Until the Soul
1 "A relíquia" por Allison, a Hibrida.
Havíamos entrado no castelo com um objetivo perigoso: resgatar uma relíquia antiga, roubada de Morgana pelo Deus, que a protegia da luz mortal do sol. Não era maior que um prendedor de cabelo, mas a vampira suspirou aliviada ao encontrar o que lhe pertencia. Argtha, minha querida tia, se dispôs a ajudar a amiga, assumindo todos os riscos que aquele ato traria para Eu corria rápido, mas não dava o melhor de mim. Não. Tinha que acompanhá-las. Minha tia e sua amiga vampira corriam para longe do gigantesco castelo do Deus Sistonskan. Eu estava entre elas, com o medo gritando em minha mente, mas incapaz de parar para chorar. Não. A floresta ficava mais perto conforme seguíamos, todas juntas e prontas para o que for. Bem, eu não estava pronta para o que estava por vir. Mas minha tia estava.
sua vida. Eu admirava minha tia, ah, ela era minha heroína. Argtha era uma feiticeira do inverno, a única que tive o prazer de conhecer; seu poder de gelo era potente e indestrutível, assim como seu espirito. Ela era uma guerreira, possuía uma longa espada — a Chuva Gélida — e com ela congelava seus inimigos até a morte. Sua pele era macia e pálida como a neve, seus olhos azuis como o oceano e seus cabelos eram longos e pretos como a mais completa escuridão. Ninguém nunca ousou negar sua beleza, assim como ninguém teve a audácia de duvidar de sua força.
A relíquia estava presa entre os dedos e a palma de Morgana, um objeto de cor prata, com um formato que não consegui reconhecer. Por que diabos um Deus gostaria de algo como aquilo?, eu me perguntava, ele era um Deus! Mas nunca soube o que se passava na mente daquele ser. O Deus Sistonskan era um Deus que se intitulava o Deus da Morte, das Almas e da Escuridão Eterna. Uma criatura cruel que condenou boa parte dos reinos e clãs que restavam, trazendo trevas a todos. Os vampiros logo se uniram a ele, pois odiavam a luz, e os lobisomens gritaram por guerra, a qual nunca saiu do lugar. Eu não era nascida quando ele ressurgiu do inferno, mas não posso dizer que cresci acostumada com a violência e a morte, porque isso sempre me entristeceu e indignou.
Estávamos nos aproximando da floresta, a qual possuía tantas arvores que tinha receio em não ser rápida o suficiente para me desviar delas, quando ouvi milhares de trotes vindo para a nossa direção. Olhei para trás e arregalei os olhos. "Tia! Tem soldados em cavalos vindo atrás de nós" a alertei enquanto corríamos, minha voz saindo mais alta para que ela me escutasse mesmo em movimento.
Minha tia soltou um praguejo que me recuso a mencionar aqui e puxou sua espada da bainha. A Chuva Gélida. Eu sentia o inverno emanando daquela espécie de metal afiado e quase sorri com a sensação. "Vocês duas, vão e se escondam na floresta, eu irei até vocês assim que terminar com eles!"
"Não, Argtha, eu posso ajudá-la" Morgana insistia, seu tom era carregado de culpa, mas não de arrependimento.
"VÃO" A feiticeira gritou, seus olhos denunciavam o quão alarmante era sua decisão. Eu lancei um olhar para ela uma última vez e, mesmo odiando essa ideia de deixá-la para trás, corri com toda a velocidade que meus pés aguentavam, e percebi que Morgana fazia o mesmo. Argtha não corria mais, notei quando ela se virou e brandiu sua espada fria no ar. Não pude deixar de sorrir, grata por tê-la cuidando de mim.
Em segundos, eu estava na floresta. Parei, não estava cansada, mas já estava no coração da floresta, ninguém me encontraria ali. Mais alguns instantes e Morgana correu até o meu encontro. "Allison!" Ela me chamou, sorrindo com um ar aliviado. "Você está bem?"
Sorri para ela, mas no fundo do meu coração, eu estava explodindo de preocupação. Argtha era a única família que eu tinha. Era óbvio que não éramos parentes de sangue, éramos muito diferentes fisicamente para ter algum tipo de parentesco. Ela nunca admitira isso para mim, mas eu sabia. Como pode? Eu, com minha estatura baixa, minha pele rosada, meus cabelos ruivos como ferrugem e pequenas sardas pintadas em meu rosto mostravam que eu não era sua parente. Mas isso pouco me importava, ela era minha família, pois me criou desde que eu era um bebê, quando fui abandonada pelos meus pais.
