Until the very great end

12 If you wanna find love then you know where the city is


Notas iniciais
Músicas: The City - The 1975 Alex & Sierra - Almost Home

Foi difícil, mas ela entendeu o que Henrique queria por esconder Augusto dela. Tinha acabado de sair do hospital, sem mais uma vez deixar de recomendar que o médico ligasse caso alguma mudança acontecesse... mesmo que fazer isso fosse normas dos hospitais. Ela não podia evitar. Também tinha deixado um beijo caloroso na testa do marido. Como sempre fazia. Beijos na testa espantavam coisas ruins. Era uma coisa boba, mas que ela aprendera como um hábito por um tempo.

— Como você se sente? – Walter perguntou quando a buscou no hospital naquele dia. O trânsito era caótico o suficiente para que desse tempo de uma conversa razoavelmente séria. – Eu sei que você tem uma terapeuta, mas ainda assim não é como se fosse um ombro amigo.

Talvez Walter lembrasse demais a avó de Henrique ou fosse apenas a saudade falando mais alto. Lembrar da avó dele fazia a sentir-se ingrata. Ingrata por não ter ido no enterro e muito menos ter conseguido pensar em uma frase para se expressar no quanto sentia muito.

— Me sinto mãe. – Walter ergueu a sobrancelha. Ele imaginava onde ela queria chegar mas queria ter certeza de suas suposições. Tanto literalmente e emocionalmente, Walter sabia que ela estava quase voltando para casa. Ele já tinha idade o suficiente para confirmar isso sem que precisasse prever o futuro.

E se antes ele achasse que levar Henrique no orfanato fosse uma boa ideia, agora ele tinha certeza. Augusto tinha sido um milagre. Um milagre que todo mundo precisava. Talvez Deus não estivesse brincando de carrinho de bate-bate com nossos protagonistas tanto assim.

— Defina mãe. – Walter pediu enquanto trocava a marcha para virarem à direita. Ele sorriu triste. Queria saber a definição de pai. Izabelly viu o sorriso, mas não quis se intrometer nos pensamentos do mais velho. Queria focar nos seus, porque era a história que ela conhecia que estava uma bagunça, não a do homem, e mesmo que estivesse.... Bem. Ela seria egoísta. Era a protagonista da própria história.

— Eu sinto falta toda vez que deixo o orfanato e odeio quando Augusto pede por Henrique dormindo e ele não está. E eu odeio estar criando todos esses sentimentos de ame sobre o menino porque sinto como se.... – ela parou. Doía demais falar em voz alta. Mas admitir nossos problemas em alto som era o primeiro passo para começar a resolve-los.

— Como...

Ela respirou fundo. Ela sabia que precisava admitir.

— Como se estivesse traindo Leo.

— E você acha que é a única que se sente assim no mundo – Walter completou

O ser humano é egoísta. Ele se sente melhor só em saber que o outro está numa mesma situação. Não importando o quão ruim fosse.

— Definitivamente. Sim.

— Eu acho que talvez Henrique consiga te ajudar a compreender isso? – Walter perguntou em tom de dúvida. Porque ele nem mesmo sabia se Henrique havia conseguido entender. Izabelly riu deixando Walter completamente confuso.

Mas era um riso.... Diferente. Sabe quando não se compreende uma questão superdifícil de física e quando você vê o quão obvio sempre foi você ri porque fica com vontade de se bater por tão estupido que era? Ela gargalhou.

Walter contagiado pelo riso. Riu também. Enquanto pensava no obvio.

Mais do que nunca. Henrique precisava acordar.Walter virou a esquerda, depois a direita. E finalmente Izabelly chegou em casa.

***

A conversa da corrida hospital-casa se deveu pelo que havia acontecido no dia anterior quando Izabelly tinha ido buscar Leo para passar a tarde em sua casa. Ela sabia que era arriscado. Sabia que sentimentos que os sentimentos que nasceriam ali seria algo forte e que talvez, ela não estivesse emocionalmente preparada para recebe-los. Mas quem se importa? Ninguém está emocionalmente preparado para sentir nada.

O primeiro sentimento que veio foi a inveja quando no sono da tarde – Izabelly não conseguia deixar crianças não tirarem uma soneca de pelo menos 30 minutos depois do almoço – Augusto pediu para contar uma história.

O pequeno príncipe, claro.

