Until the Soul
3 "Reencontro" por Verrorn, o Lobo
O sol em Ethelma havia nascido, e eu estava acordado, o observando com uma garrafa de cachaça em uma das mãos. Sentado em um toco de arvore, em cima de um morro, observando o nascer do sol: existe coisa mais pacifica que isso? Existe. Eu estava embriagado, vigiando a cidade de cima do morro, esperando começar o meu turno como protetor deste reino. Pois é, eu era parte da guarda do reino.
"Com certeza você deve trabalhar em algo mais emocionante"
Não me leve a mal, era um emprego honesto, pagava bem. Mas era chato. Raramente invadiam o nosso reino, que não era governado por um rei, mas sim por uma corte de alfas; e quando invadiam, conseguíamos conter a ameaça antes da desgraça acontecer. Outra coisa que me incomodava era que os humanos eram indefesos demais, e por vezes se sabotavam. Cansei de pegar ladrões de moedas que não se contentavam com o que tinham.
Fora isso, Ethelma era um paraíso. Era uma região fértil, tínhamos uma plantação de trigo e cada casa possuía sua própria horta pessoal. No centro, havia o comércio, onde cada um vendia o que tinha a oferecer. Os produtos que eram bons o suficiente para exportar, os alfas recolhiam e pagavam a população com a metade do ouro que era fornecido dos outros reinos. As pessoas viviam felizes, não havia assassinato e nem perigo. E nem nada demais. Eu tinha um emprego, um pai alfa, seis irmãos alegres, e toda a cerveja que eu podia beber. Paraíso. Mesmo assim, algo dentro de mim dizia que faltava algo.
Observei a guarda atual sair de sua posição, caminhando de um jeito bruto — como os soldados que eram — para suas próprias casas. "Hora de ir". Levantei do tronco que estava sentado e deixei minha garrafa ali, descendo o morro em questão de segundos. Era ótimo ser um lobisomem nessas horas. Percorri as ruas, olhando para os lados vez ou outra. Outros colegas meus se juntaram a mim no caminho até os portões.
Quando eu estava quase chegando ao destino, ouvi passos e uma voz muito familiar, mesmo que distante. "Ande logo, Argtha, temos que encontrá-lo". Morgana. Ela era uma vampira que conheci a alguns anos atrás, namoramos por meses e depois nunca mais a vi. Diferente dos outros de sua espécie, Morgana era gentil e sabia respeitar as pessoas.
"Cale a boca antes que eu a congele" Outra voz familiar, ainda distante. Argtha. Irritada como sempre. Era a minha amiga mais antiga, e a unica pessoa fora da minha alcateia que eu sabia que podia confiar de olhos fechados. Não sabia que ela estava com Morgana. Franzi o cenho e dei uma desculpa idiota para um dos meus colegas, indicando que iria me afastar por alguns minutos.
"Eles se enganam fácil, se quiser fugir por algumas horas é só dizer que quer mijar e pronto."
"Com quem diabos está falando?" perguntou um dos meus colegas. Olhei para ele, que me olhava feio.
Balancei meus ombros. "Eu estou bêbado".
Segui então as pressas em direção as suas vozes, que, para minha sorte, não cessaram. Caminhei nervosamente pelas ruas, procurando por elas. Não havia ninguém acordado aquela hora da manhã, mas não podia correr o risco de ser pego. Se elas entraram por outro lugar sem ser o portão, então eram forasteiras e não possuíam permissão para ficar. Por sorte delas, eu poderia acobertá-las até que seguissem viagem. A menos que pretendiam ficar. Contornei algumas esquinas e me afastei do vilarejo, encontrando a entrada de uma caverna em uma área próxima a um curso de água. Abriu um sorriso ao ver a carranca de Argtha e as feições amigáveis de Morgana e... Franzi a testa. Havia outra garota. Ruiva, com a pele rosada. Ela cheirava como um lobo, mas eu não a detectei. Achei estranho, mas me aproximei delas.
"O que fazem aqui?" perguntei, meu tom saindo mais autoritário do que gostaria. Observei todas me encarando. Morgana sorriu de leve. A outra garota olhou para Argtha, que caminhou em minha direção, congelando o curso de água ao passar. "Os animais precisam dessa água para beber." Argumentei em meu tom brincalhão — sabia que podia brincar com ela.
