Until Tomorrow Comes
3 The reunion
Notas iniciais
Se revirou pela milionésima vez. Era inútil, não voltaria a dormir. Sentou-se na cama e seus pés tocaram o chão gelado. Precisava sair.
Paris despertava lentamente. O sol nascia e alguns turistas já se aventuravam na cidade, fotografando cada detalhe. A fria e forte brisa tocava seu rosto, fazendo-a sentir-se viva. Inspirou fundo, enchendo os pulmões. Amava as gélidas manhãs de outono.
Observava as pessoas que se dirigiam ao trabalho, andando apressadas pelas calçadas, focadas demais em seus próprios afazeres para se darem ao luxo de apreciar a beleza da cidade. Éponine contrastou os dois. O atarefado parisiense e o estrangeiro maravilhado. As pessoas se acostumam com a beleza, até que ela se torna inevitavelmente opaca. Depois de um tempo tudo se torna rotineiro, obsoleto. Mas não para ela. Nunca fora capaz de imaginar-se vivendo em qualquer outro local. Amava cada pedacinho da França. Às vezes, se pegava fitando embasbacada a paisagem, pensando em como a mesma havia inspirado tantos escritores e artistas. Olhando para os turistas, perguntava-se se não parecia um deles, se admirando tão facilmente.
Ficou jogando um jogo consigo mesma. Ao ver as pessoas passando, inventava toda uma vida para cada uma delas. Às vezes, quando algo interessante cruzava sua mente, puxava seu caderninho, anotando apressada, receosa de esquecer.
Observava os casais, os tantos e tantos casais. Paris. De fato, a cidade do amor. Porém, em sua opinião, estava mais para a cidade da poesia. A capital seria impossível de ser descrita se não fosse por esta palavra. Pois o que se pode comparar ao coração pulsante de Paris?
Esqueceu-se de tudo quando adentrou um pequeno café ali perto. O cheiro da bebida quente e do pão fresco dominava o acolhedor ambiente. Sentou-se junto a janela, e brincava com os lírios no centro da mesa.
—Éponine?- chamou uma voz vinda de trás do balcão- Éponine, é você?
Virou a cabeça em direção ao som. Uma moça, que rapidamente reconheceu, vinha de passos largos até ela.
—Laure, que bom ver você!- Éponine levantou-se da mesa, estupefata, abraçando a amiga fortemente- O que faz aqui?
—Eu trabalho aqui- respondeu ela, com um sorriso estampado no rosto.
Ela se virou para o homem sentado numa banqueta, fazendo um sinal para pedir tempo, e puxou a morena de volta para o assento.
—Como você está?- indagou Éponine- Tem falado com seus pais?
—Aqueles dois?! -indagou, rindo- já os deixei há muito tempo. Demorei um pouco mais que você, mas finalmente decidi que não iria ficar por lá nem mais um minuto. Vim para a cidade e dei um jeito por aqui. Ah, mas isso não importa, você deve ter histórias muito melhores para contar!- Éponine encarou os lírios- Da última vez que nos vimos, estávamos no parque tentando assaltar aquele homem com o chapéu engraçado, lembra disso? Depois só fiquei sabendo que você tinha ido para Deus-sabe-onde!
A morena a olhou subitamente. Depois de todos aqueles anos, todas as memórias ressurgiram do fundo da mente, do lugar vazio e escuro onde as tinha trancado. Agora estavam tão vívidas, tão frescas, como se nem um dia houvesse passado. A fome, a pobreza, a miséria, sentiu-os como se fossem uma realidade e não uma lembrança. Mas tudo isto ela aceitaria de bom grado, não fossem os roubos, os assaltos, e tudo o mais a que os pais a sujeitavam. Pelo bem da família, eles diziam. Assim que parou de fingir que era para o bem de alguém além deles mesmos, não aguentou mais, pegou uns trocados e partiu para Paris sem nem olhar para trás.
—Bem, eu vim para cá e bati na porta do orfanato mais próximo. Não foi difícil convencê-los que meus pais haviam falecido e que não tinha nenhuma família. Me colocaram numa escola e uns anos depois acabei ganhando uma bolsa na Sorbonne para estudar Literatura muitos livros e nada pra fazer é nisso que dá- forçou um sorriso -Conheci uma garota, que agora divide o apartamento comigo, e é isso. Nada de muito interessante como você pode ver. Mas estou realmente muito feliz de ver você aqui, Laure! E o Montparnasse? Você ainda fala com ele?
—Francamente 'Ponine, sua memória está tão fraca assim? Você sabe o quanto o amo. Obviamente veio comigo! Você tem que ir lá em casa um dia desses, Mont vai ficar tão feliz em ver você!
