chegando no fim, fiquei perto deles, apenas observando os dois lá, como se estivessem dormindo, uma expressão tão angelical, tão pura.

Não quis, também não tinha força para o enterro. Seria demais para mim.

Meus amigos que sempre estavam comigo me acompanharam até a casa da Marcela.

Demoraria muito tempo, e é claro precisaria agora, mais do que nunca do apoio deles para assimilar tudo isso.