Until the very great end

18 Te vejo errando e isso não é pecado exceto quando faz outra pessoa sangrar


Notas iniciais
Música: Pitty - Na Sua Estante ~Enquanto o livro se passar no Brasil as músicas dos capítulos serão músicas em português~

No momento em que saíram do avião a principal diferença entre Rio de Janeiro e Nova Iorque já se destacou. O clima. Parecia que o Rio estava mais quente do que Henrique se lembrava da última vez que estivera lá, com Leo e Belly, a uns 2 anos e meio atrás. Logo que pegaram suas malas, Henrique foi procurar um taxi enquanto Izabelly ligava para seus pais para avisarem que já haviam chegado em terras brasileiras.

Já a caminho para a casa dos pais de Henrique – cuja ele não tinha avisado que vinham – foi feito em silêncio. A paisagem da cidade agora parecia ser tão diferente para ele. Dois anos se passaram da última vez que estivera ali, pareciam que haviam se passado cem.

Em determinado momento Izabelly sentiu um nó se formando em sua garganta, ao ver um menininho pedindo dinheiro para o Taxista. Seu português não era muito, mas ela era capaz de entender o que aquilo significava. E até a casa de Henrique, ela foi de olhos fechados, querendo não ver todos aqueles meninos e meninas sem uma casa, porque de pouquinho em pouquinho a gente vai perdendo a fé na humanidade.

Henrique, diferente da esposa, não conseguia pregar os olhos nenhum minuto se quer. Era para sua casa para onde estava voltando. Significava tanto que o formigamento em seu peito de saudade não passava por mais que ele já estivesse ali.

— Belly? – Izabelly abriu os olhos. Ainda estava meio lenta, talvez fosse o remédio que ainda estava fazendo efeito. – Chegamos.

Henrique sentia que tinha voltado para casa, mas não para seu lar. Seu pai apenas o olhou por cima dos óculos, sua mãe fez um aceno com a cabeça, como se não conseguisse acreditar que o filho tinha tido mesmo a coragem de aparecer por ali depois do último encontro que tiveram. Ela sabia que talvez estivesse sendo exagerada, mas a falta que o neto lhe fazia chegava a lhe deixar cega. Ela achava que o que os dois estavam fazendo era um absurdo.

— Porque não avisaram que vieram? — O pai de Henrique perguntou recolhendo as malas e levando para dentro de casa enquanto Belly pagava o taxi.

— Era para ser uma surpresa. — Henrique comentou esperando Izabelly para entrarem em casa. A rua estava deserta, o que era usual para o bairro deles, mesmo que vivessem no Rio.

Foi um almoço e jantar ao mesmo tempo, devido ao horário que chegaram, dona Sanchez esquentou a sobra do almoço do dia anterior. Tinha sobrado bastante arroz então Henrique se ofereceu para fazer um risoto.

Não trocaram uma palavra o dia inteiro, e quando foram dormir no quarto de hospedes naquela noite, Belly se sentia emocionalmente esgotada, mas isso não a impediu de acordar durante a noite e ir tomar um copo da agua gelada. Aquela noite no Rio fazia um imenso calor, mais uma grande diferença entre Nova Iorque.

Com uma água gelada, mais gelo no copo, Izabelly se sentou à mesa da cozinha e ficou apenas encarando o horizonte, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Augusto se passava na sua mente e ela se perguntava se ele tinha comido direito naquele dia e se já estava dormindo. Pelo fuso-horário, ele deveria ter acabado de jantar. Queria fazer uma ligação, mas não tinha como fazer por Skype e acabaria sendo uma fortuna.

Tomou um gole da água, sentindo sua garganta gelar. Uma sensação gostosa, que aliviava a dor que ela sentia pela culpa dos pais de Henrique. E se ainda de não querer falar nada a favor, fosse depor contra? Augusto pertencia a eles. Família não precisa ser de sangue para ser família. Izabelly já não sabia se era isso que sua sogra tinha contra ou se era mesmo pelo fato de estarem substituindo Leo, mesmo que de fato não estivessem. Talvez o que estivesse acontecendo era apenas eles estarem seguindo em frente. E seguir em frente era difícil. Sempre foi. Não seria dessa vez que as coisas seriam fáceis.

