Until the very great end

17 Soon I'll be sixty years old, will I think the world is cold


Notas iniciais
Música: 7 years - Lukas Graham

Henrique e Izabelly já tinham conversado com a advogada de Augusto. Cada criança que estava no Foster Care é representada por uma pessoa e ela não necessariamente precisava ter feito faculdade de direito, mas o jeito que a mulher falava com eles, eles nem perceberiam que ela havia se formado em outra coisa. Era obvio que a mulher negra, Andrea, estava unicamente focada no bem-estar da criança. E isso aliviava um pouco o casal, que sabia que a melhor escolha seria para o bem de Augusto, por mais que eles tivessem certeza que o bem do pequeno menino que agora também era apaixonado por pandas, fosse longe deles.

Andrea até brincou dizendo que se o menino era tão apaixonado por pandas que o levassem para ver um. Henrique se segurou para não aparentar desconforto ao se lembrar que ele realmente havia pensado sobre levar Leo a China para conhecer alguns Pandas, porque era lá que eles viviam, ou não?

— Seria mais fácil se vocês tivessem o apoio da família de vocês. – Henrique tremeu dos pés à cabeça. Ele sabia que pela longa e cansativa conversa que Izabelly teve com a mãe no dia anterior a decisão de adoção, não era ali que estava o problema. E sim em tentar algo com seus pais. – Eu vejo que o melhor pra Augusto é ficar com vocês dois. Veja, ele até já te chama de pai e mãe. Eu não poderia lutar contra isso. Mas nós temos que convencer o Juiz de que o melhor para Augusto não é ir embora com aquele casal que ele mal tem afinidade e só o conhecem por causa de Walter.

Sim, o casal que tentava adotar Augusto era conhecido do Walter, na verdade era amigos de uma sobrinha dele. O taxista nem tinha família por perto, por isso foi uma enorme surpresa para ele também, quando viu o interesse do casal em adotar o pequeno Panda.

— Então, como nós fazemos isso? — A pergunta veio de Izabelly. Henrique estava mudo e nem tinha tocado no seu café.

— Ok. — Andrea respirou fundo para dar a sugestão, sentando-se melhor na mesa da cafeteria em que estavam. Não era nem ético ela estar à vontade assim com eles, mas ela realmente havia visto amor naquela família. – Sugiro que voltem para o Brasil e conversem com os pais de Henrique, mostrem a eles que Augusto é seu filho e de mais ninguém. Com eles de acordo, e com os pais de Izabelly também, duvido que Juiz deixe Augusto com qualquer outra família.

— Augusto não poderia ir com a gente, não? — Izabelly perguntou com um fio de esperança na voz.

— Desculpe, mas não seria nenhum pouco viável isso — Andrea disse com pesar. — Acho difícil. Ele nem passaporte tem. E tudo bem que poderiam pedir um emergencial, mas duvido que permitissem. Acho o melhor que a viagem seja feita apenas para os dois pedirem o apoio dos pais de Henrique.

Foi uma surpresa — nem tanto, porque Andrea se parecia demais com o seu melhor amigo – quando descobriu que a representante legal de Augusto era parente de Aaron. Henrique tentou não comemorar quando descobriu isso porque sabia que era apenas mais um ponto para Andrea estar do lado deles mesmo que ela tivesse que ser neutra para o bem da criança.

— Quanto tempo?

— Não menos de um mês — Andrea comentou com um pequeno sorriso — Se der tudo certo, ainda passam o natal juntos.

Então era isso. Henrique realmente dependia de seus pais para alguma coisa pela primeira vez desde os seus 25, quando arrumara seu primeiro emprego e se tornara financeiramente independente. Ele nunca pensou que teria que contar com seu pai para alguma coisa assim. Na verdade, ele nem imaginou muitas coisas que aconteceram com ele desde que Izabelly apareceu. Perder seu filho foi uma delas.

Afinal, o ciclo da vida normalmente é seu filho ir depois de você. Era engraçado que ele tinha 30, mas ainda estava aprendendo sobre a vida. E que quando ele tivesse 60, poderia achar o mundo frio demais por causa de tudo que havia passado no intervalo de 1 ano.

Tinha medo de estar fadado a fazer Izabelly infeliz. E por mais que Henrique tentasse se mostrar animado com a ideia, cortava seu coração pensar que ele e Izabelly poderiam chorar a perda de alguém novamente.