"Estou ótima, apenas preocupada. E você?" Olhei para baixo, meu vestido estava esfolado na barra, por conta da corrida. Lobisomens não deveriam usar vestidos, mas também não deveriam ser mulheres. Eu era parte lobisomem, e adorava as habilidades desta raça e não as ignoraria por conta de um vestido.
"Estou bem, Argtha não deveria ter feito aquilo, ainda mais por minha causa" Olhei para Morgana e a vi morder o lábio com frustração no olhar. "Vocês serão procuradas em todos os reinos." Sua voz era urgente e preocupada.
Balancei negativamente com a cabeça. "Nada disso, você é nossa amiga, portanto não nos arrependemos de te ajudar. É uma vampira, e mesmo sendo contra a sua alimentação diária, compreendo que merece viver como qualquer outro ser". A observei sorrir largo, os dentes caninos dela aparecendo. "Argtha..."
Um clarão branco explodiu ao longe e me interrompeu, eu olhei em sua direção com a boca aberta, um tanto assustada com o som e brilho repentino. Era noite e eu soube que todo aquele brilho vinha da espada de Argtha, ela estava lutando. Sorri e voltei meu olhar para Morgana, gritos foram ouvidos e nenhum deles vinham da feiticeira. Podia ouvi-la rindo. "Argtha virá até nós, mas precisamos continuar, encontrar uma saída deste reino."
"O reino de Ethelma não é longe, mas é impossível ultrapassar as barreiras de lá. Os lobisomens as construíram para proteger os amigos humanos e não os abre a qualquer visitante, ainda mais nós, que em breve seremos procuradas por todos os reinos!" Morgana não era muito positiva sobre isso, mas eu pensava diferente, conseguiríamos dar um jeito naquela situação.
"Seguiremos andando, terão de nos deixar passar" Virei-me e comecei a dar meus primeiros passos, estava determinada. Logo, ouvi os passos de Morgana me acompanhando, a saia de seu vestindo farfalhando no mato que havia crescido ao redor das arvores. Mais clarões brilhavam atrás de nós, minha tia estava dando conta, nos dando tempo para fugirmos.
Morgana havia me alcançado e caminhava ao meu lado. Pude olhar para ela e finalmente reparar em sua aparência. Ela sim era parecida como Argtha. Possuía cabelos negros, porém mais curtos e ondulados, sua pele era branca feito papel, e ela quase brilhava sob a luz da lua; Seus olhos eram pequenos e vermelhos como sangue, seus lábios também eram avermelhados. Ela possuía uma estatura baixa, apenas um pouco mais alta que eu. Parecia jovem, mas, assim como Argtha, era bem mais velha do que aparentava. A relíquia mantinha-se escondida em sua mão esquerda.
Permanecemos mudas durante o que pareceu ser uma hora. Os clarões haviam cessado e eu podia ouvir a respiração acelerada de Argtha enquanto ela corria em nosso encontro. Parei de caminhar de repente, sentindo um cheiro estranho. Bom, mas estranho. Era um cheiro adocicado, forte, intimidador e atraente. Farejei o ar e segui na direção dele.
"Para onde está indo?" Morgana perguntava enquanto seguia atrás de mim.
"Um cheiro, estou seguindo seu rastro" Respondi, e ela se calou, então presumi que ela havia aceitado meu argumento. Ultrapassei uma arvore enorme e parei, ainda me apoiando na mesma. Eu a vi, o cheiro vinha dela. Olhei para Morgana, que parou ao meu lado. "O que acha?" perguntei a ela, voltando o meu olhar para a mulher sentada perto de uma arvore esbranquiçada. Ela era jovem, possuía longos cabelos loiros, quase prateados; sua pele era pálida a luz da lua, e seu vestido branco não a disfarçava no meio da noite. A mulher cortava alguma planta com uma pequena faca, a qual manuseava bem, e em seguida as colocava em uma cesta.
Morgana não me respondeu, ao invés disso, aproximou-se da mulher, que virou seu rosto ao ouvir o barulho dos passos da vampira. Ela levantou-se do chão e passou a conversar com Morgana, eu podia ouvi-las de longe. "Moça, por favor, eu e minhas amigas precisamos ir para Ethelma, mas não fazemos ideia de como adentrar seus portões, a senhorita poderia nos ajudar? Nem que seja com alguma informação".
