Until the very great end

11 Shadow is the only friend that I have


Notas iniciais
Músicas: Somewhere Only We Know - Keane Echo - Jason Walker

Definitivamente o cheiro do consultório da terapeuta era bem melhor do que o do hospital onde o cheiro de limpeza predominava. Ali também tinha um cheirinho de frutas vermelhas. Algo como maçã e morangos. Era gostoso de respirar ali.

— Então, como foi com o menino? – A psicóloga perguntou realmente interessada.

— Foi... Bom? – Não tinha outras palavras para definir. Ela tinha deixado a porra da pelúcia favorita de Leo com o menino. Era claro que tinha sido bom.

E depois de contar tudo, a terapeuta não estava mais escondendo a surpresa. Tinha sido rápido demais. Uma aproximação daquelas deveria demorar meses.

— Vai vê-lo de novo? – Perguntou com certa esperança na voz, esperança cuja Izabelly não pode entender.

— Vou. Tenho que pegar a pelúcia de Leo de volta – Ah... A pelúcia. Não só a pelúcia, mas como sua família. Completou a médica em pensamento. Mas era óbvio que ela não falaria em voz alta. Deixaria Izabelly perceber por si mesma, porque afinal, era aquele seu trabalho. Ela apenas plantaria a sementinha do eco ali. Um eco que fosse alto o bastante para ela ter vontade – e acima de tudo, coragem – para escutá-lo.

***

Izabelly olhou para o próprio reflexo no espelho. Não se reconhecia mais. Era outra pessoa. Se transformará em outra mulher. Com outros sentimentos e com outros quereres. Era alguém nova. Como uma fênix que tinha acabado de renascer. Era uma fênix esperando seu companheiro de voo acordar. Estava cansada, tinha dormido bem tarde porque não havia conseguido pregar os olhos por causa da consulta com a terapeuta. E ainda teria que pegar um voo naquele dia para ir atrás de Rique e ver se algo demais tinha acontecido, mesmo ela sabendo que não tinha.

Porque, tinha pedido – praticamente ordenado, — aos médicos que lhe ligassem imediatamente. Depois de se arrumar, desceu para tomar café da manhã e se despedir de seus pais. Ela tinha um voo para tomar.

— Querida, já está pronta? – Seu pai que a levaria para o aeroporto daquela vez. Da última havia sido sua mãe.

— Já. – Respondeu sem animação nenhuma. Mas, mandando uma mensagem para Walter logo em seguida. Ela precisava ir até o orfanato, afinal.

Durante o caminho até o aeroporto, a viagem se seguiu em silêncio, mas ao se deparar com seu pai batucando no volante várias vezes sem parar, soube que ele queria dizer alguma coisa.

— Eu sei que tenho sido um péssimo pai – Começou ao estacionar o carro no aeroporto. – Eu sei que não tenho sido tão legal com Henrique quanto ele merece. Mas o mesmo estava fazendo minha garotinha chorar. Tudo bem que agora tenho outra opinião já que nos contou tudo, mas eu não entendo porque está parada – O pai a olhou, com medo da própria fala. A filha o encarou, não sabia o que dizer. As palavras simplesmente estavam instaladas dentro de si – Eu sei que tudo bem é grande coisa você ir e voltar só para ter sua consulta na terapia, mas eu realmente não vejo uma melhora significativa.

— Eu deixei a porra do Panda com Augusto – Izabelly disse com a voz trêmula. Como seu pai ousava a dizer que não estava vendo uma melhora? Agora ela se sentia basicamente ofendida. Ela não tinha nenhum amigo. Tinha Mackenzie, mas não conseguia falar com amiga, que agora, tinha descoberto uma gravidez. Toda vez que olhava para ela se lembrava de Leo e a melhor coisa que havia feito havia sido se afastar. Seus pensamentos estariam longe de três anos atrás, onde o melhor da sua vida aconteceu. O nascimento de seu bebê. Ela não tinha seu filho, seu marido estava apagado em uma cama de hospital. Ela tinha a terapeuta, claro, mas ainda assim não era sua amiga. Era alguém contratada para ouvir seus problemas.

Sentia como se apenas as sombras fossem suas amigas.

As sombras de um tempo feliz. De um tempo que podia deixar-se levar pelo simples sorriso genuíno de Henrique. E seu pai ousar a dizer que não via melhora, era a porra de uma sacanagem.

O pai lhe sorriu, minimamente, no canto dos lábios, mas sorriu e isso não passou despercebido para ela.

— O que diabos você quer dizer? – Perguntou, sabendo que aquele sorriso só havia tomado as proporções das coisas muito mais apenas do que aquilo. Seu pai tinha o costume de falar certo por entre linhas tortas.

— Nada. – Ele riu ao ver a expressão furiosa da filha – Apenas queria que você visse o quanto evoluiu. Agora, anda, vai perder o voo.

Aquilo só fez o eco em sua cabeça aumentar. A voz sair para então, depois, acoitá-la mais forte.

***

Não foi difícil sair com Augusto do orfanato, uma vez que antes de vir a ter o acidente, Henrique havia deixado os contatos de Izabelly para caso não o encontrassem. Ele sabia que era arriscado na época e que ela poderia descobrir por terceiros suas escapadas, mas estava com tanta coisa na cabeça, que não teve tempo de se importar.