No momento em que chegaram em casa, exaustos pela conversa que acabaram de ter, Henrique pegou silenciosamente o notebook em seu escritório e se odiou ao ver que as contas da casa tinham sido atrasadas de novo e que uma viagem para o Brasil agora acabaria ferrando com seu suporte financeiro.

Ele tinha arrumado um professor gratuito de música – graças a almas bondosas da orquestra de Izabelly –. Era um velho amigo dela que a devia favores, portanto se solicitou quando ela comentou certo dia que o marido precisava de alguém que o ajudasse com o piano. Ela sabia que a mesma poderia fazer isso, mas ela acabaria se distraindo e aulas de piano se formariam em sessões de beijos, que estavam mais presentes ultimamente do que nunca estivera.

Pensando nisso tudo que Henrique mandou seu currículo novamente para o antigo emprego e mais um monte, torcendo para que isso resultasse em alguma coisa. Alguma coisa boa, de preferência.

Com o cu na mão, Henrique comprou uma passagem para o Brasil para o mesmo fim de semana. Foram até o orfanato visitar Augusto, mas não puderam ficar muito tempo. Henrique tinha sido chamado para uma entrevista de emprego antes mesmo do voo, mas não contou isso para Izabelly.

Aliás, o menino sabia que algo estava acontecendo, mas não sabia o que, e tentou não ficar muito feliz em pensar na hipótese que seu pai e sua mãe estavam tentando leva-lo para casa, como também, tentou não ficar com muito medo ao pensar na hipótese que dizia que o casal estaria desistindo dele.

Queria só contar quando tivesse certeza de que estava tudo bem. Ela nem questionou a rapidez do marido em deixar o orfanato, imaginava o que era pôr o mesmo ter deixado o notebook ligado com o e-mail à vista para quem quisesse ler. E quando ela leu, tapou um sorriso que insistiu aparecer em seus lábios.

Ela era tão sortuda.

Henrique se esforçava, emocionalmente, fisicamente e todas as vertentes da vida que poderia existir. E cada vez ela mais tinha certeza que havia se apaixonado pela pessoa certa. Sabia que esconder as coisas dela não era algo legal, mas ela sabia exatamente os motivos que haviam levado Henrique a fazer aquilo e não o julgava da forma que fez quando ocultou de sua avó.

O dia de voarem para o Brasil chegou rápido, afinal, tinham comprado a passagem mais barata para a data mais próxima que havia disponível. Eles voariam por uma companhia aera Brasileira e chegariam no aeroporto Galeão do Rio de Janeiro no dia seguinte quase na hora do almoço, mas pelo transito do Rio, ambos sabiam que só chegariam na casa dos sogros no final da tarde.

— Está bem? — Izabelly tinha medo de voar longas distâncias. Uma coisa era um voo de 5 horas entre Miami e Nova Iorque, mas algo de 10h a 11h num avião era bastante problemático para ela, por isso ela sempre tomava um remédio antes de entrar que a faria pegar no sono e esse remédio desde que Leo fora embora, tinha se tornado de presença bastante comum em sua vida.

— Estou, acabei de tomar o remédio daqui alguns minutos sentirei sono. — Ele segurou a mão da esposa e abraçou. Quem quer que visse a cena, poderia achar que era apenas um casal se separando para irem tomar destinos diferentes um do outro, mas os dois sabiam que apenas o momento pedia para um abraço.

— Eu amo você — Henrique disse baixinho no ouvido de Belly, só para que ela pudesse ouvir.

— Eu também amo você — Essa era a maior verdade que ela poderia encontrar dentro de si. Ela o amava. E era por isso que mesmo depois de tudo o que haviam passado nesse ano, ela ainda estava ali, o abraçando para embarcarem juntos em mais uma maré de problemas sabendo que qualquer um dos dois poderia tomar um caldo a qualquer momento das ondas agitadas.

— Eu falo sério, não há nada e ninguém que poderia me fazer mudar de ideia em me afastar de você. Obrigado por ter me dado filhos e mais amor do que eu poderia pedir em ter algum dia. Nunca se esqueça disso e se um dia eu me esquecer, tenho certeza que me lembrará todos os dias.

Izabelly sabia que viajar para o Brasil estava trazendo memórias da avó de Henrique à tona, mas ela odiou a forma que aquela frase saiu da boca do marido, mas não estava afim de discussões por isso apenas fechou os olhos com força e apenas desejou que não tivesse escutado aquilo. Henrique sabendo que tinha falado merda apenas resolveu ficar quieto e com Izabelly dormindo nas próximas horas isso não foi muito difícil de acontecer, especialmente quando entraram no avião.