Izabelly se assustou ao ouvir um barulho do outro lado da cozinha, suspirando de alívio ao ver que não era ninguém menos do que Henrique.

— Eu sempre sinto sua falta quando sai da cama de noite. Fica grande demais.

— Desculpe.... Não queria te acordar — Henrique sorri fraco enquanto vai pegar um copo de água para ele também e se juntar a esposa. Izabelly vestia um shorts de dormir e uma camiseta larga do marido, enquanto Henrique estava penas de uma bermuda larga e confortável.

— Não tem problema, eu me sinto melhor onde você estiver.

— O que quer dizer?

— Quer dizer que ás vezes eu sinto como se a culpa de Augusto não estar com a gente fosse culpa minha.

Ele tinha tido que ser honesto, por mais que honestidade doesse, ele não poderia continuar omitindo seus sentimentos e fazer outra pessoa chorar, como Belly estava fazendo agora. E ver as lágrimas cristalinas no rosto da sua esposa, doía seu coração.

— Não é sua culpa — Apesar das lágrimas, Belly disse isso firme e forte que Henrique nem se quer ousou a questionar. Às vezes precisamos apenas de alguém que diga isso para que o nosso cérebro compreenda de uma vez por toda que não temos um pingo de culpa naquilo que achamos que temos por isso que ninguém alcançaria o grande final da vida sozinho. Todos precisamos de alguém.

— Porque choras? — Henrique puxou a cadeira e se sentou mais perto da esposa.

— Eu só estou cansada.

— Então vamos dormir.

— Emocionalmente cansada, Rique.

Não tinha o que falar. Ele também se sentia da mesma forma e se tinha alguém que ele não queria ver era sua mãe. Pelo menos, não hoje e nem amanhã, sabia que se não fosse por ela, já estariam até com o processo da adoção de Augusto adiantado, e devido à isso começou a pensar num passeio para aproveitar o pequeno tempo que tinha no Rio de Janeiro com a esposa, até terem que voltar e enfrentar a realidade.

Os dois só não sabiam que o pai de Henrique escutava a conversa atrás da porta. O homem cansado, colocou a mão por cima do olho, suspirando. Como se estivesse acabado de levar um soco da realidade. O jeito que sua esposa estava agindo estava machucando duas pessoas que não mereciam mais ser mais machucadas. Uma coisa é você errar, uma vez que isso não é pecado. Agora outra coisa, é você errar machucando outra pessoa. Isso sim deveria ser. E era exatamente o que sua esposa estava fazendo agora. Ao voltar para o quarto, o pai de Henrique olhou para a mulher agora acordada, mas ainda deitada na cama.

— Pegou minha água? — Perguntou com um tom de voz fraco por causa do sono. O pai de Henrique costumava levantar para ir ao banheiro durante a noite e sempre trazia um copo dá agua para a esposa. Parecia que todos naquela casa foram acordados por copos de agua.

O avô de Leo se sentou no seu lado da cama de forma que conseguisse encarar a esposa nos olhos e ela sabia que estava numa rua sem saída. Toda vez que o marido a encarava assim era porque ela tinha que escutar o que ele tinha para falar, mesmo que ela não concordasse. Só que do jeito que o marido falava, ela sempre acabava concordando.

— Não acha que está sendo dura demais? — A mulher se levantou quase que imediatamente ao susto da pergunta do marido. Do que diabos ele estava falando? Mesmo estando preparando-se para um assunto não sabia que era O assunto. — Acabei de ver meu filho e a esposa totalmente quebrados. Não acha que estamos sendo insensíveis?

— Insensível é Henrique que está sendo ao pegar um moleque qualquer para substituir Leo.

O pai de Henrique não tinha mais argumentos. Ele sabia o que dizer, mas não sabia como. Como ajudar a esposa que agora certamente morria de saudades do neto? Ele também sentia. Leo foi embora, levando uma grande parte do seu coração de vô junto. Mas, não era como diziam os antigos? No coração de vó sempre cabia mais um? Henrique esperava que sim.