—Ah, com certeza!- olhou para o relógio- Me desculpa, mas eu estou muito atrasada pra aula! Depois nos falamos Laure, adorei te ver, e não esqueça de dizer ao Mont que eu falei oi, tá?- levantou-se apressada e saiu do café sem deixar a amiga dizer mais nada. Tinha que sair de lá. Tudo estava vindo à tona e era demais para suportar naquele momento, como se um fantasma do passado a perseguisse. Só parou para respirar subindo as escadas da Sorbonne indo em direção à sala.
Aí tudo voltou a normalidade e lembrou-se que realmente precisava se acalmar. Mais tarde teria que se encontrar com as meninas, iriam a uma reunião de política, num tal de Musain.
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Os amis haviam chegado cedo aquela tarde para mais uma reunião. Enjolras, de pé, já se cansara de inutilmente tentar captar a atenção dos revolucionários. Grantaire, já razoavelmente bêbado, estava concentrado demais em sua garrafa de vinho. Bossuet e Joly encaravam descaradamente a barista, e os outros estavam mais entretidos escutando Bahorel e a história da sua mais recente briga.
Joly se levantou decidido.
—Vou falar com ela! Dessa vez vou mesmo falar com ela!- respirou fundo- Me deseje sorte! –virou o copo e caminhou em direção à ruiva por trás do balcão, antes que Bossuet pudesse impedi-lo. Este deslizou na cadeira e soltou um suspiro.
— Não se preocupe, Joly vai acabar estragando tudo falando da quantidade de doenças que pode se pegar andando à chuva ou perguntando qual o tipo sanguíneo dela. Logo, logo a ruiva sem graça será sua Bossuet- dando amigáveis tapas nas costas do amigo. Por que será que Grantaire sempre presenciava os piores momentos dos Amis e sempre estava lá para fazer piada? Será que não tinha mais o que fazer? Queria perguntar tudo isso. Mas a única coisa que saiu foi:
—Bem, claramente você já bebeu demais, R.- Bossuet retirou o vinho das mãos do amigo, voltando a encarar a ruiva, que agora falava alegremente com Joly.
— Você tenta ajudar e é isso que recebe né?- se levantou com ar ofendido indo buscar outra garrafa.
Courfeyrac estava bastante pensativo, não dizia uma palavra.
— Quando ela entrou, confesso que achei que era só mais uma daquelas meninas riquinhas, como há milhares por aí- a voz de Combeferre o retirou de seus pensamentos. Fitou o amigo, se perguntando se este estava realmente falando dela, ou se era só sua imaginação- preconceito é uma merda né? Não precisa ficar me encarando assim, Cristoph Courfeyrac. Eu sei que você tava pensando nela. Não é todos os dias que você leva um fora!- riu lembrando do ocorrido.
Courf estava abrindo a boca para responder, quando a viu entrar mais uma vez por aquelas portas, tão decidida quanto naquele dia. Nem notou as outras três garotas entrando logo depois.
—Só porque deixamos você ajudar, Claire, não quer dizer que pode trazer quem quiser sem nem avisar- Enjolras falou seriamente encarando Claire, que decidiu ignorá-lo.
Com o mesmo sorriso com que entrou, se dirigiu aos amis.
—Essas são Emma, Cécile e Éponine. Elas realmente gostariam de se juntar, na realidade não pararam de encher meu saco até eu concordar em trazer elas aq...
—Obrigada, Claire- interrompeu rapidamente Emma- mas, acho que conseguimos falar por nós mesmas-deu uma risadinha nervosa. -Mas é verdade. Seria ótimo podermos ajudar de alguma forma. Respeitamos muito o que vocês estão fazendo. Je suis Emma- se apresentou.
— A Claire já fez o favor de nos apresentar, mas, je suis Cécile e é um prazer conhecer todos vocês- acenou para os garotos.
— E eu, obviamente, sou Éponine.- abriu um largo sorriso, meio sincero, meio sarcástico- Agora que já fomos todas apresentadas duas vezes, só queria dizer que queremos as mesmas coisas que vocês, e estamos prontas para fazer o que quer que seja necessário- disse esta frase olhando fixamente para o loiro que havia feito o comentário, quando entraram. Queria assegurar que estariam totalmente dedicadas ao movimento. Não suportaria que alguém achasse que seriam inúteis, ou que só atrapalhariam.
Quanto mais fitava o loiro, mais intrigada se sentia. Não sabia o que era, mas por algum motivo não conseguiu entendê-lo, como sempre fazia com todos. Nem que fosse algum traço no semblante, ou um deslize qualquer que a pessoa cometia, ela conseguia esboçar com precisão a personalidade de qualquer um que cruzasse seu caminho. Mas este não cometia deslizes. Observou-o. Ele parecia calcular cada palavra que saía de sua boca, e deixava escapar apenas o necessário. No entanto, transparecia que havia muito mais em seus pensamentos, girando e girando num ritmo frenético. Seus olhos nunca focavam em nenhum ponto por muito tempo. Portanto, não tinha como saber se sua mente vagava apenas pelo assunto discutido, ou se ia muito mais além.
