Unkiss Me
16 Resumption
– Ele já saiu da cirurgia. Mas ainda tá no centro cirúrgico esperando passar o efeito da anestesia. A mãe dele tá lá dentro. — Stevens falou sentando do meu lado. Ele tinha acabado de chegar da delegacia.
– E como foi o interrogatório? — Steves ficou de interrogar o Scoot, já que eu vim direto pro hospital.
– Ele não falou nada a mais do que a gente já sabia. A promotoria tá tentando fazer um acordo pra que ele libere os nomes dos envolvidos.
– Falou porque atirou na menina, pelo menos?
– Ele só disse que ela sabia demais.
– Pra que hospital ela foi?
– Pro Royal. O pai dela é médico de lá. Tem policiais na porta. Ninguém vai entrar escondido lá. Muito menos tentar matá-la de novo. — Respirei fundo, me ajeitando na cadeira.
– Acho que tá demorando demais.
– Acho que você devia ir pra casa. Dificilmente o médico vai liberar visita depois que ele sair da cirurgia.
– Se eu for embora, vai parecer que eu não me importo com ele.
– Antes de isso tudo acontecer, eu não fazia ideia de que você estava realmente apaixonada por ele.
– Eu não… Qual é, Steves! O cara levou um tiro por mim!
– É… Ele gosta bastante de você. — Ficamos mais um tempo na sala de espera. Quando eu estava quase levantando pra ir na lanchonete do hospital, a mãe dele entra na sala. Fui até ela.
– Oi! Não sei se a senhora lembra de mim…
– Lembro sim. Sarah, não é? — Olhei pro Steves e depois de volta pra ela.
– Como ele tá?
– Bem. Eu acho. Ele tá descansando agora. Daqui a pouco começa o horário de visitas
– Eu vou esperar aqui, então. Obrigada.
– Ela passou a noite toda aqui? — Ela perguntou pro Steves.
– Veio o mais rápido que pode.
– Eu to bem. — Resmunguei.
– Sarah, a mãe sou eu. Deixa seu telefone que qualquer coisa eu ligo.
– Eu fico aqui. Obrigada mais um vez. Só vou comer alguma coisa. A senhora quer algo de lá?
– Não. Obrigada. — Steves foi comigo. Escolhemos a comida e fomos pra uma mesa.
– Vai contar pra ela que você não é Sarah? — Ele perguntou pra mim.
– E você não é Howard.
– Mas eu não conhecia a mãe dele.
– Eu quero falar com ele primeiro. — Comemos e ficamos mais um tempo na lanchonete. Comprei também um café. Quando voltamos pra sala de espera, a mãe do Isaac não estava mais lá. — Acho que começou o horário de visitas.
– Deixa a mulher voltar, Laura.
– Ela vai ter tempo suficiente. Já volto. — Fui na recepção e perguntei qual quarto que ele estava. “Só pode entrar família”. Odiava quando falavam isso. Por isso, respondi que eu sou a namorada. Isso não é totalmente mentira, né? Bati na porta do quarto e aguardei. A mãe dele abriu. Dei um meio sorriso.
– Já volto. — Ela falou pra ele e eu entrei. Isaac me olhou de cima a baixo.
– Até que o moletom da polícia não fica tão ruim em você.
– Obrigada, eu acho. — Me aproximei dele. — Você não devia ter feito isso.
– Eu já falei. Ele ia acertar sua cabeça. Ou seja, ele ia te matar. Pelo menos ele só acertou meu ombro.
– Desculpa, Isaac. Tá doendo muito?
– Qual seu nome?
– Laura. Olha, Isaac, eu só menti meu nome pra você. Eu juro!
– Mas eu não sei nem quem você é! — Ele falou e suspirou.