Mais óbvio do que aquilo não poderia ser., mas ela sentiu um pouquinho de inveja por não ter passado o gosto da música para o menino. Tudo bem que Henrique também gostava da música e seria algo compartilhado pelos dois, diferente do Pequeno Príncipe que foi compartilhado por ele. Mas Izabelly queria dar o primeiro pontapé para que o menino se interessasse na melodia dos instrumentos. Não era uma coisa que Leo tinha gostado. E pensar que tinha uma chance de fazer outra criança gostar, e que ela pudesse mesmo apreciar, fazia seu coração pular feliz dentro do peito.

Ela repreendeu esse sentimento de felicidade assim que ele veio. Não era bonito de se sentir assim. Achava que sentimentos como esse estragavam a essência da lembrança de Leo. E cada minuto que se passava ao lado de Augusto, Izabelly compreendia mais e mais o marido. Nessa mesma soneca, em que ela havia terminado de contar a história, deixou o rádio ligado baixinho para que ele se acostumasse com o som dos instrumentos, e pela primeira vez, desde que a bagunça em sua vida começou, conseguiu relaxar um pouco e aquilo era um ótimo progresso.

No entanto, ela ainda sentia falta de algo, mesmo que Augusto conseguisse suprir sua falta de carinho por alguns segundos.

Izabelly queria amor. Ela sabia onde ficava a cidade. Os bares. Ela sabia onde poderia ter atenção que quisesse que New York daria a ela. Mas o problema era que ela não queria aquele tipo de atenção. Ela poderia até mesmo ir tocar num concerto para receber atenção do público. E esse amor seus pais não poderiam lhe dar. Era algo que preenchia a alma já que a sua estava se sentindo tão vazia mesmo que naquele momento ela tivesse uma criança descansando em seus braços.

Mas o amor e atenção que ela queria só uma pessoa poderia lhe dar e essa pessoa estava dormindo. Por isso nesse tempo que ela passou desejando atenção se esforçou em dá-la a Augusto. E ela não gostava de ter se quer cogitado a possibilidade de ir à cidade para ter a atenção que só o amor de sua vida poderia lhe dar.

Tudo bem, ela sabia que Nova Iorque tinha muitas possibilidades de amor. Mas ela não sentia como se amasse Nova Iorque mais. Ela tinha pensado sério quando pensou em se mudar para um lugar que não conheceria suas tragédias. Nova Iorque poderia ser o céu – que ainda assim, não se compararia com a sensação de poder dormir relaxada nos braços dele. As duas sensações eram ótimas. Mas ainda assim NYC não lhe dava a sensação de estar caindo o tempo todo e nunca chegar no chão. Henrique a fazia voar. E ela amava voar.

Pretencioso, não? Chamar Henrique de amor da sua vida. Mas era isso o que ele era. Tinha sido a pessoa que havia dado tudo que ela precisava. A família que ela sempre quis, mesmo que naquele momento estivesse passando por turbulências. Afinal, um mar calmo não faz um marinheiro habilidoso.

— Papai... -o menino resmungou entre o sono. Izabelly sorriu minimamente. Augusto tinha se sentido em casa assim que ela o trouxera para dentro. Talvez tivesse sido as fotos de seu marido que havia feito o lugar acolhedor. Augusto também havia reparado no menininho das fotos expostas na sala, mas não quis perguntar por vergonha. Izabelly agradeceu por não ter feito nenhuma pergunta. Ela não saberia como respondê-lo.

Apesar de estar agarrado ao Panda de pelúcia e em seu colo, Augusto parecia estar tendo um sono agitado e parecia mais novo do que realmente era como algumas vezes que parecia mais velho. Era incrível pensar que ele tinha dez. Prestes a completar onze.

— Ele não está querido. – Sabia que ele não a ouviria por estar dormindo, mas não podia ficar quieta. Sentia que precisava dizer que ele não estava.

— Mamãe…- talvez ele não estivesse dormindo tanto assim, completou o pensamento. Se chamou por um e ele não estava era obvio que ele chamaria por outro.

Respirando fundo, sabendo que sua próxima fala mudaria tudo o que conhecia sobre ser mãe, Izabelly tomou folego que precisava e respondeu:

— Estou aqui, querido...

Fez um carinho a mais em seus cabelos bagunçados quando o menino agarrou mais ao seu colo. Como se estivesse apenas querendo confirmar a resposta que havia acabado de ouvir.