Unkiss Me

17 You are jealous


Entrei na sala de visitas da penitenciária já com pouca paciência. Scoot resolveu, simplesmente, não abrir o bico até conseguir um advogado. Depois que conseguiu, não quis revelar os nomes. E lá vou eu tentar fazê-lo falar alguma coisa que preste, mesmo que o advogado dele não esteja presente. Não custa tentar.

– Olá, Scoot. — Falei me sentando.

– Que é? Eu já disse que não vou falar nada.

– Seu advogado deve pensar “meu cliente é burro”, não concorda? — Scoot bufou. — Você pode passar menos tempo na prisão. Sabe disso.

– Dois anos. Meu advogado falou. — Ele falou como se isso fosse realmente verdade.

– Isso é um absurdo. Mas não sou eu quem decido. Só sei que podem muito bem incluir a morte dos dois garotos na sua pena, por mais que tenha sido overdose, além de duas tentativas de homicídio. Então, eu realmente acho que é melhor você colaborar.

– Eu sei quem injetou a droga na veia do Jordan. — Liguei o gravador e pedi pra ele repetir. Scoot revirou os olhos, mas fez o que eu falei.

– Conta.

– Jordan começou a desconfiar de algumas coisas. — Ele parecia inquieto.

– Ninguém que não deve vai saber disso.

– Ele descobriu quem mais estava por trás do tráfico e começou a fazer perguntas. Ele usava muito. Não foi difícil fazer todos acreditarem que o cara morreu de overdose.

– Quem matou o Jordan, Scoot? — Ele se remexeu desconfortável na cadeira. — Não me enrola. — Ele tava começando a ficar irritado.

– Não to enrolando. — Esperei mais alguns segundos.

– Scoot?

– Porra! — Ele falou irritado. — Adam Baker.

– Oi?

– Tá surpresa? Quer dizer que ele te enganou bem. Adam não vende, se é isso que você tá perguntando. Ele fornece o dinheiro. E fatura o triplo. Acho melhor começar a agir rápido. Soube que ele tá contratando novatos.

– Sabe mais do que?

– Nada. — Me levantei, desligando o gravador.

– Tchau, Scoot. — Voltei pra delegacia e deixei a gravação na mesa do chefe. Sabia que ele encaminharia pro promotor logo depois.

– Como foi com o Scoot? — Steves perguntou.

– Ele falou que o Adam matou o Jordan. — Ele arqueou uma sobrancelha.

– Até que faz sentido.

– Não, não faz.

– Faz sim, Laura. — Me joguei na minha cadeira. Minha mesa parecia tão vazia agora. Antes de eu ir pra faculdade, parecia até que sairia um bicho do meio dos papéis. — Sabe o que eu mais sentia falta? — Olhei pro Steves. — Da minha mesa. E da Alex. — Ele piscou pra ela, que deu um risinho.

– Você me dá nojo. — Ele riu.

– Mentirosa. Você não conseguiria ser parceira de outra pessoa.

– Eu nunca disse isso. — Me fiz de desentendida.

(…)

– Olha só o que eu trouxe! — Falei cantarolando enquanto tirava o sanduíche do McDonald’s de dentro da bolsa. Isaac riu.

– Até que o jantar de ontem não foi sem sal.

– Graças a Deus. — Desembrulhei o sanduíche pra ele.

– Mas era uma papa de legumes.

– Ew. — Falei fazendo careta. — Tá melhor hoje?

– Melhor agora. — Ele falou de boca cheia e apontando pro sanduíche.

– Nojento. — Ele achou graça.

– Como tá sendo o trabalho?

– Sentia falta do departamento.

– E a investigação?

– Scoot enrolou pra falar as coisas. — Isaac me olhava com cara de curiosidade. — Ele disse que o Adam matou o Jordan.

– O Adam? — Ele perguntou arregalando os olhos.

– Não conta nem pra sua mãe, por favor!

– Não vou contar. Prometo. — Ele continuou comendo o lanche e eu tomando o suco que tinha comprado pra mim.

– Sabe… Ontem dei de cara com a Laura quando saía daqui. — Falei como quem não quer nada.

– Um amigo meu falou pra ela do acidente. Ela não ficou muito tempo aqui, não.

– Ela quis voltar de novo?

– Hm… Acho que não. Sei lá. A enfermeira veio me dar um remédio e eu acabei ficando meio grogue.

– Ah… Quer agora? — Levantei o refrigerante dele.

– Depois.

– Eu sei que a televisão do hospital não passa nada de muito interessante, então eu trouxe alguns filmes pra você.

– Valeu! Eu realmente tava precisando. Ficar aqui é um saco.

– E, pra mostrar que eu sou uma ótima pessoa, trouxa alguns HQ’s. Na verdade, eu peguei do Steves. Mas ele disse que você pode ficar com eles o tempo que precisar.

– Obrigado.

– E também trouxe a minha coleção de Harry Potter. Talvez você queira ler.

– Parece que eu tenho muito o que fazer agora. — Dei um sorriso de canto. Olhei pro lado e vi uma caixa em cima da mesinha que tinha no quarto. Fui até lá.