– Como eu disse, eu só menti meu nome. Eu não menti sobre as outras coisas. Você me conhece, sim. Eu sou daquele jeito. E eu só menti pra você porque foi realmente necessário. Eu não podia revelar quem eu era. Na verdade, antes de tudo aquilo acontecer ontem, eu ia te contar a verdade. Mas o idiota do Scoot resolveu fazer um tiroteio no meio da festa da Omega! — Isaac não falou nada. — Eu não menti quando disse que gostava de você.
– Quantos anos você tem?
– Hm… 25. — Ele olhou pra mim de novo. — Eu não to mentindo. Juro por Deus! Você me perdoa?
– Eu to cansado, Sa… Laura, né?
– É. Bom, eu vou te deixar descansar, então. Vou voltar aqui no próximo horário de visitas, ok? — Isaac deu de ombros. Jura que ele vai querer agir como um menino mimado justo agora?! Me aproximei dele. Ele recuou um pouco o tronco. — Então, tchau. — Abri a porta, mas antes de sair, dei uma olhada nele de novo. Ele nem olhava pra mim. Fechei a porta lentamente esperando um “espera! Sei que você não fez por querer”. Mas claro que Deus e o mundo inteiro sabia que isso não iria acontecer. Pelo menos não tão cedo.
(…)
– Ele tá chateado. — Steves disse enquanto dirigia meu carro em direção ao meu apartamento.
– Que novidade. Nem reparei, sabia? Vai dormir no meu sofá?
– Obrigado pelo convite. Eu realmente tava esperando por ele. E o Isaac não falou muito comigo quando entrei no quarto. Ele me perguntou se você realmente ia contar a verdade pra ele. Eu disse que não sabia, mas que você as vezes é um pouco irresponsável em se tratando do trabalho e que era provável que você fosse contar mesmo.
– Eu irresponsável?! Nunca coloquei meu trabalho em risco. E eu sabia que o Isaac é confiável. Por isso eu ia contar pra ele. E eu disse que ia voltar lá no próximo horário de visitas.
– O que ele respondeu?
– Nada. Mas eu vou assim mesmo.
– E se ele não quiser te ver? Ele pode virar a cara pra você de novo.
– To nem aí. Se ele não voltar ao normal comigo por realmente ver que eu não tive escolha, vai voltar ao normal pela minha insistência. — Após chegar em casa e tomar um banho maravilhoso e dormir por algumas horas, acordei pra ir visitar o Isaac. Quando cheguei lá, encontrei a mãe dele novamente.
– Isaac me falou sobre tudo. — Ela disse. Fiz “cara de paisagem”. — Então seu nome não é Sarah?
– Olha, eu sei que eu menti pro seu filho e que a senhora não deve gostar muito de mim nesse momento, mas eu juro que não tive escolha. Eu não podia falar sobre meu trabalho. Era extremamente confidencial. Aquilo podia acabar com a investigação inteira. E eu não menti quando disse pra ele que ia contar tudo. Fora que eu realmente gosto dele. A senhora tem que entender o meu lado e ele também. Eu não fiz por querer e…
– Isaac tá chateado. — Ela me cortou. — Mas logo, logo isso passa. Ele sabe que você não fez por querer, mas acho que ele realmente gosta de você. — Dei um meio sorriso.
– Ele tá acordado?
– Vou te levar lá. — Segui a mãe do Isaac pelos corredores do hospital. Ela me disse que, segundo o médico, ele provavelmente teria alta em uma semana, passando pra tratamento psicológico. Ela quis que eu entrasse sozinha e me disse que estaria do lado de fora. Entrei.
– Mãe, eles demoram muito pra trazer a comida? Eu to com fome. — Isaac estava tentando regular a frequência de gotas do soro.
– Não sou sua mãe, mas posso trazer algo da lanchonete. — Ele olhou pra mim.
– Então o horário de visitas já começou.
– Eu te falei que viria. — Sentei na ponta da cama. — Ainda dói?
