Unkiss Me

6 Have I ever said that you are nice?


Estávamos todos no intervalo de aulas. Me aproximei da mesa dos amigos do Adam. Logo avistei o cara que usa drogas. Ele estava sentado bem do lado do Adam. Me enfiei no meio dos dois.

– Peguei o salgadinho que você gosta. — Adam falou pra mim e me entregou o pacote.

– Obrigada!

– Já tá nessa fase, Adam? — O tal cara falou de brincadeira e nós dois rimos.

– Você também faz engenharia? — Perguntei.

– Filosofia. — Tinha que ser de humanas, né?– To no segundo ano ainda. Tá tentando entrar pra fraternidade?

– Aham.

– Sou totalmente imparcial. Já aviso. — Adam se defendeu e ele riu baixo.

– Jordan. — O cara estendeu a mão pra mim.

– Sarah. — Sorri e apertei. Ficamos conversando por um tempo. Eu tinha que conseguir a confiança dele pra ele saber que poderia me mostrar quem vendia.

Depois da aula, fui na república masculina buscar a noiva chamada Stevens. Dessa vez, ele estava no quarto. Quando entrei, coloquei uma mão na frente dos olhos. Vai saber se o Isaac estava de cueca de novo. Apesar de que espiei entre os dedos. Ele era uma gracinha.

– Tá todo mundo vestido? — Perguntei.

– Mas quem é você? — Tirei a mão dos olhos e vi um terceiro menino no quarto.

– Eu sou a Sarah.

– Ela é minha irmã. — Stevens disse saindo do banheiro. — O que foi?

– Já percebeu que você vive mais na república masculina? — Isaac provocou.

– Acho mais legal do que falar de cosméticos e quem tem o maior pênis da faculdade. — Os três olharam pra mim. — Não que eu saiba. Eu vim porque vou almoçar com o papai. Sabe como é... Você é o mais velho, Howard. Ele vai ficar chateado se você não for junto.

– Só vou trocar de blusa. — Sentei na cama dele. Olhei pro terceiro cara.

– Ah, eu sou o Ryan. — Dei um sorrisinho de canto. Peguei o salgadinho do Isaac e comecei a comer.

– Ei! Você vai almoçar daqui a pouco! — Ele reclamou.

– Quero um aperitivo antes. Deixa eu te perguntar... Você vai me ajudar com o trabalho? — Perguntei enquanto procurava o salgadinho em formato de estrelinha.

– O trabalho é em grupo, Sarah. E claro que eu te incluiria no meu, já que você tava dormindo enquanto formávamos os grupos.

– Ah, valeu. Já te falei que você é muito legal? — Sorri pra ele.

– Eu sei que sou.

– Vamos? — Stevens me chamou. Levantei, ainda com o pacote na mão.

– Valeu pelo salgadinho, Isaac. — Disse já saindo do quarto e ouvi ele me xingando enquanto o Stevens fechava a porta.

– Parece que vocês estão se dando bem. — Ele comentou e eu o olhei como se tivesse um ponto de interrogação na minha testa. — Você e o Isaac.

– Ele é legal.

– Ele gosta de você.

– Que?!

– Da sua amizade to falando. Apesar de que ele já me perguntou se você tinha um namorado em New Jersey.

– Pra que? — Stevens deu um sorrisinho. — O que você sabe que eu não sei?!

– Nada, garota! Ele só me perguntou isso. Vamos no escritório do chefe?

– Sim. Acha que eu te chamei pra que? E ele tá realmente ficando com a veterana ou só foi na festa?

– Só na festa. Tá interessada nele?

– Idiota. Claro que não.

– E no veterano?

– Ah... Ele é legal. E também beija muito bem. — Vi que ele ficou com cara de quem tem vontade de fazer piadinha, mas logo acrescentei: — Mas você sabe que eu só estou com ele por causa da investigação. O cara que usa é amigo dele.

– Aí você resolve juntar o útil ao agradável. Só que somente dê beijos, ok? Não precisa ir tão longe.

– Como você é ridículo! — Ele riu. Desgraça.

– Conselhos de irmão, Laura. Não precisa ficar nervosa. — Revirei os olhos.

(...)

– Eu espero que vocês tenham vindo pra me contar novidades. — Mal chegamos no escritório e o chefe já veio nos cobrando. Stevens entregou os pacotinhos de droga pra ele.

– Descobrimos o usuário, não quem vende.

– Ele é amigo do rolo da Laura. Ela resolveu ser sociável até demais na investigação. — Eles soltaram risinhos.

– Vou fingir que você nunca falou isso. Precisa de mais alguma coisa, chefe?

– Eu quero que vocês acelerem essa investigação. A imprensa já descobriu o caso do jovem que morreu e só falta liberarem a história pra população pra me pressionarem ainda mais. Eu to segurando a história. Não quero que saia nos jornais enquanto tenho dois agentes infiltrados. Você — Ele apontou pra mim. -, quero que vire a melhor amiga do usuário. E, Stevens, observe o resto. Tente achar o fornecedor também. Eu quero que vocês ajam como se fossem dois jovens extrovertidos e loucos pra se drogarem. E eu to falando sério. Boa tarde. — Nós saímos do escritório e não demoramos muito no prédio.