Mesmo bastante tempo depois de ter falado, Enjolras ainda sentia o olhar da morena cravado em si, como se o estudasse. Se sentiu em desvantagem, e pensou retribuir o favor. Olhou fundo nos olhos âmbar da garota, tanto que depois de um tempo, não sabia mais o que fazia. Sabia porém cada recôndito, cada reflexo que se espelhava na íris cor de mel. Deixou que Combeferre e Courfeyrac tomassem a rédea da reunião. Pelo que conseguiu depreender de palavras soltas que captava aqui e ali, tinham decidido fazer propaganda ao movimento, distribuiríam panfletos, hackearíam sites e... parou de ouvir por aí. As palavras chegavam atrasadas, como que um eco em sua mente. Agradeceu a Grantaire quando este, ainda mais bêbado do que antes, retornou do balcão e tomou a palavra, subindo em uma cadeira, interrompendo a intensa troca de olhares entre os dois.
— Como vocês já decidiram o que fazer...- a voz extremamente arrastada. Parou um pouco esquecendo-se do que ia dizer–...Eu quero ir a um bar. Alguém quer ir a um bar?
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Enjolras realmente não fazia a mínima ideia do que o motivava a colocar um pé à frente do outro. Deveria estar em casa lendo um livro, ou até mesmo ajudando a criar os panfletos. Ao invés disso, tinha se deixado levar por Grantaire, e caminhava no frio agonizante das ruas noturnas de Paris. Se repreendeu por ter esquecido o casaco em casa. Os outros conversavam alegremente com as meninas. Apenas a enigmática morena o acompanhava no silêncio.
Ao entrar no bar Coríntio, a música e a atmosfera tiveram impacto imediato no grupo. Todos pareciam animados e ansiosos para se juntarem à multidão extasiada. Combeferre pegou na mão de Emma, a levando para a pista de dança. Enjolras seguiu diretamente para o balcão, se iria sobreviver àquilo, teria que ter uma bebida. O resto dos Amis pegou uma mesa e conversavam entusiasmadamente. Bossuet fazia companhia a Grantaire já alcançado o estado do amigo.
— Aposto que ele está lá com ela agora- gritava para ser ouvido em meio à música- sabe, fui eu quem notou ela primeiro! Aqueles cabelos cor de fogo.
Grantaire se aproximou mais do que o necessário de Bossuet.
— As pessoas são ingratas, não confie em niguém- pensou um pouco- menos em mim, porque enfim, sou invisível. Estou sempre lá, Bossuet, vendo todas as merdas que vocês fazem. Mas alguém repara em mim? Nãaaaaao. Sou apenas o bêbado do Grantaire- botou o braço em volta do amigo. Se recompôs- Não se preocupe, tem pessoas por aí bem melhores que ela.- se levantou em busca de uma bebida mais uma vez.
Bossuet se espantou pela repentina mudança de humor em Grantaire. Nunca o tinha visto tão amargo como hoje. Pensou em segui-lo para perguntar o que estava acontecendo, mas uma súbita imagem de Joly com Musichetta cruzou sua mente, e ficou emerso demais em seus próprios problemas.
—Você está muito bonita hoje, Claire. Espero que não tenha sido só por mim- o típico sorriso cafajeste de Courfeyrac surge mais uma vez em seu rosto. Claire arqueou as sobrancelhas, como se lhe dissesse que realmente não estava com paciência para passar por aquilo de novo.
Ele suspirou.–Ok, isso não vai dar certo, né?- o silêncio da garota foi o bastante- Tudo bem, vamos começar de novo. Meu nome é Coufeyrac, e você é?- perguntou estendendo a mão.
— Claire, muito prazer- sorriu para o rapaz pela primeira vez, divertida, retribuindo o aperto de mão.
—Seu sorriso é lindo, sabia?- ela abafou uma risada- Ah, desculpa, desculpa. É verdade, estamos começando de novo.- ela assentiu- Mas, é realmente bonito- ele acrescentou num sussuro quase inaudível.
Claire voltou seu olhar para o centro do bar bem a tempo de observar uma loira entrando no banheiro, seguida logo após por Combeferre. Riu consigo mesma da situação. Decidiu que não falaria nada. Mais tarde, Emma lhe contaria tudo o que quisesse.
Éponine estava extremamente entediada no meio de Feuilly, Cécile e Bahorel, que falavam de sabe-deus-o-quê. Olhou em volta ao notar a falta de Enjolras. Se levantou e andou um pouco pelo lugar, o encontrando encostado numa parede, afastado de todos. Involuntariamente, se viu indo ao seu encontro. Encostou-se a seu lado. Ficaram um bom tempo assim, em silêncio, até que suas respirações sincronizaram.
Um podia jurar que o coração do outro estava acelerado.
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