– O que é isso?

– Chocolate. Laura trouxe pra mim. Digo, a outra Laura, não você. Sabe, nunca tinha ouvido falar de alguma Laura antes de ela aparecer. Mas parece que agora tá saindo Lauras até do bueiro.

– Muito obrigada pela parte que me toca. — Cheirei um bombom e fiz careta. — Aposto que tem cereja no meio.

– Não tem, não. São bons. Vai ser minha sobremesa.

– Aposto que o muffin da lanchonete daqui é melhor que isso.

– Você tá com ciúmes. — Ele falou e riu. Tipo, riu mesmo. A cabeça dele até pendeu pra trás.

– Não to vendo graça nenhuma. E não to com ciúmes. Você precisava ver o jeito que ela olhou pra mim quando me viu saindo daqui.

– Ela só foi gentil comigo. Ela sabe que não vamos voltar. E você também sabe. — Aproveitei que tava de costas pra ele e fiz careta. — Eu tava lembrando de uma coisa hoje mais cedo…

– O que seria?

– Você ainda tá me devendo aquele segundo encontro. — Olhei pra ele. — Reclama do chocolate mas tá comendo.

– Não to, não. E você tá meio impossibilitado de sair nesse momento.

– Não vou passar a vida aqui.

– Achei que não iria querer sair comigo de novo.

– Hm… Somos amigos ainda.

– É, amigos. — Dei um sorriso falso e ele riu. — Acho que eu tenho que falar com a enfermeira. Você tá muito risonho. — Ele deu de ombros. A porta abriu e eu corri pra esconder o lanche do McDonald’s que ele comia. — Olá. — Falei pra enfermeira.

– Boa tarde. Eu trouxe seu almoço, Isaac. — Ele torceu um pouco o nariz. — Quando terminar me chama pra eu te dar o remédio. — Ela saiu. Fui até ele de novo. Tomei uma colherada da sopa.

– Não é tão ruim.

– Mas não é maravilhoso. Prefiro o lanche do McDonald’s.

– O lanche com um quilo de gordura.

– Ei! Foi você quem comprou.

– Eu precisava me redimir. E quando falei da gordura, não disse que era ruim. — Continuei comendo a sopa no lugar dele.

– Podia ter uma sobremesa maneira depois.

– Tem gelatina aqui.

– Hm… Comi ontem a mesma coisa. Não é tão ruim. Mudando de assunto, tava falando com o povo da sala pelo celular.

– Tão chocados pela minha mentira?

– Um pouco.

– “Como assim a loira burra que não consegue acertar um exercício de cálculo é da polícia?” — Fiz uma voz mega fina. Ele deu risada.

– Não te chamaram de loira burra. E você não errou todos os exercícios que fez.

– Você fazia a maioria pra mim.

– Era um método de eu estudar pra prova também.

– Certo… Adam tem que ir depor até amanhã.

– O que acontece se ele não for?

– O juiz expede um mandado de prisão. Eu ainda acho que o Scoot tá mentindo.

– Talvez. Soube que ele não apareceu essa semana.

– Jura? Isso é meio preocupante. — Olhei a hora. — Eu tenho que voltar pro trabalho.

– Seu chefe é legal por te liberar pra vir aqui.

– Na verdade, pra ele eu to colhendo informações. — Isaac sorriu. — Até amanhã. Ou até mais tarde, não sei. — Fui dar um beijo na bochecha dele, mas, pra começar, ele estava com uma bandeja de comida em cima dele. Então, dei uma de espertinha e dei um selinho nele. — Tchau.

– Tchau. — Ele falou rindo.

(…)

– Eu preciso que vocês separem tudo sobre o caso da NYU e deixem na minha mesa até as 21h00. — O chefe disse pra mim e pro Steves.

– Chefe, posso perguntar por qual motivo? — Falei.

– O caso vai ser transferido pra divisão de homicídios.

– Fácil eles quererem o caso quando já descobriram o essencial. — Steves disse.

– Fala com a corregedoria, não comigo. — O chefe respondeu. — Eu to tentando fazer com que vocês trabalhem com eles. Eu já imaginava que isso aconteceria, com dois assassinatos e duas tentativas de homicídio, além da sua. — Ele falou apontando pra mim.

– E sobre o Adam Baker?

– Continua o mesmo. Mas ele vai falar com a divisão de homicídios, não com vocês.

– Eu achei que eu o interrogaria. — Sim, eu queria interrogar o Adam. Pra falar a verdade, acho que, se ele fosse culpado, seria até divertido.

– Não tenho culpa, Parker. Até as 21h00! — O chefe voltou pra sala dele e eu olhei pro Steves.

– Isaac disse que o Adam não apareceu essa semana na faculdade.

– Ou isso é coincidência, ou ele tá fugindo.

– Acho que temos que ir até lá.

– Chefe disse pra não aparecermos mais na NYU.

– Quem disse que ele vai precisar saber? — Peguei meu casaco, me levantando.

– Por que eu to indo atrás de você mesmo?

– Sei lá… Vai ver é instinto protetor de irmão. — Falei sorrindo.

– Engraçadinha.