"Ah, vai se foder" Ela disse, parando em minha frente. Pensou, pareceu se arrepender de ter dito aquilo e continuou "Vai descongelar em algumas horas" Soltou um suspiro pesado. "Estamos cansadas, andamos muito até aqui, e eu tive que lutar com um exercito de mortos" Voltei a sorrir, não estava nada surpreso. "Enfim, sei que você pode nos ajudar e você me deve, hum, muitos favores então..."
"O quê?" Perguntei, indignado "Que favore...?"
"Quer mesmo que eu refresque sua memória?" Ela me interrompeu. Curta e grossa. Essa é a minha amiga.
"Não, venha. Levo vocês até uma casa para lá do morro, é afastada dos guardas e abandonada por séculos" Virei meu corpo e comecei a caminhar na direção certa. "Enquanto isso você me conta por onde esteve e o que faz com aquelas duas"
Argtha olhou para trás e fez um sinal com a mão para que estas nos seguissem sem demora. Não movi meu olhar, mas pelo som dos passos, soube que elas estavam um pouco afastadas de nós. Senti o olhar da feiticeira pesando em mim.
"O que foi?" Não estava incomodado, mas sim curioso.
"Você é muito burro, Morgana disse que você a reconheceria, mas eu sabia que não". Sua voz contia um quê de irritação. Tipico dela. Se acostumem.
"Do que está falando, pelo amor de Dionísio?"
Ela demorou a voltar a falar. Permaneci apreensivo, ouvindo somente o barulho dos nossos passos na trilha de terra.
"Aquela garota, Allison, é filha de Morgana" levantei as sobrancelhas, surpreso. "E sua" Ela continuou e eu a olhei. Mas que merda...?
"Minha filha? Por que ela não me disse nada?"
"Shh, eu explico" Sua voz era estranhamente calma. Normalmente ela só adquire esse tom quando eu que fico irritado. "Morgana teve que te deixar aqui porque tinha engravidado, você sabe que vampiros tem seus próprios ninhos e que você não era bem vindo. Então" Franzi o cenho, incomodado "Ela esperou Ally nascer e me procurou para ajudá-la, já que a criança não era vampira pura, e o rei dos vampiros não podia saber sobre você. Acabou que eu criei ela, me passando por uma tia, enquanto Morgana resolvia sua questão com os vampiros. No fim, essa questão virou uma guerra civil. Morgana fugiu e me procurou depois de anos. A garota não sabe quem são os pais, então cabe a vocês contar a ela ou não. Eu não me meti, isso é com vocês".
Uau. Eu não esperava por isso. Engoli em seco, tentando processar todas aquelas informações.
"Certo, vou conversar com Morgana" Foi tudo o que consegui dizer.
Passei o restante do caminho em silencio, e pareceu que todos decidiram fazer o mesmo. O caminho era longo, e eu poderia estar lá em segundos, mas Argtha me congelaria se eu corresse e a deixasse para trás. Então me contentei com passos largos e meus pensamentos. Não importava no que pensasse, eu sempre acabava no "TENHO UMA FILHA". Evitei ao máximo olhar para trás. Para minha filha. A minha curiosidade teria que ser deixada de lado até eu poder conversar com Morgana, de preferencia sem a ruivinha estar por perto.
Eu nunca tive um filho, então a noticia realmente me acertou em cheio. Não era ruim, porque o comum dos lobisomens era ter muitos filhos. E eu certamente teria os meus na hora certa. Mas nunca pensei que seria tão cedo, e com uma vampira. Eu nem sabia que vampiros procriavam!
Me torturei psicologicamente com pensamentos confusos e complicados demais para um alcoólatra durante todo o caminho. Demos a volta no morro e finalmente, depois de passar por um jardim/cemitério, avistamos a mansão.
Ela era enorme, com as paredes pintadas de vermelho — algo que era muito peculiar naquela época. O telhado era preto de sujeira e a cerca de metal que a envolvia estava mais do que enferrujada, se é que isso é possível. O terreno era infértil, e as arvores que estavam por ali eram nada mais que troncos velhos e secos cravados na terra.
Parei de caminhar e todas me acompanharam. Admirei a vista por alguns instantes antes de anunciar com convicção:
"Chegamos".
Argtha soltou um longo suspiro.
"Que droga é essa, Verrorn?"
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