– Eu vou chegar no cara e falar “olha, não vou te falar como, mas sei que tu curte viajar pelos horizontes da imaginação. Pode me mostrar como?”?

– Aos poucos você consegue. — Stevens disse olhando pros números dos andares por onde o elevador passava. Estávamos dentro dele.

– O chefe não quer aos poucos. Ele quer logo.

– Não vai ser tão difícil pra você. Eu não sei por onde começar. Não sabemos de mais ninguém que usa, e todo mundo na minha sala é certinho.

– Sempre tem a laranja podre.

– Vou puxar assunto com alguma veterana. Falando nisso... A Carly tem jeito de quem sabe alguma coisa.

– Duvido. Ela é menininha demais pra isso.

– Não to falando que ela é a fornecedora. To falando que ela pode saber quem é. — Voltamos pra universidade em silêncio. Quando cheguei, não acreditei no que vi.

– Ah, não! Não, não, não! Isso só pode ser brincadeira. — Saí correndo do carro.

– Sua louca! O carro ainda tava em movimento! — Stevens berrou, mas eu ignorei. Os dois olharam sorrindo pra mim.

– Meu bebê! — Minha mãe veio me abraçar assim que me aproximei um pouco mais. Abracei tanto ela quanto meu pai, e puxei os dois pra um canto, onde eu sabia que ninguém ouviria.

– Como vocês sabiam que eu tava aqui? — Perguntei. — Ah, claro. Colin. Ele falou de tudo?

– Falou que você tá fazendo faculdade. — Meus pais sempre quiseram que eu fizesse faculdade. Deviam estar achando que zeraram a vida quando o Colin contou que eu estava lá.

– Desculpem, mas eu to aqui a trabalho. — O sorriso sumiu do rosto dos dois. Fiquei com um aperto no coração. — Desculpem mesmo.

– Como assim a trabalho? — Meu pai perguntou.

– Eu to infiltrada. Junto com o meu parceiro. — Apontei pro Stevens, que mandou um “tchauzinho”. Meus pais fizeram o mesmo. — Pra todo mundo meu nome é Sarah, ele é Howard e nós somos irmãos. Desculpem.

– Quem sabe esse trabalho não muda sua cabeça? — Minha mãe falou.

– É. Talvez. Vocês pensaram em comermos juntos? — E lá fomos nós. Eles não ficaram muito felizes, mas também não reclamaram muito.

(...)

– Não dormiu hoje na aula. Qual o milagre? — Isaac perguntou sorrindo.

– Tenho que terminar o semestre de algum jeito. Não posso viver as suas custas. O que é isso?

– Exercício de cálculo. — Fiz uma careta. — Você não gosta de matemática, né? — Dei de ombros. — Por que quis fazer engenharia, então? — Mordi os lábios. Eu não podia falar “porque meu chefe quis”.

– Meu... Hm... Meu Pai... Meu pai queria que eu fizesse.

– Você pareceu em dúvida. — Ele falou descontraído, mas sei que ficou com a pulga atrás da orelha.

– Não falo muito disso.

– Ah... Eu posso te ajudar.

– Você é muito legal. Mesmo. — Ele riu. — Eu to falando sério. — Se fosse qualquer outra pessoa já teria olhado tipo “se fode aí”.

– Como você disse, você tem que terminar o semestre de algum jeito. E, se você não passar, com quem você fará os trabalhos? Você precisa de mim.

– Certo... Então, você só quer que eu passe pra ter a minha companhia?

– Eu não disse isso. — Ri baixinho. Comecei a ler o que estava escrito na folha, mas desisti.

– E aquela menina? Vocês se viram depois da festa?

– Que menina?

– A veterana.

– Não. Não nos falamos depois de sábado. — Murmurei um “hm”. — Você continua ficando com o cara lá?

– Sei lá. Não o vi hoje nem falei com ele pelo celular. — Uma menina acenou pro Isaac e eu olhei pra ele.

– Ela tá no grupo do trabalho que estamos juntos.

– Ah... — Meio dada. Pensei, mas não comentei. Ele, como todo garoto, ia adorar.

– Acho que a gente pode começar achando um jeito de você decorar as fórmulas.

– Que? — Eu ainda tava olhando pra ver se a dita cuja ia fazer alguma gracinha.

– Cálculos. — Ele ergueu a folha e balançou.

– Sim! Ia ser muito útil. — Isaac pegou um marcador e foi escrevendo umas coisas doidas lá.

– Toma. Espalha pelo caderno os que eu te der. — Peguei o papelzinho da mão dele e fiquei olhando.

– Isso é sério?

– Lógico que é. Se fosse possível, eu até pediria pra você colocar na testa da sua colega de quarto. Tudo bem que impossível não é, mas acho que ela não ficaria muito feliz em contribuir dessa forma pro seu conhecimento.

– Ela ia socar minha cara. — Ele foi escrevendo as fórmulas e pra que servia algumas vezes seguidas cada uma. E eu grudando pelo caderno, apostila, estojo, estojo de maquiagem... — Obrigada. Se você não estivesse na minha turma, eu estaria...

– Fodida. — Ele completou.

– É. Eu sei. — Ele sorriu.