Ela nem soube porque tinha decidido levar a criança no central parque. Tudo bem que havia sido instalado um carrossel lá e que talvez ele fosse gostar, mas não entendeu porque estava preocupada com que Augusto deixaria ou não de gostar. Ele não era nada dela. Apenas uma criança que precisava passar o tempo para compreender a cabeça de seu marido.

Tudo estava correndo perfeitamente bem. O menino era extremamente comportado e Izabelly se surpreendeu. Ela não sabia, mas esse comportamento todo vinha devido ao medo. Em uma das casas adotivas que já havia passado, os pais sempre atormentavam Augusto, ameaçando deixa-lo de castigo caso ele fizesse alguma coisa errada.

— Eu posso ir?! – Perguntou animado olhando para o carrossel. Os olhos do menino brilhavam e só então Izabelly se deu conta do quanto sentia falta daquela animação infantil. E mais uma vez, de quanta falta sentia de Leo.

— Te trouxe aqui exatamente para isso. – O menino mal pode conter de felicidade na fila. Ele adorava esses brinquedos, mas as coisas saíram do controle quando Augusto deixou a pelúcia cair na poça d’água ao saírem do brinquedo. Tinha chovido no dia anterior e algumas poças haviam ficado ali de presente.

— Augusto! – Rugiu nervosa, rapidamente pegou a pelúcia do chão, como se a vida dependesse disso. Olhou furiosa para o menino que tratou de se encolher. Ele tinha feito besteira. Conhecia esse tipo de olhar. Fechou os olhinhos, desejando seu pai ali. Sua mãe era legal, mas seu pai ali poderia fazer com que ele se livrasse de algumas encrencas de vez em quando, não?

Izabelly sentiu ódio de si mesma. Como ela pode gritar com uma criança? Tudo bem que não era uma pelúcia qualquer, era a pelúcia. Mas o olhar assustado que Augusto lhe retribuiu fez com que ela se sentisse pior do que uma vilã da Disney. Uma comparação tosca. Ela sabia. Mas não podia evitar. Se lembrava de personagens infantis quando estava perto de crianças e isso só fez seu peito doer ainda mais por que a última vez que havia pensado em desenhos animados havia sido antes de Leo ir.

Querendo poder colocar as palavras dentro da boca novamente, Izabelly se abaixou para ficar na altura do menino que ainda a encarava com medo.

— Me desculpe – Pediu com a voz baixinha. Logo viu o menino ficar menos acanhado, mas logo lagrimas brilhantes estavam tomando conta do pequeno rostinho. – Ei, não chore, venha cá.

E então ela o pegou em um abraço, levantando o menino em seu colo. E com palavras doces, tentou reconforta-lo a caminho de volta do orfanato. E assim que o menino se acalmou, só então ela conseguiu ir embora, deixando a pelúcia com ele. Como Izabelly poderia arrancar a pelúcia do menino se ele tinha se apegado a ela? Não. Era pior que ler algum livro onde cachorros morrem porque cachorros simplesmente não deveriam morrer.

O pensamento de morte lhe trouxe em sua mente as duas pessoas mais importantes de sua vida e quando ela viu, estava presa novamente em seus próprios pensamentos. E não pode evitar quando viu uma igreja ao sair do orfanato. Em passos lentos, foi até ela e fez o que a psicóloga a sugeriu fazer. Refletir sobre os maus pensamentos e descobrir do motivo deles estarem ali.

Izabelly não era religiosa. Nunca havia sido, por isso se surpreendeu aonde seus pés haviam-lhe levado. Era uma pequena capela e estava se sentindo como uma intrusa ali. Sempre imaginou que talvez as coisas fizessem mais sentido com a ciência, era algo mais sólido. Em que podia ver e tocar. Se agarrar e ter a certeza de que era real. Mas Leo se fora levando com ele todas as suas certezas e também parte de seu oxigênio. E agora olhando para Augusto se sentia culpada, culpada por estar dando a ela um lugar que um dia pertenceu a Leo.

Agora Henrique estava lhe tomando o resto que era necessário para respirar. E se não fosse por isso, pedido com todas as forças. Ela estava sozinha ali, se sentia sozinha. Mas não tinha muito mais a perder. Ela só precisaria se lembrar de continuar respirando caso Henrique não o fizesse.

Ela suspirou. Quando tudo isso acabasse ela voltaria para o Rio. Henrique nunca havia gostado 100% de Nova Iorque. Comprar um sítio no interior do Rio agora lhe parecia uma ideia genial. E uma ideia bem distante. Como quando eles eram jovens e apenas sonhavam em casar. Era algo tão distante, mas que se realizado, tão bom.

Queria um lugar só dos dois.

Onde apenas eles conhecessem. E onde o lugar apenas conhecesse seus melhores dias. Suas felicidades. As tristezas seriam esquecidas, doando-se para um passado distante do futuro e presente que conheciam e viviam.

Izabelly apenas não imaginava que, quando isso, finalmente acontecesse, eles teriam mais uma pessoinha com eles, que naquele exato momento, conseguia lhe observar pela janela do orfanato. E foi a partir daí que Augusto sentiu que tinha uma chance por apenas a mulher de seu pai estar no lugar que estava. Numa igreja.

Ele sentiu a chance de ter uma família.