Until the Soul

2 "Sem alma" por Sistonskan, o Deus


Notas iniciais
Obrigada, Tiago, por me infernizar/motivar a escrever outro capitulo dessa história.

Eis um fato: Três almas invadiram meu castelo e escaparam de minhas mãos no mesmo dia. Na mesma noite. Eu notei sua presença quando elas entraram em minha propriedade. Era impossível não notar. Uma das almas era equilibrada demais para ser humana, a outra era escura demais para estar viva e a ultima era poderosa demais para estar solta e longe do meu alcance.

Podia ouvir o som dos grilos morrendo ao meu redor conforme eu caminhava pela floresta. Os mosquitos voavam para longe e meus passos certamente queimavam as raízes das plantas no chão. A capa farfalhava logo atrás de mim, e o som metálico de minha armadura por baixo da capa cortava o silencio assim como a foice em minha mão esquerda cortava qualquer coisa que se intrometia em meu caminho.

Senti o cheiro da preocupação, do desespero. Elas passaram por aqui. Segui em frente, adentrando cada vez mais na mata, a qual me pertencia. Parte do meu exercito fora morto e a outra parte congelado. Feitiçaria. Era claro que apenas um ser magico poderia equilibrar sua alma para se habituar a tamanho poder. Ponderei sobre as outras duas almas, uma delas só poderia ser de um vampiro, as únicas criaturas mortas que caminhavam pela superfície; mas a outra... Era incerta, indefinida. Estava cada vez mais curioso e isso apenas aumentou a minha vontade de encontrá-la.

Parei de caminhar ao sentir outro tipo de cheiro. Alivio. Paz. Nada. Franzi o cenho por debaixo no capuz que escondia grande parte de meu rosto e continuei, não gostando do rumo que aquele rastro estava tomando. Por fim, dei de cara com uma pequena cabana no meio da floresta. Com minhas habilidades, fiz minha foice desaparecer, assim como a armadura por baixo da capa, ficando mais discreto, porém não menos protegido.

Aproximei-me da cabana e entrei — como rei, eu não precisava bater ou exigir minha entrada, eu simplesmente já tinha a permissão, ainda mais quando não sabia daquela construção em minhas terras. Por dento, a cabana era bagunçada e suja. Não havia poeira, mas sim muitos galhos, plantas e terra. Possuía muitos totens pendurados no teto, assim como círculos e símbolos tortos, possivelmente pintados a mão, nas paredes de madeira velha. Um longo tapete forrava o chão, mas a madeira por debaixo dele gemeu ao sustentar o meu peso quando parei de andar. Observei a mulher que virou-se em minha direção tranquilamente — parecia estar fazendo uma espécie de chá, o cheiro de ervas e água quente era notável no ar.

Franzi o cenho ao fitar os olhos lilases dela. Não pude sentir a alma dela, é como se estivesse vazia por dentro. Até mesmo os vampiros, que são criaturas pós morte, possuem uma alma, ainda que por escura e pouco atrativa. Ou os lobisomens, que são criaturas horrendas, possuem uma alma, mesmo que ela seja bestial e extremamente viva; Mas aquela mulher era oca, mas não era uma deusa como eu, eu saberia se fosse. Não, ela era fraca demais para isso, não tinha magia ou o divino no sangue. Isso eu podia sentir, ela sangrava, mas nada de alma.

"Posso ajudá-lo?" Sua voz despertou-me de meus pensamentos. Hum, ela poderia ser útil, afinal.

"Sim, estou procurando por três... Pessoas, soube que passaram por aqui, você as viu?" Forcei-me a olhar para o seu rosto, procurando algum sinal que a denunciaria. Eu saberia se ela mentisse.

Ela baixou o olhar, deixando o semblante pensativo. "Não posso lhe dizer isso, não o conheço o bastante para saber o que faria com tal informação". Mas quem ela pensa que é? Retirei o meu capuz, revelando meu rosto. Sempre soube que meu rosto não era agradável aos olhos humanos, pois este era o rosto que tirava vidas e banhava-se com seu sangue. A mulher ergueu seu olhar e arqueou as sobrancelhas, surpresa mas ao mesmo tempo indiferente. "Isso não me diz nada"

"Não estou aqui para negociar contigo, bruxa" Meu tom era bravo, impaciente. Não tinha tempo a perder com jogos, principalmente com uma mulher. Por mais intrigado que estivesse, uma alma muito poderosa, capaz de me auxiliar em meu plano, estava fugindo, e eu não podia perdê-la de vista. "Preciso encontrá-las, e isso é tudo o que precisa saber."

Ela deu um passo a frente, me olhando com determinação. "Não sei quem você é, mas sei que acha que devo temê-lo" Um dos cantos de sua boca ergueu-se em um meio sorriso. "Bom, eu não temo. Então ou você me trata como uma igual, ou vá embora".

Avancei alguns passos, a segurando pelo pescoço e a erguendo como o animal insignificante que ela era. Seus olhos fitaram os meus com uma calma irritante, fazendo meu maxilar trincar e minha expressão se fechar em uma careta de raiva. "Não a trato como uma igual pois não é uma igual" Respondi entredentes "E agora você será punida pela sua petulância..."