– Incomoda. Mas isso aqui incomoda mais. E tá doendo. — Ele apontou pro lugar onde a agulha do soro estava espetada. Me estiquei e arrumei o soro pra ele. — Obrigado. — Comecei a reparar nele. Parecia uma criança que não ganhou o presente que queria de Natal de tão emburrado que estava.
– Você tá uma gracinha com essa roupinha de hospital. — Disse reprimindo o riso.
– Sou mais meu samba canção do Superman. — Ri. — Já aconteceu isso com você? Levar um tiro?
– Já. Embaixo da coluna.
– Perto da bunda. — Arqueei a sobrancelha. Ele deu um meio sorriso. — Eu pensei que fosse de nascença. Não que eu tenha… Sabe… Reparado muito. — Estreitei os olhos.
– Mentiroso. — Ele enrubesceu.
– Pensei sobre tudo. — Ele falou sem olhar pra mim. — Acho que eu quero saber quem você é.
– Você já sabe quem eu sou eu. Isso quer dizer que voltamos à estaca zero?
– Não, não sei sobre você. Não sei seu segundo nome nem o nome da sua mãe. Não sei onde você mora e, por mais que tenha milhares de filmes e séries sobre, eu não faço ideia de como é ter o seu trabalho. Não sei o que você faria na faculdade, se tivesse escolha. Só sei que com certeza não envolveria números. Não faço ideia do que você gosta de fazer sábado a noite sem ser ir para as festas que tem na faculdade. Eu não sei nem se você realmente gosta de beber ou não. — Senti um aperto no peito. Isaac não tinha falado nenhuma mentira.
– O que você quer saber? — Ele pareceu pensativo no começo. E eu só aguardando o Isaac me perguntar.
– Faz quanto tempo que você trabalha na polícia?
– Cinco anos. Trabalhei três anos na divisão de homicídios e to há dois no departamento de narcotráfico.
– Você que quis mudar?
– Uhum. Acho que aquilo não era pra mim. Tem casos que eu tenho pesadelo até hoje.
– Qual foi seu último? — Ele não parou de me fazer perguntas por um pouco mais de meia hora. Desde o meu trabalho, até o que eu faria na faculdade. Falei pra ele que não tenho nenhuma prima chamada Laura e ele achou graça, dizendo que já imaginava.
– Sua mãe falou que o médico deve te dar alta daqui a uma semana.
– Espero. Não aguento mais ficar com essa roupinha. Nem com essa comida. Nem remédios.
– Você sair daqui não quer dizer que não vá precisar de remédio.
– Quanto tempo demora pra cicatrizar?
– Completamente? Como o buraco da bala não é tão grande, dois meses, mais ou menos. Você fica de repouso o tempo que ficar no hospital.
– Depois eu vou ter que ficar com aqueles trocinhos no braço?
– Tipoia? Vai. O ferimento foi no ombro.
– Onde você vai ficar agora?
– No meu apartamento. É um pouco longe do campus.
– Você não vai poder aparecer por lá, né? — Fiz que não com a cabeça. Bom, pelo jeito ele queria que eu continuasse frequentando o campus, ou seja, ele queria continuar me vendo. Mas ele não me deu nenhum indício de que continuaríamos juntos.
– Isaac… Como a gente fica agora? — Ele mordeu o lábio.
– Seria melhor a gente começar do zero, não seria? — Não! Eu queria responder. Mas eu sou obrigada a concordar com ele. Acho que só por ele entender meu lado em tão pouco tempo já foi um lucro gigantesco.
– Acho que sim. — Olhei no relógio. O horário de visitas estava acabando e era óbvio que a mãe dele queria vir aqui também. — Vou voltar em todos os horários, ok?
– Tudo bem. — Dei um beijo na bochecha dele e saí do quarto, dando de cara com a Laura2.
– Oi. — Ela falou pra mim. Não falei nada e ela passou por mim, abrindo a porta e fechando-a na minha cara logo em seguida.
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