"Qual o seu nome?" perguntou a mulher, fitando Morgana com curiosidade. A vampira apresentou-se e a loira sorriu. "Belo nome, Morgana. Conheço uma entrada, dá para um túnel, este túnel acaba dentro de Ethelma, espero que seja o suficiente, é o que posso oferecer no momento." Ela largou a faca no chão.
"É! É suficiente, as chamarei para cá, espere por nós, sim?"
A loira assentiu e Morgana correu até mim, sorrindo como uma criança. Eu não pude deixar de sorrir, todo o pessimismo da vampira pareceu evaporar após a conversa com a mulher. Ela parou em minha frente, e eu senti uma mão em meu ombro, me virei e vi uma Argtha respirando forte. "Por que pararam?" Ela perguntou. Eu me virei e a abracei com força. Ela estava viva e agora a salvo, e escaparíamos. A soltei em seguida.
"Encontramos uma mulher" Morgana adiantou-se a explicar, empolgada "Ela vai nos levar a Ethelma". Argtha franziu o cenho, mas deduzi que estava cansada demais para argumentar, apenas assentiu em concordância e, com isso, fomos as três de encontro a mulher misteriosa, que nos esperava pacientemente.
Ao me aproximar dela, pude notar que seus olhos eram um tanto acinzentados, com um toque de lilás. Seu cheiro era mais forte de perto. E ela era bela, uma beleza diferente da de Argtha e Morgana, mas ainda bela. Abri meu melhor sorriso, era assim que se faziam amigos gentis.
"Me sigam" A mulher virou-se e caminhou por entre as arvores, nos guiando até a tal caverna. Ela parecia conhecer bem o caminho que trilhava. Olhei para trás, havia deixado sua cesta para trás, mas preferi não a alertar, talvez tinha deixado de propósito, afinal, ela não viria conosco para Ethelma.
Nós a seguimos, até certo tempo quietas. Estava pensativa, não sabia se seriamos bem-vindas ou se conseguiríamos nos misturar ao povo de Ethelma. Eu esperava que sim, pois minha parte lobo se sentiria em casa com outros de minha espécie, e minha parte lobo era maior em mim, era a parte que eu mais gostava. Fora isso, eu não tinha como saber. Nunca tinha estado neste reino antes, mas esperava ser pacífico e bom de se viver. E então Argtha quebrou o silencio:
"Qual o seu nome?" Ela perguntou a mulher, esta sem se virar, devolveu a pergunta. "Argtha, e a menor é a Ally. E o seu?"
"Não sou importante, meu nome será dito em vão".
E o silencio retornou, pois ninguém tinha outro assunto ou pergunta para fazer. Eu franzi o cenho e troquei um olhar preocupado com Argtha, que revirou os olhos e balançou a cabeça. Ela não se importava e nem estava com paciência para insistir no assunto. Durante o restante do caminho, eu refleti sobre aquela última frase dita e lamentei ela estar correta. Nunca veria aquela mulher outra vez, mas gostaria de saber o nome dela, pois sem ela não teríamos encontrado uma forma fácil de entrar no reino vizinho.
A mulher parou em frente a uma porta de uma pequena casa de madeira, ela abriu a porta e entrou. Nós a seguimos para dentro da casa. "Feche a porta" Ela pediu e Morgana fechou a porta assim que entrou, já que ela fora a última a fazê-lo. A loira retirou parte do tapete cor de ameixa do chão, revelando uma pequena porta horizontal, que fora aberta em seguida. A mulher lançou um olhar orgulhoso para as três. "Aqui está, são tuneis seguros, o destino é garantido".
Sorri novamente. "Obrigada, moça" Aproximei-me dela e segurei em suas mãos, agradecida. O toque dela era frio em minhas mãos quentes. "Não esquecerei o que fez por nós". A soltei e me abaixei para descer no túnel, mas a loira pôs uma pequena tocha acessa em uma de minhas mãos antes que eu descesse.
"Para iluminar o caminho" Ela disse, sorrindo levemente.
Eu, com a tocha, desci.
Argtha, em seguida, desceu.
Morgana, por último, desceu.
E acima de nós, a porta se fechou. E nós seguimos dentro do túnel.
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