"Me punir com a morte?" Me interrompeu ela, pela sua expressão e seu tom de voz, pude notar que no fundo ela ansiava por isso. A soltei bruscamente e a observei cair no chão, ambas as mãos no pescoço. Respirei fundo, sentindo o novo cheiro que se impregnava no ar. Dor.

"Não, não sou um Deus misericordioso" Voltei a vestir o capuz "Você vai ser minha serva a partir de agora, bruxa, e como minha serva você vai me levar até as almas que passaram por aqui"

Olhei para ela, que retribuiu o olhar. "Qual o seu nome?" ela me perguntou, ignorando minhas palavras.

"Você deveria saber, sou seu rei e agora seu dono" respondi secamente. A ouvi fungar antes de levantar-se do chão, seu olhar ainda me analisando como se pudesse fazer isso. "Qual o seu nome?" Devolvi a pergunta.

Ela suspirou, provavelmente pensando se deveria mentir seu nome ou não. Era muito jovem, muito estupida por ponderar demais. Considerei sua utilidade, talvez seria por conta da sua notável beleza externa ou a sua humanidade, mas era rebelde demais, se não me conhecia então não sabia que devia me temer. "Você é meu dono, não é?" A ouvi retrucar, sentia o controle que ela exercia em sua voz. Mascarava sua raiva e indignação. "Então me nomeie"

Estreitei o olhar, pensativo. Cabelos loiros, olhos lilases, pele pálida. "Clara" Conclui, e a vi abrir um largo sorriso de dentes brancos. Minha face se contorceu em desgosto, mas ela não notou, pois o capuz o tapava quase por completo.

"Chiara" A bruxa me corrigiu, desfazendo seu sorriso lentamente.

"Clara. E meu nome é Sistonskan" Revelei logo em seguida. "Agora que nos conhecemos, pode me dizer para onde aquelas... Pessoas foram."

Clara assentiu, a feição pensativa. Suas iris balançavam de um lado para o outro, estava claro que ela estava pensando muito; em um plano, talvez. Dentre as poucas coisas que não posso fazer neste vasto mundo, uma delas é a habilidade de ler pensamentos e neste momento era a que eu mais gostaria de ter.

"Ton. Eu lhe digo, sim, seguiram para Ethelma, o reino vizinho." Franziu o cenho e molhou os lábios antes de dar um passo a frente "Lá é cheio de lobisomens e humanos, não é difícil para mim encontrá-las, mas... Me deixará livre assim que estiver feito?" Me encarou e eu agradeci mentalmente o capuz por tapar o meu rosto, pois eu sorria com os olhos. Seu rosto era inocente, de pura ingenuidade. Ela era uma bruxa como tantas outras, mas não possuía alma. De algum jeito, desconhecia o que eu era e o que representava, e ainda tinha a ousadia de me enfrentar. Clara era, sem duvidas, interessante — não tanto como aquela alma reluzente que entrara em meu palácio — mas ainda assim... Nunca a deixaria ir, não sem estudá-la antes. Criaturas insignificantes, porém intrigantes.

"Terá sua liberdade assim que me levar até elas" Menti, virando meu corpo na direção da porta. "Vista-se com roupas mais apropriadas, você virá comigo para Ethelma. Virei com uma carruagem ao amanhecer. Esteja pronta, leve o que precisar."

Pensei em me retirar, mas sua voz chamou minha atenção novamente. "Não aceita uma bruxa em seu palácio? Represento desonra, imagino".

Não me virei. Não olhei para ela; pelo seu tom de voz, senti que ela me desafiava, mas não sabia se era apenas provocação ou Clara realmente queria ir comigo para o palácio. Ponderei. Não importava.

"Os cavalos ficam no estabulo, os pássaros nas arvores, os morcegos nas cavernas, e você, você pertence a esse lugar. Assim como cada animal, deve se conformar com isso. É de seu feitio: sujo, marcado, bagunçado e, ao mesmo tempo, vazio."

A ouvi soltar um riso seco. "Ah, meu querido mestre, sinto muito em ser a que vai te dizer isso, mas, em uma tentativa frustrada de me descrever, tudo o que fez foi descrever você".

Raiva. Dor. Apreensão. Melancolia. Desprezo. Sacrifício. Infidelidade. Desgosto. Inveja. Pena. Amargura. Rejeição. Falsidade. Magoa. Angustia. Nojo. Insatisfação. Egoísmo. Pavor. Tristeza. Orgulho. Antipatia. Sofrimento. Ciúme. Agonia. Ódio. Decepção. Traição. Rancor. Discriminação. Medo. Lastima. Frieza. Hipocrisia. Maldade. Desamparo. Solidão. Imperfeição. Vulnerabilidade. Morte. E nenhum desses cheiros vinham dela, que cheirava como uma flor: plenitude e tranquilidade.

Não disse mais nada, e se ela disse, eu não lhe dei ouvidos. Apenas sai daquela cabana imprestável e segui para o meu castelo, onde planejaria a viagem para outro reino, onde eu tomaria aquela alma de uma vez por todas.